{"id":6408,"date":"2024-06-27T07:30:50","date_gmt":"2024-06-27T07:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6408"},"modified":"2025-11-25T11:40:30","modified_gmt":"2025-11-25T11:40:30","slug":"nao-podemos-ficar-ao-sabor-de-governos-que-consideram-o-ensino-superior-como-prioridade-ou-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6408","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o podemos ficar ao sabor de governos que consideram o ensino superior como prioridade ou n\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-eliane-superti-professora-do-programa-de-pos-graduacao-em-ciencia-politica-e-relacoes-internacionais-da-universidade-federal-da-paraiba\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Eliane Superti, professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal da Para\u00edba<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia s\u00e3o imprescind\u00edveis para o enfrentamento dos grandes desafios contempor\u00e2neos da humanidade (crise clim\u00e1tica, degrada\u00e7\u00e3o ambiental, desenvolvimento sustent\u00e1vel, fome, mis\u00e9ria e \u00e1gua pot\u00e1vel, entre outros). Desta forma, pensar um sistema nacional que integre os tr\u00eas setores teria o potencial para promover e amplificar a\u00e7\u00f5es para enfrentamento dos desafios do desenvolvimento socioecon\u00f4mico brasileiro. Um Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia poderia promover, amplificar, articular os agentes e as a\u00e7\u00f5es e conferir sustentabilidade \u00e0s pr\u00e1ticas sociais fundamentais da sociedade moderna. Isso \u00e9 o que defende Eliane Superti, professora do Departamento de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (PPGPCRI) da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufpb.br\/\">Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB)<\/a><\/strong><\/span>. Para ela, quando aliado \u00e0s demandas das camadas populares, esse desafio ganha significativa amplitude. \u201cA a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o desse sistema pode potencializar nossas capacidades de formar, de construir esse desenvolvimento socialmente justo, de coloc\u00e1-lo a favor do desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d, afirma. A ex-reitora da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unifap.br\/\">Universidade Federal do Amap\u00e1<\/a><\/strong><\/span> (Unifap, 2014-2018) e<\/em> <em>avaliadora de cursos de gradua\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es do banco <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/component\/tags\/tag\/basis\">BASIS\/MEC<\/a><\/strong><\/span><\/em><em> afirma que a qualidade do ensino de gradua\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do conhecimento e isso envolve a pesquisa: \u201cprecisamos garantir que a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fa\u00e7a parte das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, que estejam presentes na forma\u00e7\u00e3o dos estudantes e como base de constru\u00e7\u00e3o dos conhecimentos\u201d. Desta forma, a expans\u00e3o universit\u00e1ria ocorrida no in\u00edcio dos anos 2000, assim como as a\u00e7\u00f5es afirmativas que contribu\u00edram para que camadas antes exclu\u00eddas desse meio (negros, ind\u00edgenas, estudantes do ensino p\u00fablico, etc.) pudessem come\u00e7ar a fazer parte dele, foram fundamentais para elevar o patamar das universidades p\u00fablicas e da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Esse novo patamar colocou pesquisa, inova\u00e7\u00e3o e tecnologia como estrat\u00e9gia importante para o aumento da produtividade e desenvolvimento socioecon\u00f4mico. \u201c<\/em><em>A universidade n\u00e3o pode ser uma ilha: a universidade tem que estar integrada, e ela precisa fazer essa integra\u00e7\u00e3o permitindo que a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento dentro dela dialogue com a sociedade\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista completa!<\/em><\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia Cultura \u2013 O Brasil precisa de um Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eliane Superti \u2013<\/strong> Escrevi um <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?artigos=porque-o-brasil-precisa-de-um-sistema-nacional-de-educacao-superior-ciencia-e-tecnologia\">artigo<\/a><\/strong><\/span> para a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a><\/strong> <\/span>que era exatamente uma provoca\u00e7\u00e3o para essa ideia da forma\u00e7\u00e3o do Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia. Quando atuei como relatora do\u00a0<strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/int\/atoprt_sn\/2019\/atodopresidente-57946-29-marco-2019-787892-publicacaooriginal-157663-cd-presi.html\">grupo de trabalho<\/a><\/span>\u00a0<\/strong>(GT-EDSUP) criado pela C\u00e2mara dos Deputados para acompanhar e avaliar o sistema universit\u00e1rio brasileiro, que foi uma comiss\u00e3o de apoio ao presidente da C\u00e2mara, que na \u00e9poca era o Rodrigo Maia, essa era uma discuss\u00e3o que j\u00e1 estava presente, que j\u00e1 estava colocada, n\u00e3o s\u00f3 por n\u00f3s da comiss\u00e3o, que \u00e9ramos os reitores das universidades, mas tamb\u00e9m as associa\u00e7\u00f5es profissionais e tamb\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es