{"id":7959,"date":"2025-03-13T07:30:37","date_gmt":"2025-03-13T07:30:37","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7959"},"modified":"2025-11-25T11:39:35","modified_gmt":"2025-11-25T11:39:35","slug":"a-sociedade-brasileira-foi-construida-a-partir-da-violencia-de-genero-e-de-raca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7959","title":{"rendered":"\u201cA sociedade brasileira foi constru\u00edda a partir da viol\u00eancia de g\u00eanero e de ra\u00e7a\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-givania-maria-da-silva-professora-sociologa-ativista-e-quilombola\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Giv\u00e2nia Maria da Silva, professora, soci\u00f3loga, ativista e quilombola<\/span><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Professora, soci\u00f3loga, ativista e quilombola, Giv\u00e2nia Maria da Silva construiu uma trajet\u00f3ria marcada pelo compromisso com a educa\u00e7\u00e3o e a luta por direitos. Doutora em Sociologia pela <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unb.br\/\"><strong>Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/strong><\/a><\/span> e coordenadora do Comit\u00ea Cient\u00edfico: Quilombos, Territorialidades e Saberes Emancipat\u00f3rios da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/abpn.org.br\/\"><strong>Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN)<\/strong><\/a><\/span>, Giv\u00e2nia da Silva tem uma atua\u00e7\u00e3o ampla, que passa pela pesquisa acad\u00eamica, a milit\u00e2ncia e a gest\u00e3o p\u00fablica. Foi vereadora, coordenadora de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de territ\u00f3rios quilombolas no Incra, secret\u00e1ria nacional de pol\u00edticas para comunidades tradicionais e consultora de organismos internacionais como a FAO e a ONU Mulheres. \u201cEu sempre tive a consci\u00eancia de que existia uma d\u00edvida social com o meu povo. O Estado n\u00e3o olhava para n\u00f3s, enquanto os fazendeiros tomavam nossas terras e apagavam nossa cultura\u201d, afirma. Apesar desse extenso curr\u00edculo, Giv\u00e2nia da Silva sempre se apresenta, antes de tudo, como educadora quilombola. \u201cSe n\u00e3o cuidarmos da educa\u00e7\u00e3o, nossos saberes v\u00e3o se apagar\u201d, enfatiza. Sua viv\u00eancia em Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas (PE) inspira sua vis\u00e3o sobre a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola como um processo que vai al\u00e9m da sala de aula, incluindo a mem\u00f3ria coletiva, os saberes tradicionais e a luta pelo territ\u00f3rio. \u201cSe n\u00e3o houver um compromisso real com a implementa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o quilombola, continuaremos perpetuando esse apagamento hist\u00f3rico\u201d, defende. Nesta entrevista, ela compartilha sua vis\u00e3o sobre os desafios e avan\u00e7os da educa\u00e7\u00e3o quilombola, a import\u00e2ncia da identidade e da resist\u00eancia e o papel da ci\u00eancia na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social. Confira!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Voc\u00ea pode nos contar um pouco sobre suas origens e a hist\u00f3ria do Quilombo Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Giv\u00e2nia Maria da Silva<\/strong> \u2013 Eu nasci e me criei num Quilombo chamado Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas. Esse Quilombo fica no Sert\u00e3o de Pernambuco, na regi\u00e3o do semi\u00e1rido do bioma da Caatinga. Eu costumo dizer mais recentemente que sou uma &#8220;Caatingueira&#8221;, porque sou desse bioma, nascida e criada l\u00e1. Minha comunidade foi fundada h\u00e1 mais de 200 anos por um grupo de mulheres que, certamente, fugiam em busca de liberdade e ali encontraram ref\u00fagio. A geografia do lugar ajudou, pois o Quilombo fica cercado por serras, o que deve ter sido estrat\u00e9gico para elas naquele momento. A hist\u00f3ria oral