{"id":7441,"date":"2024-11-13T07:55:55","date_gmt":"2024-11-13T07:55:55","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7441"},"modified":"2024-11-12T11:38:53","modified_gmt":"2024-11-12T11:38:53","slug":"memorias-de-nossa-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7441","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de nossa m\u00e3e!"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"filhos-fazem-um-tributo-familiar-para-celebrar-centenario-de-johanna-dobereiner\"><span style=\"color: #808080;\">Filhos fazem um tributo familiar para celebrar centen\u00e1rio de Johanna D\u00f6bereiner<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A chegada ao Brasil em 1950 foi marcada por positivismo e a esperan\u00e7a de uma vida melhor. As lembran\u00e7as dos nossos pais, de perda, dor, fome e deslocamento, nos acompanharam por toda a vida. Muitas vezes mencionavam os tempos dif\u00edceis da guerra, mas sempre se mostravam eternamente gratos pela vida, pela acolhida no Brasil pelos brasileiros, pelo trabalho, pelas amizades e pelas experi\u00eancias vividas no km 47 da antiga Rio \u2014 S\u00e3o Paulo, no Campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).<\/p>\n<p>A paix\u00e3o de nossa m\u00e3e pelo trabalho sempre foi impressionante, era a sua prioridade. N\u00f3s, os filhos, aprendemos desde cedo a sermos independentes, pois naquela \u00e9poca v\u00edamos nossos pais apenas nas refei\u00e7\u00f5es e na hora de dormir. Durante nossa inf\u00e2ncia, contamos normalmente com a ajuda de bab\u00e1s alem\u00e3s, uma tia e antigas amizades da Pr\u00fassia Oriental para cuidar de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"tinhamos-muito-orgulho-dos-premios-que-ela-recebia-e-as-conversas-sobre-o-laboratorio-mantinham-a-ciencia-sempre-presente-em-nossas-vidas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cT\u00ednhamos muito orgulho dos pr\u00eamios que ela recebia, e as conversas sobre o laborat\u00f3rio mantinham a ci\u00eancia sempre presente em nossas vidas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em casa, a cozinha ficava a cargo das auxiliares, enquanto nossa m\u00e3e se dedicava \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o de geleias \u2014 de amora, laranja, pitanga e jabuticaba \u2014 e biscoitos de Natal. Ela raramente se envolvia nas demais tarefas dom\u00e9sticas. Nossas refei\u00e7\u00f5es eram momentos em fam\u00edlia, no caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e jantar. Com o tempo, os card\u00e1pios foram se adaptando \u00e0 culin\u00e1ria brasileira, pois as empregadas n\u00e3o se mantinham no emprego com pratos da sua terra natal.<\/p>\n<p>Nos momentos de lazer, nossa m\u00e3e adorava fazer croch\u00ea e tric\u00f4. Costurava todos os seus vestidos e os da Marlis tamb\u00e9m. Aos s\u00e1bados, \u00edamos \u00e0s compras no km 49 (Serop\u00e9dica) e depois no supermercado Casa Sendas, em Campo Grande. Quando sobrava tempo, visit\u00e1vamos o centro para comprar tecidos nas Casas Pernambucanas. No caminho ao s\u00edtio, par\u00e1vamos na loja japonesa em Itagua\u00ed para comprar ovos, frutas e legumes frescos. Os finais de semana frequentemente pass\u00e1vamos no S\u00edtio e Reserva Porangaba (RPPN) onde ela descansava e adorava levar os netos nas f\u00e9rias escolares. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-johanna-dobereiner-em-sua-casa-em-em-seropedica-interior-do-rio-de-janeiro-foto-arquivo-pessoal-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7443\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-192x300.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-192x300.jpg 192w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-656x1024.jpg 656w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-768x1198.