{"id":9077,"date":"2025-10-09T07:30:12","date_gmt":"2025-10-09T07:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9077"},"modified":"2025-11-25T11:38:34","modified_gmt":"2025-11-25T11:38:34","slug":"a-diversidade-nao-deve-ser-vista-como-problema-mas-como-a-maior-riqueza-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9077","title":{"rendered":"\u201cA diversidade n\u00e3o deve ser vista como problema, mas como a maior riqueza do Brasil.\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-wilma-de-nazare-baia-coelho-professora-do-programa-de-pos-graduacao-em-educacao-da-ufpa\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Wilma de Nazar\u00e9 Baia Coelho, professora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da UFPA<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de professores e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, Wilma de Nazar\u00e9 Baia Coelho assumiu em 2023 a <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/pneerq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>Diretoria de Pol\u00edticas de Educa\u00e7\u00e3o \u00c9tnico-Racial e Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola<\/em><\/strong><\/a><\/span><em> do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Professora e pesquisadora com s\u00f3lida atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, integra o corpo docente do <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/educanorte.net.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>Doutorado em Rede (Educanorte)<\/em><\/strong><\/a><\/span><em> e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Curr\u00edculo e Gest\u00e3o da Escola B\u00e1sica (PPEB), na <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufpa.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA)<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>. Ao longo da carreira, esteve \u00e0 frente de coordena\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, recebeu men\u00e7\u00e3o elogiosa por sua lideran\u00e7a no Educanorte e consolidou uma trajet\u00f3ria vinculada ao <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/nucleogera.ufpa.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre Forma\u00e7\u00e3o de Professores e Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais (NEAB\/UFPA)<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>. <\/em><em>\u201cA hist\u00f3ria e a cultura dos povos quilombolas, ind\u00edgenas e da popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o s\u00e3o perif\u00e9ricas: elas s\u00e3o parte da hist\u00f3ria do Brasil\u201d, defende a pesquisadora. <\/em><em>Reconhecida por articular teoria, pr\u00e1tica e compromisso social, ela traz para o MEC uma agenda voltada \u00e0 diversidade, \u00e0 inclus\u00e3o e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. <\/em><em>\u201cA pesquisa \u00e9 um dos caminhos mais consistentes para transformar den\u00fancia em dado, e dado em a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, afirma. <\/em><em>Nesta entrevista, Wilma Coelho compartilha sua vis\u00e3o sobre os desafios da educa\u00e7\u00e3o brasileira, a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade cultural e o fortalecimento das pol\u00edticas educacionais voltadas \u00e0s comunidades quilombolas e demais grupos historicamente marginalizados.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Como sua experi\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Educa\u00e7\u00e3o \u00c9tnico-Racial e Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola tem influenciado as pol\u00edticas p\u00fablicas para a promo\u00e7\u00e3o da diversidade e inclus\u00e3o no ensino brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wilma de Nazar\u00e9 Baia Coelho<\/strong> \u2013 Minha passagem pela Diretoria de Pol\u00edticas de Educa\u00e7\u00e3o \u00c9tnico-Racial e Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o foi, antes de tudo, uma experi\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o. Foi nesse espa\u00e7o que pude reafirmar a educa\u00e7\u00e3o como algo muito maior do que a simples transmiss\u00e3o de conte\u00fados: ela \u00e9 um pilar para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, plural e democr\u00e1tica. Sempre acreditei que a diversidade n\u00e3o deve ser vista como problema, mas como a maior riqueza do Brasil. Nesse sentido, um dos grandes aprendizados foi perceber que n\u00e3o basta \u201cincluir\u201d de maneira superficial grupos chamados de minorias em um sistema que nunca os reconheceu plenamente. O desafio \u00e9 reestruturar o sistema para que ele valorize, de fato, as hist\u00f3rias, culturas e saberes de quilombolas, ind\u00edgenas, negros e tantos outros povos historicamente invisibilizados. A escola precisa ser um espa\u00e7o onde cada identidade seja respeitada e celebrada.