da comunidade conta que, ao chegarem, fundaram a comunidade, e logo depois chegou um homem trazendo uma imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o. Elas ent\u00e3o fizeram uma promessa: se se tornassem donas daquele territ\u00f3rio \u2013 que, na nossa linguagem, eram tr\u00eas l\u00e9guas em quadra \u2013 doariam um peda\u00e7o de terra para construir uma capela em homenagem a Nossa Senhora. Para pagar essa promessa, fiaram algod\u00e3o e venderam na cidade de Flores, uma das mais antigas de Pernambuco. Assim, em 15 de janeiro de 1802, tornaram-se donas daquela terra \u2013 em tese, porque o &#8220;t\u00edtulo&#8221; n\u00e3o era exatamente um t\u00edtulo formal, mas um documento que imaginamos ser um contrato de renda, foro ou algo do tipo. Constru\u00edram a capelinha, festejaram, e com o tempo, Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas virou um distrito maior do que o pr\u00f3prio territ\u00f3rio do Quilombo. Eu nasci nesse lugar, filha de uma artes\u00e3 e agricultora e de um agricultor. Minha m\u00e3e estudou apenas at\u00e9 a segunda s\u00e9rie, mas alfabetizava crian\u00e7as na comunidade. E eu me tornei professora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-casamento-mais-perfeito-que-ja-vi-foi-o-do-machismo-com-o-racismo-eles-se-casam-em-comunhao-total-de-bens\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO casamento mais perfeito que j\u00e1 vi foi o do machismo com o racismo. Eles se casam em comunh\u00e3o total de bens.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Como sua trajet\u00f3ria na educa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou e como voc\u00ea come\u00e7ou a refletir sobre a identidade quilombola?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Desde cedo, participei da Pastoral da Juventude e das Comunidades Eclesiais de Base, mas, na \u00e9poca, o debate racial ainda n\u00e3o era forte para n\u00f3s. Fal\u00e1vamos sobre liberta\u00e7\u00e3o, trabalhadores e mulheres, mas n\u00e3o sobre ra\u00e7a. Foi quando comecei a dar aulas na comunidade que as perguntas come\u00e7aram a surgir: por que nos chamamos Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas? Quem eram essas &#8220;crioulas&#8221;? Eu n\u00e3o sabia que era uma delas. A gente n\u00e3o fazia ideia. Se eu tivesse no\u00e7\u00e3o de pesquisa na \u00e9poca, teria registrado muito mais. A gente entrevistava pessoas mais velhas, ouvia hist\u00f3rias, anotava algumas datas, mas nada com um m\u00e9todo organizado. At\u00e9 1995, apenas eu, de toda essa hist\u00f3ria de mulheres e de pessoas da comunidade, tinha entrado na universidade. Foi nesse per\u00edodo que constru\u00edram uma escola de ensino fundamental na cidade, e eu me tornei a primeira diretora. Foi quando comecei a me questionar ainda mais: por que as pessoas estavam indo embora para S\u00e3o Paulo? Por que n\u00e3o havia mais terra para plantar ou construir casas? Eu queria entender tudo. Mas essa busca por respostas me tornou uma pessoa indesejada para os fazendeiros da regi\u00e3o. Vivi muito tempo sob amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m se envolveu com a pol\u00edtica. Como foi essa experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Sim, entrei para um partido, me candidatei e fui eleita vereadora tr\u00eas vezes. Mas s\u00f3 consegui assumir duas. Na \u00faltima vez, meus irm\u00e3os brincam que dormi eleita e acordei \u201cdes-eleita\u201d. Eu sempre tive a consci\u00eancia de que existia uma d\u00edvida social com o meu povo. O Estado n\u00e3o olhava para n\u00f3s, enquanto os fazendeiros tomavam nossas terras e apagavam nossa cultura. