{"id":7677,"date":"2024-12-18T08:00:44","date_gmt":"2024-12-18T08:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7677"},"modified":"2024-12-17T11:15:01","modified_gmt":"2024-12-17T11:15:01","slug":"autoritarismo-desinformacao-e-falta-de-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7677","title":{"rendered":"Autoritarismo, desinforma\u00e7\u00e3o e (falta) de democracia"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"a-democracia-deve-almejar-pluralidade-de-vozes-respeito-as-diferencas-e-o-bem-comum\"><span style=\"color: #808080;\">A democracia deve almejar pluralidade de vozes, respeito \u00e0s diferen\u00e7as e o bem comum<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A foto de capa Oitocentista sempre me chamou muita aten\u00e7\u00e3o. Ela foi feita no famoso est\u00fadio paulista de Milit\u00e3o Augusto de Azevedo, ainda nos tempos da escravid\u00e3o.<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p>Milit\u00e3o, que era formado em teatro e na fotografia, usou de sua primeira expertise para criar paisagens \u2014 tanto urbanas, como humanas, digamos assim. Em 1875, por conta do sucesso que foi alcan\u00e7ando, ele criou o est\u00fadio <em>Photographia Americana<\/em>, onde al\u00e9m de imortalizar figuras renomadas \u2014 como Luiz Gama e Pedro II \u2014 recebeu uma clientela sem grande passaporte ou galhardia, e at\u00e9 mesmo populares. Com um pre\u00e7o, ent\u00e3o, considerado razo\u00e1vel \u2014 5 mil reais, que equivalia a cinco passagens para o bairro vizinho da Penha \u2014 e contando com uma localiza\u00e7\u00e3o convidativa, j\u00e1 que seu com\u00e9rcio ficava em frente \u00e0 Igreja do Ros\u00e1rio, o neg\u00f3cio prosperou, com o pr\u00f3prio mercado fotogr\u00e1fico.<sup>[2]<\/sup><\/p>\n<p>Assim como acontece com v\u00e1rios arquivos fotogr\u00e1ficos, cuja hist\u00f3ria atravessa s\u00e9culos, muitos de seus retratados t\u00eam, hoje em dia, autoria reconhecida, outros n\u00e3o. Muitas imagens que o profissional captou s\u00e3o localiz\u00e1veis, outras viram seus nomes e endere\u00e7os serem apagados pela p\u00e1tina do tempo. Muitos desses documentos ganharam divulga\u00e7\u00e3o, outros ficaram retidos no arquivo do pr\u00f3prio profissional.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso da foto que abre esse artigo, sob a qual faltam todos os nomes e sobrenomes. J\u00e1 n\u00e3o sabemos quem \u00e9 o propriet\u00e1rio em quest\u00e3o, e tampouco conhecemos a hist\u00f3ria dos trabalhadores escravizados que aparecem retratados na foto, ladeando o seu senhor \u2014 o quais, se foram convocados para tal atividade, a eles n\u00e3o foi dado o arb\u00edtrio de aceitar ou n\u00e3o o convite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"vemos-por-convencao-e-assim-naturalizamos-o-que-nada-tem-de-natural-como-a-hierarquia-o-autoritarismo-e-a-propria-escravidao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cVemos por conven\u00e7\u00e3o e assim naturalizamos o que nada tem de natural, como a hierarquia, o autoritarismo \u2013 e a pr\u00f3pria escravid\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas algumas certezas podemos ter: que se trata de um documento que devolve uma grande representa\u00e7\u00e3o de hierarquia, e que a foto deve ter sido encomendada pelo senhor, que nela incluiu seus cativos como prova de riqueza e privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Tal evid\u00eancia pode ser confirmada a partir de grandes estruturas, mas tamb\u00e9m por meio de alguns detalhes, da maior relev\u00e2ncia. Ali\u00e1s, foi o historiador italiano, Carlo Ginzburg, quem introduziu a \u00e1rea da micro-hist\u00f3ria e criou uma metodologia para mostrar como \u00e9 poss\u00edvel trabalhar a partir de sinais e ind\u00edcios presentes nos documentos.