{"id":9071,"date":"2025-10-08T07:30:51","date_gmt":"2025-10-08T07:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9071"},"modified":"2025-09-30T19:05:07","modified_gmt":"2025-09-30T19:05:07","slug":"o-fisico-que-dancou-samba-a-passagem-de-richard-feynman-pelo-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9071","title":{"rendered":"O f\u00edsico que dan\u00e7ou samba: A passagem de Richard Feynman pelo Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"entre-aulas-em-portugues-e-noites-de-tamborim-o-nobel-de-fisica-deixou-um-legado-de-critica-ao-ensino-decorado-e-inspirou-geracoes-de-cientistas-brasileiros\"><span style=\"color: #808080;\">Entre aulas em portugu\u00eas e noites de tamborim, o Nobel de F\u00edsica deixou um legado de cr\u00edtica ao ensino &#8216;decorado&#8217; \u2013 e inspirou gera\u00e7\u00f5es de cientistas brasileiros<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1949, um jovem f\u00edsico norte-americano desembarcou no Rio de Janeiro com um viol\u00e3o, uma mente brilhante e uma curiosidade insaci\u00e1vel. Richard Feynman, que mais tarde ganharia o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica (1965), veio ao Brasil a convite do f\u00edsico brasileiro Jayme Tiomno para lecionar no\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/cbpf\/pt-br\">Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF)<\/a><\/strong><\/span>. Mas sua passagem pelo pa\u00eds foi muito al\u00e9m da academia: Feynman mergulhou no carnaval, tocou tamborim, aprendeu portugu\u00eas (com sotaque peculiar) e deixou um legado que ainda hoje inspira debates sobre o ensino da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Neste ano em que se completam\u00a030 anos de sua morte\u00a0e\u00a0100 anos de seu nascimento, revisitamos a hist\u00f3ria do cientista que criticou o ensino \u201cdecorado\u201d da f\u00edsica no Brasil \u2013 mas tamb\u00e9m se encantou com a paix\u00e3o dos estudantes e ajudou a transformar a pesquisa te\u00f3rica no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"feynman-no-cbpf\"><strong>Feynman no CBPF<\/strong><\/h4>\n<p>Quando chegou ao Brasil, Feynman j\u00e1 era reconhecido por seus trabalhos em\u00a0eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica, mas ainda n\u00e3o era uma celebridade mundial. No CBPF, ele deu cursos avan\u00e7ados sobre\u00a0f\u00edsica nuclear e mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, usando seu famoso m\u00e9todo das\u00a0\u201cintegrais de caminho\u201d\u00a0\u2013 uma abordagem revolucion\u00e1ria que simplificava problemas complexos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"richard-feynman-que-mais-tarde-ganharia-o-premio-nobel-de-fisica-1965-veio-ao-brasil-a-convite-do-fisico-brasileiro-jayme-tiomno-para-lecionar-no-centro-brasileiro-de-pesquisas-fisicas-c\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cRichard Feynman, que mais tarde ganharia o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica (1965), veio ao Brasil a convite do f\u00edsico brasileiro Jayme Tiomno para lecionar no Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF).\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que chamou a aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, foi o fato de ele ministrar as aulas\u00a0em portugu\u00eas. Os alunos riam do que chamavam de\u00a0<em>&#8220;portugu\u00eas de Feynman&#8221;<\/em>\u00a0\u2013 uma mistura de espanhol mal aprendido com express\u00f5es inventadas. Mas, mesmo com o idioma truncado, sua did\u00e1tica brilhante cativou a turma.<\/p>\n<p>Fora das salas de aula, Feynman se entregou \u00e0 cultura brasileira: Tocou cu\u00edca e agog\u00f4 no carnaval carioca, frequentando rodas de samba como um verdadeiro\u00a0<em>malandro<\/em>. Fez amizade com C\u00e9sar Lattes, o descobridor do m\u00e9son pi, que o aconselhou a dar aulas de manh\u00e3 para &#8220;n\u00e3o atrapalhar as noitadas&#8221;. Encantou-se com a beleza carioca\u00a0\u2013 contava que quase escolheu aprender portugu\u00eas ao inv\u00e9s de espanhol depois de ver &#8220;uma loira de parar o tr\u00e2nsito&#8221; entrando em um curso de l\u00ednguas.