{"id":8735,"date":"2025-08-11T07:55:25","date_gmt":"2025-08-11T07:55:25","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8735"},"modified":"2025-10-15T13:07:05","modified_gmt":"2025-10-15T13:07:05","slug":"cidades-que-adoecem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8735","title":{"rendered":"Cidades que adoecem"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"a-relacao-entre-urbanismo-e-saude\"><span style=\"color: #808080;\">A rela\u00e7\u00e3o entre urbanismo e sa\u00fade<\/span><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em julho de 2014, durante um evento no Instituto de C\u00e2ncer Dana-Farber, a pesquisadora e bioestat\u00edstica americana Melody Goodman lan\u00e7ou uma provoca\u00e7\u00e3o que ainda ecoa, mesmo ap\u00f3s uma d\u00e9cada, nos debates sobre sa\u00fade p\u00fablica: o lugar em que voc\u00ea mora pode dizer mais sobre sua sa\u00fade do que o seu pr\u00f3prio c\u00f3digo gen\u00e9tico. Embora sucinta, a afirma\u00e7\u00e3o carrega reflex\u00f5es importantes sobre como as condi\u00e7\u00f5es que cercam o cotidiano s\u00e3o decisivas na manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade f\u00edsica e mental. Nesse contexto, o urbanismo e o modo como planejamos nossas cidades ganham destaque, com potencial de criar e manter espa\u00e7os voltados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade que rompem, aos poucos, com a l\u00f3gica de crescimento desordenado que transforma as cidades em lugares que adoecem.<\/p>\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/saude\/22827-censo-demografico-2022.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Censo Demogr\u00e1fico de 2022<\/span><\/strong><\/a>, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), 87,4% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, ou mais de 177,5 milh\u00f5es de pessoas, vive em \u00e1reas urbanas. Em rela\u00e7\u00e3o ao levantamento de 2010, houve um crescimento de 3% no n\u00famero de moradores nas cidades. A pesquisa evidencia que a migra\u00e7\u00e3o do campo para os centros urbanos, acelerada desde os anos 1960, ainda \u00e9 uma realidade. Esse movimento imp\u00f5e desafios crescentes ao planejamento urbano, j\u00e1 que \u00e9 preciso acolher mais pessoas e atender suas necessidades com efici\u00eancia. \u201cAs grandes aglomera\u00e7\u00f5es urbanas gigantes do s\u00e9culo XX n\u00e3o possuem mais nada daquilo que no passado chamava-se cidade\u201d, diz Jean-Louis Harouel em seu livro \u201cHist\u00f3ria do Urbanismo\u201d. O autor destaca como alguns dos principais desafios o crescimento demogr\u00e1fico, a perda de espa\u00e7o individual e o aumento no consumo de bens e servi\u00e7os. Cabe ao urbanismo, ent\u00e3o, interpretar essas novas demandas e propor solu\u00e7\u00f5es que tornem os espa\u00e7os mais funcionais, inclusivos e saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar essa meta, \u00e9 preciso, por exemplo, equilibrar o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico com o aproveitamento do territ\u00f3rio e com a produtividade, visando metas econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Por\u00e9m, esse processo pode deixar rastros \u2013 como desigualdades ou a prioriza\u00e7\u00e3o de certos aspectos em detrimento de outros \u2013 que afetam direta ou indiretamente a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cEm alguns casos, o lucro acaba ganhando destaque em detrimento da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz Paulo Saldiva, m\u00e9dico patologista e professor da Faculdade de Medicina da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/a><\/strong><\/span>. Diante dessa complexidade, Helena Ribeiro e Heliana Comin Vargas, pesquisadoras da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, respectivamente, propuseram uma classifica\u00e7\u00e3o guiada por quatro aspectos centrais para analisar a qualidade do ambiente urbano na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade: biol\u00f3gico, social, econ\u00f4mico