<sup>[3]<\/sup><\/p>\n<p>Vemos por conven\u00e7\u00e3o e assim naturalizamos o que nada tem de natural, como a hierarquia, o autoritarismo \u2014 e a pr\u00f3pria escravid\u00e3o. Pois bem, voltemos a nossa foto inicial. A linguagem corporal nela presente j\u00e1 indica a desigualdade reinante. Em primeiro lugar, o senhor \u00e9 o \u00fanico que traz o traje completo \u2014 cal\u00e7a, jaquet\u00e3o, camisa branca e gravata-borboleta \u2014 diferen\u00e7a que se destaca sobretudo em compara\u00e7\u00e3o com as roupas mais remediadas dos demais. A cor do propriet\u00e1rio que encomendou a foto \u00e9 branca e seu cabelo e barba mais claros \u2014 numa esp\u00e9cie de refor\u00e7o de quem exerce o mando e tem o dom\u00ednio material e simb\u00f3lico da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o que distingue, para valer, o homem que est\u00e1 no centro da foto \u00e9 o fato dele estar ligeiramente \u00e0 frente dos outros, e, ademais, cal\u00e7ar sapatos, que surgem com muita evid\u00eancia de desigualdade, e ganham ainda maior relev\u00e2ncia ante a aus\u00eancia de cal\u00e7ados nos p\u00e9s dos demais \u2014 seus escravizados.<\/p>\n<p>Todavia, o segredo que essa foto guarda \u2014 e o que explica sua pouca divulga\u00e7\u00e3o na \u00e9poca \u2014 era interno (hoje em dia n\u00e3o soa bem um patr\u00e3o mostrar-se, dessa maneira, \u00e0 frente de seus escravizados), e t\u00e9cnico, tamb\u00e9m. Como era dif\u00edcil controlar o resultado de uma foto no formato alb\u00famen, pois a lente abria muito lentamente e acabava capturando qualquer movimento, cada um dos modelos expressou (inadvertidamente) uma rea\u00e7\u00e3o. O propriet\u00e1rio fez uma express\u00e3o s\u00e9ria, t\u00edpica de sua posi\u00e7\u00e3o, enquanto os escravizados mostraram todo tipo de gesto. O homem na extremidade direita, por exemplo, se mexeu e saiu borrado. Al\u00e9m disso, enquanto as duas outras pessoas da direita revelam passividade e resigna\u00e7\u00e3o diante do lugar que devem ocupar nessa representa\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o lhes diz respeito), a que est\u00e1 postada logo \u00e0 esquerda do senhor mostra contrariedade, com os bra\u00e7os cruzados. O registro guardou, por\u00e9m, a l\u00f3gica simb\u00f3lica dos sapatos. Mesmo sem nomes, \u00e9 tamb\u00e9m por conta dos cal\u00e7ados que divisamos quem tem ou n\u00e3o tem liberdade.<\/p>\n<p>O autoritarismo no Brasil \u00e9 fato do presente que nos vincula indelevelmente ao passado. \u00c9 poss\u00edvel dizer que ressoam no presente os tempos do passado, quando o Brasil era ainda uma col\u00f4nia portuguesa na Am\u00e9rica do Sul, e quando se naturalizaram hierarquias de mando e de subordina\u00e7\u00e3o. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-brasil-ainda-carrega-herancas-da-escravidao-e-do-colonialismo-como-o-racismo-estrutural-o-autoritarismo-e-a-desigualdadefonte-navio-negreiro-tela-de-johann-moritz-rug\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7679\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-300x180.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-768x461.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-1536x921.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-800x480.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1-1160x696.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Brasil ainda carrega heran\u00e7as da escravid\u00e3o e do colonialismo, como o racismo estrutural, o autoritarismo e a desigualdade<br \/>\n<\/strong>(Fonte: \u201cNavio negreiro\u201d, tela de Johann Moritz Rugendas, de 1830. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o sistema escravocrata, disseminado ao longo desse territ\u00f3rio de propor\u00e7\u00f5es continentais, supunha o poder de poucos e o dom\u00ednio de muitos. J\u00e1 o modelo latifundi\u00e1rio, determinava que o comando absoluto dos senhores de terra \u2014 o poder social, cultural, pol\u00edtico e religioso \u2014 criava uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada.\u00a0\u00a0 Tais modelos inauguraram estruturas de longa dura\u00e7\u00e3o, que possuem at\u00e9 hoje \u2014 guardadas as diferen\u00e7as regionais e contextuais \u2014 resson\u00e2ncia com mandonismos, clientelismos, o racismo, a misoginia e o machismo, profundamente naturalizados no cotidiano da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"e-possivel-chamar-atencao-para-como-o-autoritarismo-tem-crescido-nao-so-no-brasil-como-no-mundo-na-mesma-proporcao-da-desinformacao-promovida-por-governos-de-extrema-direita-e-pelo-uso-pouco\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201c\u00c9 poss\u00edvel chamar aten\u00e7\u00e3o para como o autoritarismo tem crescido n\u00e3o s\u00f3 no Brasil como no mundo, na mesma propor\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o promovida por governos de extrema-direita e pelo uso pouco cr\u00edtico das redes sociais.