{"id":8881,"date":"2025-09-03T07:30:35","date_gmt":"2025-09-03T07:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8881"},"modified":"2025-09-24T14:57:05","modified_gmt":"2025-09-24T14:57:05","slug":"o-brasil-que-moldou-levi-strauss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=8881","title":{"rendered":"O Brasil que moldou L\u00e9vi-Strauss"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"como-o-encontro-com-os-povos-indigenas-transformou-um-jovem-filosofo-belga-no-pai-da-antropologia-estrutural\"><span style=\"color: #808080;\">Como o encontro com os povos ind\u00edgenas transformou um jovem fil\u00f3sofo belga no pai da antropologia estrutural<\/span><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por volta das quatro da tarde, em um domingo de outono de 1934, um telefonema mudaria os rumos da hist\u00f3ria da antropologia.<\/em> Do outro lado da linha, C\u00e9lestin Bougl\u00e9, ent\u00e3o diretor da Escola Normal Superior de Paris, perguntava ao jovem fil\u00f3sofo Claude L\u00e9vi-Strauss se ele ainda se interessava por etnografia. Diante da resposta entusiasmada \u2014 \u201cSem d\u00favida!\u201d \u2014 veio o convite: candidatar-se a uma vaga como professor da rec\u00e9m-criada Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Segundo Bougl\u00e9, nos arredores da cidade havia muitos \u00edndios que poderiam ser estudados nos fins de semana.<\/p>\n<p>Dias depois, no entanto, L\u00e9vi-Strauss ouviu o contr\u00e1rio do embaixador do Brasil em Paris, Lu\u00eds de Sousa Dantas: os ind\u00edgenas, segundo ele, j\u00e1 haviam desaparecido. Entre o otimismo do primeiro e o ceticismo do segundo, o professor embarcou rumo ao Brasil em 1935, aos 27 anos, para lecionar Sociologia na USP. E foi aqui que encontrou, n\u00e3o apenas as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas vivas e vibrantes, mas a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. \u201cO Brasil \u00e9 a experi\u00eancia mais importante da minha vida\u201d, declararia ele d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-nascimento-de-um-etnologo\"><strong>O nascimento de um etn\u00f3logo<\/strong><\/h4>\n<p>Entre 1935 e 1939, em dois per\u00edodos, L\u00e9vi-Strauss viveu no Brasil ao lado de sua esposa e outros colegas franceses. Em suas f\u00e9rias, organizou expedi\u00e7\u00f5es para conhecer diferentes etnias: os cadiu\u00e9u, bororo, tupi-kaguahib, nambiquara, entre outros. Sua primeira publica\u00e7\u00e3o com base nessas experi\u00eancias foi <em>Fam\u00edlia e vida social dos \u00edndios nambiquara<\/em> (1948), mas foi em <em>Tristes Tr\u00f3picos<\/em>, publicado em 1955, que o mundo conheceu a for\u00e7a liter\u00e1ria e intelectual de suas reflex\u00f5es.<\/p>\n<h6 id=\"foto-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8882\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1-300x213.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1-300x213.png 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1-768x545.png 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1-18x12.png 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1-800x567.png 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\n(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O livro tornou-se um cl\u00e1ssico instant\u00e2neo. Com uma escrita h\u00edbrida entre ci\u00eancia e literatura, L\u00e9vi-Strauss apresenta observa\u00e7\u00f5es sobre ritos, mitos, estruturas sociais e cosmologias dos povos ind\u00edgenas brasileiros. Apesar de come\u00e7ar com a c\u00e9lebre frase \u201cEu detesto as viagens e os exploradores\u201d, a obra descreve com intensidade as jornadas do autor por Mato Grosso e Amaz\u00f4nia \u2014 e tamb\u00e9m pela \u00cdndia e pelo Paquist\u00e3o, onde atuou pela Unesco.<\/p>\n<p>A partir dessas experi\u00eancias, o pensador formulou a ideia de que, apesar das imensas diferen\u00e7as culturais, certos princ\u00edpios estruturais do pensamento s\u00e3o universais. A interdi\u00e7\u00e3o do incesto e a l\u00f3gica dos opostos \u2014 como quente e frio, bom e mau \u2014 apareciam tanto em sociedades ind\u00edgenas quanto nas urbanas ocidentais. O que ele chamaria de \u201cpensamento selvagem\u201d n\u00e3o seria primitivo ou inferior, mas outra forma sofisticada de se relacionar com o mundo: menos abstrata, mais sens\u00edvel ao meio ambiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-alerta-precoce\"><strong>Um alerta precoce<\/strong><\/h4>\n<p><em>\u201cTristes Tr\u00f3picos\u201d<\/em> tamb\u00e9m soou como um alerta \u2014 po\u00e9tico e cr\u00edtico \u2014 sobre os rumos da humanidade. L\u00e9vi-Strauss denunciava, j\u00e1 nos anos 1930, a devasta\u00e7\u00e3o cultural e ecol\u00f3gica causada pela moderniza\u00e7\u00e3o desenfreada. \u201cHoje, a humanidade se instala na monocultura, se prepara para produzir a civiliza\u00e7\u00e3o em massa, como se se tratassem de beterrabas\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"levi-strauss-denunciava-ja-nos-anos-1930-a-devastacao-cultural-e-ecologica-causada-pela-modernizacao-desenfreada\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cL\u00e9vi-Strauss denunciava, j\u00e1 nos anos 1930, a devasta\u00e7\u00e3o cultural e ecol\u00f3gica causada pela moderniza\u00e7\u00e3o desenfreada.