e espacial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-alguns-casos-o-lucro-acaba-ganhando-destaque-em-detrimento-da-saude-da-populacao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEm alguns casos, o lucro acaba ganhando destaque em detrimento da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No aspecto biol\u00f3gico, as autoras destacam fatores como saneamento b\u00e1sico e qualidade do ar. A dimens\u00e3o social envolve a presen\u00e7a de espa\u00e7os de conviv\u00eancia e oportunidades de socializa\u00e7\u00e3o, entre outros. No campo econ\u00f4mico, entram em cena a diversidade de atividades, a oferta de oportunidades e a produtividade. Por fim, no aspecto espacial, s\u00e3o importantes elementos como acessibilidade, desenho urbano, espa\u00e7os abertos e \u00e1reas verdes. Entender como esses fatores se articulam no meio urbano \u00e9 essencial para avaliar os efeitos da urbaniza\u00e7\u00e3o na sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e propor caminhos mais equilibrados e sustent\u00e1veis para o futuro das cidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ar-que-pesa-no-coracao\"><strong>Ar que pesa no cora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c0 medida que as cidades se tornaram mais produtivas e densas, o ar tamb\u00e9m passou a pesar mais. As atividades industriais e os ve\u00edculos automotores, que se popularizaram no s\u00e9culo XX com a concentra\u00e7\u00e3o urbana, tornaram-se as principais fontes de contaminantes que poluem o ar e afetam diretamente a sa\u00fade. Mais recentemente, estudos revelaram que essa mistura invis\u00edvel de part\u00edculas e gases penetra fundo nos pulm\u00f5es, alcan\u00e7a a corrente sangu\u00ednea e afeta diversos \u00f3rg\u00e3os e sistemas. \u201cA polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e9 como um equivalente ambiental do cigarro\u201d, diz Paulo Saldiva. \u201cEla entra no corpo, \u00e9 distribu\u00edda pela corrente sangu\u00ednea e afeta todo o organismo. Inclusive, pode atravessar a placenta de gestantes e chegar no beb\u00ea\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Em um de seus estudos, Paulo Saldiva investiga a rela\u00e7\u00e3o entre polui\u00e7\u00e3o e doen\u00e7as card\u00edacas. O trabalho, denominado \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0013935124002846\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Associa\u00e7\u00e3o do ac\u00famulo de carbono negro pulmonar com fibrose card\u00edaca em residentes de S\u00e3o Paulo, Brasil<\/strong><\/a><\/span>\u201d, mostra que a exposi\u00e7\u00e3o prolongada \u00e0 polui\u00e7\u00e3o pode favorecer o aumento dos riscos card\u00edacos, especialmente em pessoas hipertensas e fumantes. De acordo com os dados, quanto maior o tempo de exposi\u00e7\u00e3o, maiores s\u00e3o as chances de se desenvolver fibrose card\u00edaca, um indicador importante de doen\u00e7as no cora\u00e7\u00e3o. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-poluicao-atmosferica-em-sao-paulofoto-abio-ikezaki-flickr-cc-by-sa-2-0\" style=\"text-align: center;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8737\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-300x157.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-1024x537.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-768x403.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-1536x806.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-380x200.jpg 380w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-800x420.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1-1160x608.