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 a terra que nos tiraram. Muitas mulheres quilombolas foram exploradas, engravidaram desses fazendeiros e de seus filhos, que depois as negavam completamente. Nasci em um contexto de muita explora\u00e7\u00e3o e desigualdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"mesmo-quando-nos-mulheres-trabalhamos-muito-e-produzimos-ciencia-seja-na-academia-nos-quilombos-nos-assentamentos-ou-nas-aldeias-nossa-producao-nunca-tem-o-mesmo-peso\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMesmo quando n\u00f3s, mulheres, trabalhamos muito e produzimos ci\u00eancia \u2014 seja na academia, nos quilombos, nos assentamentos ou nas aldeias \u2014 nossa produ\u00e7\u00e3o nunca tem o mesmo peso que a dos homens.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>E como a educa\u00e7\u00e3o quilombola se tornou parte do seu ativismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Eu me tornei professora com essa inquieta\u00e7\u00e3o de contar nossa hist\u00f3ria e buscar os rastros dela atrav\u00e9s dos saberes comunit\u00e1rios. Hoje chamamos isso de &#8220;educa\u00e7\u00e3o quilombola&#8221;, mas, na \u00e9poca, era um processo natural de valoriza\u00e7\u00e3o dos nossos conhecimentos. Atuei em v\u00e1rias frentes, fui educadora popular em projetos da igreja, vereadora em 2007 e tamb\u00e9m diretora da escola da comunidade. Como era a \u00fanica professora efetiva do quadro, era a \u00fanica que podia assumir a dire\u00e7\u00e3o. Aceitei o desafio sem saber exatamente o que estava fazendo. Mais tarde, quando entrei na universidade e fiz o mestrado, entendi que todas aquelas pr\u00e1ticas estavam fundamentadas em teorias. Mas, primeiro, vivemos a pr\u00e1tica, depois organizamos o conhecimento. Foi assim que contribu\u00edmos para a constru\u00e7\u00e3o das diretrizes da educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, que valorizam os saberes da comunidade: as rezas, o preparo da comida, a forma de cuidar da terra, o dia certo de plantar e colher, at\u00e9 mesmo os rituais como o corte de cabelo. Essas pr\u00e1ticas s\u00e3o, sim, ci\u00eancia \u2013 mesmo que, na \u00e9poca, n\u00e3o nos d\u00e9ssemos conta disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Como foi o processo de articula\u00e7\u00e3o com outras comunidades quilombolas pelo Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Em 1995, fundamos a <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/conaq.org.br\/\"><strong>Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)<\/strong><\/a><\/span>. Foi um momento em que come\u00e7amos a ouvir quilombolas de outros estados e percebemos que nossa realidade n\u00e3o era uma exce\u00e7\u00e3o. Havia muitas semelhan\u00e7as entre os Quilombos, mesmo com diferen\u00e7as regionais. Muita gente acha que Quilombo foi s\u00f3 fuga, mas n\u00e3o foi. A fuga foi uma das estrat\u00e9gias. Houveram muitas outras formas de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia. Hoje, em 2025, podemos dizer que existem cerca de 8.000 comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil, algumas em territ\u00f3rios enormes, abrangendo mais de tr\u00eas munic\u00edpios. Em Porto Alegre, por exemplo, um dos espa\u00e7os mais valorizados da cidade \u00e9, na verdade, um Quilombo. H\u00e1 30 anos, isso seria impens\u00e1vel. Mas fomos avan\u00e7ando, ocupando espa\u00e7os e revelando hist\u00f3rias que estavam invisibilizadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m passou por momentos dif\u00edceis, especialmente com amea\u00e7as. Como isso afetou sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Em 2007, quando eu era vereadora, as amea\u00e7as contra mim aumentaram muito. Na \u00e9poca, a ex-ministra Matilde Ribeiro me disse: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai morrer aqui\u201d. Tinha acabado de acontecer o assassinato de uma prefeita do Mato Grosso do Sul, que vinha denunciando amea\u00e7as e ningu\u00e9m fez nada. Quando os fazendeiros amea\u00e7avam algu\u00e9m, aquilo era muito s\u00e9rio. Matilde Ribeiro insistiu para que eu fosse embora e, mesmo contra minha vontade, fui para Bras\u00edlia. Assumi