{"id":7090,"date":"2024-09-23T08:00:33","date_gmt":"2024-09-23T08:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7090"},"modified":"2024-09-20T13:28:06","modified_gmt":"2024-09-20T13:28:06","slug":"mais-quente-mais-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7090","title":{"rendered":"Mais quente, mais desigual"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"impactos-economicos-das-mudancas-climaticas-geram-perdas-na-renda-e-aprofundam-desigualdades\"><span style=\"color: #808080;\">Impactos econ\u00f4micos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas geram perdas na renda e aprofundam desigualdades<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim como os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o uma realidade, as perdas econ\u00f4micas resultantes do aumento da temperatura do planeta tamb\u00e9m j\u00e1 podem ser mensuradas. O estudo \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-024-07219-0\">Comprometimento econ\u00f4mico das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a><\/em><\/strong><\/span>\u201d, do Instituto <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.pik-potsdam.de\/en\">Potsdam<\/a><\/strong><\/span> sobre o Impacto Clim\u00e1tico, com sede na Alemanha, publicado na revista <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/\">Nature<\/a><\/strong><\/span> em abril deste ano, apontou preju\u00edzos de cerca de R$ 300 milh\u00f5es em todo o mundo por conta das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Segundo os pesquisadores, por conta das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa feitas at\u00e9 aqui e que j\u00e1 geraram uma mudan\u00e7a no clima do planeta, o PIB global deve ter uma refra\u00e7\u00e3o de cerca de 19% at\u00e9 2049.<\/p>\n<p>Isto significa que mesmo que haja uma interrup\u00e7\u00e3o nas emiss\u00f5es, haver\u00e1 perdas na renda das pessoas em todas as regi\u00f5es do mundo, sendo que elas ser\u00e3o maiores no Sul da \u00c1sia, na \u00c1frica e no Brasil, regi\u00f5es que historicamente contribu\u00edram menos com as emiss\u00f5es de gases do efeito estufa. \u201cUma das caracter\u00edsticas mais fortes e \u00f3bvias do aquecimento global \u00e9 que ele \u00e9 profundamente injusto. Quem causou o problema, os pa\u00edses mais ricos e desenvolvidos, est\u00e3o mais preparados para os impactos da mudan\u00e7a do clima. Ele \u00e9 injusto na causa e nos efeitos\u201d, pontua o matem\u00e1tico e economista Sergio Margulis, professor da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.puc-rio.br\/\">PUC-RJ<\/a><\/strong><\/span>, e pesquisador do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.iis-rio.org\/\">Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS)<\/a><\/strong><\/span>. No livro \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.mudancasdoclima.com.br\/\">Mudan\u00e7as\u00a0do\u00a0clima: tudo o que voc\u00ea queria e n\u00e3o queria saber<\/a><\/em><\/strong><\/span>\u201d (2020), Sergio Margulis destaca que, entre 1998 e 2017, desastres clim\u00e1ticos e geof\u00edsicos (como enchentes, tempestades, secas e ondas de calor) resultaram em 1,3 milh\u00e3o de mortes e mais de 4,4 bilh\u00f5es de feridos, desabrigados, ou necessitados de assist\u00eancia de emerg\u00eancia. \u201cAs perdas econ\u00f4micas resultantes desses desastres tiveram um peso muito maior nos pa\u00edses mais pobres. Elas foram de US$ 1,4 trilh\u00e3o nos pa\u00edses ricos, representando \u2018apenas\u2019 0,4% do seu PIB, enquanto nos pa\u00edses pobres, embora o custo tenha sido menor (US$ 21 bilh\u00f5es), representaram 1,8% do PIB\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"uma-das-caracteristicas-mais-fortes-e-obvias-do-aquecimento-global-e-que-ele-e-profundamente-injusto-ele-e-injusto-na-causa-e-nos-efeitos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUma das caracter\u00edsticas mais fortes e \u00f3bvias do aquecimento global \u00e9 que ele \u00e9 profundamente injusto. Ele \u00e9 injusto na causa e nos efeitos.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso brasileiro, o Nordeste, que concentra a popula\u00e7\u00e3o mais pobre do pa\u00eds, \u00e9 provavelmente a regi\u00e3o mais sens\u00edvel ao aquecimento global. Ainda de acordo com Sergio Margulis, as simula\u00e7\u00f5es apontam que no semi\u00e1rido nordestino as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, al\u00e9m de aumentarem a temperatura, dever\u00e3o prolongar a dura\u00e7\u00e3o dos per\u00edodos mais secos. \u201cIsso poder\u00e1 impossibilitar a vida nessas regi\u00f5es, causando doen\u00e7as, mortes, sofrimento, e altos custos por conta de migra\u00e7\u00f5es e\/ou necessidade de maior assist\u00eancia a essas localidades e popula\u00e7\u00f5es\u201d. Segundo o pesquisador, al\u00e9m do Nordeste brasileiro, pa\u00edses inteiros e grandes regi\u00f5es sofrer\u00e3o com esse problema \u2013 notadamente a \u00c1frica Meridional, a bacia do Mediterr\u00e2neo, o corredor seco na Am\u00e9rica Central, o oeste dos Estados Unidos e o oeste da Cordilheira dos Andes. