{"id":7378,"date":"2024-10-31T07:30:03","date_gmt":"2024-10-31T07:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7378"},"modified":"2025-11-25T11:40:07","modified_gmt":"2025-11-25T11:40:07","slug":"dependemos-desesperadamente-da-manutencao-das-terras-indigenas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7378","title":{"rendered":"\u201cDependemos desesperadamente da manuten\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas no Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-edviges-marta-ioris-professora-do-departamento-de-antropologia-da-ufsc\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Edviges Marta Ioris, professora do Departamento de Antropologia da UFSC<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Aprofundar-se nas din\u00e2micas sociopol\u00edticas que moldam as rela\u00e7\u00f5es entre povos ind\u00edgenas e a sociedade brasileira \u00e9 o foco das pesquisas de Edviges Marta Ioris, professora do Departamento de Antropologia da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufsc.br\/\">Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)<\/a><\/strong><\/span>. Com um mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um doutorado na Universidade da Fl\u00f3rida, Edviges Ioris tem se dedicado a investigar as complexas intera\u00e7\u00f5es entre os grupos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia e do Sul do Brasil, o Estado e as quest\u00f5es ambientais que permeiam esses contextos. \u201cIndiscutivelmente, no que se refere \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o ambiental, conserva\u00e7\u00e3o das florestas e das \u00e1guas, os povos ind\u00edgenas certamente se destacam como os principais protagonistas\u201d, afirma. Coordenadora do Arandu Laborat\u00f3rio de Estudos em Etnologia, Educa\u00e7\u00e3o e Sociobiodiversidade, Edviges Ioris aborda temas cruciais como a reivindica\u00e7\u00e3o territorial, a constru\u00e7\u00e3o de redes sociais em ambientes intra e supra-\u00e9tnicos e a luta por direitos sobre os recursos naturais. \u201cOs povos tradicionais, sejam ind\u00edgenas, quilombolas, cai\u00e7aras, povos que t\u00eam direitos territoriais coletivos, vivem um dos contextos mais amea\u00e7adores e violentos dos \u00faltimos tempos\u201d, alerta. Suas pesquisas n\u00e3o apenas iluminam as vozes ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m trazem \u00e0 tona as disputas em torno de espa\u00e7os e pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, refletindo a necessidade de uma maior integra\u00e7\u00e3o entre saberes acad\u00eamicos e as tradi\u00e7\u00f5es culturais. \u201cA deslegitima\u00e7\u00e3o de formas de conhecimento produzidas pelos grupos dominados tem como consequ\u00eancia l\u00f3gica a deslegitima\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de seus membros enquanto sujeitos de conhecimento e de direito\u201d, conclui.<\/em><\/p>\n<p><em>Leia a entrevista completa!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura &#8211; No campo da Antropologia, como voc\u00ea percebe a evolu\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a e contribui\u00e7\u00e3o das mulheres ao longo do tempo? Quais foram os avan\u00e7os e desafios enfrentados por elas nessa \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Edviges Marta Ioris &#8211; <\/strong>Embora ofuscadas, as mulheres sempre tiveram um papel important\u00edssimo na Antropologia desde os seus in\u00edcios, especialmente quando seus estudos come\u00e7am a sair dos gabinetes para se dirigirem diretamente ao campo para realizar os levantamentos de informa\u00e7\u00f5es. Entre os nomes mais conhecidos, podemos citar rapidamente Daisy May Bates e Monica Wilson, vinculadas \u00e0 antropologia brit\u00e2nica, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Nos Estados Unidos, nomes como os de Ruth Benedict, que defendeu seu doutorado em Antropologia em 1923, e de Margaret Mead, que come\u00e7ou a trabalhar no American Museum of Natural History em 1926, al\u00e9m de conduzir extensos trabalhos de campo na Oceania; sendo considerada precursora nos estudos de g\u00eanero. Nos Estados Unidos, ainda, n\u00e3o podemos esquecer Ruth Landes, pioneira nos estudos sobre os negros nas Am\u00e9ricas. No Brasil, encontramos Heloisa Alberto Torres, que assumiu a dire\u00e7\u00e3o do Museu Nacional em 1938, ou Bertha Ribeiro com seus estudos sobre os povos ind\u00edgenas. Todavia, apesar dessas presen\u00e7as important\u00edssimas, na Antropologia, como nas demais \u00e1reas do conhecimento cient\u00edfico, poucas mulheres tiveram suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e etnogr\u00e1ficas reconhecidas, predominando a sua exclus\u00e3o e invisibilidade. \u00c9 um processo recente de resgate e a visibilidade de suas presen\u00e7as e contribui\u00e7\u00f5es para o campo da Antropologia, do qual devemos, especialmente, aos esfor\u00e7os dos estudos feministas e de g\u00eanero sobre a conforma\u00e7\u00e3o do campo das Ci\u00eancias, que trouxeram \u00e0 luz os respectivos pioneirismos.