privadas e a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.andifes.org.br\/\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes)<\/a><\/strong><\/span>, tamb\u00e9m presente nesse di\u00e1logo. Existia muita diverg\u00eancia, mas todos conflu\u00edam por uma resposta bastante consensual com rela\u00e7\u00e3o a essa necessidade. Ent\u00e3o, sem d\u00favida, sim, n\u00f3s precisamos muito do Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia, porque \u00e9 fundamental. \u00c9 preciso integrar, coordenar, regular e financiar de forma sist\u00eamica, ou seja, compreendendo as conex\u00f5es e as interdepend\u00eancias entre educa\u00e7\u00e3o superior, a ci\u00eancia e a tecnologia, para que elas cumpram o papel que a sociedade espera delas. Mas como definir o papel que a sociedade espera da ci\u00eancia, da educa\u00e7\u00e3o superior e da tecnologia? Acredito que buscando articular e entender essa resposta, entendemos que naquele momento, era preciso procurar aquilo que est\u00e1 j\u00e1 consolidado em documentos que refletem, ou pelo menos deveriam, refletir esse pensamento da sociedade sobre a sua educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o buscamos esse apoio na <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/Leis\/L9394.htm\">Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB)<\/a><\/strong><\/span>. E quando voc\u00ea vai para a LDB procurar entender quais s\u00e3o as finalidades do ensino superior, esse entrela\u00e7amento entre educa\u00e7\u00e3o superior, ci\u00eancia e tecnologia est\u00e1 presente e fica evidente nas finalidades que est\u00e3o colocadas. Ali\u00e1s, uma das finalidades \u00e9 o desenvolvimento do esp\u00edrito cient\u00edfico e do pensamento reflexivo. Bom, para fazer isso, sem d\u00favida nenhuma, precisamos qualificar o ensino superior, planejando de maneira sist\u00eamica, ou seja, considerando todas as suas vertentes. Tem outras implica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para reflex\u00e3o desse sistema, porque se queremos, e se ele \u00e9 necess\u00e1rio \u2014 e sim, ele \u00e9 necess\u00e1rio \u2014 \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter claro que l\u00f3gicas muito fortes do mercado est\u00e3o presentes no ensino superior, principalmente no ensino superior privado. Quando pegamos as estat\u00edsticas de an\u00e1lise do ensino superior privado e v\u00ea que um a cada dez alunos saem de cursos com os \u00edndices mais baixos de avalia\u00e7\u00e3o do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), e que seis em cada dez estudantes est\u00e3o nos principais grupos privados de educa\u00e7\u00e3o, fica claro que existe uma coloniza\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um termo usado por pesquisadores do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/souciencia.unifesp.br\/\">Sou_Ci\u00eancia<\/a><\/strong><\/span>, pois h\u00e1 uma coloniza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica de mercado no ensino superior. E o que isso significa? Significa que se o foco \u00e9 ter o lucro com a gradua\u00e7\u00e3o, voc\u00ea deixa de fora justamente a integra\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia e com a tecnologia. E como percebemos isso? Ora, 75% dos nossos estudantes de gradua\u00e7\u00e3o est\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es privadas, mas apenas 18% dessas institui\u00e7\u00f5es t\u00eam cursos de mestrado e doutorado, ou seja, elas n\u00e3o se interessam ou se interessam muito pouco em participar do esfor\u00e7o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, enquanto o interesse pela gradua\u00e7\u00e3o e pelo lucro da gradua\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito mais presente nessa l\u00f3gica das institui\u00e7\u00f5es privadas. Isso \u00e9 um dos motivos pelo quais precisamos muito desse sistema, porque \u00e9 preciso pensar em conjunto, pensar as v\u00e1rias vertentes, pensar em conjunto as suas miss\u00f5es e o seu papel e estabelecer elementos b\u00e1sicos para termos uma forma\u00e7\u00e3o qualificada no ensino superior. Ent\u00e3o precisamos de um Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior de Ci\u00eancia e Tecnologia que nos permita articular arranjos institucionais que potencialize essa articula\u00e7\u00e3o entre investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia nacional e inova\u00e7\u00e3o. E \u00e9 preciso criar esse sistema e que ele potencialize a inova\u00e7\u00e3o, aprofundando o relacionamento entre a universidade e o setor produtivo, que ainda \u00e9 um debate nas universidades, mas que, sem d\u00favida, tem um potencial de produzir a flexibiliza\u00e7\u00e3o das fronteiras, \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m de produzir inova\u00e7\u00f5es que beneficiem a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"e-preciso-integrar-coordenar-regular-e-financiar-de-forma-sistemica-ou-seja-compreendendo-as-conexoes-e-as-interdependencias-entre-educacao-superior-a-ciencia-e-a-tecnologia-para-que-el\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201c\u00c9 preciso integrar, coordenar, regular e financiar de forma sist\u00eamica, ou seja, compreendendo as conex\u00f5es e as interdepend\u00eancias entre educa\u00e7\u00e3o superior, a ci\u00eancia e a tecnologia, para que elas cumpram o papel que a sociedade espera delas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Qual o papel desse sistema para a inova\u00e7\u00e3o e como isso pode beneficiar a sociedade?