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica em S\u00e3o Paulo<br \/>\n<\/strong>(Foto: <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/buda_fabiomori\/1053616723\">abio Ikezaki \/ Flickr<\/a>\u00a0\/\u00a0<a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/2.0\/\">CC BY-SA 2.0<\/a>)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio descrito por Helena Ribeiro e Heliana Comin Vargas, onde a qualidade do ar \u00e9 um dos par\u00e2metros para avaliar ambientes urbanos saud\u00e1veis, o m\u00e9dico ressalta que os efeitos da polui\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos. \u201cO n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o significa que a dose recebida \u00e9 a mesma para todos. Se voc\u00ea est\u00e1 em um corredor de tr\u00e1fego por horas, recebe uma dose maior porque a concentra\u00e7\u00e3o daquele ambiente \u00e9 particularmente mais elevada\u201d, exemplifica, em <a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/pesquisa-demonstra-relacao-entre-poluicao-e-riscos-cardiacos-em-moradores-de-sao-paulo\/51488\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><span style=\"color: #800000;\">entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP<\/span><\/strong><\/a>. Para ele, isso refor\u00e7a como o planejamento urbano e a distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o impactam a sa\u00fade. \u201cMuitas vezes, quem tem menos recursos acaba morando em regi\u00f5es mais afastadas e precisa enfrentar longos deslocamentos di\u00e1rios\u201d, comenta. \u201cSem mencionar que o preju\u00edzo ao sono por conta do tempo que se leva no tr\u00e2nsito, por exemplo, pode prejudicar a sa\u00fade mental e favorecer transtornos como ansiedade, depress\u00e3o ou mesmo esquizofrenia, se houver tend\u00eancia gen\u00e9tica\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do cora\u00e7\u00e3o, o c\u00e9rebro tamb\u00e9m pode ser afetado pela polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. \u201cExiste uma associa\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica entre a dem\u00eancia, o Alzheimer e exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica aos poluentes\u201d, destaca Paulo Saldiva em entrevista ao <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-OHd1HJk_74\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Instituto Conhecimento Liberta<\/strong><\/a><\/span>. Ele explica que o c\u00e9rebro pode ser atingido pelos poluentes por dois canais: a corrente sangu\u00ednea e o epit\u00e9lio do nariz \u2013 a fina camada de pele que reveste as narinas internamente. \u201cNunca nosso c\u00e9rebro esteve t\u00e3o pr\u00f3ximo das ruas; ele est\u00e1 separado por uma fina camada de c\u00e9lulas [&#8230;] e nervos (&#8230;)\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-poluicao-atmosferica-e-como-um-equivalente-ambiental-do-cigarro\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e9 como um equivalente ambiental do cigarro.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre as solu\u00e7\u00f5es defendidas por Paulo Saldiva para enfrentar os impactos da polui\u00e7\u00e3o, est\u00e3o os investimentos em transportes de baixa emiss\u00e3o. \u201cUm transporte de massa eficiente e de baixa emiss\u00e3o n\u00e3o depende s\u00f3 de tecnologia. \u00c9 preciso planejamento urbano\u201d, diz. \u201cO carro el\u00e9trico, por exemplo, pode parecer uma alternativa sustent\u00e1vel, mas n\u00e3o resolve o problema estrutural: continua sendo um transporte individual e de alto custo energ\u00e9tico para produ\u00e7\u00e3o. Ou seja, mant\u00e9m o mesmo modelo rodovi\u00e1rio, quando o ideal seria investir em transporte coletivo el\u00e9trico e em solu\u00e7\u00f5es compartilhadas para os trajetos curtos\u201d, conclui. O adensamento populacional tamb\u00e9m \u00e9 uma das propostas do pesquisador. \u201cEm S\u00e3o Paulo, por exemplo, bairros da Zona Leste concentram uma grande popula\u00e7\u00e3o que precisa se deslocar para o centro todos os dias. O metr\u00f4 vai lotado em um sentido pela manh\u00e3, e vazio no outro. \u00c0 tarde, o movimento se inverte. Isso mostra que a cidade est\u00e1 desequilibrada e que seria preciso redistribuir empregos, moradia e servi\u00e7os\u201d, aponta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"natureza-ausente-e-a-importancia-dos-espacos-verdes\"><strong>Natureza ausente e a import\u00e2ncia