{"id":8670,"date":"2025-08-09T07:30:34","date_gmt":"2025-08-09T07:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8670"},"modified":"2025-08-07T10:38:10","modified_gmt":"2025-08-07T10:38:10","slug":"o-que-o-mundo-pode-aprender-com-os-povos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8670","title":{"rendered":"O que o mundo pode aprender com os povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"no-dia-internacional-dos-povos-indigenas-a-onu-propoe-um-debate-global-sobre-soberania-alimentar-preservacao-das-linguas-originarias-e-o-direito-a-autodeterminacao-como-caminhos-essenciais-para-o-fu\"><span style=\"color: #808080;\">No Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas, a ONU prop\u00f5e um debate global sobre soberania alimentar, preserva\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas origin\u00e1rias e o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o como caminhos essenciais para o futuro do planeta.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Celebrado em 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas \u00e9 mais do que uma data simb\u00f3lica. \u00c9 um chamado global \u00e0 escuta, ao respeito e \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Em 2025, o tema definido pelo F\u00f3rum dos Povos Ind\u00edgenas no FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agr\u00edcola) \u2014 \u201cO direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas: um caminho para a seguran\u00e7a e soberania alimentar\u201d \u2014 refor\u00e7a uma pauta urgente: os povos ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o apenas v\u00edtimas das crises clim\u00e1tica e alimentar, mas agentes fundamentais para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n<p>Com cerca de 476 milh\u00f5es de pessoas vivendo em mais de 90 pa\u00edses, os povos ind\u00edgenas representam menos de 6% da popula\u00e7\u00e3o mundial, mas falam mais da metade das l\u00ednguas vivas do planeta e det\u00eam vastos conhecimentos sobre agricultura, biodiversidade e adapta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Em tempos de colapso ambiental, n\u00e3o h\u00e1 futuro sustent\u00e1vel sem o reconhecimento da autonomia, dos saberes e dos direitos dessas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"autodeterminacao-e-soberania-alimentar-o-que-esta-em-jogo\"><strong>Autodetermina\u00e7\u00e3o e soberania alimentar: o que est\u00e1 em jogo<\/strong><\/h4>\n<p>O direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o \u2014 reconhecido pela Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas \u2014 garante que essas comunidades possam decidir livremente sobre seus modos de vida, uso dos territ\u00f3rios e recursos naturais. No entanto, esse direito ainda \u00e9 sistematicamente amea\u00e7ado por pol\u00edticas extrativistas, desmatamento, megaprojetos e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"onde-os-povos-em-isolamento-vivem-a-floresta-se-mantem-em-pe-proteger-suas-terras-e-proteger-o-futuro-do-planeta\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em> \u201cOnde os povos em isolamento vivem, a floresta se mant\u00e9m em p\u00e9. Proteger suas terras \u00e9 proteger o futuro do planeta.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o profunda entre cultura e alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos pilares dessa luta. Em muitas regi\u00f5es, os povos ind\u00edgenas praticam formas de agricultura sustent\u00e1vel \u2014 como a agrofloresta e a rota\u00e7\u00e3o de culturas \u2014 que preservam o solo, protegem a biodiversidade e garantem uma alimenta\u00e7\u00e3o diversificada e nutritiva. S\u00e3o pr\u00e1ticas resilientes, transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, que enfrentam desafios crescentes: inseguran\u00e7a alimentar, eros\u00e3o cultural, conflitos fundi\u00e1rios e eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>Soberania alimentar, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 apenas ter comida no prato \u2014 \u00e9 ter o controle sobre o que se planta, como se cultiva e para quem se destina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"povos-em-isolamento-os-guardioes-invisiveis-da-floresta\"><strong>Povos em isolamento: os guardi\u00f5es invis\u00edveis da floresta<\/strong><\/h4>\n<p>Em 2024, o tema escolhido pela ONU \u2014 \u201cProteger os direitos dos Povos Ind\u00edgenas em Isolamento Volunt\u00e1rio e Contato Inicial\u201d \u2014 trouxe \u00e0 tona uma realidade pouco conhecida: cerca de 200 grupos ind\u00edgenas vivem de forma volunt\u00e1ria afastados do mundo exterior, em florestas ricas em biodiversidade na Am\u00e9rica do Sul, \u00c1sia e Oceania. No Brasil, Peru, Col\u00f4mbia e Bol\u00edvia, essas comunidades habitam \u00e1reas remotas da Amaz\u00f4nia e t\u00eam sua sobreviv\u00eancia diretamente atrelada \u00e0 integridade do territ\u00f3rio.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-ticunasfoto-fapeam-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8672\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ticunas-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ticunas-300x199.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ticunas-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ticunas.