{"id":9087,"date":"2025-11-06T07:30:48","date_gmt":"2025-11-06T07:30:48","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9087"},"modified":"2025-10-20T18:59:38","modified_gmt":"2025-10-20T18:59:38","slug":"roberto-burle-marx-o-poeta-das-plantas-e-a-reinvencao-do-paisagismo-tropical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9087","title":{"rendered":"Roberto Burle Marx: O Poeta das Plantas e a Reinven\u00e7\u00e3o do Paisagismo Tropical"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"como-roberto-burle-marx-transformou-a-botanica-brasileira-em-paisagem-arte-e-identidade-nacional\"><span style=\"color: #808080;\">Como Roberto Burle Marx transformou a bot\u00e2nica brasileira em paisagem, arte e identidade nacional<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No cruzamento entre a arte, a ci\u00eancia e a natureza tropical, emergiu Roberto Burle Marx (1909\u20131994), figura seminal no paisagismo moderno brasileiro. Reconhecido mundialmente como um dos principais paisagistas do s\u00e9culo XX, ele transformou o jardim em manifesta\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica, rompendo com conven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e propondo uma nova rela\u00e7\u00e3o entre o homem e o meio ambiente. Mais do que jardineiro, como por vezes se definia, Burle Marx foi artista pl\u00e1stico, cantor de \u00f3pera, bot\u00e2nico autodidata e defensor da flora brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"uma-vida-entre-orquideas-e-pinceis\"><strong>Uma vida entre orqu\u00eddeas e pinc\u00e9is<\/strong><\/h4>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Burle Marx come\u00e7ou na inf\u00e2ncia, incentivada por uma fam\u00edlia envolvida com as artes. Mas foi durante uma temporada em Berlim, no final dos anos 1920, que o jovem Roberto teve uma epifania. Ao visitar o Jardim Bot\u00e2nico de Dahlem, se encantou com a flora tropical brasileira ali cultivada. A partir dali, compreendeu que o Brasil n\u00e3o precisava importar a beleza de outras na\u00e7\u00f5es: ela j\u00e1 estava enraizada em sua pr\u00f3pria terra. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-roberto-burle-marxfoto-marcio-scavone-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9088\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Roberto_Burle_Marx_foto_Marcio_Scavone-240x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Roberto_Burle_Marx_foto_Marcio_Scavone-240x300.jpeg 240w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Roberto_Burle_Marx_foto_Marcio_Scavone-768x960.jpeg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Roberto_Burle_Marx_foto_Marcio_Scavone-10x12.jpeg 10w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Roberto_Burle_Marx_foto_Marcio_Scavone.jpeg 800w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Roberto Burle Marx<br \/>\n<\/strong>(Foto: Marcio Scavone. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, entrou para a Escola Nacional de Belas Artes e, apadrinhado por L\u00facio Costa, fez seu primeiro jardim em Copacabana. A consagra\u00e7\u00e3o viria poucos anos depois, com o projeto paisag\u00edstico do ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, no Rio de Janeiro, em parceria com Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Ali nascia o \u201cjardim tropical moderno\u201d, tamb\u00e9m chamado de jardim brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-a-servico-da-arte\"><strong>A ci\u00eancia a servi\u00e7o da arte<\/strong><\/h4>\n<p>Diferente de muitos paisagistas de sua \u00e9poca, Burle Marx se dedicou intensamente ao estudo da flora nacional. Realizou dezenas de expedi\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas por biomas como a Amaz\u00f4nia, o Cerrado e a Caatinga, coletando esp\u00e9cies, muitas ainda desconhecidas da ci\u00eancia, e introduzindo-as em seus projetos. Estimativas apontam que ele descobriu cerca de 50 novas esp\u00e9cies, algumas das quais foram nomeadas em sua homenagem, como o <em>Orthophytum burle-marxii<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"se-eu-pretendesse-fazer-uma-obra-perfeita-nao-saberia-por-onde-comecar-erros-podem-ser-corrigidos-tenho-medo-e-da-formula-o-importante-e-ter-curiosidade-roberto-burle\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSe eu pretendesse fazer uma obra perfeita, n\u00e3o saberia por onde come\u00e7ar. Erros podem ser corrigidos. Tenho medo \u00e9 da f\u00f3rmula. O importante \u00e9 ter curiosidade.\u201d \u2014 Roberto Burle Marx.