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-os-danos-economicos-causados-%e2%80%8b%e2%80%8bpelas-alteracoes-climaticas-por-regiao-subnacional-e-componente-climatico-os-tons-em-vermelho-indicam-perdas-e-em-azul-ganhos-brasil-esta-en\" style=\"text-align: center;\"><em><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7092\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-300x167.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-300x167.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-1024x571.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-768x428.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-1536x857.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-800x446.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1-1160x647.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/em><strong>Figura 1. Os danos econ\u00f4micos causados \u200b\u200bpelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas por regi\u00e3o subnacional e componente clim\u00e1tico. Os tons em vermelho indicam perdas e em azul, ganhos. Brasil est\u00e1 entre os mais afetados.<br \/>\n<\/strong>(Fonte: \u201cThe economic commitment of climate change\u201d, 2024. <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-024-07219-0\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-024-07219-0<\/a>. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A disparidade das perdas econ\u00f4micas, que afetam em maior grau os pa\u00edses mais pobres, j\u00e1 tinha sido apontada em um <a href=\"https:\/\/sites.udel.edu\/climatechangehub\/rising-global-economic-lossdamage-report2023\/\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>relat\u00f3rio<\/strong><\/span><\/a> publicado em 2023, pouco antes da Confer\u00eancia do Clima da ONU (COP28) em Dubai. Elaborado pelo Centro de Ci\u00eancia e Pol\u00edtica de Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica Gerard J. Mangone, nos Estados Unidos, o estudo apontou perdas econ\u00f4micas de US$ 1,5 trilh\u00e3o em todo o mundo, destacando que o Produto Interno Bruto (PIB) de pa\u00edses de baixa renda, com economia fortemente dependente da agricultura e os pa\u00edses tropicais j\u00e1 expressam estas perdas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"muita-chuva-pouca-chuva\"><strong>Muita chuva, pouca chuva<\/strong><\/h4>\n<p>Segundo dados do <strong><a href=\"http:\/\/www2.cemaden.gov.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)<\/span><\/a><\/strong>, \u00e9 a primeira vez que a estiagem afeta intensamente todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, configurando a pior seca da hist\u00f3ria. As consequ\u00eancias desse contexto tamb\u00e9m s\u00e3o superlativas. O n\u00famero de focos de inc\u00eandio detectados este ano j\u00e1 \u00e9 maior do que o de 2023. Desde o in\u00edcio do m\u00eas de agosto v\u00e1rias cidades do interior de S\u00e3o Paulo sofrem queimadas e com fuma\u00e7a e fuligem que encobre as cidades. No campo, cerca de 3.800 propriedades rurais foram afetadas com preju\u00edzos que ultrapassam R$ 1 bilh\u00e3o, segundo a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado (SAA). A pecu\u00e1ria, o cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar, de frutas e de seringueiras e a apicultura foram os setores que mais tiveram perdas. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-cidade-de-sao-paulo-teve-pior-qualidade-do-ar-do-mundo-em-setembrofoto-paulo-pinto-agencia-brasil-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7093\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-300x209.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-1024x713.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-768x535.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-1536x1069.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-800x557.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2-1160x807.