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o quilombola, por exemplo, nos ensinou muito sobre a for\u00e7a das realidades locais. N\u00e3o se trata de aplicar um curr\u00edculo-padr\u00e3o, mas de construir, junto com a comunidade, um caminho que dialogue com seu modo de vida, fortale\u00e7a a identidade e o senso de pertencimento de cada estudante. Na gest\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Equidade e Educa\u00e7\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais e Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola, conseguimos avan\u00e7ar em tr\u00eas dimens\u00f5es essenciais: a forma\u00e7\u00e3o de professores e professoras para lidar com a diversidade de maneira cr\u00edtica e sens\u00edvel; a revis\u00e3o dos materiais did\u00e1ticos, para que assumam perspectivas inclusivas e combatam estere\u00f3tipos; e, talvez o mais importante, o di\u00e1logo constante e horizontal com as comunidades, porque pol\u00edtica p\u00fablica s\u00f3 funciona quando nasce da escuta e da participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segui\u00a0 esse mesmo compromisso quando estive no Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a Rede Tecer Direitos Humanos. Essa iniciativa buscou formar agentes p\u00fablicos, profissionais da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, da seguran\u00e7a, al\u00e9m de movimentos sociais e comunicadores, para que todos tenham em sua pr\u00e1tica cotidiana os valores dos direitos humanos. A Rede parte de uma premissa simples, mas poderosa: a democracia s\u00f3 se fortalece quando a diversidade \u00e9 respeitada e as diferen\u00e7as s\u00e3o reconhecidas como parte constitutiva da nossa sociedade. O que me move \u00e9 a certeza de que a educa\u00e7\u00e3o e os direitos humanos caminham juntos. Ambos s\u00e3o instrumentos de emancipa\u00e7\u00e3o, de inclus\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o social. E acredito que s\u00f3 haver\u00e1 mudan\u00e7a verdadeira se ela for plural, constru\u00edda coletivamente e com profundo respeito \u00e0s diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"politica-publica-so-funciona-quando-nasce-da-escuta-e-da-participacao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em> \u201cPol\u00edtica p\u00fablica s\u00f3 funciona quando nasce da escuta e da participa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Quais os principais desafios enfrentados para garantir a inclus\u00e3o efetiva da educa\u00e7\u00e3o quilombola e \u00e9tnico-racial no curr\u00edculo escolar brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>WNBC<\/strong> \u2013 Quando penso nos principais desafios, minha experi\u00eancia como gestora e pesquisadora mostra que eles est\u00e3o enraizados em quest\u00f5es hist\u00f3ricas e estruturais muito profundas.<br \/>\nO primeiro deles \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de gestores e professores. Muitos n\u00e3o tiveram, em sua forma\u00e7\u00e3o inicial, a oportunidade de estudar de forma consistente a hist\u00f3ria e a cultura afro-brasileira, africana e quilombola, mesmo depois da aprova\u00e7\u00e3o da Lei 10.639\/2003, alterada pela Lei 11.645\/2008. Isso faz com que se sintam inseguros ou abordem o tema de maneira superficial, \u00e0s vezes at\u00e9 refor\u00e7ando estere\u00f3tipos. Por isso, sempre defendi que a forma\u00e7\u00e3o continuada seja um espa\u00e7o de fortalecimento, para oferecer n\u00e3o s\u00f3 conte\u00fado, mas tamb\u00e9m a sensibilidade necess\u00e1ria para lidar com essas quest\u00f5es de forma cr\u00edtica, fundamentada e respeitosa.