uma secretaria no governo e foi um grande desafio, mas tamb\u00e9m uma oportunidade. Voltei para a universidade, fiz o mestrado na UnB e sistematizei minha experi\u00eancia de forma cient\u00edfica. Passei a publicar e participar ativamente desse movimento de valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o quilombola. Sa\u00ed da oralidade da experi\u00eancia para consolidar esse conhecimento como pesquisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"e-essencial-que-os-saberes-dos-indigenas-quilombolas-e-mulheres-sejam-incorporados-ao-fazer-cientifico-nao-como-elementos-secundarios-mas-como-parte-essencial-da-producao-do-conhecimento\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201c\u00c9 essencial que os saberes dos ind\u00edgenas, quilombolas e mulheres sejam incorporados ao fazer cient\u00edfico, n\u00e3o como elementos secund\u00e1rios, mas como parte essencial da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Quais s\u00e3o os maiores desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o? Por que ainda \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil para mulheres, especialmente mulheres negras e quilombolas, acessarem o ensino superior, ingressarem na ci\u00eancia e percorrerem todo o caminho que voc\u00ea trilhou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS &#8211;<\/strong> H\u00e1 um trecho na minha tese em que digo que o casamento mais perfeito que j\u00e1 vi foi o do machismo com o racismo. Eles se casam em comunh\u00e3o total de bens, no sentido da domina\u00e7\u00e3o. Por que digo isso? \u00c0s vezes brinco que, quando as pessoas v\u00e3o escrever sobre quilombos, parece que imaginam um lugar uniforme, como uma bola homog\u00eanea. Elas estranham quando chegam ao quilombo e encontram diverg\u00eancias. Muitas vezes, me dizem: <em>\u201cGosto muito do seu quilombo, ele \u00e9 muito organizado\u201d<\/em>. E eu fico pensando: <em>\u201cMas quem te falou isso?\u201d<\/em> O que \u00e9 organizado e o que n\u00e3o \u00e9? E organizado para quem? As mulheres, de forma geral, e as mulheres quilombolas, de onde eu falo, exercem um papel pol\u00edtico incr\u00edvel dentro das comunidades. Mas por que sabemos t\u00e3o pouco sobre elas? Falamos de Dandara, mas quase nada sabemos sobre ela \u2014 apenas a mencionamos associada a Zumbi. Se tirarmos Zumbi de perto de Dandara, ningu\u00e9m sabe quem ela foi. Sabemos pouco sobre Maria Firmina, muito pouco sobre Tereza de Benguela, pouco sobre as mulheres de Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas, e menos ainda sobre tantas outras cujos nomes sequer conhecemos. Esse, para mim, \u00e9 o grande caos do apagamento da hist\u00f3ria das mulheres: n\u00e3o s\u00f3 perdemos suas hist\u00f3rias, mas tamb\u00e9m o direito de saber seus nomes. Ningu\u00e9m sabe quem foi tia Tuca, porque nunca ningu\u00e9m escreveu o nome dela. Ser\u00e1 que era Francisca? Agostinha? Ser\u00e1 que \u00e9 por isso que hoje h\u00e1 uma intriga com a escrita? Essa suposta neutralidade de colocar apenas \u201cSilva\u201d, por exemplo\u2026 Eu sou Silva. Mas se eu e o Lula escrevermos um texto, ser\u00e1 a mesma coisa: <em>Silva, 2025<\/em> e <em>Silva, 2025<\/em>. Lula tamb\u00e9m \u00e9 Silva, entendeu? Fazer ci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 iluminar essa hist\u00f3ria, dar nome \u00e0s coisas, \u00e0s pessoas, aos lugares. Eu brinco que meu nome \u00e9 Giv\u00e2nia Maria da Silva e, ao pensar nas iniciais <em>GMS<\/em>, pode parecer marca de moto ou pe\u00e7a de carro. Mas eu gosto de ser chamada pelo nome completo. Ningu\u00e9m me esconda. Eu n\u00e3o quero esconder o que digo, porque digo aquilo em que acredito. Nos quilombos, repete-se o que acontece no restante da sociedade. Se olharmos para a presid\u00eancia das associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, a grande maioria dos cargos \u00e9 ocupada por