<\/p>\n<p>Se podemos constatar presen\u00e7a, ainda que t\u00edmida, das mulheres desde o in\u00edcio da constitui\u00e7\u00e3o do campo antropol\u00f3gico, ela foi sucessivamente se ampliando e conquistando v\u00e1rios espa\u00e7os, n\u00e3o obstante, tenha perpassado por um longo e tortuoso percurso at\u00e9 obter seus devidos reconhecimentos. Essa aus\u00eancia e invisibilidade das mulheres no trabalho antropol\u00f3gico teve consequ\u00eancias s\u00e9rias para o conhecimento e compreens\u00e3o das diferentes sociedades humanas e suas din\u00e2micas organizacionais, concep\u00e7\u00f5es e formula\u00e7\u00f5es te\u00f3rica-metodol\u00f3gicas, tra\u00e7adas majoritariamente pelo olhar de homens. Destaco, neste sentido, como j\u00e1 no in\u00edcio da Antropologia, nas primeiras formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas evolucionistas, quando a mulher apareceu com algum protagonismo foi para comprovar a escala inferior onde a humanidade supostamente se encontrava, como nas hipot\u00e9ticas sociedades dominadas pelo matriarcado. Para os evolucionistas, o matriarcado teria existido em uma fase primeva da humanidade, quando, supostamente, ainda n\u00e3o se tinha conhecimento da reprodu\u00e7\u00e3o humana, e o pai, ao contr\u00e1rio da m\u00e3e, n\u00e3o podia ser identificado. A suposta incapacidade de identifica\u00e7\u00e3o do genitor masculino conferiria poder \u00e0s mulheres sobre os homens. Depois de Simone de Beauvoir sabemos que nunca existiram sociedades dominadas por mulheres.<\/p>\n<p>Todavia, essa no\u00e7\u00e3o equivocada sobre a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades humanas se reproduziu na Antropologia por quase um s\u00e9culo, assim como refletiu no distorcido olhar tra\u00e7ado sobre as organiza\u00e7\u00f5es das sociedades e dos seus n\u00facleos dom\u00e9sticos, que despolitizou o dom\u00e9stico, despolitizou a cozinha, atributos designados \u00e0s invis\u00edveis mulheres, m\u00e3es e esposas, separados do p\u00fablico, que era o lugar dos homens, da pol\u00edtica, do poder e das decis\u00f5es. O dom\u00e9stico entendido como t\u00e3o insignificante quanto o suposto papel da mulher. Entretanto, recentes estudos de etnologia ind\u00edgena, especialmente conduzidos por mulheres, apresentam o quanto as grandes decis\u00f5es, as articula\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas dos ind\u00edgenas se realizaram exatamente naqueles espa\u00e7os ent\u00e3o pensados como despolitizados, ao redor do fog\u00e3o, com a presen\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o das mulheres, quando n\u00e3o, estando elas no comando. Situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m encontramos nos estudos cl\u00e1ssicos sobre a chefia entre os ind\u00edgenas Guarani, que historicamente destacaram o papel dos homens frente \u00e0s representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, naturalizando as chefias como exclusivamente masculinas, que seriam asseguradas pelo privil\u00e9gio da poligamia do chefe e a produ\u00e7\u00e3o de excedentes por suas v\u00e1rias mulheres. No entanto, em um r\u00e1pido levantamento entre as comunidades Guarani encontramos um n\u00famero significativo delas comandas por mulheres, indicando que a presen\u00e7a feminina em cargos e na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 bem mais frequente do que os estudos etnol\u00f3gicos t\u00eam observado e registrado. Se olharmos para o cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional, temos ministra de Estado, deputada federal, al\u00e9m de v\u00e1rios cargos do alto escal\u00e3o do governo ocupados por mulheres ind\u00edgenas. Questionada sobre essa grande presen\u00e7a de mulheres na pol\u00edtica, a pr\u00f3pria ministra S\u00f4nia Guajajara tem ressaltado que elas sempre estiveram juntas, mas foram invisibilizadas pelo poder colonial da sociedade n\u00e3o-ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Assim, entendo que um dos principais desafios encontrados pelas mulheres na Antropologia iniciou precisamente com o enfrentamento \u00e0s essas formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que exclu\u00edam e desqualificavam os espa\u00e7os e pap\u00e9is ocupadas pelas mulheres, tanto nas realidades de suas pesquisas, quanto, obviamente, no cotidiano do trabalho. Nesse sentido, a conquista de mais espa\u00e7o das mulheres na Antropologia possibilitou tamb\u00e9m trazer esse olhar excludente, e em decorr\u00eancia contribuir para melhores formula\u00e7\u00f5es te\u00f3rica-metodol\u00f3gica e melhores compreens\u00f5es das sociedades e coletivos que estamos estudando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"apesar-dessas-presencas-importantissimas-na-antropologia-como-nas-demais-areas-das-conhecimento-cientifico-poucas-mulheres-tiveram-suas-contribuicoes-teoricas-e-etnograficas-reconhecidas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cApesar dessas presen\u00e7as important\u00edssimas, na Antropologia, como nas demais \u00e1reas das conhecimento cient\u00edfico, poucas mulheres tiveram suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e etnogr\u00e1ficas reconhecidas, predominando a sua exclus\u00e3o e invisibilidade.