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Cidade de S\u00e3o Paulo teve pior qualidade do ar do mundo em setembro<br \/>\n<\/strong>(Foto. Paulo Pinto\/ Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 no Rio Grande do Sul, mais de 200 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes, segundo <strong><a href=\"https:\/\/www.estado.rs.gov.br\/upload\/arquivos\/202406\/relatorio-sisperdas-evento-enchentes-em-maio-2024.pdf\"><span style=\"color: #800000;\">relat\u00f3rio<\/span><\/a><\/strong> de perdas elaborado pelo governo daquele estado, com perdas significativas nas culturas de soja e arroz e na produ\u00e7\u00e3o de carne. Para evitar aumento de pre\u00e7o em um produto que \u00e9 base da alimenta\u00e7\u00e3o brasileira, o governo federal importou arroz. A Portos RS, empresa que faz a gest\u00e3o dos principais terminais do Rio Grande do Sul, estimou despesas de mais de R$ 850 milh\u00f5es com a limpeza, manuten\u00e7\u00e3o de balan\u00e7as, consertos e dragagem de todos os canais do sistema hidro portu\u00e1rio do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Na Regi\u00e3o Norte, por exemplo, a seca impacta a navegabilidade dos rios, podendo gerar interrup\u00e7\u00f5es no transporte de gr\u00e3os e de min\u00e9rios e aumentando os custos do frete rodovi\u00e1rio, o que, por sua vez, deve ser sentido no pre\u00e7o final de alguns produtos, por exemplo, aquelas fabricados na Zona Franca de Manaus. Antes disso, consumidores de todo pa\u00eds pagar\u00e3o mais caro pela energia el\u00e9trica com a ado\u00e7\u00e3o da bandeira vermelha devido \u00e0 previs\u00e3o de chuvas abaixo da m\u00e9dia no segundo semestre e ao acionamento de usinas termel\u00e9trica, que produz uma energia mais cara do que a produzida nas hidrel\u00e9tricas. \u201cDe maneira geral, haver\u00e1 um efeito inflacion\u00e1rio advindo destes fen\u00f4menos porque toda adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o requer investimentos que n\u00e3o estavam previstos. A tend\u00eancia geral \u00e9 de aumento de pre\u00e7os, alguns muito localizados, outros nem tanto\u201d, explica Sergio Margulis.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"mudanca-climatica-mudanca-geografica\"><strong>Mudan\u00e7a clim\u00e1tica, mudan\u00e7a geogr\u00e1fica<\/strong><\/h4>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 os eventos clim\u00e1ticos extremos impactam a economia. O fato \u00e9 que j\u00e1 vivemos um regime clim\u00e1tico diferente, com aumento da temperatura, ondas de calor e precipita\u00e7\u00e3o mais intensa. Considerando a import\u00e2ncia da agricultura no PIB brasileiro, a rela\u00e7\u00e3o entre o clima e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tem sido alvo de pesquisa, algumas delas transformadas em pol\u00edticas p\u00fablicas do governo federal. \u00c9 o caso do Zoneamento Agr\u00edcola de Riscos Clim\u00e1ticos (Zarc), que conta com pesquisadores da <strong><a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Embrapa<\/span><\/a><\/strong> e da <strong><a href=\"https:\/\/unicamp.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)<\/span><\/a><\/strong>. Desde 1996, a ferramenta auxilia na identifica\u00e7\u00e3o das melhores regi\u00f5es, cultivares, variedades e per\u00edodos de semeadura, com menores riscos e perdas. Segundo as simula\u00e7\u00f5es do Zarc, a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura provocar\u00e1 um \u201cdeslocamento\u201d e redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de cultivo de culturas importantes no agroneg\u00f3cio brasileiro como o feij\u00e3o, soja e caf\u00e9. \u201cNa pr\u00e1tica, voc\u00ea aumenta o risco de produ\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas atuais, for\u00e7ando um deslocamento para \u00e1reas mais frias\u201d, afirma Jurandir Zullo, pesquisador do <strong><a href=\"https:\/\/www.cpa.unicamp.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Centro de Pesquisas Meteorol\u00f3gicas e Clim\u00e1ticas Aplicadas \u00e0 Agricultura (Cepagri)<\/span><\/a><\/strong>, da Unicamp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ja-e-um-consenso-que-o-clima-esta-no-centro-de-um-megaproblema-economico-assistimos-uma-serie-de-desastres-com-prejuizos-materiais-e-mortes-mas-nada-muda-estamos-em-uma-trajetoria-muito-pr\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cJ\u00e1 \u00e9 um consenso que o clima est\u00e1 no centro de um megaproblema econ\u00f4mico. Assistimos uma s\u00e9rie de desastres com preju\u00edzos materiais e mortes, mas nada muda. Estamos em uma trajet\u00f3ria muito preocupante. O que falta acontecer para causar uma mudan\u00e7a?