<br \/>\nES &#8211;<\/strong> Quando digo flexibiliza\u00e7\u00e3o das fronteiras, n\u00e3o estou dizendo que as institui\u00e7\u00f5es precisam perder as suas caracter\u00edsticas ou abrir m\u00e3o de suas l\u00f3gicas espec\u00edficas, isso n\u00e3o pode acontecer. Se o ensino superior e a ci\u00eancia tiverem focado \u00fanica e especificamente nas l\u00f3gicas de mercado, a gente perde a rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, essa rela\u00e7\u00e3o mediada e que nos garante o esp\u00edrito cr\u00edtico e inovativo. Ent\u00e3o n\u00e3o se trata de colocar a ci\u00eancia universidade para produzir tecnologia para o mercado lucrativo, mas de promover a integra\u00e7\u00e3o entre esses espa\u00e7os para que ambos possam ganhar com isso. Estudos bastante recentes sobre essa rela\u00e7\u00e3o entre universidade e setor produtivo j\u00e1 comprovaram que \u00e9 justamente nas trocas entre os setores que principalmente a inova\u00e7\u00e3o acontece. E essa inova\u00e7\u00e3o tem o potencial de fazer o enfrentamento de outra grande demanda, e que o Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior Ci\u00eancia e Tecnologia tamb\u00e9m pode ajudar a dar respostas, que \u00e9 combater ou que \u00e9 enfrentar as grandes desigualdades do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e as assimetrias regionais. \u00c9 preciso lembrar que na regi\u00e3o Norte as universidades federais s\u00e3o respons\u00e1veis por 85,2% dos mestrados e doutorados e na regi\u00e3o nordeste 73,6% est\u00e3o nas universidades. Se potencializamos a capacidade das universidades desse relacionamento com o setor produtivo, somando ali capacidade de constru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de inova\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m permitimos que essas assimetrias possam ser enfrentadas de uma forma a integrar esfor\u00e7os e n\u00e3o a fazer a\u00e7\u00f5es isoladas. O que precisamos ent\u00e3o reconhecer? Diante da necessidade que temos dessa forma\u00e7\u00e3o do Sistema Nacional de Ensino Superior de Ci\u00eancia e Tecnologia, que n\u00e3o vamos, ou que nenhuma ci\u00eancia e tecnologia, por si s\u00f3, vai gerar desenvolvimento socialmente justo. Mas isso piora quando eles s\u00e3o desarticulados. Por outro lado, a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o de um sistema pode potencializar nossas capacidades de formar, de construir esse desenvolvimento socialmente justo, de coloc\u00e1-lo a favor do desenvolvimento sustent\u00e1vel e ainda fazer com que seja poss\u00edvel, de fato, construir mecanismos de articula\u00e7\u00e3o entre setores que hoje, embora interdependentes, s\u00e3o fragmentados e fazem esse enfrentamento de maneira desarticulada. Quando pensamos nisso, no enfrentamento dos nossos grandes problemas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que \u00e9 a extens\u00e3o, a\u00ed ent\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o desse sistema de educa\u00e7\u00e3o superior, ci\u00eancia e tecnologia ganha ainda mais for\u00e7a. Foi pela extens\u00e3o, principalmente, que os movimentos sociais adentraram a universidade e colocaram nas nossas pautas, na pauta da discuss\u00e3o das universidades, o necess\u00e1rio enfrentamento da escuta, o necess\u00e1rio enfrentamento da aus\u00eancia de diversidade nos bancos das universidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como instituir esse Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> O ensino superior no Brasil se faz nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e tamb\u00e9m nas privadas, que s\u00e3o a maioria na gradua\u00e7\u00e3o, das universidades e das institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o universit\u00e1rias. Isso significa que precisamos reconhecer e valorizar os diferentes pap\u00e9is institucionais de cada uma dessas vertentes e os diferentes contextos de forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, para n\u00e3o perdermos potencial. \u00c0s vezes, uma universidade pequena em uma em cidade na Amaz\u00f4nia pode representar muito para a forma\u00e7\u00e3o daqueles jovens e para o desenvolvimento local. Ent\u00e3o, n\u00e3o podemos desperdi\u00e7ar esse potencial. Por isso \u00e9 preciso pensar de forma coordenada, integrada. Isso significa que \u00e9 preciso garantir que, al\u00e9m dessa coordena\u00e7\u00e3o, que a regula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seja feita, observando aspectos fundamentais do processo de forma\u00e7\u00e3o, e que conduza a esse esp\u00edrito cient\u00edfico e pensamento reflexivo t\u00e3o necess\u00e1rio para que se forme uma sociedade que combata, por exemplo, a desinforma\u00e7\u00e3o. A\u00ed, quando pensamos em como se d\u00e1 esse processo de forma\u00e7\u00e3o, fica evidente que precisamos, nos ambientes de forma\u00e7\u00e3o superior, ter a pesquisa. N\u00e3o podemos imaginar que teremos pesquisa de ponta em todas as institui\u00e7\u00f5es. Mas precisamos garantir que a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fa\u00e7a parte das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, que estejam presentes na