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A diversidade \u00e9 um pilar crucial para o avan\u00e7o da ci\u00eancia. Como a inclus\u00e3o de diferentes perspectivas, incluindo a presen\u00e7a feminina, enriquece e amplia as pesquisas em Antropologia? <\/strong><\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>Creio que parte da resposta a essa pergunta j\u00e1 adiantei na quest\u00e3o anterior. Na inclus\u00e3o de diferentes perspectivas que t\u00eam trazido contribui\u00e7\u00f5es significativas para a pesquisa antropol\u00f3gica eu destacaria tr\u00eas frentes. Primeiramente, os estudos feministas e de g\u00eanero, que evidenciaram e questionaram o vi\u00e9s masculino euroc\u00eantrico patriarcal nas formula\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas da Antropologia, al\u00e9m de trazerem uma profunda reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o corpo e a divis\u00e3o sexo\/g\u00eanero nas diferentes sociedades humanas. Essa reflex\u00e3o permitiu desnaturalizar a constru\u00e7\u00e3o do corpo e dos pap\u00e9is das mulheres na sociedade, e, em decorr\u00eancia dos demais. A partir de ent\u00e3o se constituiu um campo imenso e complexo de conhecimento, que n\u00e3o cabe aqui abordar, mas ressaltar a grande contribui\u00e7\u00e3o para uma virada epistemol\u00f3gica na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento antropol\u00f3gico. Se os estudos feministas trouxeram a necess\u00e1ria perspectiva da interseccionalidade com a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos sociais, os estudos de intelectuais negros e negras nos confrontaram com a interseccionalidade da no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a. Nos mostraram que as rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o estavam atravessadas apenas por quest\u00f5es de sexo\/g\u00eanero, como tamb\u00e9m a dimens\u00e3o racial se revelava fundamental para compreender seus conflitos e as desigualdades sociais. E, na terceira frente, mais recente, destacaria os estudos dos e das intelectuais ind\u00edgenas, que confrontaram as essencializa\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas e est\u00e3o trazendo novas epistemologias e possibilidades de di\u00e1logo de saberes e de tradi\u00e7\u00f5es de conhecimento. Estes intelectuais ind\u00edgenas t\u00eam trazido informa\u00e7\u00f5es oriundas de suas viv\u00eancias, de suas rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas e com a ancestralidade, com conhecimento da l\u00edngua, da cosmologia e da hist\u00f3ria profunda de seu povo, que t\u00eam oportunizado novas compreens\u00f5es que dificilmente um pesquisador n\u00e3o ind\u00edgena teria condi\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7ar. Muitos deles t\u00eam realizado cr\u00edticas revis\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica existente sobre seu povo, que, em muitos casos, desconsideraram conjunturas hist\u00f3ricas pelas quais tem passado. S\u00e3o hist\u00f3rias que podem n\u00e3o ter registro oficial, mas est\u00e3o na mem\u00f3ria do seu povo, dos anci\u00e3os que foram repassando.<\/p>\n<p>\u00c9 essa pluralidade de saberes e conhecimentos, cujo leque \u00e9 ainda muito maior do que estou ressaltando nesse momento, que a ci\u00eancia hegem\u00f4nica historicamente desqualificou e deslegitimou como conhecimento de direito, apagando-os ao conceb\u00ea-los como meros objetos de estudo. S\u00e3o formas de domina\u00e7\u00e3o e poder. A estes esfor\u00e7os para o apagamento dessa pluralidade de saberes, Sueli Carneiro tem chamado de processos de epistemic\u00eddio, os quais promovem a destitui\u00e7\u00e3o da racionalidade, da cultura e dos saberes de outros povos, e que constituem uma das formas mais eficazes e duradouras da domina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e racial. A deslegitima\u00e7\u00e3o de formas de conhecimento produzidas pelos grupos dominados tem como consequ\u00eancia l\u00f3gica a deslegitima\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de seus membros enquanto sujeitos de conhecimento e de direito. Portanto, \u00e9 importante ter presente que n\u00e3o apenas as mulheres foram apagadas ou silenciadas pela ci\u00eancia hegem\u00f4nica ocidental, mas tamb\u00e9m todos os outros modos de conhecimento destoantes dos c\u00e2nones oficiais do saber, e do poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-dos-principais-desafios-encontrados-pelas-mulheres-na-antropologia-iniciou-precisamente-com-o-enfrentamento-as-essas-formulacoes-teoricas-que-excluiam-e-desqualificavam-os-espacos-e-papeis\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUm dos principais desafios encontrados pelas mulheres na Antropologia iniciou precisamente com o enfrentamento \u00e0s essas formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que exclu\u00edam e desqualificavam os espa\u00e7os e pap\u00e9is ocupadas pelas mulheres.