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No paisagismo, seu olhar era t\u00e3o bot\u00e2nico quanto est\u00e9tico. Cada planta era escolhida n\u00e3o apenas por sua beleza, mas por sua adapta\u00e7\u00e3o ao local, por sua textura, volume, cor e papel ecol\u00f3gico. Seus jardins eram projetos de vida, planejados com vis\u00e3o hol\u00edstica, onde n\u00e3o havia elemento isolado, mas sim um sistema vivo em constante di\u00e1logo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-sitio-laboratorio\"><strong>O s\u00edtio-laborat\u00f3rio<\/strong><\/h4>\n<p>A dimens\u00e3o mais concreta da rela\u00e7\u00e3o entre Burle Marx e a bot\u00e2nica est\u00e1 no S\u00edtio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. Adquirido em 1949, o espa\u00e7o de 365 mil m\u00b2 tornou-se sua resid\u00eancia, ateli\u00ea e campo experimental. Ali, aclimatava esp\u00e9cies, cultivava mudas, desenhava jardins e abrigava uma cole\u00e7\u00e3o impressionante de mais de 3.500 esp\u00e9cies tropicais e subtropicais, incluindo representantes raros de brom\u00e9lias, palmeiras, helic\u00f4nias, ar\u00e1ceas e cicas.<\/p>\n<p>Em 1985, o S\u00edtio foi doado ao Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), tornando-se centro de refer\u00eancia em paisagismo e bot\u00e2nica. Hoje, al\u00e9m de jardim bot\u00e2nico tombado e bem cultural, est\u00e1 na Lista Indicativa da Unesco como poss\u00edvel Patrim\u00f4nio Mundial. No local, tamb\u00e9m se conservam obras pl\u00e1sticas do artista, objetos pessoais e uma vasta cole\u00e7\u00e3o de arte popular brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-paisagismo-de-pertencimento\"><strong>Um paisagismo de pertencimento<\/strong><\/h4>\n<p>Burle Marx rompeu com a tradi\u00e7\u00e3o europeia e prop\u00f4s um paisagismo autenticamente brasileiro. Seus projetos para pra\u00e7as, parques, jardins residenciais e edif\u00edcios integram-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, topogr\u00e1ficas e culturais de cada regi\u00e3o. Ele concebeu o jardim como espa\u00e7o de experi\u00eancia coletiva, n\u00e3o como luxo privado. &#8220;N\u00e3o quero fazer jardins apenas para milion\u00e1rios. Gostaria de fazer jardins que o povo pudesse participar&#8221;, afirmou em entrevista. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-praca-do-entroncamento-projetada-por-burle-marx-foto-lais-castro-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9090\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Fonte_na_Prac\u0327a_do_Entroncamento_-_Recife_Pernambuco_Brasil-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Fonte_na_Prac\u0327a_do_Entroncamento_-_Recife_Pernambuco_Brasil-300x225.jpeg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Fonte_na_Prac\u0327a_do_Entroncamento_-_Recife_Pernambuco_Brasil-768x576.jpeg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Fonte_na_Prac\u0327a_do_Entroncamento_-_Recife_Pernambuco_Brasil-16x12.jpeg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Fonte_na_Prac\u0327a_do_Entroncamento_-_Recife_Pernambuco_Brasil.jpeg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Pra\u00e7a do Entroncamento, projetada por Burle Marx.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Lais Castro. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m precursor em sustentabilidade: utilizava materiais de demoli\u00e7\u00e3o em cal\u00e7amentos e estruturas, fazia manejo ecol\u00f3gico da vegeta\u00e7\u00e3o e combatia o desmatamento, que tanto o indignava durante suas viagens pelo Brasil. Em suas palavras: &#8220;A natureza \u00e9 como algo despenteado, e por isso a arrumo com sutil experi\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"legado-vivo\"><strong>Legado vivo<\/strong><\/h4>\n<p>Mais do que jardins, Burle Marx deixou um pensamento: o paisagismo como linguagem que une ci\u00eancia e arte, ecologia e est\u00e9tica, tradi\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o. Seu legado vive n\u00e3o apenas nas formas curvas dos cal\u00e7ad\u00f5es de Copacabana ou nas exuberantes pra\u00e7as de Recife e Belo Horizonte, mas na forma como olhamos a natureza como express\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"mais-do-que-jardins-burle-marx-plantou-ideias-um-paisagismo-que-une-ciencia-arte-e-pertencimento-cultivado-no-solo-fertil-da-biodiversidade-brasileira\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMais do que jardins, Burle Marx plantou ideias: um paisagismo que une ci\u00eancia, arte e pertencimento, cultivado no solo f\u00e9rtil da biodiversidade brasileira.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, enquanto o mundo debate mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, biodiversidade e o papel das cidades, revisitar Burle Marx \u00e9 mais do que homenagear um mestre: \u00e9 reaprender com um vision\u00e1rio que viu nas plantas nativas n\u00e3o apenas mat\u00e9ria vegetal, mas identidade, beleza e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-parque-burle-marx-spfoto-divulgacao\"><strong>Capa. Parque Burle Marx (SP)<br \/>\n<\/strong>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como Roberto Burle Marx transformou a bot\u00e2nica brasileira em paisagem, arte e&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9089,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9087"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9087"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9117,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions\/9117"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}