{"id":7271,"date":"2024-10-16T07:55:31","date_gmt":"2024-10-16T07:55:31","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7271"},"modified":"2024-10-14T11:43:11","modified_gmt":"2024-10-14T11:43:11","slug":"berta-ribeiro-mestra-por-inteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7271","title":{"rendered":"Berta Ribeiro, mestra por inteiro"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"pesquisadora-moldou-um-pensamento-inovador-sobre-arte-indigena-no-brasil-inspirando-geracoes-de-estudantes-e-colegas-com-uma-abordagem-interdisciplinar\"><span style=\"color: #808080;\">Pesquisadora moldou um pensamento inovador sobre arte ind\u00edgena no Brasil, inspirando gera\u00e7\u00f5es de estudantes e colegas com uma abordagem interdisciplinar.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano em que a antrop\u00f3loga e professora Berta Gleizer Ribeiro completaria 100 anos de nascimento, escrevo esse artigo de opini\u00e3o para fixar na mem\u00f3ria os bons anos de aprendizado desfrutados com ela e refletir um pouco sobre o que sou como pesquisador e os rumos que tomou o campo de estudos interdisciplinares implantado nos anos 1980 do qual fizemos parte no Mestrado de Artes Visuais da UFRJ.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para os seus muitos ensinamentos, era todo ouvidos. Fala mansa e s\u00e9ria, idade de minha m\u00e3e, n\u00e3o aparentava. Uma discrep\u00e2ncia enorme nos aproximava, paradoxalmente. Ela, concentra\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de guerra e desterro, dupla nacionalidade \u2014 moldava e brasileira \u2014 autoridade maior em cultura material dos povos ind\u00edgenas do Brasil. Eu, menino do Rio.<\/p>\n<p>Para mim, ela dizia, pesquisador tem que ter perfil. E testava a minha dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 disciplina: documenta\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o cer\u00e2mica Asurini para a qual escrevi uma monografia; pintura de pain\u00e9is que realizei para vitrine da exposi\u00e7\u00e3o sobre os Av\u00e1scanoeiros no atual <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/antigo.museudoindio.gov.br\/o-museu\/apresentacao\"><strong>Museu Nacional dos Povos Ind\u00edgenas<\/strong><\/a><\/span><strong>\u00a0\u2014\u00a0<\/strong>antigo Museu do \u00cdndio; opini\u00e3o que me pedia sobre o conte\u00fado de livros de fotografia etnogr\u00e1fica para resenhas a ela encomendadas.<\/p>\n<p>Morando a duas ruas de dist\u00e2ncia em Copacabana, no final dos anos 1980, in\u00edcio dos anos 1990, \u00edamos juntos para o Mestrado em Artes Visuais da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ. Durante o caminho, conduzia devagar para demorar a chegar e aproveitar a conversa. Necess\u00e1ria imers\u00e3o na hist\u00f3ria submersa de um pa\u00eds em reconstru\u00e7\u00e3o. Na volta, carona para quem de seus colegas antrop\u00f3logos aparecesse. Berta Ribeiro era para a antropologia algu\u00e9m que eu conhecia ali, ao mesmo tempo que a sua personalidade magn\u00e9tica, para al\u00e9m do estrelismo ou da ignom\u00ednia humana. Sobre o seu estatuto moral e a import\u00e2ncia da sua produ\u00e7\u00e3o intelectual para a cultura brasileira fui me dando conta simultaneamente em que eu delineava um projeto de disserta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabia que tinha sido casada com Darcy Ribeiro, percebia a defer\u00eancia com que era tratada. Ao encontro dela, fui me enveredar em um campo novo de estudos pela vontade de sair dos enquadramentos can\u00f4nicos da Hist\u00f3ria da Arte ocidental, n\u00e3o para agregar o seu nome ao meu curr\u00edculo. Ela ter aceitado me orientar, um acontecimento venturoso cujo motor foram, de minha parte, a sorte e a intui\u00e7\u00e3o; dela, a generosidade. Berta Ribeiro me apresentou um Brasil que n\u00e3o estava ali na esquina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"foi-o-aprendizado-com-berta-ribeiro-que-me-equipou-para-pensar-a-complexidade-e-indisciplina-do-objeto-de-pesquisa-em-ciencias-humanas-e-me-forneceu-a-confianca-para-transitar-entre-areas-afi\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cFoi o aprendizado com Berta Ribeiro que me equipou para pensar a complexidade e indisciplina do objeto de pesquisa em Ci\u00eancias Humanas e me forneceu a confian\u00e7a para transitar entre \u00e1reas afins.