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A Antropologia desempenha um papel crucial na defesa dos direitos dos povos tradicionais. Como a disciplina contribui para o fortalecimento e prote\u00e7\u00e3o dos direitos, identidades e territ\u00f3rios desses povos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>De modo geral, a Antropologia tem proporcionado contribui\u00e7\u00f5es significativas para a compreens\u00e3o e defesa dos direitos territoriais ind\u00edgenas, tanto do ponto de vista te\u00f3rico conceitual, quanto de comprometimento \u00e9tico e pol\u00edtico. Entretanto, esse \u00e9 um processo relativamente recente, que come\u00e7ou a tomar forma a partir da d\u00e9cada de 1970 por aquelas chamadas \u201cAntropologias perif\u00e9ricas\u201d, como definiu Roberto Cardoso de Oliveira, como a Antropologia latino-americana e, especialmente, a brasileira, historicamente comprometida na defesa da vida e dos direitos ind\u00edgenas. S\u00e3o antropologias que pautaram severas cr\u00edticas aos c\u00e2nones hegem\u00f4nicos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento antropol\u00f3gico sobre os povos ind\u00edgenas, que os estudavam como fossem sistemas sociais isolados e a-hist\u00f3ricos, e n\u00e3o sofressem os efeitos dos processos da domina\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia impostos pelo projeto colonizador. Um dos marcos fundamentais para uma virada pol\u00edtica e epistemol\u00f3gica na Antropologia foi estabelecido pela chamada Declara\u00e7\u00e3o de Barbados, elaborada e publicada durante o \u201c<em>Simp\u00f3sio La fricci\u00f3n inter\u00e9tnica en Am\u00e9rica del Sur fuera de la regi\u00f3n andina\u201d<\/em>, realizado em Barbados em 1971, por um pequeno grupo de antrop\u00f3logos, com larga atua\u00e7\u00e3o entre os povos ind\u00edgenas de v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, entre os quais estavam tr\u00eas antrop\u00f3logos brasileiros: Darcy Ribeiro, Pedro Agostinho e Silvio Coelho dos Santos. Com base no dram\u00e1tico quadro de viol\u00eancias apresentado sobre a situa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas por todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, os antrop\u00f3logos em Barbados elaboraram a Declara\u00e7\u00e3o denunciando os processos de exterm\u00ednio e etnoc\u00eddio que continuavam em marcha por, ou com a coniv\u00eancia, dos governos dos estados nacionais, igrejas crist\u00e3s. Com severas cr\u00edticas aos ent\u00e3o vigentes c\u00e2nones do conhecimento antropol\u00f3gico, que seguiam ignorando esses contextos de viol\u00eancias e exterm\u00ednio que os povos ind\u00edgenas sofriam, a chamada Declara\u00e7\u00e3o de Barbados clamava por uma antropologia comprometida e atuante na defesa da vida e dos direitos dos povos ind\u00edgenas, e tamb\u00e9m assinalava para a urg\u00eancia de novos aportes te\u00f3rico-metodol\u00f3gicas que lan\u00e7assem luz sobre esses contextos e processos de domina\u00e7\u00e3o decorrentes do projeto colonial, e dos seus efeitos sobre as organiza\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas e culturais ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Da Declara\u00e7\u00e3o de Barbados aos dias atuais, muitos foram os seus desdobramentos, reapropria\u00e7\u00f5es, que talvez seja dif\u00edcil dimensionar a sua real import\u00e2ncia para a Antropologia que se produziu no Brasil desde ent\u00e3o, e para o seu engajamento na defesa dos povos ind\u00edgenas. Todavia, a Antropologia brasileira, especialmente atrav\u00e9s da <strong><a href=\"https:\/\/portal.abant.org.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA)<\/span>,<\/a><\/strong> tem tido um papel da maior import\u00e2ncia na defesa dos povos ind\u00edgenas e de seus direitos territoriais, al\u00e9m de uma larga e referendada produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-metodol\u00f3gica sobre o tema. N\u00e3o por menos, sofrer tantos ataques de setores de interesses anti-ind\u00edgenas no pa\u00eds. A sua evid\u00eancia e reconhecimento foram muito enfatizados no recente julgamento do marco temporal pela maioria dos ministros do STF. \u00c9 um movimento historicamente presente na Antropologia brasileira, que podemos facilmente identificar ao longo de sua exist\u00eancia, desde as mobiliza\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o do Parque Nacional do Xingu na d\u00e9cada de 1950, o primeiro territ\u00f3rio ind\u00edgena demarcado com objetivo expl\u00edcito de salvaguardar e proteger os ind\u00edgenas e seus modos de vida. Tamb\u00e9m mobilizou a sociedade brasileira nos anos 1970 para se opor ao Decreto do ent\u00e3o ministro do Interior Rangel Reis que, defendendo com uma suposta emancipa\u00e7\u00e3o da tutela para \u201c\u00edndios aculturados\u201d, pretendia liberar as terras ocupadas pelos ind\u00edgenas, de destitu\u00ed-los de sua condi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e, por conseguinte, dos direitos sobre seus territ\u00f3rios. Na d\u00e9cada de 1980, em torno da Assembleia Nacional Constituinte e das formula\u00e7\u00f5es do cap\u00edtulo sobre os direitos ind\u00edgenas, foi fundamental a atua\u00e7\u00e3o da ABA, que naquele momento era presidida por Manuela Carneiro da Cunha \u2014 que presidiu a ABA durante o processo. Entre 1985 e 1986, a ABA tamb\u00e9m firmou um acordo com a Procuradoria Geral da Rep\u00fablica para indicar profissionais antrop\u00f3logos, com forma\u00e7\u00e3o m\u00ednima em mestrado, para a realiza\u00e7\u00e3o de laudos periciais em processos ligados \u00e0s quest\u00f5es ind\u00edgenas. Com esse acordo buscou-se assegurar a qualidade t\u00e9cnica dos estudos antropol\u00f3gicos na elabora\u00e7\u00e3o destes laudos periciais relacionados aos direitos e problem\u00e1ticas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as formas de como o campo da antropologia tem dedicado esfor\u00e7os na defesa da vida e dos povos ind\u00edgenas no Brasil, e continua muito atuante atrav\u00e9s da sua <strong><a href=\"https:\/\/portal.abant.org.br\/category\/comissao-de-assuntos-indigenas\/\"><span style=\"color: #800000;\">Comiss\u00e3o de Assuntos Ind\u00edgenas (CAI\/ABA)<\/span>.