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Buarque de Holanda, quando lan\u00e7ou seu livro \u201c<em>Ra\u00edzes do Brasil\u201d,<\/em> em 1936, dizia que a democracia no Brasil n\u00e3o passava de um grande \u201cmal-entendido\u201d. Na \u00e9poca, ele vivia os impasses gestados pelo Estado Novo e dizia temer os autoritarismos de esquerda e de direita, referindo-se ao nazismo e ao stalinismo; perigos certeiros daquele momento. Mal sabia o historiador que com essa frase ele se tornava uma esp\u00e9cie de pitonisa nacional: at\u00e9 hoje no Brasil, democracia \u00e9 um mal-entendido, uma vez que n\u00e3o se aplica a todas as pessoas e amplamente.<\/p>\n<p>Afinal, igualdade \u00e9 um bem ainda caro num pa\u00eds que guarda a triste marca de ter sido o \u00faltimo a abolir a escravid\u00e3o mercantil, e de ser o 8\u00ba do mundo em termos de desigualdade e <em>gap<\/em> social. E nossa teimosa e perversa desigualdade se inscreve em muitas \u00e1reas, mas sobretudo na sa\u00fade, na seguran\u00e7a, no transporte, na moradia e na educa\u00e7\u00e3o. Pesquisas mostram, ali\u00e1s, como na\u00e7\u00f5es mais deseducadas tendem muitas vezes a se fiarem, mais facilmente, no canto da sereia do autoritarismo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo sentido, \u00e9 poss\u00edvel chamar aten\u00e7\u00e3o para como o autoritarismo tem crescido n\u00e3o s\u00f3 no Brasil como no mundo, na mesma propor\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o promovida por governos de extrema-direita e pelo uso pouco cr\u00edtico das redes sociais.<\/p>\n<p>Foi em 2016 que Donald Trump venceu a primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial utilizando os recursos digitais. O fen\u00f4meno era ent\u00e3o novo e causou espanto por conta do tamanho de sua repercuss\u00e3o e da capacidade que tinha de anular ou mitigar as demais institui\u00e7\u00f5es representativas, como a academia, e ve\u00edculos noticiosos: a imprensa televisionada, radiof\u00f4nica e escrita.<\/p>\n<p>Aquela elei\u00e7\u00e3o preparou terreno para a emerg\u00eancia de um novo paradigma, em que as fake news passaram a fazer parte de nosso cotidiano, e das campanhas e gest\u00f5es de v\u00e1rias pol\u00edticos e l\u00edderes internacionais e nacionais que sequestraram pautas e agendas democr\u00e1ticas, usando o emblema da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d. Mas liberdade de express\u00e3o, embora seja um direito fundamental, n\u00e3o \u00e9 \u201cilimitada\u201d, sobretudo quando envolve incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o, e propaganda de \u00f3dio.<\/p>\n<p>Por outro lado, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de democracia virou parte da contenda e um conceito em disputa. Isso quando n\u00e3o passou a ser definido como um regime desacreditado, por pol\u00edticos de ultradireita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nao-se-pode-afirmar-que-exista-republica-democracia-e-cidadania-plenas-em-uma-pais-tao-desigual-racista-machista-e-misogino-como-o-brasil\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cN\u00e3o se pode afirmar que exista rep\u00fablica, democracia e cidadania plenas em uma pa\u00eds t\u00e3o desigual, racista, machista e mis\u00f3gino como o Brasil.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas vale retomar as bases desta pr\u00e1tica que continua a ser fundamental para os regimes de base republicana. Como sabemos, democracia foi um conceito inventado em Atenas por volta de 510 a.C. Chamava-se, ent\u00e3o, <em>d\u0113mokratia<\/em>, palavra que significa \u201ccapacidade de se autogovernar entre os iguais\u201d. J\u00e1 na modernidade, democracia passou a designar \u201cpoder do povo\u201d, quando cidad\u00e3os comuns concedem partes limitadas dessa soberania para o indiv\u00edduo ou para o partido que governa, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es, mas concentra e n\u00e3o abre m\u00e3o dos seus demais direitos. Por conta disso, no\u00e7\u00f5es como igualdade e liberdade permitem distinguir governos democr\u00e1ticos daqueles que n\u00e3o o s\u00e3o, e formam os dois princ\u00edpios do regime.