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu havia ingressado no mestrado com um anteprojeto sobre o tema do ex\u00edlio na pintura de Quirino Campofiorito, pintor brasileiro de origem italiana, decano da cr\u00edtica de arte no Brasil, livre-docente e antigo diretor da EBA-UFRJ. Isso iria me dirigir para um universo mais europeu de pesquisa, com a imigra\u00e7\u00e3o estrangeira que eu n\u00e3o conhecia e teria que estudar do zero, enquanto as refer\u00eancias nordestinas provenientes das leituras \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o na biblioteca de meu pai me parecessem mais \u00e0 m\u00e3o, n\u00e3o devendo desperdi\u00e7\u00e1-las.<\/p>\n<p>Meu interesse voltou-se, ent\u00e3o, para a querela interna entre modernismo e regionalismo que op\u00f4s as concep\u00e7\u00f5es de Oswald de Andrade e Gilberto Freyre sobre o Brasil para desvendar o que significava a primazia na introdu\u00e7\u00e3o do elemento ind\u00edgena como fundamento da brasilidade que o pintor pernambucano Vicente do Rego Monteiro considerava pertencer-lhe. Foi isso o que o fizera recusar a participa\u00e7\u00e3o no movimento antropof\u00e1gico de 1928, ao que ele atribu\u00eda o esquecimento de seu nome, a falta de reconhecimento art\u00edstico no Brasil, depois da Semana de 22 da qual participara.<\/p>\n<p>Em minha pesquisa, enumerei os fatores da equa\u00e7\u00e3o nativista de Vicente do Rego Monteiro como artista consagrado em Paris, onde se radicou, em duas longas passagens, por 30 anos. Quando da investiga\u00e7\u00e3o dos seus termos, cheguei ao ponto de transpor os limites entre arte, antropologia, literatura e estudos culturais na trajet\u00f3ria que me levou ao doutoramento em Letras pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), para onde me transferi. Cheguei mesmo a propor ter havido uma retroalimenta\u00e7\u00e3o latino-americana na geometriza\u00e7\u00e3o das obras do p\u00f3s-cubismo nos anos 1930 da Escola de Paris pelo contato da vanguarda europeia com convencionalidades \u00e0 primeira vista n\u00e3o mim\u00e9ticas da linguagem visual ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida influ\u00eancia da arte ind\u00edgena no Modernismo brasileiro, desde a pintura de Vicente do Rego Monteiro, foi por mim levantada no mestrado, naqueles primeiros anos da d\u00e9cada de 1990. Essa quest\u00e3o s\u00f3 depois foi retomada por Paulo Herkenhoff em S\u00e3o Paulo como recorte curatorial da assim chamada Bienal da Antropofagia de 1998. A condi\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rio entre o Sena e o Capibaribe, impressor de si mesmo e de poetas de express\u00e3o francesa depois de 1945, no imediato p\u00f3s-guerra parisiense, atividade de tip\u00f3grafo que Rego Monteiro exerceu com sua <em>La Presse \u00e0 Bras<\/em>, prensa manual com que publicou primorosas <em>plaquettes<\/em> e o levou ao primeiro infarto, dentre outras atividades em especial ligadas \u00e0 Resist\u00eancia Francesa, eu conheci entre 1999 e 2002 quando realizei pesquisas e lecionei na Universidade de Grenoble, Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Sem poder me estender mais nas min\u00facias de minha disserta\u00e7\u00e3o e de minha tese, o que passo aqui a apresentar \u00e9 a quest\u00e3o da interdisciplinaridade do Mestrado da EBA-UFRJ como fator de um desequil\u00edbrio inovador ante o pensamento \u00e0 \u00e9poca vigente na Academia. O Mestrado em Artes Visuais da EBA-UFRJ era recente. N\u00f3s, talvez, alunos da primeira turma, respons\u00e1veis pelo seu reconhecimento junto \u00e0 CAPES. Abordagem que sacudia a poeira acumulada sobre uma tradi\u00e7\u00e3o em vias de se esgotar do acad\u00eamico e lan\u00e7ava pontes sobre uma perspectiva enevoada que se abria para o contempor\u00e2neo. Est\u00e1vamos, portanto, diante de um <em>turning point<\/em>, uma prof\u00edcua encruzilhada. Novos objetos pululavam, toda uma nomenclatura a ser testada no encontro entre saberes isolados sob a press\u00e3o de uma vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica da cultura que antecipava a era digital, da\u00ed a urg\u00eancia em se escavar temas de um tempo que ficaria para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sobre-o-plano-da-antropologia-berta-ribeiro-abriu-caminhos-que-os-diferiam-dos-modelos-teoricos-importados-fora-da-realidade-na-qual-ela-tanto-se-embrenhou-em-trabalho-de-campo-a-dos-povos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSobre o plano da antropologia, Berta Ribeiro abriu caminhos que os diferiam dos modelos te\u00f3ricos importados, fora da realidade na qual ela tanto se embrenhou em trabalho de campo, a dos povos origin\u00e1rios tomados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s solu\u00e7\u00f5es dadas \u00e0 necessidade de sobreviv\u00eancia no manejo dos recursos naturais e na intera\u00e7\u00e3o com o meio.