<\/a><\/strong> H\u00e1 uma enorme bibliografia que pode ser consultada, tanto registrando quanto analisando a constitui\u00e7\u00e3o da Antropologia no Brasil e os seus v\u00e1rios embates em defesa dos direitos constitucionais dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"se-os-estudos-feministas-trouxeram-a-necessaria-perspectiva-da-interseccionalidade-com-a-nocao-de-genero-para-a-compreensao-dos-fenomenos-sociais-os-estudos-de-intelectuais-negros-e-negras-n\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSe os estudos feministas trouxeram a necess\u00e1ria perspectiva da interseccionalidade com a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos sociais, os estudos de intelectuais negros e negras nos confrontaram com a interseccionalidade da no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Da ideia de primitivismo ao atual protagonismo ind\u00edgena, como esses processos identit\u00e1rios, territ\u00f3rios e tradi\u00e7\u00f5es de conhecimento desses povos t\u00eam sido estudados na Antropologia? <\/strong><\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>Embora a no\u00e7\u00e3o do \u201cprimitivo\u201d, que constituiu o objeto de estudo da Antropologia em sua funda\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XIX, quando se definia como \u201cCi\u00eancia dos povos primitivos\u201d e se pensava em uma escala evolutiva as sociedades, ela continuou se reproduzindo de algum modo nas subsequentes teorias antropol\u00f3gicas que buscavam se contrapor do evolucionismo. Entendo, todavia, que o rompimento cr\u00edtico com essa no\u00e7\u00e3o passa a ocorrer mesmo a partir do momento que a antropologia incorporou o projeto colonial em suas investiga\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises, cujos precursores foram George Balandier e Max Gluckman, na Fran\u00e7a e Inglaterra respectivamente, em meados do s\u00e9culo XX. No Brasil, Roberto Cardoso de Oliveira, partindo da no\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00e3o colonial de Balandier, foi precursor ao trazer a no\u00e7\u00e3o de fric\u00e7\u00e3o inter\u00e9tnica para abordar os sistemas de domina\u00e7\u00e3o do colonialismo que continuava a se reproduzir no mundo ind\u00edgena no pa\u00eds, mesmo muito ap\u00f3s a coloniza\u00e7\u00e3o ter formalmente acabado. Ao trazer o projeto colonial dominador para compreender as conforma\u00e7\u00f5es sociais dos povos origin\u00e1rios, apesar de n\u00e3o terem enfocado, esses estudos deixaram espa\u00e7o para pensar os processos de resist\u00eancia destes povos frente aos processos de domina\u00e7\u00e3o colonial, das suas lutas e modos de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. No Brasil, este olhar ter\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o privilegiada pelo professor Jo\u00e3o Pacheco de Oliveira, que, ao focar os processos de mudan\u00e7as e resist\u00eancias dos povos ind\u00edgenas nos contextos de domina\u00e7\u00e3o, toma a terra, os territ\u00f3rios, como categoria anal\u00edtica central para, ent\u00e3o, lan\u00e7ar luz sobre todos estes modos de articula\u00e7\u00e3o e protagonismo ind\u00edgena mobilizados em sua defesa. A luta por seus territ\u00f3rios tem sido a principal motiva\u00e7\u00e3o das lutas dos povos ind\u00edgenas. E \u00e9 na defesa por seus territ\u00f3rios que reafirmam seus pertencimentos \u00e9tnicos e suas tradi\u00e7\u00f5es de conhecimento que se relacionam \u00e0quele espa\u00e7o territorial. A ministra dos Povos Ind\u00edgenas tem enfatizado em suas falas que a luta pela \u201cm\u00e3e-terra\u201d \u00e9 a \u201cm\u00e3e de todas as lutas\u201d. \u00c9 dessa luta que podemos compreender o protagonismo ind\u00edgena observamos recentemente, que sempre se fez presente na defesa de suas vidas, mas que no atual contexto pol\u00edtico tem ocupado espa\u00e7os cr\u00edticos em v\u00e1rias inst\u00e2ncias do alto escal\u00e3o das inst\u00e2ncias de poder no Brasil, seja no executivo, no Congresso, nas universidades. E o importante \u00e9 que esse protagonismo ind\u00edgena tem sido estudado tamb\u00e9m pelos intelectuais ind\u00edgenas, trazendo compreens\u00f5es muito elucidativas a partir das viv\u00eancias junto ao seu povo de origem. Intelectuais como Tonico Benites, Eloy Amado Terena, Gersem Baniwa, Jozileia Kaingang, Felipe Tux\u00e1, apenas para citar alguns, t\u00eam apresentado disserta\u00e7\u00f5es e teses refer\u00eancias para compreender os processos de luta e resist\u00eancia dos ind\u00edgenas, que muitos deles vivenciaram desde que eram crian\u00e7as. Ouviram e aprenderam com seus pais, av\u00f3s, anci\u00f5es que empreenderam estas mobiliza\u00e7\u00f5es pela defesa de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Quais s\u00e3o as principais amea\u00e7as enfrentadas pelos povos tradicionais atualmente, especialmente considerando o contexto do Brasil? <\/strong><\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>Os povos tradicionais, sejam ind\u00edgenas, quilombolas, cai\u00e7aras, povos que t\u00eam direitos territoriais coletivos, vivem um dos contextos mais amea\u00e7adores e violentos dos \u00faltimos tempos. Entre estes, com certeza os povos ind\u00edgenas s\u00e3o os principais afetados, com a intensifica\u00e7\u00e3o das invas\u00f5es \u00e0s terras ind\u00edgenas por todo o pa\u00eds, especialmente depois da elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, mas que tem persistido mesmo depois da mudan\u00e7a de governo. Conforme o\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/cimi.