dos espa\u00e7os verdes<\/strong><\/h4>\n<p>O discurso de Paulo Saldiva tamb\u00e9m se alinha \u00e0 proposta de Helena Ribeiro e Heliana Comin Vargas ao defender que uma cidade mais saud\u00e1vel exige a prioriza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os verdes nos centros urbanos. \u201cA vegeta\u00e7\u00e3o ajuda de v\u00e1rias formas\u201d, defende o m\u00e9dico. \u201cPrimeiro, porque aumenta a umidade do ar. As part\u00edculas poluentes se juntam \u00e0s got\u00edculas de vapor d&#8217;\u00e1gua, condensam e caem no ch\u00e3o. \u00c9 como se a umidade agisse como um filtro natural\u201d, exemplifica. Ele destaca que as folhas tamb\u00e9m atuam como barreiras f\u00edsicas. \u201cElas t\u00eam uma camada de cera que ret\u00e9m part\u00edculas. Se voc\u00ea passar um algod\u00e3o branco numa folha de \u00e1rvore perto de uma avenida, vai ver a quantidade de sujeira que ela acumulou\u201d, ressalta. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-espacos-verdes-contribuem-para-a-saude-dos-grandes-centros-urbanosfoto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8738\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-300x225.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-1024x769.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-768x577.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-1536x1154.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-800x601.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2-1160x871.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/CC-3E25-reportagem-Cidades-que-adoecem-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Espa\u00e7os verdes contribuem para a sa\u00fade dos grandes centros urbanos<br \/>\n<\/strong>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas iniciativas em andamento, como as hortas urbanas, s\u00e3o importantes nesse contexto. Let\u00edcia Machado, Ge\u00f3grafa e Mestre em Ci\u00eancias pela Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, estudou esse tema em sua pesquisa \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/6\/6143\/tde-21082023-151229\/publico\/MachadoL_MTR_R.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Hortas Urbanas: acesso a alimentos saud\u00e1veis e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade em uma metr\u00f3pole<\/strong><\/a><\/span>\u201d. Ela destaca o papel multifuncional das hortas, que al\u00e9m de ampliar a vegeta\u00e7\u00e3o urbana e gerar benef\u00edcios ambientais, promovem o acesso a alimentos naturais como hortali\u00e7as, legumes e frutas. \u201cO consumo desses alimentos \u00e9 fundamental para a obten\u00e7\u00e3o de vitaminas e nutrientes para o organismo e para combater as tend\u00eancias identificadas pela \u00faltima Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF), que mostram redu\u00e7\u00e3o no consumo de hortali\u00e7as\u201d, diz. Segundo Let\u00edcia Machado, a agricultura urbana aproxima e descentraliza a produ\u00e7\u00e3o, facilitando o acesso e incentivando o consumo. \u201cNo meu mestrado, entrevistei pessoas que disseram ter voltado a consumir hortali\u00e7as com mais frequ\u00eancia justamente porque a horta ficava perto de casa. A proximidade permitia visitas di\u00e1rias e o acesso a alimentos frescos, o que facilitava a inclus\u00e3o desses itens na alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos benef\u00edcios f\u00edsicos, espa\u00e7os verdes, como as hortas urbanas, tamb\u00e9m promovem sa\u00fade mental. \u201cAs hortas urbanas s\u00e3o muito utilizadas como pr\u00e1tica de sociabilidade para pessoas idosas, ajudando a reduzir quadros de depress\u00e3o e promovendo bem-estar\u201d, diz Let\u00edcia Machado. \u201cH\u00e1 experi\u00eancias que mostram a import\u00e2ncia das hortas pedag\u00f3gicas na intera\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com a natureza. \u00c9 uma forma pr\u00e1tica e l\u00fadica de aprender, que estimula o cuidado com o meio ambiente desde cedo\u201d, complementa. Ela ainda ressalta o potencial desses espa\u00e7os para aliviar o estresse. \u201cPassar um tempo mexendo com a terra e cultivando plantas ajuda a desconectar das press\u00f5es do dia a dia \u2013 algo especialmente valioso para quem vive nas grandes cidades\u201d, diz.