<\/p>\n<h6 id=\"foto-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9073\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-261x300.jpg\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-261x300.jpg 261w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-891x1024.jpg 891w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-768x883.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-10x12.jpg 10w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-800x920.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1-1160x1334.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Feynman-1.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 435px) 100vw, 435px\" \/><br \/>\n(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"por-que-nao-estamos-ensinando-ciencia-no-brasil\"><strong>&#8220;Por que n\u00e3o estamos ensinando ci\u00eancia no Brasil?&#8221; <\/strong><\/h4>\n<p>Apesar do carinho pelo pa\u00eds, Feynman ficou chocado com o sistema de ensino brasileiro. Em uma palestra hist\u00f3rica, ele disparou: <em>&#8220;Os estudantes decoram f\u00f3rmulas, mas n\u00e3o entendem o que significam. Perguntei o que era a Lei de Bernoulli, e me responderam com perfei\u00e7\u00e3o. Mas quando mostrei um avi\u00e3o e perguntei por que ele voa, ningu\u00e9m soube explicar.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Sua cr\u00edtica\u00a0n\u00e3o era contra os alunos, mas contra um m\u00e9todo que valorizava a memoriza\u00e7\u00e3o em vez do racioc\u00ednio. O impacto foi t\u00e3o grande que Jayme Tiomno e Jos\u00e9 Leite Lopes \u2013 dois dos maiores f\u00edsicos do Brasil na \u00e9poca \u2013 traduziram um livro americano sobre ensino de f\u00edsica e publicaram um manifesto na revista\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a><\/strong><\/span>, propondo reformas pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-legado-um-curso-que-virou-livro\"><strong>O legado: Um curso que virou livro <\/strong><\/h4>\n<p>Em\u00a01953, Feynman voltou ao CBPF para um curso de mec\u00e2nica qu\u00e2ntica. Desta vez, dois alunos argentinos \u2013\u00a0Daniele Amati e Alberto Sirlin\u00a0\u2013 tomaram notas detalhadas em espanhol. Esses manuscritos, redescobertos d\u00e9cadas depois, foram\u00a0digitalizados e publicados\u00a0em 2005 como\u00a0<em>&#8220;F\u00edsica Nuclear Te\u00f3rica&#8221;<\/em>\u00a0(Editora Livraria da F\u00edsica).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-estudantes-decoram-formulas-mas-nao-entendem-o-que-significam\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cOs estudantes decoram f\u00f3rmulas, mas n\u00e3o entendem o que significam.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recentemente, o CBPF lan\u00e7ou um\u00a0portal online\u00a0com as anota\u00e7\u00f5es originais, resgatando um peda\u00e7o da hist\u00f3ria da f\u00edsica no Brasil. O projeto quase foi abandonado devido a cortes or\u00e7ament\u00e1rios e \u00e0 pandemia, mas foi conclu\u00eddo como uma homenagem p\u00f3stuma a\u00a0Ronald Shellard, ex-diretor do CBPF que faleceu em 2021.<\/p>\n<p>Richard Feynman n\u00e3o foi s\u00f3 um Nobel de F\u00edsica \u2013 foi um\u00a0aventureiro intelectual\u00a0que trouxe luz (e pol\u00eamica) ao ensino da ci\u00eancia no Brasil. Sua hist\u00f3ria aqui mistura\u00a0rigor acad\u00eamico\u00a0e\u00a0alegria tropical, mostrando que a genialidade n\u00e3o precisa ser s\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-richard-feynman-quinto-na-fileira-da-direita-em-almoco-no-rio-de-janeirofoto-cbpf-reproducao\">Capa: Richard Feynman (quinto na fileira da direita) em almo\u00e7o no Rio de Janeiro<br \/>\n(Foto: CBPF. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entre aulas em portugu\u00eas e noites de tamborim, o Nobel de F\u00edsica&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9072,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9071"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9071"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9071\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9076,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9071\/revisions\/9076"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9072"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}