{"id":7976,"date":"2025-03-26T07:30:13","date_gmt":"2025-03-26T07:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7976"},"modified":"2025-03-04T11:15:37","modified_gmt":"2025-03-04T11:15:37","slug":"juliano-moreira-o-pioneiro-da-psiquiatria-que-desafiou-o-racismo-cientifico-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=7976","title":{"rendered":"Juliano Moreira: O pioneiro da psiquiatria que desafiou o racismo cient\u00edfico no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"de-menino-negro-e-pobre-da-bahia-a-referencia-nacional-a-historia-de-um-medico-que-humanizou-tratamentos-e-desafiou-preconceitos-em-nome-da-ciencia\"><span style=\"color: #808080;\">De menino negro e pobre da Bahia a refer\u00eancia nacional, a hist\u00f3ria de um m\u00e9dico que humanizou tratamentos e desafiou preconceitos em nome da ci\u00eancia.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Juliano Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1872, em Salvador, Bahia, em uma sociedade marcada pela escravid\u00e3o e pelo racismo cient\u00edfico. Filho de Galdina Joaquina do Amaral, uma mulher negra que trabalhava como empregada dom\u00e9stica, e do portugu\u00eas Manoel do Carmo Moreira Junior, ele superou barreiras sociais para se tornar um dos maiores nomes da medicina brasileira. Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 14 anos e, aos 18, concluiu o curso com uma tese que j\u00e1 demonstrava sua vis\u00e3o inovadora.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-tese-revolucionaria\"><strong>Uma tese revolucion\u00e1ria<\/strong><\/h4>\n<p>Sua tese de formatura, \u201c<em>Etiologia da Syphilis Maligna Precoce\u201d<\/em>, trouxe abordagens in\u00e9ditas sobre a s\u00edfilis, doen\u00e7a que devastava popula\u00e7\u00f5es no final do s\u00e9culo XIX. O trabalho chamou a aten\u00e7\u00e3o internacional, marcando o in\u00edcio de uma carreira que revolucionaria a psiquiatria no Brasil. Inicialmente focado em dermatologia, Juliano Moreira aprofundou-se no campo da sa\u00fade mental, tornando-se pioneiro na introdu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas mais humanas no tratamento psiqui\u00e1trico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"desafios-e-confrontos-com-o-racismo-cientifico\"><strong>Desafios e confrontos com o racismo cient\u00edfico<\/strong><\/h4>\n<p>Durante sua forma\u00e7\u00e3o, Juliano Moreira teve como professor Raymundo Nina Rodrigues, um dos expoentes do racismo cient\u00edfico no Brasil. Raymundo Rodrigues defendia teorias de degeneresc\u00eancia racial que associavam a miscigena\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as mentais e outros males sociais. Juliano Moreira rejeitou essas ideias, posicionando-se contra a vis\u00e3o predominante de que caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas e comportamentais eram determinadas pela ra\u00e7a.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-juliano-moreira-quinto-da-esquerda-para-a-direita-entre-1896-e-1902-foto-arquivo-pessoal-de-fatima-vasconcelos-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7977\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-300x196.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-300x196.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-1024x669.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-768x501.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-1536x1003.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-800x522.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1-1160x757.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. <\/strong><strong>Juliano Moreira (quinto da esquerda para a direita), entre 1896 e 1902.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo pessoal de F\u00e1tima Vasconcelos. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Juliano Moreira argumentava que doen\u00e7as mentais estavam ligadas a fatores como alcoolismo, s\u00edfilis, condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias prec\u00e1rias e falta de educa\u00e7\u00e3o, combatendo a ideia de que climas tropicais ou misturas raciais causavam degenera\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o tenha questionado diretamente a teoria da degeneresc\u00eancia como um todo, seu trabalho trouxe uma perspectiva mais cient\u00edfica e menos preconceituosa, enfrentando o racismo disfar\u00e7ado de ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"humanizando-o-tratamento-psiquiatrico\"><strong>Humanizando o tratamento psiqui\u00e1trico<\/strong><\/h4>\n<p>Entre 1895 e 1902, Juliano Moreira realizou estudos e est\u00e1gios em diversos pa\u00edses da Europa, onde conheceu teorias e pr\u00e1ticas avan\u00e7adas em psiquiatria. Ao retornar ao Brasil, implementou mudan\u00e7as significativas no modelo de atendimento aos pacientes psiqui\u00e1tricos. Ele aboliu pr\u00e1ticas desumanas como o uso de camisas de for\u00e7a e grades nas janelas, criou oficinas terap\u00eauticas e incorporou a m\u00fasica como parte do tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"aprofundou-se-no-campo-da-saude-mental-tornando-se-pioneiro-na-introducao-de-praticas-mais-humanas-no-tratamento-psiquiatrico\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cAprofundou-se no campo da sa\u00fade mental, tornando-se pioneiro na introdu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas mais humanas no tratamento psiqui\u00e1trico.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Hosp\u00edcio S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, na Bahia, inaugurou o Pavilh\u00e3o Seabra, equipado com oficinas de trabalho que promoviam a recupera\u00e7\u00e3o dos pacientes e lhes forneciam uma fonte de renda. Sua abordagem integrativa e emp\u00e1tica foi revolucion\u00e1ria, tornando-se refer\u00eancia para gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"reconhecimento-e-legado\"><strong>Reconhecimento e legado<\/strong><\/h4>\n<p>Mesmo enfrentando preconceitos, Juliano Moreira teve uma carreira brilhante. Foi o primeiro negro a ser eleito membro da Academia Nacional de Medicina e patrono da cadeira 57. Al\u00e9m disso, seu nome batiza institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade em reconhecimento \u00e0s suas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"seu-trabalho-trouxe-uma-perspectiva-mais-cientifica-e-menos-preconceituosa-enfrentando-o-racismo-disfarcado-de-ciencia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSeu trabalho trouxe uma perspectiva mais cient\u00edfica e menos preconceituosa, enfrentando o racismo disfar\u00e7ado de ci\u00eancia.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2001, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia criou o Pr\u00eamio Juliano Moreira, destinado a estudantes que se destacam em atividades de extens\u00e3o. Seu trabalho \u00e9 preservado no Memorial Juliano Moreira, localizado em Salvador, que tamb\u00e9m busca manter viva sua mem\u00f3ria e legado.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-hospital-juliano-moreira-e-referencia-em-saude-mental-em-salvador-foto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-7978\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2-300x252.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2-300x252.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2-768x645.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2-14x12.jpg 14w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2-800x672.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JM-2.jpg 850w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Hospital Juliano Moreira \u00e9 refer\u00eancia em sa\u00fade mental em Salvador.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Juliano Moreira faleceu em 2 de maio de 1933, em Petr\u00f3polis, v\u00edtima de tuberculose. Sua trajet\u00f3ria, entretanto, permanece um exemplo de resist\u00eancia, ci\u00eancia e humanidade. Sua luta contra o racismo cient\u00edfico e seu pioneirismo na psiquiatria s\u00e3o pilares para entender a import\u00e2ncia de pr\u00e1ticas cient\u00edficas fundamentadas no respeito e na \u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De menino negro e pobre da Bahia a refer\u00eancia nacional, a hist\u00f3ria&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":7979,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7976"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7976"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7981,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7976\/revisions\/7981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}