{"id":8687,"date":"2025-08-20T07:30:54","date_gmt":"2025-08-20T07:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8687"},"modified":"2025-08-01T14:43:46","modified_gmt":"2025-08-01T14:43:46","slug":"gleb-wataghin-e-os-raios-cosmicos-o-cientista-que-ajudou-a-fundar-a-fisica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8687","title":{"rendered":"Gleb Wataghin e os raios c\u00f3smicos: o cientista que ajudou a fundar a f\u00edsica brasileira"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"de-origem-russa-e-formacao-italiana-wataghin-foi-peca-chave-na-criacao-da-usp-e-pioneiro-nos-estudos-de-raios-cosmicos-no-brasil\"><span style=\"color: #808080;\">De origem russa e forma\u00e7\u00e3o italiana, Wataghin foi pe\u00e7a-chave na cria\u00e7\u00e3o da USP e pioneiro nos estudos de raios c\u00f3smicos no Brasil. <\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1934, um f\u00edsico de origem russa, naturalizado italiano, desembarcou em S\u00e3o Paulo sem imaginar que, nas d\u00e9cadas seguintes, seria um dos nomes centrais da forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica brasileira. Gleb Wataghin (1899\u20131986) talvez n\u00e3o tenha recebido o mesmo reconhecimento popular de outros cientistas da hist\u00f3ria, mas seu impacto na f\u00edsica e na estrutura da ci\u00eancia nacional \u00e9 compar\u00e1vel ao de figuras fundadoras. Criador do primeiro grupo de pesquisa em f\u00edsica de raios c\u00f3smicos no pa\u00eds, orientador de nomes como Cesar Lattes e Marcello Damy, Wataghin ajudou a moldar a espinha dorsal da f\u00edsica experimental no Brasil \u2014 e, por consequ\u00eancia, parte relevante da ci\u00eancia feita por aqui at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A chegada de Wataghin se insere num momento decisivo: a funda\u00e7\u00e3o da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/a><\/strong><\/span>. \u00c0 \u00e9poca, o Brasil possu\u00eda apenas uma universidade \u2014 a do Rio de Janeiro, criada em 1920 \u2014 e o ensino superior era composto basicamente por faculdades isoladas de Medicina, Direito, Engenharia e Odontologia. Faltava ao pa\u00eds uma forma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica em ci\u00eancias da natureza, algo que a cria\u00e7\u00e3o da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP buscou suprir. Para tanto, autoridades educacionais, como o matem\u00e1tico Teodoro Ramos, propuseram trazer acad\u00eamicos europeus de renome. A Enrico Fermi foi oferecido o posto de chefe do Departamento de F\u00edsica, mas ele recusou, indicando em seu lugar um jovem colega da Universidade de Turim em quem confiava plenamente: Gleb Wataghin.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"criou-em-sao-paulo-o-primeiro-grupo-de-pesquisa-em-raios-cosmicos-da-america-latina\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cCriou em S\u00e3o Paulo o primeiro grupo de pesquisa em raios c\u00f3smicos da Am\u00e9rica Latina.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir desse convite, come\u00e7a uma hist\u00f3ria de dedica\u00e7\u00e3o incomum. Wataghin n\u00e3o era apenas um f\u00edsico vers\u00e1til \u2014 capaz de atuar tanto na teoria quanto na experimenta\u00e7\u00e3o \u2014 mas tamb\u00e9m um professor extraordin\u00e1rio, cuja erudi\u00e7\u00e3o e sensibilidade f\u00edsica impressionavam colegas e alunos. Era daquele tipo raro que podia dar aulas improvisadas sobre qualquer \u00e1rea da f\u00edsica moderna. Essa bagagem foi essencial para um pa\u00eds sem tradi\u00e7\u00e3o na \u00e1rea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"formando-cientistas\"><strong>Formando cientistas<\/strong><\/h4>\n<p>Mas talvez seu maior legado tenha sido sua capacidade de formar cientistas. Criou em S\u00e3o Paulo o primeiro grupo de pesquisa em raios c\u00f3smicos da Am\u00e9rica Latina. A intui\u00e7\u00e3o de que esse campo poderia ser f\u00e9rtil por aqui \u2014 devido \u00e0 altitude, ao clima e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica \u2014 mostrou-se acertada. Em 1940, ao lado de Paulus A. Pomp\u00e9ia e M\u00e1rio Damy de Souza Santos, Wataghin identificou pela primeira vez os chamados \u201cchuveiros penetrantes\u201d \u2014 eventos nos quais um feixe de part\u00edculas atravessava grandes espessuras de chumbo, diferentemente dos chuveiros eletromagn\u00e9ticos ent\u00e3o conhecidos. Estavam ali as primeiras evid\u00eancias dos chuveiros hadr\u00f4nicos, fen\u00f4meno crucial em colis\u00f5es de altas energias, base de toda uma sub\u00e1rea da f\u00edsica de part\u00edculas.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-ifgw-unicamp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8689\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/gleb-2.