forma\u00e7\u00e3o dos estudantes e como base de constru\u00e7\u00e3o dos conhecimentos. E para que isso aconte\u00e7a, n\u00f3s precisamos pensar o sistema integradamente. \u00c9 preciso trazer a ci\u00eancia e a sua produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no \u00e2mbito da gradua\u00e7\u00e3o, mesmo nas institui\u00e7\u00f5es cuja miss\u00e3o n\u00e3o seja produzir, n\u00e3o esteja vinculada \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e, portanto, a produzir ci\u00eancia de ponta, mas fazer com que tenhamos, em todas as institui\u00e7\u00f5es do ensino superior, a presen\u00e7a da forma\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito cient\u00edfico. Ou seja, formando ent\u00e3o esse esp\u00edrito cient\u00edfico e cultivando essa necessidade de formar os jovens considerando o esp\u00edrito investigativo. Isso significa combater necessariamente o analfabetismo cient\u00edfico. Al\u00e9m disso, um dos desafios de coordena\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para esses setores, de articula\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo entre os setores, de di\u00e1logo, \u00e9 o financiamento. Este \u00e9 um desafio que est\u00e1 sempre na pauta, est\u00e1 sempre na ordem do dia, e n\u00e3o tem como fugir. Voc\u00ea n\u00e3o pode falar disso sem falar do financiamento, porque a fonte de financiamento mais significativa dos sistemas de ci\u00eancia p\u00fablica no mundo todo \u00e9 o financiamento p\u00fablico. Apesar da relev\u00e2ncia do financiamento privado, ele est\u00e1 pautado principalmente no financiamento p\u00fablico. E precisamos garantir que tenhamos um financiamento est\u00e1vel e que ele cumpra essencialmente as necessidades das \u00e1reas de conhecimento. N\u00e3o conseguiremos construir um sistema se n\u00e3o tivermos essa const\u00e2ncia, se esse financiamento for algo sempre vol\u00e1til, sempre incerto. Se pretendemos ter uma ci\u00eancia soberana e um sistema de ensino capaz de dar respostas \u00e0 altura para os nossos desafios, n\u00e3o vejo outro caminho sen\u00e3o constru\u00edmos, de fato, esse Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Superior, Ci\u00eancia e Tecnologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-inclusao-de-mulheres-de-grupos-outrora-excluidos-da-pesquisa-traz-outras-perspectivas-e-garante-que-as-pesquisas-abordem-questoes-importantes-e-que-impactam-positivamente-a-vida-das-pesso\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA inclus\u00e3o de mulheres, de grupos outrora exclu\u00eddos da pesquisa, traz outras perspectivas e garante que as pesquisas abordem quest\u00f5es importantes e que impactam positivamente a vida das pessoas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Como a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pode ser uma aliada nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> Se tem uma coisa que a aprendemos durante o per\u00edodo fortemente marcado pelo negacionismo da ci\u00eancia no \u00faltimo governo, \u00e9 que n\u00e3o somos eficientes em nos comunicar com a sociedade. Temos muitas dificuldades em fazer a sociedade entender a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, o quanto isso de fato est\u00e1 presente no dia a dia de cada um de n\u00f3s, cidad\u00e3os, e o quanto isso \u00e9 importante para todos. Precisamos melhorar a qualidade da nossa comunica\u00e7\u00e3o com a sociedade. A universidade n\u00e3o pode ser uma ilha: a universidade tem que estar integrada, e ela precisa fazer essa integra\u00e7\u00e3o permitindo que a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento dentro dela dialogue com a sociedade. E a\u00ed a extens\u00e3o tem \u00e9 um processo importante. N\u00e3o podemos mais pensar a pesquisa para dentro, precisamos pensar a pesquisa \u201cextensionada\u201d, a pesquisa que dialoga com o outro, que dialoga com a sociedade, que leva e traz conhecimentos na constru\u00e7\u00e3o em coopera\u00e7\u00e3o. Ou ent\u00e3o, sempre que as crises or\u00e7ament\u00e1rias vierem, ficaremos gritando para n\u00f3s mesmos, sem conseguir o apoio da sociedade para as grandes demandas que a universidade tem e para aquilo que ela \u00e9 capaz de produzir de ganhos de qualidade de vida, de ganhos de democracia e de desenvolvimento social.<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 No in\u00edcio dos anos 2000, o Brasil passou por uma expans\u00e3o universit\u00e1ria por todo o territ\u00f3rio. Como isso impactou na inclus\u00e3o de alunos de diferentes origens e etnias? <\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> Sim, a universidade se transformou em uma universidade mais inclusiva. Sim, n\u00f3s tivemos grande expans\u00e3o universit\u00e1ria, e \u00e9 preciso reconhecer o quanto essa expans\u00e3o significou para a inclus\u00e3o. Mas ainda precisamos ter clareza de que \u00e9 pouco. Precisamos avan\u00e7ar mais. N\u00e3o alcan\u00e7amos as metas que, como sociedade, determinamos no Programa Nacional da Educa\u00e7\u00e3o (PNE). N\u00e3o fizemos a inser\u00e7\u00e3o de jovens de 18 a 24 anos, na dimens\u00e3o que gostar\u00edamos que tivesse sido feito e que estava na nossa pol\u00edtica nacional. E, de novo, quando falamos de educa\u00e7\u00e3o, estamos falando da sociedade, de projetos de sociedade que estamos construindo. Um dos elementos fundamentais