{"id":6905,"date":"2024-08-19T07:55:15","date_gmt":"2024-08-19T07:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6905"},"modified":"2024-08-15T14:35:03","modified_gmt":"2024-08-15T14:35:03","slug":"o-cerrado-e-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6905","title":{"rendered":"O cerrado e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"ciencia-revela-problemas-e-oferece-solucoes-para-preservar-savana-mais-biodiversa-do-mundo\"><span style=\"color: #808080;\">Ci\u00eancia revela problemas e oferece solu\u00e7\u00f5es\u00a0 para preservar savana mais biodiversa do mundo\u00a0<\/span><\/h4>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 maior regi\u00e3o de savana da Am\u00e9rica do Sul e o segundo maior bioma sul-americano, com uma \u00e1rea original de cerca de 2 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, quase um quarto da superf\u00edcie terrestre brasileira. Ele cont\u00e9m um conjunto \u00fanico de comunidades biol\u00f3gicas cuja diversidade e import\u00e2ncia ainda n\u00e3o s\u00e3o plenamente apreciadas. Enquanto esfor\u00e7os importantes s\u00e3o feitos para preservar as florestas tropicais do Brasil, a destrui\u00e7\u00e3o do bioma Cerrado n\u00e3o encontra a mesma resson\u00e2ncia. Paradoxalmente, a destrui\u00e7\u00e3o dos sistemas ecol\u00f3gicos desse bioma amea\u00e7a os recursos naturais de suporte \u00e0 vida e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos vitais para a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, incluindo a viabilidade cont\u00ednua da agricultura. Essa antiga regi\u00e3o, que testemunhou importantes per\u00edodos da hist\u00f3ria geol\u00f3gica do Brasil e da presen\u00e7a humana no continente, resume os principais desafios ambientais atuais em busca da sustentabilidade e traz \u00e0 tona a necessidade de novas respostas da ci\u00eancia e da sociedade.<\/p>\n<p>No Cerrado, as seguran\u00e7as alimentar, energ\u00e9tica e h\u00eddrica do pa\u00eds est\u00e3o intrinsecamente conectadas e s\u00e3o dependentes da conserva\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa em larga escala. A agricultura no Cerrado segue o ritmo da sazonalidade da precipita\u00e7\u00e3o, mas as proje\u00e7\u00f5es mais recentes de mudan\u00e7as do clima apontam para a redu\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o e a extens\u00e3o do per\u00edodo seco. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de irriga\u00e7\u00e3o tem crescido persistentemente desde os anos 1970. Por\u00e9m, o desmatamento em escala regional altera o ciclo hidrol\u00f3gico no Cerrado e, em conjunto com a variabilidade clim\u00e1tica, podem limitar tais pr\u00e1ticas. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-desmatamento-do-cerrado-na-regiao-do-matopibafoto-greenpeace-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-6906\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-300x188.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-300x188.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-1024x643.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-768x482.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-1536x965.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-800x502.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1-1160x729.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Desmatamento do Cerrado na regi\u00e3o do MATOPIBA<br \/>\n<\/strong>(Foto: Greenpeace. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, 65% da matriz el\u00e9trica \u00e9 de fonte h\u00eddrica. O mapeamento das unidades de aproveitamento hidrel\u00e9trico da Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (ANEEL) indica que as unidades presentes dentro dos limites do Cerrado e as unidades externas que se encontram em bacias fortemente influenciadas pelo bioma representam 52% de todas as unidades do pa\u00eds. A Bacia do Paran\u00e1, que contribui com a usina hidrel\u00e9trica da Itaipu, recebe 47% de suas \u00e1guas do Cerrado.