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era Maria Heloisa F\u00e9nelon Costa a coordenadora quando entrei no curso. Creio ter sido F\u00e9nelon quem esteve \u00e0 frente do projeto pedag\u00f3gico e reuniu o corpo docente do Mestrado da EBA, especialmente voltado para a Antropologia da Arte. Vindo de uma gradua\u00e7\u00e3o em Pintura, considero aquela p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o uma experi\u00eancia formativa muito bem sucedida. Minha primeira orientadora foi Rosza W. Vel Zoladz, disc\u00edpula de Jean Duvignaud, tamb\u00e9m interessada nos estudos ind\u00edgenas. Com ela, aprendi que a incorpora\u00e7\u00e3o das chamadas categorias apagadas ampliava a compreens\u00e3o do impulso \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Para a sua disciplina, realizei aquela que talvez tenha sido a \u00faltima entrevista, in\u00e9dita, com o j\u00e1 nonagen\u00e1rio Quirino Campofiorito.<\/p>\n<p>Em sala de aula com Berta Ribeiro, escuta, cadernos, apostilas, anota\u00e7\u00f5es. Em sua casa, visita \u00e0 cole\u00e7\u00e3o particular de objetos da cultura ind\u00edgena, aos livros diligentemente catalogados. Por seu interm\u00e9dio, indica\u00e7\u00e3o de pessoas a procurar no Museu Nacional da UFRJ e no seu querido Museu do \u00cdndio para o preenchimento de lacunas. Nessas visitas, por exemplo, descobri as m\u00e1scaras dos Tikuna, as urnas marajoaras, as tigelas tapaj\u00f4nicas decisivas para formular hip\u00f3teses de apropria\u00e7\u00f5es n\u00e3o declaradas dos seus grafismos e da sua estiliza\u00e7\u00e3o pelos modernistas brasileiros.<\/p>\n<p>O interesse por um passado em que a tradi\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o se houvesse formado, imune aos v\u00edcios da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, implicava na renova\u00e7\u00e3o de formas de express\u00e3o que permitissem \u00e0s vanguardas europeias relativizarem a superioridade da ra\u00e7a branca. Os modernistas brasileiros do per\u00edodo entreguerras produziriam obras de acordo com tal interesse. Para a Europa, a consci\u00eancia do outro implicava em uma crise de identidade. Para os pa\u00edses n\u00e3o europeus, significava a descoberta do mesmo, a assun\u00e7\u00e3o de sua pr\u00e9-hist\u00f3ria. Quando olharam para o patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico nacional e descobriram nos acervos museol\u00f3gicos brasileiros a imagem do nativo americano refletida em voga, os artistas brasileiros se assumiram como modernos primitivos. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-mascara-tikunafoto-colecao-museu-nacional-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7273\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-210x300.jpg\" alt=\"\" width=\"351\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-210x300.jpg 210w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-718x1024.jpg 718w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-768x1095.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-1077x1536.jpg 1077w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-1436x2048.jpg 1436w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-800x1141.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1-1160x1654.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura1.jpg 1458w\" sizes=\"(max-width: 351px) 100vw, 351px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. M\u00e1scara Tikuna<br \/>\n<\/strong>(Foto: Cole\u00e7\u00e3o Museu Nacional. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A proposta de fomento a pesquisas interdisciplinares entre Antropologia, Hist\u00f3ria e Cr\u00edtica das Artes Visuais, que fazia ser t\u00e3o especial aquele projeto, se refletia em um programa que vingou em mim, nos rumos da minha pesquisa. Tamb\u00e9m porque minha fortuna e meu defeito \u00e9 o gosto em juntar coisas opostas \u2014 a hermen\u00eautica, o comparatismo, a intersemiose. O anteprojeto que se modificara ao migrar do ex\u00edlio de Campofiorito para o nativismo de Monteiro, balizas aparentemente discrepantes, n\u00e3o perdera a transversalidade. Partindo das artes pl\u00e1sticas, desbravei territ\u00f3rios mais long\u00ednquos do que supunha. Foi o aprendizado com Berta Ribeiro, pois, que me equipou para pensar a complexidade e indisciplina do objeto de pesquisa em Ci\u00eancias Humanas e me forneceu a confian\u00e7a para transitar entre \u00e1reas afins.<\/p>\n<p>Por tudo isso, considero que muito contribuiu a abordagem que Berta Ribeiro fazia da arte ind\u00edgena, deslocando os crit\u00e9rios de valida\u00e7\u00e3o distantes das regras e medidas do ensino acad\u00eamico, princ\u00edpios cuja apreens\u00e3o meditativa do belo remetia e subordinava a arte \u00e0 ordem secular ou religiosa que a condicionava \u00e0 autoridade, reproduzia o poder estabelecido e dela subtra\u00eda a possibilidade de transigir, participar da vida ordin\u00e1ria e concreta dos que a produziam e entre aqueles em m\u00e3os de quem circulava.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o da arte como dado, e n\u00e3o problema, parecia refletir, ainda em fins do s\u00e9culo XX, o mesmo olhar equivocado do elemento europeu quando ao chegar aos tr\u00f3picos \u00e0 procura de um eldorado. N\u00e3o entendeu estar diante de um mundo diferente que lhe oferecia a oportunidade de questionar a l\u00f3gica com que a civiliza\u00e7\u00e3o de onde provinha trabalhava, mundo verdadeiramente novo perante o desconhecido, oportunidade desperdi\u00e7ada porquanto o para\u00edso terrestre estivesse por ele associado \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o (pela usurpa\u00e7\u00e3o) de riquezas materiais.<\/p>\n<p>Inclusive sobre o plano da antropologia, Berta Ribeiro abriu caminhos que os diferiam, creio, dos modelos te\u00f3ricos importados, fora da realidade na qual ela tanto se embrenhou em trabalho de campo, a dos povos origin\u00e1rios tomados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s solu\u00e7\u00f5es dadas \u00e0 necessidade de sobreviv\u00eancia no manejo dos recursos naturais e na intera\u00e7\u00e3o com o meio, no jogo identit\u00e1rio em situa\u00e7\u00e3o de contato com a sociedade nacional. Da\u00ed vislumbrar na cultura material capacidade de integrar os v\u00e1rios n\u00edveis de consci\u00eancia dos espa\u00e7os e experi\u00eancia de deslocamento na floresta, no sentido ecol\u00f3gico da intelig\u00eancia psicomotora cujos momentos de passagem de vida aderem ao transe, na adaptabilidade ind\u00edgena como interpreta\u00e7\u00e3o da ordem c\u00f3smica que lhes correspondesse. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-berta-gleizer-ribeiro-no-parque-do-xingu-na-decada-de-1980foto-renata-valente-fundacao-darcy-ribeiro-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7274\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-300x209.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-1024x714.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-768x535.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-1536x1071.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-800x558.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2-1160x809.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/CC-3S24-opinia\u0303o-Berta-Ribeiro-mestra-por-inteiro-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Berta Gleizer Ribeiro no Parque do Xingu, na d\u00e9cada de 1980<br \/>\n<\/strong>(Foto: Renata Valente. Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Berta Ribeiro, penso eu, existiria um componente tamb\u00e9m quantitativo afer\u00edvel no tempo de manuseio aplicado \u00e0 mat\u00e9ria como busca de um resultado compat\u00edvel com o lugar de quem executa aquele tipo de trabalho na tribo, como crit\u00e9rio de atribui\u00e7\u00e3o do valor\u00a0art\u00edstico da pe\u00e7a na cultura material ind\u00edgena. O tempo investido, o volume dispendido de trabalho revela-se no esmero e na delicadeza dos detalhes aparentemente sup\u00e9rfluos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria a que se destinavam os objetos. A ado\u00e7\u00e3o de estilemas que os