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/relatorio-violencia-povos-indigenas-2023-cimi.pdf\">Relat\u00f3rio anual sobre Viol\u00eancia Contra os Povos Ind\u00edgenas do Brasil do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI)<\/a><\/strong><\/span>, de 2023, por todo o pa\u00eds se registrou a continuidade das invas\u00f5es das terras ind\u00edgenas, altos \u00edndices de a\u00e7\u00f5es violentas, de assassinatos, suic\u00eddios e mortalidade na inf\u00e2ncia, al\u00e9m de explora\u00e7\u00e3o ilegal de recursos naturais e danos diversos \u00e0 sa\u00fade e ao patrim\u00f4nio, que ocorreram em pelo menos 202 territ\u00f3rios ind\u00edgenas, em 22 estados do Brasil. Um dos maiores problemas relacionados \u00e0 invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o ilegal de terras, como o desmatamento e o garimpo, que acarretam uma s\u00e9rie de problemas ambientais, como morte de animais e plantas, contamina\u00e7\u00e3o dos rios e de outros recursos que fazem parte da rotina de sobreviv\u00eancia dos povos ind\u00edgenas. Junte-se a este contexto de viol\u00eancia, os esfor\u00e7os do Congresso em aprovar o Projeto de Lei do chamado \u201cmarco temporal\u201d, para estabelecer que o direito ao territ\u00f3rio deve ser concedido apenas aos povos ind\u00edgenas que comprovarem que ocupavam suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, sem considerar os hist\u00f3ricos contextos de viol\u00eancia que for\u00e7aram remo\u00e7\u00f5es da maioria dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de flagrante inconstitucionalidade do Projeto de Lei do marco temporal, tamb\u00e9m \u00e9 preocupante a proposta da nova Lei de Licenciamento ambiental no Congresso, para flexibilizar a sua obten\u00e7\u00e3o, com at\u00e9 uma licen\u00e7a autodeclarat\u00f3ria. A proposta tamb\u00e9m afeta diretamente os ind\u00edgenas por excluir a an\u00e1lise de impactos diretos e indiretos e da ado\u00e7\u00e3o de medidas para prevenir eventuais danos causados pelos empreendimentos que ser\u00e3o implementados. Al\u00e9m de outro Projeto de Lei que afetar\u00e1 profundamente as terras ind\u00edgenas e as condi\u00e7\u00f5es de vida de suas comunidades \u00e9 o que visa permitir a minera\u00e7\u00e3o industrial e artesanal, a gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica, a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, e a agricultura em larga escala nas Terras Ind\u00edgenas, removendo o poder de veto dessas comunidades sobre as decis\u00f5es que impactam suas terras. Se aprovado, igualmente promover\u00e1 aumento do desmatamento, das invas\u00f5es de terras ind\u00edgenas e da viol\u00eancia contra esses povos. Enfim, como o professor Jo\u00e3o Pacheco de Oliveira tem assinalado, na \u00faltima d\u00e9cada foi se fechando um cerco contra os direitos territoriais ind\u00edgenas, em claros esfor\u00e7os de retirar os \u00faltimos fragmentos dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas que restam aos povos origin\u00e1rios deste pa\u00eds, para inseri-los no mercado de terra. A gan\u00e2ncia e a cobi\u00e7a em transformar cada cent\u00edmetro do que resta das terras ind\u00edgenas em uma mercadoria rent\u00e1vel seguem promovendo o genoc\u00eddio ind\u00edgena que se iniciou com o projeto colonizador, no s\u00e9culo XVI. Um verdadeiro holocausto, que acabou com praticamente 90% da sua popula\u00e7\u00e3o e se apropriou de 87% de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-dados-nos-mostram-que-os-territorios-dos-povos-tracionais-indigenas-ou-nao-sao-responsaveis-pela-protecao-de-um-terco-das-florestas-no-brasil\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cOs dados nos mostram que os territ\u00f3rios dos povos tracionais, ind\u00edgenas ou n\u00e3o, s\u00e3o respons\u00e1veis pela prote\u00e7\u00e3o de um ter\u00e7o das florestas no Brasil.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A defesa do meio ambiente \u00e9 crucial para a sobreviv\u00eancia desses povos. Como a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente \u00e9 crucial para a continuidade das tradi\u00e7\u00f5es e da vida dessas comunidades<\/strong>?<\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>Indiscutivelmente, no que se refere \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o ambiental, conserva\u00e7\u00e3o das florestas e das \u00e1guas, os povos ind\u00edgenas ocupam um papel central nas discuss\u00f5es, e certamente se destacam como os principais protagonistas. Todavia, eles t\u00eam um modo diferente de conceber essa problem\u00e1tica. Enquanto o que enxergamos como \u201cnatureza\u201d, como um ecossistema biol\u00f3gico, para os povos ind\u00edgenas \u00e9 compreendido como um ser sagrado, espiritual, que est\u00e1 habitado sendo conformado por m\u00faltiplas formas de vida que precisam ser respeitadas e tratadas com respeito. A muitos delas se deve obedi\u00eancia. Para os povos ind\u00edgenas, n\u00e3o apenas os humanos, mas tamb\u00e9m plantas, animais, minerais