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Ticunas<br \/>\n<\/strong>(Foto: FAPEAM. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para esses povos, qualquer contato externo pode ser letal \u2014 n\u00e3o apenas por choques culturais, mas pelo risco de contamina\u00e7\u00e3o por doen\u00e7as comuns no restante da popula\u00e7\u00e3o, para as quais n\u00e3o possuem imunidade. Ainda assim, suas terras seguem amea\u00e7adas por empreendimentos ilegais de minera\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio e turismo predat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o desses grupos n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de direitos humanos. \u00c9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o ecol\u00f3gica: onde os povos em isolamento vivem, a floresta se mant\u00e9m em p\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"linguas-indigenas-patrimonio-em-risco\"><strong>L\u00ednguas ind\u00edgenas: patrim\u00f4nio em risco<\/strong><\/h4>\n<p>Outro ponto central da agenda ind\u00edgena global \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas origin\u00e1rias. A ONU declarou o per\u00edodo de 2022 a 2032 como a D\u00e9cada Internacional das L\u00ednguas Ind\u00edgenas, reconhecendo que aproximadamente 40% das l\u00ednguas do mundo \u2014 a maioria delas ind\u00edgenas \u2014 correm risco de extin\u00e7\u00e3o. Quando uma l\u00edngua desaparece, perdem-se tamb\u00e9m cosmovis\u00f5es, conhecimentos medicinais, formas de manejo da terra e hist\u00f3rias milenares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"quando-uma-lingua-indigena-desaparece-o-mundo-perde-mais-do-que-palavras-perde-formas-de-viver-curar-cultivar-e-imaginar\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em> \u201cQuando uma l\u00edngua ind\u00edgena desaparece, o mundo perde mais do que palavras \u2014 perde formas de viver, curar, cultivar e imaginar.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Unesco, respons\u00e1vel por coordenar os esfor\u00e7os da D\u00e9cada, destaca que valorizar as l\u00ednguas ind\u00edgenas \u00e9 essencial para promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel, a justi\u00e7a clim\u00e1tica e a reconcilia\u00e7\u00e3o entre culturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"mais-que-vitimas-protagonistas-da-transformacao\"><strong>Mais que v\u00edtimas, protagonistas da transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>Os povos ind\u00edgenas t\u00eam sido, historicamente, marginalizados em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios. Sofrem com a pobreza extrema, exclus\u00e3o pol\u00edtica, viol\u00eancia e perda de direitos. No entanto, como afirmou a Unesco em mensagem oficial, esses povos s\u00e3o tamb\u00e9m \u201catores da mudan\u00e7a, guardi\u00f5es dos recursos naturais e portadores de vis\u00f5es de mundo \u00fanicas\u201d.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-terenasfoto-mae-usp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8673\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-300x150.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-300x150.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-1024x512.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-768x384.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-800x400.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena-1160x580.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/terena.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Terenas<br \/>\n<\/strong>(Foto: MAE-USP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Proteger seus direitos \u00e9 garantir ao mundo um futuro mais diverso, justo e sustent\u00e1vel. Isso significa ir al\u00e9m do reconhecimento formal e adotar medidas concretas para apoiar sua autodetermina\u00e7\u00e3o, preservar suas l\u00ednguas e valorizar seus sistemas alimentares e territoriais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-chamado-coletivo\"><strong>Um chamado coletivo<\/strong><\/h4>\n<p>O Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas \u00e9 uma data de reflex\u00e3o, mas sobretudo de compromisso. \u00c0 medida que o mundo se prepara para a COP30, que ser\u00e1 realizada em novembro de 2025 em Bel\u00e9m (PA), as vozes dos povos ind\u00edgenas \u2014 em especial da Amaz\u00f4nia \u2014 devem estar no centro das decis\u00f5es sobre clima, biodiversidade e seguran\u00e7a alimentar. N\u00e3o se trata apenas de ouvir. Trata-se de aprender com quem, h\u00e1 mil\u00eanios, j\u00e1 pratica uma forma de sustentabilidade enraizada na conviv\u00eancia com a terra e no respeito \u00e0 vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-yanomamis-na-amazoniafoto-ebc-tv-brasil-reproducao\"><strong>Capa. Yanomamis na Amaz\u00f4nia<\/strong><br \/>\n(Foto: EBC\/ TV Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas, a ONU prop\u00f5e um debate global&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":8671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8670"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8670"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8675,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8670\/revisions\/8675"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}