homens. Mas, se olharmos para o trabalho efetivo, n\u00e3o s\u00e3o os homens que o realizam. Desde a funda\u00e7\u00e3o dos quilombos at\u00e9 hoje, as iniciativas s\u00e3o lideradas por mulheres. No entanto, a lideran\u00e7a comunit\u00e1ria ainda \u00e9 predominantemente masculina. Isso evidencia um dom\u00ednio masculino do qual os quilombolas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o isentos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a sobrecarga do racismo. Por isso digo que machismo e racismo se casaram em comunh\u00e3o total de bens: o machismo faz com que o trabalho das mulheres \u2014 independentemente de classe social ou etnia \u2014 tenha menos valor do que o dos homens. Dentro da academia, as mulheres trabalham tanto quanto os homens, mas s\u00e3o os trabalhos deles s\u00e3o mais citados. Cad\u00ea as mulheres? Cad\u00ea os cl\u00e1ssicos escritos por mulheres? Quem s\u00e3o os cl\u00e1ssicos? Poucas mulheres entram nessa categoria, e mulheres negras, menos ainda. A sociedade brasileira foi constru\u00edda a partir da viol\u00eancia de g\u00eanero e de ra\u00e7a. Isso persiste at\u00e9 hoje, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo. E, mesmo quando n\u00f3s, mulheres, trabalhamos muito e produzimos ci\u00eancia \u2014 seja na academia, nos quilombos, nos assentamentos ou nas aldeias \u2014 nossa produ\u00e7\u00e3o nunca tem o mesmo peso que a dos homens. Para mim, o problema est\u00e1 nesses dois componentes: o machismo casado, de forma insepar\u00e1vel, com o racismo. As mulheres n\u00e3o negras enfrentam o machismo, mas escapam do racismo. J\u00e1 para n\u00f3s, mulheres negras, a carga \u00e9 dobrada.<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Em sua opini\u00e3o, quais pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o mais urgentes para garantir os direitos educacionais das comunidades quilombolas no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Vou come\u00e7ar pela Conaq. Quando nos reunimos em 1995, eu quase era a estrela do encontro \u2013 a quilombola de Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas, a professora que estava na universidade. Era a \u00fanica, porque n\u00e3o havia outras quilombolas autodeclaradas no ensino superior. Hoje, passados quase 30 anos, vemos que muitas pessoas que se autodeclaravam negras nunca tinham parado para olhar suas hist\u00f3rias. Na verdade, elas sa\u00edram de quilombos, mas o apagamento que sofremos na hist\u00f3ria \u00e9 muito cruel. Na \u00e9poca, quando sa\u00edmos desse primeiro encontro, que culminou na marcha dos 300 anos de Zumbi dos Palmares, escrevemos uma carta sistematizando o que aquelas pessoas \u2013 que, mesmo sem saber ler, tinham um vasto conhecimento \u2013 nos diziam: \u201cO livro did\u00e1tico n\u00e3o tem nossa hist\u00f3ria\u201d. Lembro da dona Proc\u00f3pio, que ainda est\u00e1 viva, dizendo: \u201cO livro que os Kalunga de Goi\u00e1s estudam n\u00e3o menciona o povo Kalunga. Os professores n\u00e3o conhecem a nossa hist\u00f3ria\u201d. O que entendemos a partir disso? Que o material did\u00e1tico n\u00e3o atendia \u00e0s especificidades dos quilombos, nem a forma\u00e7\u00e3o dos docentes. A Conaq nasceu com uma luta muito forte pelos direitos quilombolas, especialmente a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. Durante muito tempo, dediquei-me a essa pauta \u2013 trabalhei seis anos no Incra estruturando essa pol\u00edtica junto com a equipe. Mas a educa\u00e7\u00e3o sempre me inquietou. Se n\u00e3o cuidarmos da educa\u00e7\u00e3o, nossos saberes v\u00e3o se apagar. Se a educa\u00e7\u00e3o nos quilombos n\u00e3o for capaz de contar a hist\u00f3ria que ningu\u00e9m contou, em pouco tempo, as pessoas nascer\u00e3o nos quilombos sem saber por que lutam \u2013 e quem n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria, n\u00e3o luta por ela.