e mesmo esp\u00edritos s\u00e3o considerados sujeitos que pensam, sentem e agem e interagem no mundo, sujeitos com direitos a sua exist\u00eancia. O que a ci\u00eancia ocidental concebe como natureza, afastada do humano, do social, para os ind\u00edgenas estas dimens\u00f5es n\u00e3o se encontram separadas, nem dos seres espirituais. A concep\u00e7\u00e3o de vida, de mundo, de floresta, n\u00e3o passa por essas separa\u00e7\u00f5es dualistas entre natureza e cultura, como dom\u00ednios opostos. Em sua maioria se definem como um corpo-territ\u00f3rio, como corpo-bioma, corpo-semente. Os Guarani, por exemplo, compreendem-se como corpo-semente. Precisam, desse modo, de seus territ\u00f3rios, das terras por onde esse corpo-semente possa germinar, brotar, para seguir reproduzindo seus modos de exist\u00eancia. Um corpo que se constr\u00f3i em rela\u00e7\u00e3o com o ambiente, para o qual o equil\u00edbrio e a sa\u00fade est\u00e3o tamb\u00e9m diretamente atravessados por essa rela\u00e7\u00e3o com o ambiente.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir destas compreens\u00f5es que os ind\u00edgenas estabelecem as rela\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es com seu habitat, com os demais seres que nele se encontram, de onde tiram seu sustento, seu alimento, seus cuidados com a sa\u00fade, sendo compreendidos de acordo com suas cosmologias. Portanto, esse ambiente deve estar preservado, inteiro, para poderem ter um corpo saud\u00e1vel, uma vida saud\u00e1vel. Como os Ianomami, tamb\u00e9m entendem a floresta como um reposit\u00f3rio de conhecimentos e saberes. \u00c9 o importante alerta que Davi Kopenawa nos traz em suas andan\u00e7as por v\u00e1rias partes do mundo, ao publicar seu livro A Queda do C\u00e9u, denunciando o acelerado processo de destrui\u00e7\u00e3o ambiental que est\u00e3o sofrendo com a invas\u00e3o do garimpo ilegal em suas terras. Temem que com o fim das florestas os humanos sejam novamente aniquilados, como ocorreu nos primeiros tempos. Ele explica em seu livro que se as florestas acabarem, os rios v\u00e3o desaparecer, o ch\u00e3o vai se desfazer, as \u00e1rvores v\u00e3o murchar, as pedras v\u00e3o rachar e a terra ressecada ficar\u00e1 vazia e silenciosa. Os xapiri, seres que sustentam o c\u00e9u do alto das florestas, fugir\u00e3o para muito longe, e quando n\u00e3o houver mais nenhum deles para segurar o c\u00e9u, ele desabar\u00e1 sobre todos n\u00f3s. Por outros modos de conhecimento, elaborado com base em tradi\u00e7\u00f5es milenares, os Ianomami sabem muito bem que a destrui\u00e7\u00e3o ambiental, a destrui\u00e7\u00e3o das florestas, \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida no planeta. Para eles, de modo muito cruel, a destrui\u00e7\u00e3o ambiental que vivenciam no presente, provocada pelo garimpo ilegal em suas terras, tem sido a principal fonte das doen\u00e7as e das epidemias que t\u00eam dizimado comunidades inteiras. Semelhante situa\u00e7\u00e3o ocorre entre os Wixarica, no M\u00e9xico, que tamb\u00e9m sofrem com a minera\u00e7\u00e3o em seus territ\u00f3rios, em suas \u00e1reas de peregrina\u00e7\u00f5es sagradas. Os Wixarica tamb\u00e9m compreendem que esta explora\u00e7\u00e3o est\u00e1 arrancando o cora\u00e7\u00e3o do planeta e que, quando a minera\u00e7\u00e3o terminar de arrancar o cora\u00e7\u00e3o, o mundo morrer\u00e1, acabar\u00e1. Enfim, para estes povos que t\u00eam essas compreens\u00f5es e intera\u00e7\u00e3o com o mundo e os m\u00faltiplos seres que o habitam, e os exemplos e situa\u00e7\u00f5es poderiam se multiplicar, um ambiente conservado, com suas florestas, \u00e1guas e solos integro, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para reprodu\u00e7\u00e3o de seus modos de vida. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o para a continuidade da vida e das tradi\u00e7\u00f5es de conhecimentos desses povos. Lembrando ainda as palavras de Davi Kopenawa, quando ele diz que \u00e9 na floresta que a sabedoria vive; onde ela est\u00e1 guardada. Ele nos diz, muito sabiamente, que \u201csem a floresta n\u00e3o tem hist\u00f3ria; n\u00e3o tem pensamento de nada\u201d; \u00e9 o vazio. A hist\u00f3ria do povo Ianomami n\u00e3o se dissocia das florestas onde habitam. Ao que defendemos de \u201cconserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d, os Ianomami defendem como a conserva\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Al\u00e9m de ser essencial para a sobreviv\u00eancia dos povos tradicionais, por que \u00e9 importante defender essas comunidades e o meio ambiente para a sociedade em geral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>EMI &#8211; <\/strong>Como a ministra dos Povos Ind\u00edgenas, S\u00f4nia Guajajara, tem enfatizado em muitas de suas falas p\u00fablicas, os territ\u00f3rios ind\u00edgenas preservam 80% de toda a biodiversidade do planeta. S\u00e3o as \u00e1reas onde ocorre a menor taxa de desmatamento, onde as florestas e as \u00e1guas abrigam uma incalcul\u00e1vel diversidade de esp\u00e9cies vivas. Os dados nos mostram que os territ\u00f3rios dos povos tracionais, ind\u00edgenas ou n\u00e3o, s\u00e3o respons\u00e1veis pela prote\u00e7\u00e3o de um ter\u00e7o das florestas no Brasil, sendo que s\u00f3 terras ind\u00edgenas protegeram 20% do das florestas no pa\u00eds. Sem estas \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, certamente os efeitos da crise clim\u00e1tica que j\u00e1 estamos vivendo se agravar\u00e3o ainda mais, provocando mais secas, inunda\u00e7\u00f5es, ciclones e outros eventos em todo o pa\u00eds. E essa preserva\u00e7\u00e3o resulta n\u00e3o das leis de prote\u00e7\u00e3o ambiental impostas sobre eles, mas como resultado dos seus modos sustent\u00e1veis de usar e se relacionar como seu territ\u00f3rio, com o ambiente e seus recursos. Porque os povos ind\u00edgenas sempre usaram formas adequadas e manejo dos recursos naturais, cujas pr\u00e1ticas tendem n\u00e3o s\u00f3 a sua conserva\u00e7\u00e3o, mas, simultaneamente, a promo\u00e7\u00e3o da biodiversidade das esp\u00e9cies. J\u00e1 s\u00e3o muitas as pesquisas realizadas que t\u00eam apresentando evid\u00eancias de como a Floresta Amaz\u00f4nica foi moldada pelos esfor\u00e7os dos povos ind\u00edgenas, assim como de que as esp\u00e9cies predominantes da flora amaz\u00f4nica foram plantadas e cultivadas por seus habitantes origin\u00e1rios. As matas de arauc\u00e1rias, no sul do Brasil, um ecossistema que comp\u00f5e o bioma Mata Atl\u00e2ntica, tamb\u00e9m apresentam fortes evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas de que se constitu\u00edram como resultado da a\u00e7\u00e3o humana, como floresta antropog\u00eanica, cuja expans\u00e3o ocorreu cerca de 2000 anos atr\u00e1s, justamente quando ocorreu um crescimento das sociedades complexas e hier\u00e1rquicas na Am\u00e9rica do Sul. Al\u00e9m das florestas, o arque\u00f3logo Eduardo G\u00f3es Neves, com grande dom\u00ednio sobre o tema, nos mostra como a Amaz\u00f4nia foi um importante centro de domestica\u00e7\u00e3o de plantas, bem como do manejo de plantas n\u00e3o domesticadas. Ele tamb\u00e9m destaca as evid\u00eancias da intensifica\u00e7\u00e3o no cultivo de plantas, como a mandioca e o milho, ocorrendo simultaneamente aos primeiros sinais de produ\u00e7\u00e3o dos solos f\u00e9rteis e produtivos, tamb\u00e9m resultado do manejo humano, conhecidos como \u201cterras pretas de \u00edndio\u201d.<\/p>\n<p>Enfim, j\u00e1 temos muitos estudos assinalando este enorme conhecimento dos povos ind\u00edgenas sobres as florestas onde habitam e de suas pr\u00e1ticas de manejo das esp\u00e9cies que promoveram biomas com uma diversidade biol\u00f3gica extraordin\u00e1ria, sustent\u00e1vel, saud\u00e1vel. Quando os colonizadores chegaram aqui as florestas com sua admir\u00e1vel diversidade biol\u00f3gica eram densamente povoadas por popula\u00e7\u00f5es humanas. Foi o colonizador que come\u00e7ou a exaurir os seus recursos com uma intensa e devastadora explora\u00e7\u00e3o, e iniciou a sua devasta\u00e7\u00e3o, e tomou as dimens\u00f5es que conhecemos atualmente. A Mata Atl\u00e2ntica conta hoje com apenas 7% da sua cobertura original em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante notar o movimento que estes estudos apontam. Enquanto no passado as florestas se ampliaram na medida que povos ind\u00edgenas expandiam sua ocupa\u00e7\u00e3o territorial, como foi o caso da Amaz\u00f4nia, das matas de arauc\u00e1rias, das \u00e1reas de castanhais, etc., a chegada do colonizador foi promovendo exatamente o contr\u00e1rio, reduzindo sucessivamente as florestas \u00e0 medida que avan\u00e7ou a sua ocupa\u00e7\u00e3o. E esta dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o que acompanhamos tem levado ao desaparecimento sucessivo de uma variedade imensa de plantas e animais, a uma perda da biodiversidade com s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es para a reprodu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies, assim como da pr\u00f3pria vida. Assim que, vivenciando as recentes e dram\u00e1ticas cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, podemos afirmar com toda a seguran\u00e7a que dependemos desesperadamente da manuten\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas no Brasil. E retomo novamente as palavras da ministra do MPI, sem o cuidado dos ind\u00edgenas com o meio ambiente, a crise clim\u00e1tica se agravar\u00e1, provocando secas, inunda\u00e7\u00f5es, ciclones e outros eventos severos. Precisamos deste cuidado dos povos ind\u00edgenas, daqueles que historicamente manejaram e ampliaram as florestas que habitavam, para frear a escalada da destrui\u00e7\u00e3o do planeta que vivenciamos atualmente. De outro modo, como nos alerta Davi Kopenawa, o c\u00e9u cair\u00e1, desabar\u00e1, e ser\u00e1 sobre todos n\u00f3s, n\u00e3o s\u00f3 sobre os Ianomami. As densas fuma\u00e7as que se alastram por todo pa\u00eds nestes dias, produtos das queimadas criminosas praticadas em v\u00e1rias partes do Brasil, mostraram claramente o quanto pode estar pr\u00f3xima \u00e0 queda do c\u00e9u sobre as nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Edviges Marta Ioris, professora do Departamento de Antropologia da&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":7379,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7378"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7378"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7381,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7378\/revisions\/7381"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7379"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}