<\/p>\n<p>As proje\u00e7\u00f5es de aumento do consumo de energia e da demanda mundial por produtos agr\u00edcolas e a manuten\u00e7\u00e3o do atual modelo de expans\u00e3o e intensifica\u00e7\u00e3o da agricultura em um contexto de mudan\u00e7as na temperatura e na precipita\u00e7\u00e3o regional tendem a agravar a degrada\u00e7\u00e3o do Cerrado e a perda de biodiversidade, comprometer o seu funcionamento ecol\u00f3gico e impactar ainda mais grupos sociais j\u00e1 vulner\u00e1veis, como povos ind\u00edgenas e popula\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p>A perda da savana mais biodiversa do mundo, com expressivos estoques de carbono, respons\u00e1vel por significativa produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e energia para todo o pa\u00eds, traz um alto custo com graves repercuss\u00f5es por longo tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"no-cerrado-as-segurancas-alimentar-energetica-e-hidrica-do-pais-estao-intrinsicamente-conectadas-e-sao-dependentes-da-conservacao-da-vegetacao-nativa-em-larga-escala\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cNo Cerrado, as seguran\u00e7as alimentar, energ\u00e9tica e h\u00eddrica do pa\u00eds est\u00e3o intrinsicamente conectadas e s\u00e3o dependentes da conserva\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa em larga escala.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Compreender os efeitos das a\u00e7\u00f5es humanas sobre a estabilidade clim\u00e1tica e propor a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o s\u00e3o alguns dos grandes desafios da humanidade para o s\u00e9culo 21. Dentre os impactos relacionados com as mudan\u00e7as do clima, est\u00e3o o aumento da temperatura e do n\u00edvel do mar, a perda de biodiversidade e de servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, a altera\u00e7\u00e3o nos regimes de chuvas, e a intensifica\u00e7\u00e3o dos desastres naturais. O aumento das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) \u00e9 um dos principais fatores causadores do aquecimento global, principalmente, a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial, devido \u00e0 queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e mudan\u00e7as do uso e cobertura da terra. No Brasil, as emiss\u00f5es de GEE, principalmente de CO<sub>2<\/sub>, est\u00e3o intimamente relacionadas ao papel que a vegeta\u00e7\u00e3o natural tem como reservat\u00f3rio de carbono. O pa\u00eds ocupa a segunda posi\u00e7\u00e3o na lista dos detentores das maiores \u00e1reas de florestas do mundo, atr\u00e1s da R\u00fassia, sendo o primeiro quando se considera apenas as \u00e1reas de florestas tropicais. No entanto, a convers\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa em diferentes biomas brasileiros, em fun\u00e7\u00e3o das demandas de expans\u00e3o agropecu\u00e1ria, contribui significativamente para a emiss\u00f5es brasileiras quando comparado com a propor\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es globais do setor de uso terra. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), o setor de Agricultura, Florestas e Outros Usos da Terra \u00e9 respons\u00e1vel por aproximadamente 23% das emiss\u00f5es globais de GEE de origem antr\u00f3pica. No Brasil, o setor \u00e9 o principal respons\u00e1vel pelas emiss\u00f5es l\u00edquidas de CO<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<p>No bioma Cerrado, a press\u00e3o da expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola na regi\u00e3o do MATOPIBA (estados do Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia) pressiona a convers\u00e3o, principalmente, de \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Parte da abertura de novas terras para cultivos decorre da supress\u00e3o de \u00e1reas florestadas e a regi\u00e3o responde por uma parcela importante das emiss\u00f5es do bioma Cerrado.<\/p>\n<p>A flora e a fauna nativas do Cerrado s\u00e3o adaptadas ao clima sazonal com uma esta\u00e7\u00e3o seca acentuada. Solos predominantemente antigos, profundos e com baixa fertilidade, selecionaram a estrutura da vegeta\u00e7\u00e3o nativa como uma \u201cfloresta invertida\u201d: a maioria dos arbustos e \u00e1rvores baixos vis\u00edveis acima da superf\u00edcie investe a maior parte (~75%) de sua biomassa \u2014 e do carbono, como consequ\u00eancia \u2014 no componente subterr\u00e2neo. Suas ra\u00edzes profundas podem, portanto, acessam a \u00e1gua nas camadas inferiores do perfil do solo. Elas tamb\u00e9m ajudam a reabastecer a \u00e1gua canalizando a chuva e outras \u00e1guas superficiais de volta para os reservat\u00f3rios profundos do solo, sendo usados intensivamente na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola (70% ou mais da \u00e1gua do Brasil \u00e9 usada para a agricultura).