<\/p>\n<p>A democracia depende, em primeiro lugar, de institui\u00e7\u00f5es e de uma pr\u00e1tica democr\u00e1tica: elei\u00e7\u00f5es, partidos pol\u00edticos, constitui\u00e7\u00e3o, parlamento, justi\u00e7a. Em segundo, ela se apoia nas distin\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es equilibradas entre os poderes \u2014 Legislativo, Executivo, Judici\u00e1rio \u2014 e faz da igualdade de condi\u00e7\u00f5es entre eles o grande motor de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade moderna, reclamando e oferecendo transpar\u00eancia e visibilidade ao poder.<\/p>\n<p>Mas democracia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sistema baseado em institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 igualmente um modo de vida e uma forma de sociedade. N\u00e3o por coincid\u00eancia, os valores fundantes dos regimes democr\u00e1ticos s\u00e3o os direitos civis, as liberdades de ir e vir; de express\u00e3o; de associa\u00e7\u00e3o; de imprensa. Esses se encontram associados, por sua vez, ao direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o; de votar e ser votado, de contar com presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia at\u00e9 prova de culpa acima de d\u00favida razo\u00e1vel, e a julgamento justo.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<p>O regime carrega ainda uma esp\u00e9cie de ideal de extens\u00e3o; uma forma de franquia da cidadania que se orienta pelo crit\u00e9rio de inclus\u00e3o. Dessa maneira, a cidadania numa democracia deve incluir grande n\u00famero de pessoas, mantendo-se as diferen\u00e7as que existam entre elas, sejam de status, classe social, ra\u00e7a, etnia, g\u00eanero, sexo, religi\u00e3o, regi\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que a beleza da democracia est\u00e1 em sua incompletude, pois a agenda de direitos n\u00e3o cessa de ser ampliada a partir de novas demandas e grupos de press\u00e3o que fazem da defesa da diferen\u00e7a uma das virtudes deste regime.<\/p>\n<p>Pois bem, pensada nesses termos, democracia significa o oposto de autoritarismo e totalitarismo. Por outro lado, n\u00e3o se pode afirmar que exista rep\u00fablica, democracia e cidadania plenas em um pa\u00eds t\u00e3o desigual, racista, machista e mis\u00f3gino como o Brasil. Ou, como explica o historiador Jos\u00e9 Murilo de Carvalho nossa rep\u00fablica \u00e9 muito pouco democr\u00e1tica.<sup>[5]<\/sup><\/p>\n<p>Pretos e pardos, nos termos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), comp\u00f5em 56,1% da popula\u00e7\u00e3o brasileira; mesmo assim n\u00e3o compartilham de uma democracia onde a igualdade deveria reger princ\u00edpios e nortear pol\u00edticas. Segundo o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que avalia a renda dos brasileiros,\u00a0brancos ganham cerca de duas vezes mais que os negros no pa\u00eds.\u00a0 Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro e o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), indica que a desigualdade social ainda hoje afeta profundamente a popula\u00e7\u00e3o preta ou parda. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-desigualdade-e-uma-barreira-para-a-democraciafonte-tania-rego-agencia-brasil-agencia-brasil\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7680\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-300x179.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-300x179.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-1024x612.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-768x459.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-1536x917.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-800x478.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2-1160x693.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/CC-4E24-opinia\u0303o-figura-2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Desigualdade \u00e9 uma barreira para a democracia<br \/>\n<\/strong>(Fonte: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil. Ag\u00eancia Brasil)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua 2018, do IBGE, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas pretas ou pardas com rendimento inferior \u00e0s linhas de pobreza propostas pelo Banco Mundial foi maior que o dobro da propor\u00e7\u00e3o verificada entre as brancas. Em 2018, ainda, considerando a linha de 5,50 d\u00f3lares di\u00e1rios, a taxa de pobreza das pessoas brancas era de 15,4%, e 32,9% entre as pretas ou pardas.