<\/p>\n<p>Paulo Saldiva salienta que a inclus\u00e3o de espa\u00e7os verdes pode ser adaptada \u00e0s necessidades e \u00e0 realidade do local. \u201cA \u00e1rea verde n\u00e3o precisa estar s\u00f3 no ch\u00e3o. Em muitos lugares, simplesmente n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o dispon\u00edvel para criar parques ou jardins. Mas h\u00e1 tetos. E \u00e9 justamente a\u00ed que entram solu\u00e7\u00f5es como os telhados verdes, que ajudam a reduzir o calor dentro das casas\u201d, exemplifica. \u201cA arboriza\u00e7\u00e3o ajuda em quest\u00f5es como a polui\u00e7\u00e3o, sim, mas, para isso, \u00e9 fundamental usar esp\u00e9cies adequadas ao clima e ao solo da regi\u00e3o. A dificuldade est\u00e1 em colocar tudo isso em pr\u00e1tica\u201d, aponta.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras de sediar a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2025 (COP 30), um evento internacional que acontecer\u00e1 no Brasil em novembro de 2025, o governo do Par\u00e1 parece enfrentar esse dilema. Plantas naturais e ornamentais, fixadas em vergalh\u00f5es que simulam o formato de \u00e1rvores, foram instaladas para complementar a arboriza\u00e7\u00e3o de sua capital, Bel\u00e9m. O projeto foi chamado de \u201cjardins suspensos\u201d e tem previs\u00e3o de somar 180 estruturas at\u00e9 novembro. Vivian Blaso, Especialista em Gest\u00e3o Respons\u00e1vel para Sustentabilidade e coidealizadora do projeto \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.cidadesafetivas.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cidades Afetivas<\/a><\/strong><\/span>\u201d, considera essa iniciativa um equ\u00edvoco. \u201cIsso demonstra uma falta de planejamento e de vis\u00e3o sist\u00eamica integrada sobre o papel da natureza nas cidades\u201d, argumenta. \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 apenas a instala\u00e7\u00e3o de estruturas artificiais, mas o que elas representam: um discurso que valoriza a imagem de sustentabilidade em detrimento de pr\u00e1ticas que regeneram, de fato, os territ\u00f3rios, fortalecem a sa\u00fade e a rela\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com a natureza viva\u201d, conclui. Ela aponta que tais estruturas podem funcionar melhor como elementos est\u00e9ticos do que como promotores reais de sa\u00fade, bem-estar e mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"urbanismo-do-cuidado-e-possivel-sonhar-com-cidades-que-curam\"><strong>Urbanismo do cuidado: \u00e9 poss\u00edvel sonhar com cidades que curam?<\/strong><\/h4>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o de Melody Goodman sobre o impacto do ambiente na sa\u00fade ressalta a import\u00e2ncia de colocar a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade no centro do planejamento urbano. Segundo Paulo Saldiva, esse era justamente o objetivo original do urbanismo, mas o crescimento das cidades desviou esse foco. \u201cO urbanismo nasceu para promover a sa\u00fade. A cria\u00e7\u00e3o dos sistemas de esgoto e o reordenamento urbano, por exemplo, surgiram como resposta direta ao adoecimento da popula\u00e7\u00e3o\u201d, explica. \u201cHoje, se visa o lucro. Algo precisa ter valor agregado para que seja priorizado\u201d, aponta o m\u00e9dico, que prop\u00f5e criar incentivos financeiros para solu\u00e7\u00f5es que promovam sa\u00fade e bem-estar.<\/p>\n<p>\u201cQuando chove forte em S\u00e3o Paulo, a \u00e1gua n\u00e3o tem mais para onde escoar. A impermeabiliza\u00e7\u00e3o do solo faz com que ela v\u00e1 direto para as ruas, causando inunda\u00e7\u00f5es. Mas e se, em vez disso, houvesse incentivos para a coleta de \u00e1gua da chuva nos pr\u00e9dios e casas, como desconto no IPTU, por exemplo?