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como a Conaq tem atuado para garantir que a educa\u00e7\u00e3o quilombola avance?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 A Conaq sempre entendeu que educa\u00e7\u00e3o e terra precisam andar juntas. Por isso, participamos de momentos hist\u00f3ricos, como a primeira elabora\u00e7\u00e3o do Plano Plurianual de 2003, onde os quilombolas foram reconhecidos como sujeitos de pol\u00edtica p\u00fablica. Tamb\u00e9m contribu\u00edmos para a constru\u00e7\u00e3o do programa Brasil Quilombola.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Quais avan\u00e7os voc\u00eas conseguiram alcan\u00e7ar a partir dessas iniciativas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Desde ent\u00e3o, temos participado de confer\u00eancias e conselhos, como a Confer\u00eancia Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CONAE) de 2010, que foi um divisor de \u00e1guas. Conseguimos que a confer\u00eancia reconhecesse a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola como uma modalidade de ensino e aprovasse a cria\u00e7\u00e3o de licenciaturas espec\u00edficas para formar professores quilombolas. Por\u00e9m, apesar de as diretrizes terem sido elaboradas e publicadas com nossa participa\u00e7\u00e3o, os cursos n\u00e3o avan\u00e7aram. As universidades n\u00e3o entenderam a import\u00e2ncia dessa forma\u00e7\u00e3o. Hoje, em 2023, temos apenas uma licenciatura em educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, na Universidade Estadual do Maranh\u00e3o. Nenhuma universidade federal abra\u00e7ou essa pauta.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Voc\u00ea acredita que estamos vivendo um novo momento para fortalecer essa luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Sim, acho que estamos diante de uma nova janela de oportunidade. Esse sopro de democracia nos permitiu retomar algumas conquistas. Trabalhei no governo por nove anos, mas percebi que posso contribuir muito mais de fora, lutando pelo que acredito. Atualmente, minha dedica\u00e7\u00e3o \u00e9 exclusiva \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Sou membro do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, o que tem um grande significado para mim, pois represento vozes que talvez nunca cheguem a esse espa\u00e7o. Fa\u00e7o parte do Coletivo Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, onde produzimos livros, realizamos cursos de forma\u00e7\u00e3o e mantemos uma escola nacional de forma\u00e7\u00e3o de meninas. Esse projeto tem apoio do Fundo Malala e buscamos outras organiza\u00e7\u00f5es para fortalecer essas iniciativas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como a quest\u00e3o fundi\u00e1ria se relaciona com a educa\u00e7\u00e3o quilombola?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS<\/strong> \u2013 Hoje, enxergo a regulariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quilombolas a partir de outra perspectiva. Precisamos garantir que a educa\u00e7\u00e3o e a terra caminhem juntas. Nossa luta agora \u00e9 para que a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola seja efetivamente implementada, com diretrizes estaduais e municipais bem estruturadas. As pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais sempre falam em combater desigualdades, mas precisamos enfrentar de fato onde elas est\u00e3o. Sabemos onde est\u00e3o as desigualdades, mas parece que temos medo de encar\u00e1-las. Se n\u00e3o houver um compromisso real com a implementa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o quilombola, continuaremos perpetuando esse apagamento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um poderoso instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social. Como a senhora v\u00ea o papel da educa\u00e7\u00e3o na luta antirracista e na promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS &#8211;<\/strong> A primeira coisa que digo \u00e9 que, quando