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-perda-da-savana-mais-biodiversa-do-mundo-com-expressivos-estoques-de-carbono-responsavel-por-significativa-producao-de-agua-e-energia-para-todo-o-pais-traz-um-alto-custo-com-graves-reper\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA perda da savana mais biodiversa do mundo, com expressivos estoques de carbono, respons\u00e1vel por significativa produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e energia para todo o pa\u00eds, traz um alto custo com graves repercuss\u00f5es por longo tempo.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A convers\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa com ra\u00edzes profundas e dossel heterog\u00eaneo por monoculturas com ra\u00edzes rasas e dossel homog\u00eaneo determina mudan\u00e7as importantes na troca de energia e \u00e1gua entre a vegeta\u00e7\u00e3o e a atmosfera e j\u00e1 tornaram o Cerrado mais quente e seco.<\/p>\n<p>Como a savana mais biologicamente rica do mundo, o Cerrado abriga quase 12.000 esp\u00e9cies de plantas nativas, cerca de 212 esp\u00e9cies de mam\u00edferos, 267 esp\u00e9cies de r\u00e9pteis e 209 esp\u00e9cies de anf\u00edbios, al\u00e9m de uma popula\u00e7\u00e3o rica e diversificada de cerca de 837 esp\u00e9cies de aves, todas distribu\u00eddas em uma ampla variedade de habitats. Seus ambientes aqu\u00e1ticos abrigam 1.300 esp\u00e9cies de peixes, e estimativas recentes indicam que o Cerrado \u00e9 o ref\u00fagio de 13% das borboletas, 35% das abelhas e 23% dos cupins dos tr\u00f3picos. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-o-cerrado-e-a-savana-mais-biodiversa-do-mundofoto-adriano-gambarini-wwf-brasil-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-6907\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-800x533.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2-1160x773.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/CC-3E24-opinia\u0303o-O-cerrado-e-as-mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. O Cerrado \u00e9 a savana mais biodiversa do mundo<br \/>\n<\/strong>(Foto: Adriano Gambarini\/ WWF Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 habitado por povos tradicionais (ind\u00edgenas, quilombolas, geraizeiros, sertanejos, vazanteiros) que, ao longo de muitas gera\u00e7\u00f5es, desenvolveram usos sustent\u00e1veis e mutuamente ben\u00e9ficos da biodiversidade e dos recursos naturais da regi\u00e3o. Evid\u00eancias baseadas em sat\u00e9lites mostram que a vegeta\u00e7\u00e3o nativa \u00e9 mais bem protegida quando as unidades de conserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o gerenciadas por comunidades locais e tradicionais. A invas\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola extensiva de monoculturas e a natureza fragmentada das \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o p\u00fablicas e privadas deslocam as popula\u00e7\u00f5es locais e as separam do ambiente natural mais extenso e seus meios de subsist\u00eancia. Esse patrim\u00f4nio e benef\u00edcio cultural e funcional reduzido com a perda de territ\u00f3rios tradicionais devido ao desmatamento e agora \u00e9 pressionado tamb\u00e9m pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>A posse da terra \u00e9 um fator cr\u00edtico nas regi\u00f5es tropicais que determina as mudan\u00e7as no uso da terra e as estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o. Um componente importante das pol\u00edticas para diminuir o desmatamento na regi\u00e3o amaz\u00f4nica foi a designa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o como patrim\u00f4nio nacional e a implementa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas, o que foi facilitado pelo fato de a maior parte das terras da Amaz\u00f4nia ser federal. Apesar de sua import\u00e2ncia biol\u00f3gica, o Cerrado n\u00e3o \u00e9 considerado patrim\u00f4nio nacional, e apenas uma pequena percentagem do Cerrado est\u00e1 protegida em unidades de conserva\u00e7\u00e3o. A propriedade \u00e9 predominantemente privada no Cerrado, com cerca de 1,3 milh\u00e3o de propriedades ou assentamentos rurais de gest\u00e3o privada e a maior \u00e1rea m\u00e9dia de propriedade rural do Brasil, implicando a necessidade de envolvimento do setor privado nos esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o. A participa\u00e7\u00e3o mais inclusiva e consequente das comunidades locais e