\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na<span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ainfo.cnptia.embrapa.br\/digital\/bitstream\/item\/158694\/1\/AP-Zoneamento-Assad-etal-2008.pdf\"><strong>an\u00e1lise<\/strong> <\/a><\/span>para a cultura do feij\u00e3o em Minas Gerais, segundo maior produtor do pa\u00eds, depois do Paran\u00e1, se a temperatura sair do patamar atual para mais 5,8 \u00baC, conforme proje\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, 2001), foi estimada uma diminui\u00e7\u00e3o da \u00e1rea apta para o cultivo em mais de 90% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es atuais. Neste cen\u00e1rio, dados de 2008 apontavam uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de R$ 360 milh\u00f5es nas receitas oriundas da atividade para o Estado de Minas Gerais, considerando apenas o setor agr\u00edcola, ou seja, sem colocar na conta os demais elos da cadeia produtiva. J\u00e1 a soja, poderia ter cerca de 40% de redu\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas para seu cultivo no Brasil, se a temperatura do ar aumentasse em 3 \u00baC. Ainda conforme as simula\u00e7\u00f5es do Zarc (2008), \u201cquanto maior a temperatura, maior ser\u00e1 o deslocamento da cultura do caf\u00e9 em dire\u00e7\u00e3o ao sul do Pa\u00eds. Considerando os resultados de um cen\u00e1rio com aumento de 1,0 \u00baC e a redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas cultivadas com caf\u00e9 nos estados de Minas Gerais, Paran\u00e1 e S\u00e3o Paulo, o impacto econ\u00f4mico previsto \u00e9 estimado em US$ 375 milh\u00f5es por ano, equivalentes \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de 4 milh\u00f5es de sacas de caf\u00e9\/ano\u201d. Em seu livro, Sergio Margulis aponta ainda que o aquecimento global deve levar a perdas na produ\u00e7\u00e3o brasileira de alimentos que podem chegar a R$ 14 bilh\u00f5es em 2070. (Figura 3)<\/p>\n<h6 id=\"figura-3-impacto-do-aumento-da-temperatura-para-o-cultivo-da-soja-no-brasil-considerando-diferentes-cenarios-de-mudancas-climaticas-globais-fonte-embrapa-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7094\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-300x241.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-300x241.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-1024x824.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-768x618.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-1536x1235.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-15x12.jpg 15w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-800x643.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3-1160x933.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/CC-3E24-reportagem-Mais-quente-mais-desigual-figura3.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 3. Impacto do aumento da temperatura para o cultivo da soja no Brasil, considerando diferentes cen\u00e1rios de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais.<br \/>\n<\/strong>(Fonte: Embrapa\/ Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Publicado em 2006, o \u201c<em>Relat\u00f3rio Stern<\/em>\u201d, um dos primeiros estudos sobre os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na economia mundial, apontou que um investimento de apenas 1% do PIB mundial se poderia evitar uma retra\u00e7\u00e3o de 20% no mesmo PIB, ou seja, os custos para evitar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, reduzindo as emiss\u00f5es dos gases do efeito estufa, s\u00e3o menores do que os custos advindos dos efeitos da mudan\u00e7a do clima. \u201cJ\u00e1 \u00e9 um consenso que o clima est\u00e1 no centro de um megaproblema econ\u00f4mico. Assistimos uma s\u00e9rie de desastres com preju\u00edzos materiais e mortes, mas nada muda. Estamos em uma trajet\u00f3ria muito preocupante. O que falta acontecer para causar uma mudan\u00e7a?\u201d, questiona Sergio Margulis. \u201cEnquanto a desigualdade de renda aumenta e uma minoria vai ficando cada vez mais rica, o aquecimento global \u00e9 diferente, porque ningu\u00e9m ganha com ele. Todos perdem, apesar de existirem os que ainda ganham com as emiss\u00f5es. Empurrar o mais para frente poss\u00edvel a decis\u00e3o de eliminar emiss\u00f5es, criando uma esp\u00e9cie de sobrevida das condi\u00e7\u00f5es atuais nos levar\u00e1, como vimos, \u00e0 beira do precip\u00edcio\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Mais do que alarmar sobre os preju\u00edzos e perdas que teremos com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, as proje\u00e7\u00f5es dos danos econ\u00f4micos s\u00e3o fundamentais para informar o debate p\u00fablico sobre mitiga\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o e, sobretudo, sobre a justi\u00e7a clim\u00e1tica. Um debate que deve incluir governos, bancos centrais e empresas no sentido de uma nova economia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"uma-nova-economia\"><strong>Uma nova economia?