entendermos que o machismo n\u00e3o \u00e9 um problema apenas das mulheres, e que ele tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exercido apenas pelos homens, daremos um passo importante. Da mesma forma, o racismo n\u00e3o afeta somente as pessoas negras, mas toda a sociedade. Ainda vivemos em um mundo onde as pessoas s\u00e3o divididas pelo tom de pele, e isso \u00e9 vergonhoso. O combate ao racismo e ao machismo precisa ser uma tarefa coletiva. O machismo mata mulheres, mas tamb\u00e9m mata e aprisiona homens. Enquanto acharmos que esses s\u00e3o problemas isolados, n\u00e3o encontraremos uma solu\u00e7\u00e3o real. Essa solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode vir de um \u00fanico olhar, especialmente da pesquisa acad\u00eamica que observa por poucos dias e depois se distancia. \u00c9 fundamental que a ci\u00eancia e a academia contem com os saberes e as viv\u00eancias de quem n\u00e3o apenas estudou o tema, mas vive essa realidade diariamente. As cotas, por exemplo, s\u00e3o uma luta hist\u00f3rica do movimento negro. Durante a revis\u00e3o da lei, a Conaq pressionou para que os quilombolas fossem reconhecidos como uma categoria espec\u00edfica, o que gerou resist\u00eancia de v\u00e1rios setores, incluindo o pr\u00f3prio movimento negro e parte da academia. Houve momentos em que quase desistimos, mas seguimos firmes e hoje temos um avan\u00e7o: nenhuma universidade pode abrir um curso sem destinar pelo menos uma vaga para quilombolas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo para garantir que essa inclus\u00e3o seja efetiva?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS &#8211;<\/strong> Agora, nossa luta \u00e9 ampliar essas vagas e garantir que os quilombolas n\u00e3o apenas entrem nas universidades, mas tenham condi\u00e7\u00f5es de permanecer e produzir conhecimento a partir de seus territ\u00f3rios. Como L\u00e9lia Gonzalez dizia, a mesa ainda n\u00e3o tem espa\u00e7o suficiente para todos, porque aqueles que chegaram antes n\u00e3o reorganizaram o espa\u00e7o de forma justa. O mesmo acontece nas universidades: conquistamos o acesso, mas ainda enfrentamos desafios para ocupar nosso lugar plenamente. A Conaq tem um papel fundamental nesse processo, n\u00e3o apenas denunciando desigualdades, mas garantindo que os quilombolas sejam reconhecidos, permane\u00e7am nas universidades, produzam conhecimento e tragam visibilidade para seus territ\u00f3rios. Nossa luta n\u00e3o \u00e9 apenas entrar na universidade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o ser ignorado dentro dela.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como garantir que os conhecimentos quilombolas sejam valorizados no meio acad\u00eamico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GMS &#8211;<\/strong> \u00c9 essencial que os saberes dos ind\u00edgenas, quilombolas e mulheres sejam incorporados ao fazer cient\u00edfico, n\u00e3o como elementos secund\u00e1rios, mas como parte essencial da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Precisamos combater o apagamento dessas perspectivas e garantir que sejam somadas ao conhecimento acad\u00eamico. Acredito firmemente que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho para a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e a supera\u00e7\u00e3o do racismo e do machismo. N\u00e3o consigo imaginar outro meio para avan\u00e7armos sem passar pela educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Giv\u00e2nia Maria da Silva, professora, soci\u00f3loga, ativista e quilombola&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":7960,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7959"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7959"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7962,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7959\/revisions\/7962"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}