<\/p>\n<p>Outro desafio \u00e9 a resist\u00eancia institucional e social. Muitas vezes, ainda se trata a educa\u00e7\u00e3o quilombola e \u00e9tnico-racial como algo \u201cextra\u201d, quase como um anexo ao curr\u00edculo ou restrito a datas comemorativas. Essa vis\u00e3o \u00e9 equivocada. A hist\u00f3ria e a cultura dos povos quilombolas, ind\u00edgenas e da popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o s\u00e3o perif\u00e9ricas: elas s\u00e3o parte da hist\u00f3ria do Brasil. Torn\u00e1-las centrais no curr\u00edculo \u00e9 um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o que exige coragem e compromisso de toda a comunidade escolar. E, claro, h\u00e1 a quest\u00e3o dos recursos e da continuidade das pol\u00edticas p\u00fablicas. N\u00e3o podemos depender apenas da boa vontade de gestores de ocasi\u00e3o. Para que a educa\u00e7\u00e3o quilombola e \u00e9tnico-racial se torne realidade de forma consistente, \u00e9 preciso que haja pol\u00edticas de Estado, com or\u00e7amento, financiamento e apoio permanentes \u00e0s escolas e comunidades. Sem isso, cada avan\u00e7o corre o risco de se perder com a mudan\u00e7a de governo.<\/p>\n<p>O que aprendi ao longo dessa caminhada \u00e9 que superar esses desafios exige perseveran\u00e7a e trabalho coletivo. \u00c9 um processo de constru\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, que demanda di\u00e1logo com as comunidades e compromisso pol\u00edtico de todos n\u00f3s. Mas acredito que, passo a passo, estamos pavimentando o caminho para uma educa\u00e7\u00e3o verdadeiramente transformadora, que reconhe\u00e7a e celebre a pluralidade do nosso povo.<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Na sua opini\u00e3o, qual o papel da forma\u00e7\u00e3o de professores na constru\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o mais plural e antirracista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>WNBC<\/strong> \u2013 No meu modo de ver, a forma\u00e7\u00e3o inicial e cont\u00ednua de gestores e professores \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o mais plural e antirracista. Sempre digo que o educador \u00e9 a ponte viva entre as pol\u00edticas p\u00fablicas e a sala de aula. Sem essa media\u00e7\u00e3o, as leis \u2014 por mais importantes que sejam \u2014 correm o risco de ficar apenas no papel, sem se tornarem pr\u00e1tica transformadora. O professor e o gestor t\u00eam em suas m\u00e3os a possibilidade de transformar a escola em um espa\u00e7o de acolhimento ou, infelizmente, em um ambiente que perpetua exclus\u00f5es. Por isso, a forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas informativa, restrita ao conhecimento das Leis 10.639 e 11.645. Ela precisa ser um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o das mentalidades e das pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas. Isso significa preparar profissionais para reconhecer o racismo estrutural, entend\u00ea-lo como um sistema que atravessa institui\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es sociais, e, a partir da\u00ed, combat\u00ea-lo no curr\u00edculo, nas intera\u00e7\u00f5es cotidianas e na din\u00e2mica escolar.<\/p>\n<p>Uma forma\u00e7\u00e3o antirracista tamb\u00e9m ensina a perceber a diversidade n\u00e3o como algo \u201ca ser inclu\u00eddo\u201d em datas comemorativas, mas como parte estruturante da sociedade. \u00c9 formar para valorizar as hist\u00f3rias, culturas e saberes de povos negros, quilombolas e ind\u00edgenas, integrando-os de maneira digna e org\u00e2nica no cotidiano escolar. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso oferecer subs\u00eddios pedag\u00f3gicos para ensinar temas complexos, como escravid\u00e3o, resist\u00eancia e contribui\u00e7\u00f5es africanas e afro-brasileiras, de modo cr\u00edtico e engajador. Essa forma\u00e7\u00e3o deve estimular o di\u00e1logo, mostrando que a educa\u00e7\u00e3o se faz em parceria com fam\u00edlias, lideran\u00e7as comunit\u00e1rias e movimentos sociais. O conhecimento acad\u00eamico e o saber da comunidade precisam caminhar juntos. Quando bem formados, professores e gestores se tornam verdadeiros agentes de mudan\u00e7a: capazes de desconstruir preconceitos, semear o respeito e mostrar a cada estudante que a hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 feita por muitos agentes sociais, em toda a sua pluralidade e contradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 por isso que digo: n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o plural e antirracista poss\u00edvel sem investimento s\u00f3lido e cont\u00ednuo na forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de quem est\u00e1 na linha de frente \u2014 os profissionais da educa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o na escola todos os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-educador-e-a-ponte-viva-entre-as-politicas-publicas-e-a-sala-de-aula\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO educador \u00e9 a ponte viva entre as pol\u00edticas p\u00fablicas e a sala de aula.