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/gleb-2.jpg 290w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/gleb-2-18x12.jpg 18w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\nFigura 1. IFGW\/Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses experimentos marcaram \u00e9poca. Chamaram a aten\u00e7\u00e3o de nomes como Patrick Blackett, que indicou a seus orientandos a investiga\u00e7\u00e3o dos chamados \u201cchuveiros penetrantes\u201d, levando \u00e0 descoberta das \u201cpart\u00edculas V\u201d, ou part\u00edculas estranhas, cuja an\u00e1lise revolucionaria a f\u00edsica nas d\u00e9cadas seguintes. Outro experimento not\u00e1vel foi realizado com Oscar Sala, em 1945, medindo a se\u00e7\u00e3o de choque de intera\u00e7\u00f5es entre pr\u00f3tons em altas energias \u2014 resultado que, feito com equipamento rudimentar, coincidiria com medidas mais precisas d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia de Wataghin tamb\u00e9m foi pol\u00edtica e institucional. Ficou no Brasil mesmo quando seus colegas italianos foram dispensados, no in\u00edcio dos anos 1940, num contexto de distanciamento da comunidade cient\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o ao fascismo. Com isso, tornou-se figura chave na consolida\u00e7\u00e3o da f\u00edsica brasileira, orientando as primeiras gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicos da USP e promovendo a internacionaliza\u00e7\u00e3o da pesquisa. Seu trabalho criou redes de circula\u00e7\u00e3o de conhecimento entre Brasil e Europa, num momento em que a ci\u00eancia brasileira ainda buscava seu lugar no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>A pesquisadora Luciana Vieira Souza da Silva, em sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP em 2020, tra\u00e7ou esse percurso com profundidade. Partindo do acervo hist\u00f3rico do <strong><a href=\"https:\/\/www.siarq.unicamp.br\/acervo\/sobre-o-acervo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #800000;\">Fundo Zeferino Vaz (AC\/SIARQ)<\/span><\/a><\/strong>, resgatou documentos, cartas e registros que iluminam a atua\u00e7\u00e3o de Wataghin. Interessou-se especialmente pelo fato de ele ter sido o \u00fanico professor italiano da primeira gera\u00e7\u00e3o da USP a manter seu contrato mesmo ap\u00f3s a ruptura com o fascismo, o que revela tamb\u00e9m o reconhecimento que recebeu de seus pares no Brasil.<\/p>\n<p>Um reconhecimento que, em 1971, foi formalizado pela<span style=\"color: #800000;\"> <strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unicamp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Unicamp<\/a><\/strong> <\/span>com a concess\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor Honoris Causa \u2014 o primeiro da jovem universidade. Em sua homenagem, o Instituto de F\u00edsica da Unicamp passou a se chamar Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin, nome que ostenta at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"tornou-se-figura-chave-na-consolidacao-da-fisica-brasileira-orientando-as-primeiras-geracoes-de-fisicos-da-usp-e-promovendo-a-internacionalizacao-da-pesquisa\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cTornou-se figura chave na consolida\u00e7\u00e3o da f\u00edsica brasileira, orientando as primeiras gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicos da USP e promovendo a internacionaliza\u00e7\u00e3o da pesquisa.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gleb Wataghin voltou \u00e0 It\u00e1lia depois de 16 anos no Brasil. Continuou ativo, liderando jovens f\u00edsicos em Turim, e contribuiu ainda com a chamada \u201c\u00e9poca de ouro\u201d da f\u00edsica de part\u00edculas baseada em raios c\u00f3smicos. Mas seu legado principal talvez tenha mesmo ficado em S\u00e3o Paulo \u2014 n\u00e3o apenas nos artigos cient\u00edficos, nos experimentos e nas descobertas, mas, sobretudo, nas pessoas. Seus alunos, e os alunos de seus alunos, espalharam-se pelo Brasil, ajudando a construir institui\u00e7\u00f5es, departamentos e programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. A f\u00edsica moderna brasileira deve muito a esse russo-italiano que, com intui\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada e compromisso com a forma\u00e7\u00e3o, ajudou a invent\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-ifgw-unicamp-reproducao\">Capa. IFGW\/Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De origem russa e forma\u00e7\u00e3o italiana, Wataghin foi pe\u00e7a-chave na cria\u00e7\u00e3o da&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":8688,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8687"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8687"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8687\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8690,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8687\/revisions\/8690"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8688"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}