tradicionais nos debates e nas decis\u00f5es para a regi\u00e3o \u00e9 vital para o progresso. O papel da expans\u00e3o agr\u00edcola e das pr\u00e1ticas associadas nas profundas mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo na regi\u00e3o imp\u00f5e a necessidade de um forte compromisso das partes interessadas nacionais e internacionais com a conserva\u00e7\u00e3o desse conjunto \u00fanico de ecossistemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"evidencias-baseadas-em-satelites-mostram-que-a-vegetacao-nativa-e-mais-bem-protegida-quando-as-unidades-de-conservacao-sao-gerenciadas-por-comunidades-locais-e-tradicionais\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEvid\u00eancias baseadas em sat\u00e9lites mostram que a vegeta\u00e7\u00e3o nativa \u00e9 mais bem protegida quando as unidades de conserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o gerenciadas por comunidades locais e tradicionais.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Lei de Prote\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa \u2014 o principal instrumento que regula o uso da terra no Brasil (Brasil, 2012) \u2014 determina que a cobertura vegetal nativa em propriedades rurais no Cerrado deve incluir Reserva Legal (RL) correspondente a pelo menos 20% da propriedade rural privada na maior parte do Cerrado e 35% na \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o entre o Cerrado e a Amaz\u00f4nia. Em contrapartida, as mesmas Reservas Legais no bioma amaz\u00f4nico devem ser de 80%, permitindo que apenas 20% das terras privadas sejam desmatadas. Com grandes \u00e1reas ainda intactas e Reservas Legais de apenas 20%, cerca de 40 milh\u00f5es de hectares est\u00e3o legalmente dispon\u00edveis para a expans\u00e3o agr\u00edcola no Cerrado. A Lei tamb\u00e9m determina que 5 milh\u00f5es de hectares de \u00e1reas convertidas devem ser restaurados, 1,7 milh\u00e3o deles na forma de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente para a conserva\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos. Para preservar os amplos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos da regi\u00e3o, seria preciso proteger maiores extens\u00f5es de vegeta\u00e7\u00e3o nativa de Cerrado em propriedades privadas por meio de uma combina\u00e7\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o, uso sustent\u00e1vel e restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da mesma forma que a Ci\u00eancia nos revela os problemas, ela tamb\u00e9m \u00e9 capaz de oferecer solu\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde estrat\u00e9gias adequadas de restaura\u00e7\u00e3o, planejamento e gest\u00e3o de paisagens diversificadas e multifuncionais at\u00e9 o desenvolvimento de novos modelos de agricultura que preconizem a conserva\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o dos sistemas alimentares e agr\u00edcolas. Alternativas existem, mas necessitam o suporte de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica, responsabilidade e vontade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O enfrentamento das amea\u00e7as a esse bioma extremamente importante, por\u00e9m negligenciado, exigir\u00e1 a expans\u00e3o das \u00e1reas protegidas e o aprimoramento da gest\u00e3o das \u00e1reas j\u00e1 estabelecidas, sistemas de monitoramento ambiental sistem\u00e1tico e a restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas para cumprir as leis ambientais do pa\u00eds e seus compromissos com acordos internacionais relacionados a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-segundo-maior-bioma-sul-americano-sofre-impactos-das-mudancas-climaticasfoto-wwf-reproducao\"><strong>Capa. Segundo maior bioma sul-americano sofre impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<br \/>\n<\/strong>(Foto: WWF. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ci\u00eancia revela problemas e oferece solu\u00e7\u00f5es\u00a0 para preservar savana mais biodiversa do&hellip;\n","protected":false},"author":237,"featured_media":6908,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6905"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/237"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6905"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6910,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6905\/revisions\/6910"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}