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Como a pesquisa acad\u00eamica pode contribuir para fortalecer pol\u00edticas educacionais que promovam a equidade racial no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>WNBC<\/strong> \u2013 A pesquisa acad\u00eamica \u00e9 fundamental para subsidiar pol\u00edticas educacionais voltadas \u00e0 equidade racial. Eu sempre digo que ela \u00e9 um dos caminhos mais consistentes para transformar den\u00fancia em dado, e dado em a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em primeiro lugar, a pesquisa nos permite produzir informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis. Muitas vezes, a desigualdade racial aparece de forma difusa, quase invis\u00edvel. Quando olhamos para taxas de alfabetiza\u00e7\u00e3o, evas\u00e3o escolar, acesso \u00e0 universidade ou mercado de trabalho a partir do recorte de cor e ra\u00e7a, conseguimos enxergar com clareza onde est\u00e3o as desigualdades e, assim, orientar pol\u00edticas p\u00fablicas mais justas.<\/p>\n<p>Outra contribui\u00e7\u00e3o essencial \u00e9 o di\u00e1logo com a legisla\u00e7\u00e3o e com o curr\u00edculo. Pesquisar a aplica\u00e7\u00e3o de leis como a 10.639\/2003 e a 11.645\/2008, ou analisar documentos como a BNCC e o Novo Ensino M\u00e9dio, nos ajuda a identificar avan\u00e7os, lacunas e desafios. Sem esse olhar cr\u00edtico, corremos o risco de ter leis bem-intencionadas que n\u00e3o se traduzem em pr\u00e1tica. A pesquisa tamb\u00e9m tem papel de avaliar pol\u00edticas j\u00e1 existentes. Quando olhamos, por exemplo, para as cotas raciais, o PROUNI ou o FIES, conseguimos medir at\u00e9 que ponto essas pol\u00edticas t\u00eam garantido de fato o acesso e a perman\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra no Ensino Superior. Esse acompanhamento \u00e9 indispens\u00e1vel para corrigir rumos e consolidar direitos.<\/p>\n<p>Mas talvez o aspecto que mais me mobilize seja a capacidade da pesquisa de dialogar com a sociedade. Ela n\u00e3o pode ficar restrita aos muros da universidade. Quando os resultados s\u00e3o compartilhados em rodas de conversa, entrevistas, redes sociais, lives, ou em parceria com movimentos sociais e gestores p\u00fablicos, a pesquisa ganha vida e contribui diretamente para a transforma\u00e7\u00e3o. Por isso, acredito que nosso compromisso, enquanto pesquisadores, \u00e9 duplo: com a ci\u00eancia e com a sociedade. Afinal, \u00e9 a sociedade que financia nossas investiga\u00e7\u00f5es, e \u00e9 a ela que devemos devolver respostas. No Brasil, uma das mais urgentes \u00e9 o enfrentamento da desigualdade racial, que n\u00e3o \u00e9 um problema lateral, mas central para a democracia.<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Que impacto o trabalho do N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre Forma\u00e7\u00e3o de Professores e Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais (NEAB\/UFPA) tem tido na forma\u00e7\u00e3o de docentes e na promo\u00e7\u00e3o da diversidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>WNBC<\/strong> \u2013 O N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre Forma\u00e7\u00e3o de Professores e Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais da UFPA, conhecido como GERA, tem quase duas d\u00e9cadas de atua\u00e7\u00e3o e, nesse tempo, consolidou um compromisso que \u00e9 ao mesmo tempo acad\u00eamico, social e pol\u00edtico. Nossa miss\u00e3o sempre foi articular estudos, pesquisas e a\u00e7\u00f5es que fortale\u00e7am a forma\u00e7\u00e3o docente e promovam a equidade racial no Brasil. Na pr\u00e1tica, isso significa produzir conhecimento sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais e seus impactos na educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m garantir que esses resultados cheguem \u00e0s escolas e comunidades, envolvendo-as no processo da pesquisa. Muitos dos livros e publica\u00e7\u00f5es do grupo, por exemplo, s\u00e3o doados a bibliotecas de escolas p\u00fablicas de Bel\u00e9m, apoiando professores em sua pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de eventos em diferentes escalas \u2014 regionais, nacionais e internacionais. Neles, socializamos pesquisas do GERA e de outros pesquisadores, sempre abrindo inscri\u00e7\u00f5es gratuitas para estudantes, escolas parceiras e professores