caracterizavam e distinguiam dos demais conferiam aos objetos de cultura uma import\u00e2ncia, um poder de encorajamento, de emana\u00e7\u00e3o, talvez, de pertencimento maior, certamente, \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira, componente que era simultaneamente qualitativo em atendimento \u00e0 necessidade de assimila\u00e7\u00e3o do modo de funcionamento do ecossistema. A per\u00edcia com que a palha era tran\u00e7ada vinha de um modo de fazer introjetado pela observa\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o oral, pl\u00e1stica e gr\u00e1fica de conhecimento. A incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0s mi\u00e7angas importadas de um vocabul\u00e1rio \u00e9tnico singular vinha de uma demanda do grupo que encarou de modo pragm\u00e1tico as press\u00f5es externas sobre si e soube se reinventar. A sele\u00e7\u00e3o da melhor argila para a cer\u00e2mica como utens\u00edlio e ve\u00edculo de marcas identit\u00e1rias subtendia uma intencionalidade, uma divis\u00e3o social de tarefas que possibilitava o desenvolvimento de t\u00e9cnicas de acabamento elaborado, qual o engobe. Materiais de que eram feitos os objetos da cultura material eram buscados distante da aldeia e impunham deslocamentos no espa\u00e7o que levavam ao contato intertribal, de onde uma rede de relacionamentos a engendrar trocas pol\u00edticas e econ\u00f4micas, renovar o estoque de formas de representa\u00e7\u00e3o, aperfei\u00e7oar o n\u00edvel de exig\u00eancia, exigir o envolvimento coletivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, as resist\u00eancias da Academia \u00e0 interdisciplinaridade que permeavam nossos fecundos encontros foram ficando, aos poucos, evidentes. Teve tempo em que eu era o seu \u00fanico aluno. Poucos, os seus orientandos. Estranhei mesmo essa procura rarefeita pelas aulas de Berta Ribeiro. A falta de efervesc\u00eancia no debate sobre as suas ideias. Preferia-se uma hist\u00f3ria aferrada ao passado do que o projetar o que ser\u00edamos, desde a pesquisa sobre o que continuava sendo, o que n\u00e3o fomos (ou quase), deixamos de ser, pod\u00edamos ter sido? Embora isso n\u00e3o abalasse a imensa dignidade da professora, julgava estarmos perdendo, todos.<\/p>\n<p>E continuava a me perguntar, sem a ningu\u00e9m dizer: Aridez do assunto? Ineditismo do prop\u00f3sito? Vastid\u00e3o do programa? Incompreens\u00e3o sobre a sua pedagogia que exigia reflex\u00e3o para al\u00e9m dos limites da sala de aula? Sobre as mudan\u00e7as no paradigma cient\u00edfico moderno ocidental que viriam da revis\u00e3o necess\u00e1ria do lugar ocupado pelo conhecimento aut\u00f3ctone de povos pela maioria desconhecidos? Adiamento da discuss\u00e3o sobre o modo de explora\u00e7\u00e3o da natureza que menosprezou aquela contribui\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria e nos destinos do planeta, da humanidade, do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Dois fatores me parecem ter afetado o projeto da Antropologia da Arte como \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o do Mestrado em Artes Visuais da EBA-UFRJ que a impediu de vicejar no caminho que eu queria. O primeiro, a dificuldade em se fazer a transi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma \u00e1rea aberta, sem a renitente posi\u00e7\u00e3o tutelar da tradi\u00e7\u00e3o que subentendia a folcloriza\u00e7\u00e3o do ind\u00edgena, cuja contrapartida seria o baixo n\u00edvel de tratamento que a sociedade envolvente lhe impunha.<\/p>\n<p>Nos finais dos anos 1980, per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o projeto de na\u00e7\u00e3o n\u00e3o se realizaria sem que se ouvissem as aspira\u00e7\u00f5es dos diversos setores marginalizados da popula\u00e7\u00e3o. Foi assim que tivemos, entre 1983 e 1987, o gravador de M\u00e1rio Juruna, deputado federal, durante muito tempo o \u00fanico representante dos povos origin\u00e1rios no Congresso Nacional. O c\u00e9lebre discurso de Ailton Krenak como lideran\u00e7a ind\u00edgena durante os trabalhos de 1987 da Assembleia Constituinte. A atua\u00e7\u00e3o de Marcos Terena desde 1976 quando chegou \u00e0 Bras\u00edlia no enfrentamento do indigenismo oficial. Em rela\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas, no bojo da luta por se fazer ouvir, haveria ali uma pr\u00e1tica oficiosa de