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-985x1536.jpg 985w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-1313x2048.jpg 1313w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-800x1248.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1-1160x1810.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CC-4S24-opinia\u0303o-Memo\u0301rias-de-Nossa-Ma\u0303e-figura1.jpg 1314w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Johanna D\u00f6bereiner em sua casa em em Serop\u00e9dica, interior do Rio de Janeiro.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo pessoal. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossa m\u00e3e raramente tirava f\u00e9rias para si mesma. Fizemos uma viagem toda a fam\u00edlia acampando pelo oeste dos Estados Unidos, durante o seu Mestrado em Madison\/ Wisconsin no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Nos \u00faltimos nove anos de sua vida, passou o m\u00eas de janeiro com Marlis em Stellenbosch, na \u00c1frica do Sul. L\u00e1, al\u00e9m de curtir os netos, fomentava pesquisas e interc\u00e2mbios com as universidades locais e aproveitava para comprar belas l\u00e3s nos armarinhos.<\/p>\n<p>Ela adorava a praia e sempre voltava renovada ap\u00f3s um dia de sol em Itacuru\u00e7\u00e1, Praia Grande ou Grumari. Outra paix\u00e3o era descansar em sua rede, onde, ap\u00f3s o almo\u00e7o, passava cerca de 20 minutos ouvindo not\u00edcias no r\u00e1dio antes de voltar ao trabalho no laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, nossa m\u00e3e fez aulas de gin\u00e1stica com Dona Frida (boa amiga), ao som de piano ao vivo no Clube Social do km 47. Com o passar do tempo, ela passou a caminhar do laborat\u00f3rio at\u00e9 em casa, consciente da import\u00e2ncia de se manter ativa para preservar a sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-dos-premios-que-recebeu-financiou-a-compra-do-sitio-porangaba-perto-de-itaguai-onde-a-familia-se-reunia-para-almocos-e-conversas-nos-fins-de-semana-a-partir-de-1980\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUm dos pr\u00eamios que recebeu financiou a compra do S\u00edtio Porangaba, perto de Itagua\u00ed, onde a fam\u00edlia se reunia para almo\u00e7os e conversas nos fins de semana a partir de 1980.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A televis\u00e3o s\u00f3 chegou em nossa casa nos anos 1970, quando os filhos j\u00e1 haviam sa\u00eddo de casa. \u00c0 noite, ela assistia aos notici\u00e1rios enquanto fazia tric\u00f4 ou croch\u00ea, e depois revisava teses e trabalhos cient\u00edficos ao som de m\u00fasica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Nossa m\u00e3e tamb\u00e9m adorava viajar e participar de reuni\u00f5es, congressos e cerim\u00f4nias. De suas viagens, sempre trazia sementes e presentes ex\u00f3ticos, muitos dos quais ainda guardamos com carinho. T\u00ednhamos muito orgulho dos pr\u00eamios que ela recebia, e as conversas sobre o laborat\u00f3rio mantinham a ci\u00eancia sempre presente em nossas vidas.<\/p>\n<p>O Natal tinha uma import\u00e2ncia especial em nossa fam\u00edlia. Quando o anivers\u00e1rio de nossa m\u00e3e se aproximava, no dia 28 de novembro, sab\u00edamos que os preparativos come\u00e7ariam. A primeira tarefa era comprar nozes, castanhas e frutas secas na Rua da Alf\u00e2ndega, no Rio de Janeiro. Ela voltava de \u00f4nibus com grandes pacotes, contendo os ingredientes dos biscoitos que ajudava Papai Noel a preparar.