\u201d. Ele defende que a cria\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios descentralizados ajudaria a reduzir o impacto das chuvas no sistema p\u00fablico de drenagem, aliviando o estresse h\u00eddrico nas cidades e prevenindo problemas de sa\u00fade f\u00edsica e mental associados a enchentes e desastres ambientais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"repensar-o-desenho-urbano-e-reconhecer-que-a-saude-esta-na-qualidade-dos-ambientes-em-que-vivemos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cRepensar o desenho urbano \u00e9 reconhecer que a sa\u00fade est\u00e1 na qualidade dos ambientes em que vivemos.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Vivian Blaso, transformar o desenho urbano \u00e9 essencial para tornar os espa\u00e7os mais saud\u00e1veis. \u201cO desenho urbano precisa ser ressignificado a partir de uma perspectiva sist\u00eamica, sens\u00edvel e afetiva, que considere a cidade como um organismo vivo e interdependente, n\u00e3o apenas como um conjunto de infraestruturas e fluxos funcionais\u201d, diz. Segundo ela, \u00e9 preciso \u201cplanejar espa\u00e7os que acolham as diversidades socioculturais dos corpos, das culturas e dos modos de vida e que promovam sa\u00fade e qualidade de vida n\u00e3o apenas como aus\u00eancia de doen\u00e7a, mas como bem-estar integral, pertencimento e capacidade de regenerar os v\u00ednculos com os outros e com o territ\u00f3rio\u201d. Vivian destaca que os munic\u00edpios devem priorizar \u00e1reas verdes acess\u00edveis, espa\u00e7os de encontro e contempla\u00e7\u00e3o, corredores ecol\u00f3gicos e trajetos caminh\u00e1veis que aproximem as pessoas da natureza cotidiana. \u201cAo mesmo tempo, precisam garantir ambientes seguros, inclusivos e esteticamente cuidados, capazes de estimular a confian\u00e7a, reduzir a ansiedade clim\u00e1tica e gerar sentido de comunidade, religando ao esp\u00edrito comunit\u00e1rio\u201d, defende.<\/p>\n<p>Em seu discurso no Instituto de C\u00e2ncer Dana-Farber, Melody Goodman afirmou que o objetivo de seu trabalho com disparidades em sa\u00fade \u00e9 ir al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o dos problemas, buscando solu\u00e7\u00f5es que construam comunidades saud\u00e1veis para todos. Essa vis\u00e3o tamb\u00e9m aparece na fala de Vivian Blaso, que prop\u00f5e uma mudan\u00e7a profunda na forma de pensar os centros urbanos \u2013 n\u00e3o mais como espa\u00e7os que adoecem, mas como cidades que curam. \u201cRepensar o desenho urbano \u00e9 reconhecer que a sa\u00fade est\u00e1 na qualidade dos ambientes em que vivemos, na possibilidade dos afetos, no reconhecimento das rela\u00e7\u00f5es com os outros e na sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento c\u00f3smico da nossa rela\u00e7\u00e3o com o todo. Esse \u00e9 o ponto de partida para imaginarmos o futuro das cidades e para que os espa\u00e7os constru\u00eddos sejam capazes de sustentar a vida em todas as suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-falta-de-planejamento-urbano-e-condicoes-precarias-dos-grandes-centros-causam-serie-de-prejuizos-a-saude-das-populacoes-foto-marcelo-camargo-agencia-brasil-divulgacao\"><strong>Capa. Falta de planejamento urbano e condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias dos grandes centros causam s\u00e9rie de preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Marcelo Camargo\/ Ag\u00eancia Brasil. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A rela\u00e7\u00e3o entre urbanismo e sa\u00fade \u00a0 Em julho de 2014, durante&hellip;\n","protected":false},"author":124,"featured_media":8736,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8735"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8735"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8735\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9122,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8735\/revisions\/9122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8736"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}