{"id":8262,"date":"2025-05-28T07:30:50","date_gmt":"2025-05-28T07:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8262"},"modified":"2025-05-06T12:49:50","modified_gmt":"2025-05-06T12:49:50","slug":"cerrado-tesouro-de-biodiversidade-e-ciencia-em-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8262","title":{"rendered":"Cerrado: tesouro de biodiversidade e ci\u00eancia em risco"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"pesquisas-inovadoras-e-desafios-do-bioma-ameacado-revelam-o-potencial-medicinal-e-os-impactos-do-desmatamento-acelerado\"><span style=\"color: #808080;\">Pesquisas inovadoras e desafios do bioma amea\u00e7ado revelam o potencial medicinal e os impactos do desmatamento acelerado.<\/span><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O Cerrado, uma das regi\u00f5es de maior diversidade biol\u00f3gica do planeta, \u00e9 tamb\u00e9m um vasto laborat\u00f3rio natural ainda pouco explorado cientificamente. Al\u00e9m de sua import\u00e2ncia ecol\u00f3gica, esse bioma oferece um universo de possibilidades para a pesquisa e a inova\u00e7\u00e3o. Na Faculdade UnB Ceil\u00e2ndia (FCE), cientistas do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.lcbnano.com\/\">Laborat\u00f3rio de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas e Nanotecnologia (LCBNano)<\/a><\/strong><\/span>, sob a lideran\u00e7a da professora Graziella Joanitti, v\u00eam transformando essa riqueza natural em solu\u00e7\u00f5es para a sa\u00fade humana. Utilizando nanotecnologia, o grupo investiga as propriedades de \u00f3leos extra\u00eddos de plantas t\u00edpicas do Cerrado, como pequi, buriti e andiroba, manipulando-os em escala nanom\u00e9trica.<\/p>\n<p>Apesar de sua import\u00e2ncia, o Cerrado \u2014 segundo maior bioma brasileiro, com cerca de 2 milh\u00f5es de km\u00b2 \u2014 enfrenta s\u00e9rios riscos. A vasta biodiversidade da regi\u00e3o, que abriga milhares de esp\u00e9cies de plantas e animais, vem sendo amea\u00e7ada pela substitui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas nativas por monoculturas, especialmente soja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ameacas-e-contradicoes\"><strong>Amea\u00e7as e contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>A expans\u00e3o agr\u00edcola \u00e9 hoje o principal vetor da devasta\u00e7\u00e3o do Cerrado. Uma ironia amarga, pois a pr\u00f3pria agricultura depende da natureza para prosperar \u2014 precisa de polinizadores, controle biol\u00f3gico de pragas, solos f\u00e9rteis e recursos h\u00eddricos abundantes. Enquanto a ci\u00eancia busca promover sa\u00fade e bem-estar, o Cerrado, que oferece mais de seis mil esp\u00e9cies vegetais e animais, sofre com o avan\u00e7o do desmatamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-flora-do-cerrado-com-raizes-cascas-oleos-e-folhas-e-utilizada-ha-seculos-por-povos-indigenas-e-comunidades-tradicionais-para-o-tratamento-de-enfermidades\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA flora do Cerrado, com ra\u00edzes, cascas, \u00f3leos e folhas, \u00e9 utilizada h\u00e1 s\u00e9culos por povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais para o tratamento de enfermidades.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo dados do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/inpe\/pt-br\/assuntos\/ultimas-noticias\/a-area-de-vegetacao-nativa-suprimida-no-bioma-cerrado-no-ano-de-2023-foi-de-11-011-70-km2\">Prodes Cerrado<\/a><\/strong><\/span>, entre agosto de 2022 e julho de 2023, mais de 11 mil km\u00b2 de vegeta\u00e7\u00e3o nativa foram perdidos, um aumento de 3% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Esse cen\u00e1rio \u00e9 agravado pela ocupa\u00e7\u00e3o desordenada e pelo uso intensivo da terra, comprometendo \u00e1reas cr\u00edticas para a preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e dos recursos naturais.<\/p>\n<p>O desmatamento afeta diretamente a qualidade do solo e a disponibilidade de \u00e1gua \u2014 elementos-chave para uma agricultura sustent\u00e1vel. Ao substituir a vegeta\u00e7\u00e3o nativa por monoculturas, perdemos diversidade biol\u00f3gica, tornando o ecossistema mais suscet\u00edvel a pragas, doen\u00e7as e desequil\u00edbrios ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"saberes-tradicionais-e-saude\"><strong>Saberes tradicionais e sa\u00fade<\/strong><\/h4>\n<p>A flora do Cerrado, com ra\u00edzes, cascas, \u00f3leos e folhas, \u00e9 utilizada h\u00e1 s\u00e9culos por povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais para o tratamento de enfermidades. Esses saberes, transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, ainda s\u00e3o pouco valorizados fora dessas comunidades, embora tenham enorme potencial terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Um estudo de 2009, intitulado <em>&#8220;Diversidade e uso de plantas medicinais por comunidades quilombolas Kalunga e urbanas no nordeste de Goi\u00e1s&#8221;<\/em>, da pesquisadora Nat\u00e1lia Prado Massarotto, identificou 358 esp\u00e9cies nativas empregadas por essas popula\u00e7\u00f5es para fins medicinais. A partir desses conhecimentos, foram desenvolvidos cerca de 90 rem\u00e9dios naturais \u2014 como ch\u00e1s, pomadas, tinturas, xaropes e garrafadas \u2014 produzidos com ingredientes coletados em \u00e1reas preservadas do bioma. Desde 2006, o governo federal reconhece oficialmente o uso de plantas medicinais como estrat\u00e9gia para melhorar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, fortalecer a agricultura familiar e gerar renda de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n<h6 id=\"barbatimao-foto-eurico-zimbres-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8263\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-1-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-1-225x300.jpeg 225w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-1-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-1-9x12.jpeg 9w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-1.jpeg 800w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><br \/>\n(Barbatim\u00e3o. Foto: Eurico Zimbres. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As plantas medicinais do Cerrado cont\u00eam compostos bioativos como flavonoides, taninos e \u00f3leos essenciais, que apresentam propriedades curativas comprovadas. O barbatim\u00e3o (<em>Stryphnodendron adstringens<\/em>) \u00e9 conhecido por sua forte a\u00e7\u00e3o adstringente e cicatrizante, sendo tradicionalmente utilizado no tratamento de feridas, cortes, queimaduras, inflama\u00e7\u00f5es na pele, mucosas e sistema digestivo, al\u00e9m de infec\u00e7\u00f5es bacterianas, f\u00fangicas e virais. Tamb\u00e9m \u00e9 empregado em casos ginecol\u00f3gicos, como infec\u00e7\u00f5es vaginais, e no al\u00edvio de hemorroidas devido \u00e0s suas propriedades anti-inflamat\u00f3rias. J\u00e1 o \u00f3leo de copa\u00edba (<em>Copaifera sp<\/em>.), extra\u00eddo do tronco da \u00e1rvore, destaca-se pelo efeito anti-inflamat\u00f3rio e analg\u00e9sico, sendo indicado para dores articulares, dist\u00farbios respirat\u00f3rios e cuidados com a pele \u2014 especialmente no controle da acne, regenera\u00e7\u00e3o de tecidos e combate a microrganismos.<\/p>\n<p>A sucupira (<em>Pterodon emarginatus \/ Pterodon pubescens<\/em>), por sua vez, \u00e9 amplamente usada para aliviar inflama\u00e7\u00f5es articulares, dores musculares e problemas respirat\u00f3rios, gra\u00e7as \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o analg\u00e9sica, antimicrobiana e antioxidante. A erva-baleeira (<em>Cordia verbenacea<\/em>) tamb\u00e9m \u00e9 valorizada por suas propriedades anti-inflamat\u00f3rias, cicatrizantes e expectorantes, sendo \u00fatil no tratamento de artrite, dores nas costas, bronquite e infec\u00e7\u00f5es de pele. J\u00e1 a pimenta-de-macaco (Piper aduncum) \u00e9 reconhecida por sua potente a\u00e7\u00e3o antimicrobiana e anti-inflamat\u00f3ria, sendo indicada no combate a bact\u00e9rias, fungos, parasitas e em processos inflamat\u00f3rios variados.<\/p>\n<h6 id=\"erva-baleeira-foto-marcia-stefani-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8264\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-2-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-2-16x12.jpeg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/cerrado-2.jpeg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n(Erva-baleeira. Foto: Marcia Stefani. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"pesquisa-e-resistencia\"><strong>Pesquisa e resist\u00eancia<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 dentro desse cen\u00e1rio que a pesquisa cient\u00edfica vem se tornando um ponto de resist\u00eancia. A diversidade de mol\u00e9culas presentes nas plantas do Cerrado, produzidas para defender as esp\u00e9cies ou atrair polinizadores, pode ser a chave para o desenvolvimento de novos medicamentos, cosm\u00e9ticos e at\u00e9 combust\u00edveis. J\u00e1 foram isolados cerca de 100 mil compostos de plantas que s\u00e3o usados em diversos produtos. Esse universo invis\u00edvel precisa ser protegido, pois agrega um valor imensur\u00e1vel \u00e0 nossa biodiversidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-diversidade-de-moleculas-presentes-nas-plantas-do-cerrado-pode-ser-a-chave-para-o-desenvolvimento-de-novos-medicamentos-cosmeticos-e-ate-combustiveis\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA diversidade de mol\u00e9culas presentes nas plantas do Cerrado pode ser a chave para o desenvolvimento de novos medicamentos, cosm\u00e9ticos e at\u00e9 combust\u00edveis.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pesquisas cient\u00edficas que surgem no cora\u00e7\u00e3o do Cerrado podem ser um ponto de virada para a preserva\u00e7\u00e3o desse bioma. Iniciativas como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/fapesp.br\/biota\/\">Programa Biota-FAPESP<\/a><\/strong><\/span> est\u00e3o mapeando e isolando compostos qu\u00edmicos com potencial medicinal e biotecnol\u00f3gico, com a miss\u00e3o de preservar a biodiversidade e ao mesmo tempo impulsionar a inova\u00e7\u00e3o. Esses esfor\u00e7os, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o suficientes se o desmatamento continuar a um ritmo alarmante. A uni\u00e3o entre ci\u00eancia e conserva\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9, portanto, uma das \u00fanicas formas de garantir que o Cerrado continue a ser um recurso sustent\u00e1vel para as futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"fonte-arquivo-agencia-brasil-reproducao\">(Fonte: Arquivo\/ Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pesquisas inovadoras e desafios do bioma amea\u00e7ado revelam o potencial medicinal e&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":8265,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8262"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8262"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8268,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8262\/revisions\/8268"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}