para se discutir o acesso ao ensino superior \u00e9 discutir a desigualdade econ\u00f4mica e social. Temos uma sociedade extremamente desigual e isso reflete na capacidade de acessar o ensino superior, assim como os desafios que existem no ensino fundamental e m\u00e9dio. Porque quando voc\u00ea tem escolas pouco estruturadas, sem acesso \u00e0 internet, com dificuldades no processo de forma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, voc\u00ea tem jovens com muito mais dificuldade de acessar o ensino superior. Ent\u00e3o essas coisas est\u00e3o vinculadas. Pensar educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pensar educa\u00e7\u00e3o em todos os seus n\u00edveis, ainda que voc\u00ea respeite as suas singularidades. Mas o acesso \u00e9 algo que ainda temos que discutir, pois isso envolve o debate do enfrentamento da desigualdade econ\u00f4mica e social e da qualifica\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. E se vamos debater essas dificuldades, apontaremos que isso ainda \u00e9 um desafio, n\u00e3o podemos deixar de fora a forma\u00e7\u00e3o docente. Um pa\u00eds onde a forma\u00e7\u00e3o docente se d\u00e1 principalmente na educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, em que parte dela, pelas avalia\u00e7\u00f5es feitas pelo <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/inep\/pt-br\">Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (INEP)<\/a><\/strong><\/span>, s\u00e3o sofr\u00edveis. Ent\u00e3o, precisamos pensar muito bem na forma como qualificaremos a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Precisamos de um debate s\u00e9rio sobre isso, de como fazer esse enfrentamento. N\u00e3o \u00e9 dizer que a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir qualidade, mas \u00e9 dizer que precisamos ter certeza de que essa educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 formando os nossos professores com a qualidade, com o esp\u00edrito investigativo, necess\u00e1rios para termos professores preparados para enfrentar os desafios da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que s\u00e3o enormes. Mas tamb\u00e9m quando pensamos na universidade, n\u00e3o podemos mais imaginar que as propostas pedag\u00f3gicas das universidades est\u00e3o adequadas aos enfrentamentos que temos hoje em sala de aula. Temos uma gera\u00e7\u00e3o extremamente tecnol\u00f3gica, que faz uso da tecnologia no seu processo de aprendizagem, e aulas que ainda s\u00e3o formadas no modelo de d\u00e9cadas atr\u00e1s, de projetos pedag\u00f3gicos que ainda n\u00e3o trabalham com percursos formativos flex\u00edveis, que n\u00e3o abre espa\u00e7o para o uso dessas inova\u00e7\u00f5es. Precisamos pensar na universidade do futuro, que universidade \u00e9 essa que queremos integrar da ci\u00eancia e tecnologia. E, de novo, se vamos falar dos desafios do ensino superior, n\u00e3o tem como fugir de discutir o financiamento. N\u00e3o podemos ficar ao sabor de governos que consideram o ensino superior como prioridade ou n\u00e3o. Precisamos de pol\u00edticas que sejam executadas, de pol\u00edtica de Estado. A\u00ed entra a quest\u00e3o: at\u00e9 que ponto a nossa sociedade, a sociedade brasileira, de fato, entende a forma\u00e7\u00e3o de seus jovens, a forma\u00e7\u00e3o no ensino superior como prioridade, para conseguirmos ter uma ci\u00eancia soberana, para conseguirmos, de fato, construir um cen\u00e1rio de um futuro que nos permita ter uma sociedade mais justa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-cooperacao-internacional-tem-sido-potente-em-propor-politicas-publicas-que-nos-permitam-pensar-estrategias-de-desenvolvimento-sustentavel-que-efetivamente-consigam-equilibrar-as-cadeias\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA coopera\u00e7\u00e3o internacional tem sido potente em propor pol\u00edticas p\u00fablicas que nos permitam pensar estrat\u00e9gias de desenvolvimento sustent\u00e1vel que efetivamente consigam equilibrar as cadeias.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 A diversidade \u00e9 crucial para o avan\u00e7o da ci\u00eancia. Como a inclus\u00e3o de diferentes perspectivas, incluindo a presen\u00e7a de mulheres, afeta a qualidade e amplitude das pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> Acredito que a diversidade desempenha um papel fundamental no avan\u00e7o da ci\u00eancia. Porque quando inclu\u00edmos os que est\u00e3o \u201cde fora\u201d, quando se abre espa\u00e7o para constru\u00e7\u00e3o conjunta, \u00e9 que voc\u00ea percebe o quanto o escopo cr\u00edtico da ci\u00eancia se amplia e a sua capacidade de produzir respostas aos problemas sociais tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, a inclus\u00e3o de diferentes vozes estimula o questionamento e a reflex\u00e3o cr\u00edtica. Quando as mulheres passam a estar mais presentes no campo cient\u00edfico, quando voc\u00ea traz grupos, outrora exclu\u00eddos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, para participar das discuss\u00f5es, para a produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, voc\u00ea revela o quanto a ci\u00eancia ainda \u00e9 majoritariamente masculina e ocidental, o quanto ainda se predomina a l\u00f3gica, patriarcal, ocidental. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m coloca outras perspectivas e o confronto entre elas, e isso \u00e9 muito importante para a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Sempre costumo frisar que precisamos reconhecer os fundamentos ocidentais nos quais est\u00e3o baseados nossa experi\u00eancia de ci\u00eancia, porque quando nos damos conta de que o nosso legado \u00e9 um legado branco, ocidental e masculino, come\u00e7amos a entender porque n\u00e3o conseguimos explicar todas as realidades, porque temos tanta dificuldade de compreender e reconhecer realidades distintas da nossa, como, por exemplo, os conhecimentos tradicionais dos povos origin\u00e1rios, de popula\u00e7\u00f5es quilombolas, de popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas. Precisamos ter clareza que entender a desigualdade de g\u00eanero, de ra\u00e7a e de etnia, no fazer cient\u00edfico, \u00e9 assumir que a nossa ci\u00eancia deixou esse grupo de fora, que tivemos dificuldades em fazer esse processo, inclusive, que a nossa ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 neutra, que ela precisa ser repensada, que os seus elementos precisam ser confrontados, mas que somos capazes disso. N\u00f3s somos capazes de produzir uma radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no campo epistemol\u00f3gico. E isso \u00e9 uma oportunidade muito importante do processo de inclus\u00e3o, porque nos permite desconstruir e reinterpretar nosso legado cient\u00edfico. Isso pode promover transforma\u00e7\u00f5es muito significativas e potencializar muito a nossa capacidade de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, porque ao fazer isso descolonizamos a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o superior, a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, e conseguimos colocar como um elemento de base da produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia a l\u00f3gica democr\u00e1tica, que n\u00e3o necessariamente esteve presente na forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A inclus\u00e3o de mulheres, de grupos outrora exclu\u00eddos da pesquisa traz outras perspectivas e garante que as pesquisas abordem quest\u00f5es importantes e que impactam positivamente a vida das pessoas. E acredito que essa \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o que precisamos promover no campo cient\u00edfico, e vem sendo promovido. Se voc\u00ea pensar, a universidade, de 2010 para c\u00e1, \u00e9 radical a transforma\u00e7\u00e3o do corpo discente. A presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es tradicionais em cursos espec\u00edficos focados para eles, como educa\u00e7\u00e3o intercultural ind\u00edgena, educa\u00e7\u00e3o quilombola, forma\u00e7\u00e3o no campo, a presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es e jovens pretos e pardos na universidade, a presen\u00e7a de estudantes em condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, portanto, de fam\u00edlias que est\u00e3o at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo de renda per capita, esses elementos trouxeram para os bancos da universidade a necessidade que a universidade se pensasse e se reestruturasse. E isso traz tamb\u00e9m desafios para a ci\u00eancia, porque esta mesma popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e nos instiga a pensar como promoveremos essa reinterpreta\u00e7\u00e3o do nosso legado cient\u00edfico. Porque esses jovens e a inclus\u00e3o social traz para o campo da pesquisa elementos que outrora n\u00e3o estavam presentes, porque simplesmente eles estavam exclu\u00eddos do processo de se fazer ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como mulher atuante na academia, quais s\u00e3o os desafios e conquistas que voc\u00ea destacaria em sua trajet\u00f3ria, e como percebe a representa\u00e7\u00e3o das mulheres nas \u00e1reas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Ci\u00eancia Pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> Minha atua\u00e7\u00e3o na academia sempre teve muito dividida, entre a administra\u00e7\u00e3o \u2014 fui diretora acad\u00eamica, pr\u00f3-reitora, reitora \u2014 e o fazer docente universit\u00e1rio, que envolve as atividades de ensino, pesquisa e extens\u00e3o. E nesse trilhar, na constru\u00e7\u00e3o dessa trajet\u00f3ria, alguns desafios sempre estiveram presentes. Acredito que n\u00e3o \u00e9 algo s\u00f3 da minha hist\u00f3ria, mas da hist\u00f3ria das mulheres no meio acad\u00eamico. Ent\u00e3o acho que podemos colocar isso como desafios que est\u00e3o colocados para todas n\u00f3s. E entre eles, \u00e9 claro que est\u00e1 a desigualdade de g\u00eanero. N\u00f3s, mulheres, ainda enfrentamos essa desigualdade para ocupar os cargos de lideran\u00e7a, por exemplo. Fui a primeira reitora eleita da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unifap.br\/\">Universidade Federal do Amap\u00e1 (Unifap)<\/a><\/strong><\/span>. E quando era reitora, n\u00e3o \u00e9ramos a maioria na <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.andifes.org.br\/\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes)<\/a><\/span>\u00a0\u2014\u00a0<\/strong>n\u00e3o era nem equilibrado, nem 50% a 50%. E n\u00f3s somos 50%. A presen\u00e7a das mulheres na universidade hoje \u00e9 muito intensa, mas n\u00f3s n\u00e3o somos as lideran\u00e7as. Ent\u00e3o essa desigualdade de g\u00eanero sempre esteve colocada para