\u00a0 Segundo a mesma pesquisa, as desigualdades por cor ou ra\u00e7a revelam-se tamb\u00e9m nas condi\u00e7\u00f5es de moradia, seja na distribui\u00e7\u00e3o espacial dos domic\u00edlios, no acesso a servi\u00e7os ou ainda nas caracter\u00edsticas individuais das habita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds onde 43% de toda a renda est\u00e1 concentrada nas m\u00e3os de apenas 10% da popula\u00e7\u00e3o, reverter este cen\u00e1rio \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio quanto premente. Por mais que avan\u00e7os j\u00e1 tenham ocorrido, como, por exemplo, o fato de, pela primeira vez, existir mais pretos e pardos no ensino superior p\u00fablico no Brasil (s\u00e3o\u00a050,3% contra 49,7% brancos, segundo o IBGE), h\u00e1 ainda muito a mudar no sentido de tornar a Universidade ainda mais plural e inclusiva.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o negra que mais sofre com a viol\u00eancia. Segundo o IBGE, a taxa de homic\u00eddio entre jovens negros de 15 a 29 anos \u00e9 de 98,5 por 100 mil \u2014 entre os brancos, na mesma faixa et\u00e1ria, esse n\u00famero cai para 34. Al\u00e9m disso, no que se refere ao n\u00famero de pessoas mortas pela pol\u00edcia, a concentra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 gritante, sendo que o mesmo ocorre quando se quantifica o n\u00famero de pessoas que vivem nas nossas pris\u00f5es. E mais, o IBGE realizou pesquisa sobre o trabalho infantil em 2024 e a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 eloquente e paralela, com uma grande maioria dos casos incidindo sobre crian\u00e7as pretas. Estamos tratando, pois, n\u00e3o de minorias, mas de \u201cmaiorias minorizadas\u201d em todos os espa\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o e poder.<sup>[6]<\/sup><\/p>\n<p>A desigualdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 racial, \u00e9 \u00e9tnica \u2014 com os povos ind\u00edgenas ainda vivendo um duplo perecimento e morte: ou a chacina, ou a \u201cincorpora\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 sociedade, a qual, na maior parte das vezes, significa um assassinato cultural.<sup>[7]<\/sup> A desigualdade \u00e9 tamb\u00e9m de g\u00eanero e sexo, isso se contarmos com os n\u00fameros elevados de feminic\u00eddios, e o Brasil ocupando o vexaminoso 5\u00ba lugar no ranking mundial de assassinato de pessoas LGBTQ+, chegando a mais de um caso por dia.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o vem sendo revertida gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a dos movimentos sociais, que t\u00eam alterado essa agenda e tirado dela o v\u00e9u da naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o Brasil ser\u00e1 uma democracia se tiver, de fato, vozes plurais, se contar outras hist\u00f3rias, se combater firmemente o racismo e as v\u00e1rias formas de discrimina\u00e7\u00e3o, tiver mais minorias representativas nos locais de decis\u00e3o e postos de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naturalizar a desigualdade, evadir-se do passado, apoiar-se em eleitores parcialmente informados s\u00e3o caracter\u00edsticas de governos autorit\u00e1rios que, n\u00e3o raro, lan\u00e7am m\u00e3o de narrativas edulcoradas como forma de propaganda do Estado e para a propaga\u00e7\u00e3o de fake news.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o formas de deseduca\u00e7\u00e3o que v\u00eam sendo aplicadas, com relativo sucesso, entre n\u00f3s brasileiros, tamb\u00e9m. N\u00e3o s\u00e3o poucos deles que atacam o que chamam de \u201cidentitarismo\u201d; termo que, ali\u00e1s, j\u00e1 indica falta de informa\u00e7\u00e3o ou tentativa de caricaturar e desqualificar um debate t\u00e3o necess\u00e1rio como urgente. Afinal, o que estar por detr\u00e1s destes movimentos leg\u00edtimos s\u00e3o pol\u00edticas de identidade que se constituem em formas de luta por justi\u00e7a e igualdade de direitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe determinismo hist\u00f3rico, pois o passado nunca foi a \u00fanica fonte cr\u00edvel para entender o presente. Mas o certo \u00e9 que, no nosso caso, quando se discute democracia e autoritarismo, n\u00e3o h\u00e1 como esquecer o nosso \u201cpresente do passado\u201d. As amarras que carregamos e aquelas que vamos criando.