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa sensibilidade rendeu-lhe o reconhecimento n\u00e3o s\u00f3 como fundador da antropologia estrutural, mas como um dos primeiros intelectuais a perceber e denunciar os impactos da homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cSociedades arcaicas s\u00e3o superiores a n\u00f3s\u201d, diria, segundo o fil\u00f3sofo Axel Honneth, \u201cpor estarem muito mais conscientes do entrela\u00e7amento com a natureza.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-brasil-no-coracao\"><strong>O Brasil no cora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>L\u00e9vi-Strauss nunca esqueceu o pa\u00eds que o acolheu e inspirou. Embora tenha se decepcionado com as cidades brasileiras \u2014 chamou S\u00e3o Paulo de uma cidade que \u201cvai do frescor \u00e0 decrepitude sem passar pelo antigo\u201d e descreveu a ba\u00eda de Guanabara como uma \u201cboca desdentada\u201d \u2014 foi nas aldeias que encontrou beleza e profundidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-8883\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2-300x200.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2-18x12.jpeg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2-800x533.jpeg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/strauss-2.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O cineasta e antrop\u00f3logo Marcelo Fortaleza Flores, que dirigiu o document\u00e1rio \u201c<em>Tr\u00f3pico da Saudade \u2013 Claude L\u00e9vi-Strauss e a Amaz\u00f4nia\u201d<\/em>, lembra que o franc\u00eas seguiu atento ao Brasil at\u00e9 o fim da vida. Mesmo sem retornar a campo, lia a produ\u00e7\u00e3o da antropologia brasileira com admira\u00e7\u00e3o. Flores, que viveu entre os nambiquaras e refilmou a expedi\u00e7\u00e3o de 1938, considera aquele momento uma \u201cguinada na antropologia moderna\u201d.<\/p>\n<p>Entre os autores brasileiros que L\u00e9vi-Strauss acompanhava estavam Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro. Em 2008, aos 98 anos, o pensador publicou uma resposta a um antrop\u00f3logo americano que criticava suas ideias \u2014 prova de sua vitalidade intelectual e de sua fidelidade a uma vis\u00e3o de mundo constru\u00edda a partir do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"legado-e-reconhecimento\"><strong>Legado e reconhecimento<\/strong><\/h4>\n<p>L\u00e9vi-Strauss faleceu pouco antes de completar 101 anos. Foi homenageado por l\u00edderes pol\u00edticos, intelectuais e institui\u00e7\u00f5es no mundo todo. O presidente franc\u00eas Nicolas Sarkozy saudou-o como um \u201chumanista infatig\u00e1vel\u201d, e pesquisadores brasileiros lembraram a import\u00e2ncia de sua obra para a valoriza\u00e7\u00e3o das culturas ind\u00edgenas e para a funda\u00e7\u00e3o da antropologia moderna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"suas-ideias-seguem-influenciando-decadas-depois-uma-nova-geracao-de-pensadores-ativistas-e-defensores-da-diversidade-cultural\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSuas ideias seguem influenciando, d\u00e9cadas depois, uma nova gera\u00e7\u00e3o de pensadores, ativistas e defensores da diversidade cultural.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Beatriz Perrone-Mois\u00e9s, professora da USP, comentou que <em>Tristes Tr\u00f3picos<\/em> revelava \u201cum mundo dos sentidos muito especial\u201d \u2014 o Brasil dos \u00edndios e a emo\u00e7\u00e3o de seguir os rastros dos antigos exploradores. Gilberto Velho, outro importante antrop\u00f3logo brasileiro, destacou que L\u00e9vi-Strauss n\u00e3o apenas revolucionou a antropologia, mas tamb\u00e9m ensinou que \u201cn\u00e3o h\u00e1 sociedades inferiores, e cada uma deve ser compreendida em seus pr\u00f3prios termos\u201d.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo belga que virou antrop\u00f3logo franc\u00eas veio ao Brasil como um jovem professor em busca de etnografia \u2014 e saiu transformado. Suas ideias seguem influenciando, d\u00e9cadas depois, uma nova gera\u00e7\u00e3o de pensadores, ativistas e defensores da diversidade cultural. Afinal, como ele pr\u00f3prio escreveu, as diferen\u00e7as humanas n\u00e3o nos separam tanto quanto imaginamos. No fundo, somos mais parecidos do que pensamos.<\/p>\n<h6 id=\"capa-levi-strauss-no-brasil-reproducao\">Capa. Levi-Strauss no Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como o encontro com os povos ind\u00edgenas transformou um jovem fil\u00f3sofo belga&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":8884,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8881"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8881"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9046,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8881\/revisions\/9046"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}