n\u00f3s. Eu, na minha trajet\u00f3ria, enfrentei a proposta, por exemplo, de ocupar cargos no ensino superior, com um sal\u00e1rio menor do que homens na mesma condi\u00e7\u00e3o e com a mesma forma\u00e7\u00e3o. E isso ainda est\u00e1 presente hoje. Temos uma importante pol\u00edtica hoje de enfrentamento dessa situa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica corajosa do atual governo de colocar a necessidade de igualdade, mas que o setor produtivo j\u00e1 vem reagindo a isso. Ent\u00e3o, o que justifica pagar menos para uma mulher com a mesma forma\u00e7\u00e3o? Isso \u00e9 preconceito, \u00e9 a desigualdade de g\u00eanero ainda mantida na nossa sociedade. Questionamentos surgem quanto \u00e0 sua capacidade de gest\u00e3o, por voc\u00ea ser mulher. Como a maioria dos cargos de lideran\u00e7a est\u00e3o sob o comando de homens, quando a mulher exerce esse papel, o que se exige dela \u00e9 que tenha o mesmo perfil, que fa\u00e7a gest\u00e3o do mesmo jeito. Quando uma mulher se prop\u00f5e a modelos diferenciados, surge o questionamento da capacidade de fazer gest\u00e3o. Isso aconteceu quando eu assumi como pr\u00f3-reitora de gradua\u00e7\u00e3o na universidade, era um ambiente bastante masculino com um forte receio de que \u201cser\u00e1 que uma mulher \u00e9 capaz de fazer aquilo tudo que precisamos fazer?\u201d. Os vieses, os estere\u00f3tipos est\u00e3o presentes e eu passei por isso tamb\u00e9m. At\u00e9 o questionamento da autoridade, mesmo estando investida do cargo, por voc\u00ea ser mulher, est\u00e1 presente. Essa situa\u00e7\u00e3o e esses desafios est\u00e3o dados a todas n\u00f3s. \u00c9 importante lembrar que n\u00f3s, mulheres, somos a maioria nas ci\u00eancias humanas, mas quando verificamos os dados sobre publica\u00e7\u00e3o, por exemplo, os mais citados s\u00e3o os homens. Os mais alto cargos e o \u00e1pice da carreira nas ci\u00eancias sociais, onde n\u00f3s mulheres somos a maioria, e especialmente na ci\u00eancia pol\u00edtica, s\u00e3o dos homens. Dentro da universidade, n\u00f3s temos a presen\u00e7a de todos os preconceitos, estere\u00f3tipos da sociedade. Ela n\u00e3o est\u00e1 apartada, ela faz parte do contexto social. As discrimina\u00e7\u00f5es, os preconceitos est\u00e3o presentes l\u00e1 tamb\u00e9m. Temos conquistas e temos que comemorar isso. Temos o aumento da representatividade, n\u00f3s mulheres estamos mais presentes no campo cient\u00edfico, nos cargos de lideran\u00e7a, mas ainda n\u00e3o est\u00e1 equitativo. Temos mais mulheres ingressando no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, obtendo t\u00edtulos de mestrado e doutorado, mas isso tamb\u00e9m depende da \u00e1rea. N\u00f3s mulheres hoje temos pesquisas extremamente relevantes no campo das rela\u00e7\u00f5es internacionais e da ci\u00eancia pol\u00edtica, temos contribu\u00eddo muito significativamente com abordagens inovadoras, principalmente com a perspectiva decolonial, com quest\u00f5es de g\u00eanero, seguran\u00e7a e direitos humanos, a participa\u00e7\u00e3o tem sido bastante marcada ali com estudos de grande impacto. E vejo tamb\u00e9m como muito importante a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o das redes de apoio. Afinal, n\u00f3s produzimos conhecimento sobre quase tudo, assim como os homens o fazem. Ent\u00e3o precisamos marcar posi\u00e7\u00e3o, dizer: \u201cn\u00f3s temos esse espa\u00e7o e n\u00f3s vamos garantir que esse espa\u00e7o seja preenchido pela presen\u00e7a das mulheres no debate cient\u00edfico\u201d. Ent\u00e3o, essa forma\u00e7\u00e3o de redes de apoio a mulheres pesquisadoras \u00e9 uma experi\u00eancia extremamente importante e que tem um papel fundamental para superar os desafios e promover mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; No contexto das rela\u00e7\u00f5es internacionais, como suas pesquisas abordam quest\u00f5es contempor\u00e2neas, como globaliza\u00e7\u00e3o, diplomacia e coopera\u00e7\u00e3o internacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ES &#8211;<\/strong> Trabalho com cadeias globais de valor, na verdade, trabalho com a cadeia global de valor do a\u00e7a\u00ed, e a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o pano de fundo da configura\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea dessas cadeias globais, e n\u00e3o \u00e9 diferente para a cadeia do a\u00e7a\u00ed. Um dos desafios que est\u00e3o colocados nesse cen\u00e1rio da pr\u00f3pria globaliza\u00e7\u00e3o, da articula\u00e7\u00e3o dessas cadeias, \u00e9 que vemos hoje a transforma\u00e7\u00e3o de um alimento, de comida tradicional de popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas, de ribeirinhos, quilombolas, povos ind\u00edgenas, de popula\u00e7\u00f5es que migraram do campo para a cidade e que s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es empobrecidas, que est\u00e3o nas camadas mais subalternizadas da popula\u00e7\u00e3o, que sempre tiveram esse alimento como base da sua alimenta\u00e7\u00e3o, sendo transformado paulatinamente em um commodity muito lucrativo. Me assustou bastante as not\u00edcias \u00faltimas do Par\u00e1 que este alimento tradicional, que \u00e9 principalmente dessas popula\u00e7\u00f5es mais empobrecidas, um litro estava custando cerca de R$ 30 reais, ficando evidente a impossibilidade dessas popula\u00e7\u00f5es de continuarem