<\/p>\n<p>A foto de meados do s\u00e9culo XIX, ainda ressoa, tal qual fantasma teimoso, nosso retrato em tr\u00eas quartos da atualidade.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 id=\"notas\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/h6>\n<h6 id=\"1-esse-artigo-e-baseado-na-primeira-parte-na-analise-que-fiz-para-o-meu-livro-imagens-da-branquitude-a-presenca-da-ausencia-sao-paulo-companhia-das-letras-2024-e-na-segunda-nos-dados-levantados\"><span style=\"color: #808080;\">[1] Esse artigo \u00e9 baseado na primeira parte na an\u00e1lise que fiz para o meu livro <em>Imagens da branquitude: a presen\u00e7a da aus\u00eancia<\/em> (S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2024) e na segunda nos dados levantados para meu livro <em>Sobre o autoritarismo brasileiro. <\/em>(S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2019)<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"2-vide-carvalho-vania-carneiro-de-lima-solange-ferraz-de-fotografia-no-museu-o-projeto-de-curadoria-da-colecao-militao-augusto-de-azevedo-anais-do-museu-paulista-historia-e-cultura-material\"><span style=\"color: #808080;\">[2] Vide, CARVALHO, V\u00e2nia Carneiro de; LIMA, Solange Ferraz de. Fotografia no Museu: o projeto de curadoria da cole\u00e7\u00e3o Milit\u00e3o Augusto de Azevedo.<em> Anais do Museu Paulista: Hist\u00f3ria e Cultura Material<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 5, n. 1, p. 205-245 , jan. 1997.\u00a0ARA\u00daJO, \u00cdris Morais. \u201cUm Espet\u00e1culo do \u201cProgresso\u201d Muito Particular: o \u00c1lbum Comparativo da Cidade de S\u00e3o Paulo (1862-1887), de Milit\u00e3o Augusto de Azevedo\u201d. Ponto Urbe &#8211; Revista do n\u00facleo de antropologia urbana da USP. N\u00ba 4, 2009.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"3-ginzbug-carlo-mitos-emblemas-e-sinais-sao-paulo-companhia-das-letras-2000\"><span style=\"color: #808080;\">[3] GINZBUG, Carlo. <em>Mitos, emblemas e sinais<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2000.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"4-para-o-conceito-de-democracia-vide-o-excelente-livro-de-starling-heloisa-ser-republicano-no-brasil-sao-paulo-companhia-das-letras-2018\"><span style=\"color: #808080;\">[4] Para o conceito de democracia vide o excelente livro de Starling, Heloisa. <em>Ser republicano no Brasil. <\/em>S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2018.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"5-jose-murilo-de-carvalho-nacao-e-cidadania-sao-paulo-civilizacao-brasileira-2007\"><span style=\"color: #808080;\">[5] Jose Murilo de Carvalho. <em>Na\u00e7\u00e3o e cidadania. <\/em> S\u00e3o Paulo, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. 2007.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"6-vide-santos-richard-maioria-minorizada-um-dispositivo-analitico-da-racialidade-telha-2020-e-schwarcz-lilia-imagens-da-branquitude-sao-paulo-companhia-das-letras-2024\"><span style=\"color: #808080;\">[6] Vide Santos, Richard. <em>Maioria minorizada: um dispositivo anal\u00edtico da racialidade. <\/em>Telha, 2020. E Schwarcz, Lilia. <em>Imagens da branquitude. <\/em>S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2024.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"7-cunha-maria-manuela-carneiro-da-historia-dos-indios-no-brasil-sao-paulo-companhia-das-letras-2018\"><span style=\"color: #808080;\">[7] Cunha, Maria Manuela Carneiro da. <em>Hist\u00f3ria dos \u00edndios no Brasil. <\/em>S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras. 2018.<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"capa-senhor-e-seus-escravos-de-militao-augusto-de-azevedofonte-s-d-albumen-63-x-83-cm-reproducao\"><strong>Capa. <em>Senhor e seus escravos, <\/em>de Milit\u00e3o Augusto de Azevedo<br \/>\n<\/strong>(Fonte: s.d. Alb\u00famen, 6,3 \u00d7 8,3 cm. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A democracia deve almejar pluralidade de vozes, respeito \u00e0s diferen\u00e7as e o&hellip;\n","protected":false},"author":25,"featured_media":7678,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7677"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7677"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7726,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7677\/revisions\/7726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}