da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Acreditamos que a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica s\u00f3 tem sentido quando dialoga diretamente com quem est\u00e1 na linha de frente da educa\u00e7\u00e3o. O GERA tamb\u00e9m tem uma marca muito forte na forma\u00e7\u00e3o de profissionais. Em 2018, por exemplo, ofertamos uma especializa\u00e7\u00e3o voltada a professores e agentes educacionais. Os trabalhos produzidos abordaram desde o ensino de Hist\u00f3ria at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o continuada, sempre com foco na educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Foi uma experi\u00eancia coletiva exitosa, porque mostrou o quanto, quando apoiados, os profissionais se sentem mais preparados para enfrentar o racismo dentro da escola e mais valorizados em seu conhecimento.<br \/>\nEm resumo, o impacto do GERA est\u00e1 justamente nessa dupla dimens\u00e3o: na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e na sua devolutiva social. Nosso compromisso n\u00e3o \u00e9 apenas com a pesquisa pela pesquisa, mas com a constru\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o mais plural, antirracista e comprometida com a justi\u00e7a social. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, sim, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica \u2014 e \u00e9 isso que nos move.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"voces-nao-sao-apenas-parte-da-academia-voces-sao-a-transformacao-que-ela-precisa-viver\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em> \u201cVoc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o apenas parte da academia \u2014 voc\u00eas s\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o que ela precisa viver.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Que mensagem a senhora gostaria de deixar para as jovens cientistas e educadoras negras que est\u00e3o come\u00e7ando suas trajet\u00f3rias acad\u00eamicas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>WNBC<\/strong> \u2013 \u00c0s jovens cientistas e educadoras negras que est\u00e3o iniciando suas trajet\u00f3rias, eu diria, antes de tudo, que a presen\u00e7a de voc\u00eas na academia n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel \u2014 ela \u00e9 necess\u00e1ria e urgente. Esses espa\u00e7os, que historicamente nos foram negados, precisam ser ocupados por nossas vozes, pesquisas e perspectivas. Cada uma de voc\u00eas carrega consigo n\u00e3o s\u00f3 um sonho individual, mas o legado de uma hist\u00f3ria coletiva que insiste em existir e resistir. Quero que saibam tamb\u00e9m que voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas. Ainda que sejamos minoria, h\u00e1 mulheres negras que abriram caminhos, que produziram ci\u00eancia, que desafiaram estigmas e que hoje podem servir de refer\u00eancia. H\u00e1 um legado constru\u00eddo com coragem e sacrif\u00edcio, que prova ser poss\u00edvel subverter os lugares que tentaram nos impor pela cor da pele, pelo g\u00eanero, pela classe social ou pela orienta\u00e7\u00e3o sexual. Esse legado \u00e9 de voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O meu desejo \u00e9 que construam suas trajet\u00f3rias com \u00e9tica, rigor e compromisso, mas tamb\u00e9m com alegria e esperan\u00e7a. Que n\u00e3o percam de vista que fazer ci\u00eancia, para n\u00f3s, \u00e9 tamb\u00e9m um ato pol\u00edtico, um gesto de luta por justi\u00e7a social. O mundo acad\u00eamico precisa das perguntas e das respostas que s\u00f3 voc\u00eas podem oferecer. E, por fim, quero dizer: sigam acreditando em si mesmas, mesmo quando tentarem convenc\u00ea-las do contr\u00e1rio. O caminho pode ser \u00e1rduo, mas cada passo de voc\u00eas \u00e9 uma semente plantada para que outras jovens negras possam caminhar com menos pedras no futuro. Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o apenas parte da academia \u2014 voc\u00eas s\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o que ela precisa viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Wilma de Nazar\u00e9 Baia Coelho, professora do programa de&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9077"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9077"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9077\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9111,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9077\/revisions\/9111"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}