consumindo costumeiramente esse produto. Obviamente isso tem, sim, a l\u00f3gica da cadeia, a l\u00f3gica do processo de globaliza\u00e7\u00e3o. Essas cadeias de valor interligam atores distintos, de diferentes regi\u00f5es, ao redor do globo, que v\u00e3o desde pequenos produtores familiares, o extrativista, que est\u00e1 na floresta, que colhe, que planta, que maneja o a\u00e7a\u00ed, passando por empresas de capital multinacional, atingindo consumidores nas mais variadas escalas. Os interesses que impulsionam essa cadeia, que encurtam as dist\u00e2ncias, que redefinem acordos e compromissos, que estabelecem os fluxos comerciais e de transporte, eles tamb\u00e9m se organizam para distribuir o poder ao longo dessa cadeia. E essa distribui\u00e7\u00e3o de poder se d\u00e1 de maneira desequilibrada. Ou seja, n\u00e3o s\u00e3o apenas as comunidades locais que est\u00e3o deixando de conseguir consumir o a\u00e7a\u00ed, mas tamb\u00e9m os produtores na base, principalmente os produtores de base comunit\u00e1ria, em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, da forma desequilibrada da distribui\u00e7\u00e3o do poder nessas cadeias. O que vemos no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es internacionais e no \u00e2mbito das pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9, primeiro, que as pol\u00edticas p\u00fablicas podem empoderar comunidades e construir alternativas de mercados mais sustent\u00e1veis e equilibrados. Mas essa \u00e9 uma potencialidade que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A constru\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas p\u00fablicas que podem empoderar as comunidades precisam ser mediadas para sua constru\u00e7\u00e3o. Ela precisa da academia, que discutir\u00e1 essa cadeia, que propor\u00e1 as sa\u00eddas. E quando optamos por empoderar as comunidades, por fazer co-constru\u00e7\u00e3o de uma pesquisa extensionada que abre o debate e evidencia as ferramentas de constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica, estamos colocando essas comunidades e os movimentos sociais a favor da defesa dos seus interesses em uma arena que \u00e9 desigual. Ent\u00e3o, existem potencialidades para o enfrentamento dos muitos desafios de desenvolvimento sustent\u00e1vel? Sim, a pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 uma delas, mas n\u00e3o \u00e9 qualquer pol\u00edtica p\u00fablica. Ou seja, o monocultivo do a\u00e7a\u00ed \u00e9 um grande \u00e9 desafio para a biodiversidade amaz\u00f4nica, porque hoje o a\u00e7a\u00ed \u00e9 um dos produtos que mais gera renda nessas comunidades, e elas sempre foram tradicionalmente vinculadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da floresta, mas se elas forem estimuladas \u00e0 monocultura, perderemos vastas \u00e1reas ou importantes \u00e1reas de biodiversidade amaz\u00f4nica. Ent\u00e3o, as pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam potencial, mas n\u00e3o \u00e9 qualquer pol\u00edtica. E a\u00ed voltamos \u00e0quela hist\u00f3ria de ouvir o outro, de construir juntos. Se n\u00e3o empoderarmos as comunidades e n\u00e3o estivermos dispostos a ouvi-las, podemos ter pol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o atendam \u00e0s necessidades e que n\u00e3o minimizem os desequil\u00edbrios dessa cadeia, que j\u00e1 \u00e9 uma cadeia global e que j\u00e1 traz aspectos de insustentabilidade, como, por exemplo, dos pre\u00e7os para as popula\u00e7\u00f5es que tradicionalmente tinham esse alimento. Al\u00e9m disso, quando pensamos na coopera\u00e7\u00e3o internacional, \u00e9 preciso lembrar que desde a d\u00e9cada de 1980, a coopera\u00e7\u00e3o assumiu um papel crucial no debate sobre o desenvolvimento sustent\u00e1vel, quest\u00f5es ambientais, pol\u00edticas p\u00fablicas e meio ambiente. E o amadurecimento da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\/91863-agenda-2030-para-o-desenvolvimento-sustent%C3%A1vel\">Agenda 2030<\/a> <\/strong><\/span>e a cria\u00e7\u00e3o dos <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\/sdgs\">Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS)<\/a><\/strong><\/span>, a coopera\u00e7\u00e3o internacional tornou-se essencial para atingir essas metas. Ent\u00e3o, os acordos internacionais somados aos instrumentos de a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e \u00e0s diretrizes para o desenvolvimento sustent\u00e1vel podem nos ajudar a impulsionar pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de construir mecanismos mais equilibrados de fomento de uma s\u00f3cio-bioeconomia ou de uma s\u00f3cio-bioeconomia amaz\u00f4nica. A coopera\u00e7\u00e3o internacional tem sido potente em propor pol\u00edticas p\u00fablicas que nos permitam pensar estrat\u00e9gias de desenvolvimento sustent\u00e1vel que efetivamente consigam equilibrar essas cadeias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Eliane Superti, professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":6409,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6408"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6408"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6408\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6413,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6408\/revisions\/6413"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}