<\/strong><\/h4>\n<p>Em dezembro de 2023, o governo federal apresentou o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/fazenda\/pt-br\/acesso-a-informacao\/acoes-e-programas\/transformacao-ecologica\">Plano de Transforma\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica (PTE)<\/a><\/strong><\/span>, durante a COP28, em Dubai. Liderado pelo Minist\u00e9rio da Fazenda, o Plano tem justamente o objetivo de mudar os paradigmas econ\u00f4micos em prol da sustentabilidade a partir de seis eixos: finan\u00e7as sustent\u00e1veis, adensamento tecnol\u00f3gico, bioeconomia e sistemas agroalimentares, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, economia circular e nova infraestrutura verde e adapta\u00e7\u00e3o. O governo prev\u00ea investimentos entre US$ 130 e 160 milh\u00f5es por ano, boa parte em infraestrutura em a\u00e7\u00f5es como urbaniza\u00e7\u00e3o de favelas para preven\u00e7\u00e3o de riscos de desastres, drenagem urbana e conten\u00e7\u00e3o de encostas para preven\u00e7\u00e3o de deslizamentos e inunda\u00e7\u00f5es. Outro eixo de destaque \u00e9 o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, que inclui medidas como o aumento da mistura obrigat\u00f3ria de biodiesel em diesel, chegando a 15% em 2026 e o est\u00edmulo do uso dos combust\u00edveis sustent\u00e1veis, como o SAF, sigla para combust\u00edvel sustent\u00e1vel de avia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Ademar Romeiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp, o PTE se apresenta como uma macroeconomia ecol\u00f3gica de bom senso, com boas propostas. \u201cNo entanto, \u00e9 urgente modificar a matriz energ\u00e9tica baseada nos combust\u00edveis f\u00f3sseis e isso s\u00f3 vai acontecer quando as fontes de energia alternativas forem, de fato, competitivas\u201d, afirma. \u201cE, como prop\u00f4s Ignacy Sachs, o Brasil tem voca\u00e7\u00e3o para se tornar a \u2018civiliza\u00e7\u00e3o da biomassa\u2019, por meio do etanol, do hidrog\u00eanio verde e de outras fontes renov\u00e1veis. Resta saber se o governo ter\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es de implementar o Plano\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-brasil-tem-vocacao-para-se-tornar-a-civilizacao-da-biomassa-por-meio-do-etanol-do-hidrogenio-verde-e-de-outras-fontes-renovaveis-resta-saber-se-o-governo-tera-as-condic\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO Brasil tem voca\u00e7\u00e3o para se tornar a \u2018civiliza\u00e7\u00e3o da biomassa\u2019, por meio do etanol, do hidrog\u00eanio verde e de outras fontes renov\u00e1veis. Resta saber se o governo ter\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es de implementar o Plano.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como atual presidente do G20, principal f\u00f3rum de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional, o Brasil estabeleceu a For\u00e7a-tarefa para Mobiliza\u00e7\u00e3o Global contra a Mudan\u00e7a do Clima. O objetivo \u00e9 envolver governos, institui\u00e7\u00f5es financeiras e organismos internacionais para catalisar o alinhamento macroecon\u00f4mico e financeiro global no sentido de implementar os objetivos da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima e do Acordo de Paris. O balan\u00e7o das reuni\u00f5es do grupo, que aconteceram ao longo deste ano, ser\u00e3o levados para a C\u00fapula do G20, que acontece em novembro, no Rio de Janeiro. O G20 re\u00fane os l\u00edderes dos 19 pa\u00edses que comp\u00f5e o Grupo e que representam cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, mais de 75% do com\u00e9rcio mundial e cerca de dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Para Luiz Marques, historiador e professor aposentado da Unicamp, o descrescimento econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 mais um debate entre economistas, \u00e9 uma certeza. Autor do livro vencedor do Pr\u00eamio Jabuti \u201cCapitalismo e colapso ambiental\u201d (Editora da Unicamp, 2015), o pesquisador afirma: \u201cas \u00fanicas alternativas reais s\u00e3o: decrescer catastroficamente por imposi\u00e7\u00e3o do clima, da aniquila\u00e7\u00e3o da biodiversidade e da intoxica\u00e7\u00e3o qu\u00edmico-industrial dos organismos, ou decrescer a partir de um modo pac\u00edfico e com justi\u00e7a social. A escolha ainda \u00e9 nossa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-mudancas-climaticas-impactam-economia-e-causam-efeito-inflacionario-devido-a-investimentos-com-adaptacao-e-mitigacaofoto-reproducao\"><strong>Capa. Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impactam economia e causam efeito inflacion\u00e1rio devido a investimentos com adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Impactos econ\u00f4micos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas geram perdas na renda e aprofundam desigualdades&hellip;\n","protected":false},"author":18,"featured_media":7091,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7090"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7136,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7090\/revisions\/7136"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}