restri\u00e7\u00f5es aos avan\u00e7os esperados, uma vez que as vozes que reclamavam demarca\u00e7\u00e3o das suas terras colidiam com o lobby dos interesses econ\u00f4micos que negociavam a sua remo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-relacao-aos-indigenas-no-bojo-da-luta-por-se-fazer-ouvir-haveria-ali-uma-pratica-oficiosa-de-restricoes-aos-avancos-esperados-uma-vez-que-as-vozes-que-reclamavam-demarcacao-das-suas-ter\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEm rela\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas, no bojo da luta por se fazer ouvir, haveria ali uma pr\u00e1tica oficiosa de restri\u00e7\u00f5es aos avan\u00e7os esperados, uma vez que as vozes que reclamavam demarca\u00e7\u00e3o das suas terras colidiam com o lobby dos interesses econ\u00f4micos que negociavam a sua remo\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois, experi\u00eancias equivalentes \u00e0quelas que vinham sendo feitas pelos pesquisadores saltavam aos olhos como iniciativas n\u00e3o coordenadas. Esfor\u00e7os que Berta Ribeiro fez quando, desde 1978, soube que dois ind\u00edgenas haviam escrito a mitologia dos Desana, se interessou pelo projeto e ajudou pai e filho, Firmiano Lana e Luiz Lana, a reformularem o texto para public\u00e1-lo, em 1980. A quest\u00e3o da autorrepresenta\u00e7\u00e3o ind\u00edgena era um fundo comum daquela \u00e9poca, e ganh\u00e1-la ou perd\u00ea-la uma disputa que, n\u00e3o solucionada a tempo, repercute ainda hoje e aflora sem que se estude e reconhe\u00e7a, suficientemente, a contribui\u00e7\u00e3o daquelas mulheres como precursoras do debate.<\/p>\n<p>Suponho, portanto, que o horizonte de expectativas do projeto de Berta, Helo\u00edsa e Rosza se ativesse \u00e0s mesmas esperan\u00e7as de autorrepresenta\u00e7\u00e3o ind\u00edgena conduzido por suas lideran\u00e7as pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m estivesse circunscrito aos constrangimentos de seu tempo. Depois de tantas perdas e deslocamentos, ao afirmar querer ser lembrada como Desana, Berta Ribeiro talvez propusesse escapar dos enquadramentos jur\u00eddicos de sua identidade judaica negada no Brasil em favor de uma vincula\u00e7\u00e3o afetiva mais flex\u00edvel, por escolha pessoal, aos povos origin\u00e1rios que a acolheram.<\/p>\n<p>O segundo fator passaria pela indisciplina do objeto de pesquisa em Ci\u00eancias Humanas a que me referi, acima, dizendo respeito ao fato de ele, esse objeto, ser movente, ind\u00f3cil, intrinsecamente avesso \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o. A dificuldade de ajuste aos crit\u00e9rios de cientificidade de origem nas Ci\u00eancias Exatas, que lhe pesava, adviria de suas especificidades, n\u00e3o de seus defeitos. Por\u00e9m, o que na \u00e9poca, e j\u00e1 se v\u00e3o mais de 30 anos, era percept\u00edvel como antagonismo dogm\u00e1tico entre Ci\u00eancia e Arte, hoje, vejo tamb\u00e9m como falta de autocr\u00edtica, mecanismo de defesa e acomoda\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de Humanas do que resultou na dilui\u00e7\u00e3o do mesmo contempor\u00e2neo que, ao abdicar do experimentalismo, repetiria os cacoetes da tradi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da qual poderia ter se emancipado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-berta-ribeiro-pioneira-na-valorizacao-da-cultura-material-dos-povos-indigenas-ao-questionar-o-olhar-ocidental-revelou-um-brasil-invisivel-contrariou-o-senso-comum-e-abriu-os-horizontes-da-an\"><strong>Capa. Berta Ribeiro, pioneira na valoriza\u00e7\u00e3o da cultura material dos povos ind\u00edgenas, ao questionar o olhar ocidental, revelou um Brasil invis\u00edvel, contrariou o senso comum e abriu os horizontes da antropologia e da arte.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pesquisadora moldou um pensamento inovador sobre arte ind\u00edgena no Brasil, inspirando gera\u00e7\u00f5es&hellip;\n","protected":false},"author":247,"featured_media":7308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7271"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/247"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7271"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7300,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7271\/revisions\/7300"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}