<\/p>\n<p>Esses biscoitos eram feitos \u00e0 noite, e n\u00f3s, crian\u00e7as, adormec\u00edamos com o delicioso aroma de cravo, canela e noz-moscada no ar. A primeira leva de biscoitos tinha que estar pronta para o Dia de S\u00e3o Nicolau, em 6 de dezembro. Na v\u00e9spera, coloc\u00e1vamos as botas de papai na varanda da frente. Na manh\u00e3 seguinte, encontr\u00e1vamos biscoitos, frutas secas e, \u00e0s vezes, batatas, cenouras e pedras, caso n\u00e3o tiv\u00e9ssemos nos comportado bem. Havia tamb\u00e9m uma vara ao lado das botas, e precis\u00e1vamos nos comportar at\u00e9 o Natal para garantir nossos presentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sua-forca-de-vontade-de-trabalhar-no-laboratorio-persistiu-ate-o-fim-com-grande-apoio-de-colegas-e-ex-alunos-da-embrapa\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSua for\u00e7a de vontade de trabalhar no laborat\u00f3rio persistiu at\u00e9 o fim, com grande apoio de colegas e ex-alunos da Embrapa.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As festividades come\u00e7avam no dia 24 de dezembro, com o almo\u00e7o de sopa de lentilha com lingui\u00e7a. A \u00e1rvore de Natal era montada ap\u00f3s o almo\u00e7o, e \u00e0 noite vest\u00edamos sempre roupas novas. O jantar consistia em camar\u00e3o como entrada, peixe assado com alcaparras e batatas como prato principal, e a sobremesa era \u201c<em>Welfenspeise<\/em>\u201d. Ap\u00f3s o jantar, ouv\u00edamos can\u00e7\u00f5es natalinas, e ao som de um sininho, \u00e9ramos convidados a abrir os presentes.<\/p>\n<p>No dia 25, o caf\u00e9 da manh\u00e3 inclu\u00eda \u201c<em>Stollen<\/em>\u201d, e o almo\u00e7o era peru assado com \u201c<em>Kn\u00f6del<\/em>\u201d de ameixa e repolho roxo. At\u00e9 hoje, Marlis mant\u00e9m essas tradi\u00e7\u00f5es, adaptando-as \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es inglesas do marido, David.<\/p>\n<p>Nosso Ano Novo muitas vezes era celebrado na Ilha do Governador com os tios Werner e Glycia Kubelka e primos Claire, Beatriz e Paulo. Apesar da liberdade, sempre tivemos responsabilidades. Nossa m\u00e3e, relutante, acompanhava Marlis aos bailes e festinhas da universidade, pois as amigas s\u00f3 podiam ir se uma das m\u00e3es estivesse presente.<\/p>\n<p>Em 1974, nossa m\u00e3e costurou o vestido de noiva de Marlis na velha m\u00e1quina de costura \u201cElna\u201d. Esteve presente no nascimento de seus tr\u00eas netos, ajudando a cuidar de Stephan, Philip e Vivian. Um dos pr\u00eamios que recebeu financiou a compra do S\u00edtio Porangaba, perto de Itagua\u00ed, onde a fam\u00edlia se reunia para almo\u00e7os e conversas nos fins de semana a partir de 1980.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, nossa m\u00e3e passou por uma cirurgia na perna e mais tarde, por uma cirurgia de ponte de safena. Nos anos 1990, come\u00e7ou a se queixar de perda de mem\u00f3ria, agravada pela perda de nosso irm\u00e3o Lorenz em 1996. Nos \u00faltimos anos de sua vida, j\u00e1 n\u00e3o consegu\u00edamos ter as mesmas conversas, mas sua for\u00e7a de vontade de trabalhar no laborat\u00f3rio persistiu at\u00e9 o fim, com grande apoio de colegas e ex-alunos da Embrapa.<\/p>\n<p>Nossos pais sendo imigrantes, sempre valorizaram a nova vida que constru\u00edram no Brasil. Depois de tudo o que passaram durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi um verdadeiro para\u00edso para eles. Tornaram-se resilientes, sempre enfrentando os desafios com coragem e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-johanna-dobereiner-com-seu-marido-e-filhos-em-1957-foto-arquivo-pessoal-reproducao\"><strong>Capa. Johanna D\u00f6bereiner com seu marido e filhos em 1957.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo pessoal. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Filhos fazem um tributo familiar para celebrar centen\u00e1rio de Johanna D\u00f6bereiner &nbsp;&hellip;\n","protected":false},"author":256,"featured_media":7442,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7441"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7441"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7441\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7475,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7441\/revisions\/7475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}