{"id":9427,"date":"2025-12-11T07:30:15","date_gmt":"2025-12-11T07:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9427"},"modified":"2025-12-10T19:46:25","modified_gmt":"2025-12-10T19:46:25","slug":"nao-tem-clima-os-povos-indigenas-e-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9427","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o tem clima\u201d: Os povos ind\u00edgenas e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"documentario-faz-retrato-direto-da-crise-climatica-nos-territorios-indigenas-e-da-potencia-das-narrativas-que-emergem-da-propria-floresta\"><span style=\"color: #808080;\">Document\u00e1rio faz retrato direto da crise clim\u00e1tica nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas e da pot\u00eancia das narrativas que emergem da pr\u00f3pria floresta.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cO ind\u00edgena \u00e9 um ec\u00f3logo, ele \u00e9 um ambientalista, ele \u00e9 um defensor da natureza. E 60% da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena se encontra na Amaz\u00f4nia. A grande trag\u00e9dia \u00e9 que agora que o mundo est\u00e1 se dando conta da import\u00e2ncia da grande biodiversidade da Amaz\u00f4nia, nesse momento isso est\u00e1 desaparecendo e com ele todo esse conhecimento\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem clima!\u201d \u00e9 um curta que n\u00e3o pede licen\u00e7a para existir \u2014 ele irrompe como um chamado urgente vindo da floresta, carregado de voz, mem\u00f3ria e resist\u00eancia. A declara\u00e7\u00e3o acima, da antrop\u00f3loga, etn\u00f3loga e muse\u00f3loga Berta Gleizer Ribeiro, dita h\u00e1 35 anos, funciona como uma ferida aberta que o filme reaviva: mesmo com a crescente valoriza\u00e7\u00e3o global da Amaz\u00f4nia, pouco mudou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos povos que a sustentam. O resultado \u00e9 um desconforto inevit\u00e1vel, uma constata\u00e7\u00e3o dura: seguimos repetindo velhos ciclos enquanto os sinais de ruptura se acumulam diante dos nossos olhos.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio nasce de uma iniciativa ind\u00edgena e se constr\u00f3i sobre um gesto simples e poderoso: permitir que os pr\u00f3prios povos falem, gravem, registrem e definam o enquadramento de suas realidades. Por meio de depoimentos videoconferenciados dos povos Marubo e Tikuna, o filme coloca em primeiro plano o cotidiano de quem sente, de forma visceral, o impacto da crise clim\u00e1tica. A seca severa, as cheias imprevis\u00edveis, a altera\u00e7\u00e3o nos ciclos das plantas e a escassez de animais n\u00e3o s\u00e3o estat\u00edsticas: s\u00e3o elementos que reorganizam modos de vida inteiros e colocam em risco culturas milenares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sem-terra-e-sem-seguranca-juridica-nao-ha-cultura-nao-ha-futuro-e-nao-ha-floresta-em-pe\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSem terra \u2014 e sem seguran\u00e7a jur\u00eddica \u2014 n\u00e3o h\u00e1 cultura, n\u00e3o h\u00e1 futuro e n\u00e3o h\u00e1 floresta em p\u00e9.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa escolha est\u00e9tica e pol\u00edtica \u2014 entregar a c\u00e2mera aos pr\u00f3prios ind\u00edgenas \u2014 rompe com um hist\u00f3rico de media\u00e7\u00e3o externa e produz um efeito imediato: o espectador n\u00e3o \u201cobserva\u201d os territ\u00f3rios, mas \u00e9 convidado a entrar na conversa, numa troca direta que humaniza a urg\u00eancia e dissolve dist\u00e2ncias. Mendison Agostinho e Salom\u00e3o In\u00e1cio Clemente, do povo Tikuna, assinam as imagens com uma sensibilidade que n\u00e3o se aprende em faculdade: ela nasce da intimidade com a mata, da viv\u00eancia de quem l\u00ea a floresta como uma biblioteca viva.<\/p>\n<p>A partir dessas narrativas, dirigidas pela historiadora e documentarista Bianca Fran\u00e7a, o curta vai lembrando algo que a ci\u00eancia j\u00e1 sabe, mas a sociedade insiste em ignorar: os povos ind\u00edgenas s\u00e3o respons\u00e1veis pelas \u00e1reas mais preservadas do planeta. Seus sistemas de manejo, seus saberes sobre ciclos naturais e sua rela\u00e7\u00e3o espiritual com a terra resultam, empiricamente, em menos desmatamento, mais biodiversidade e maior capacidade de resili\u00eancia clim\u00e1tica. Em um momento em que a Amaz\u00f4nia registra seu maior n\u00famero de queimadas em quarenta anos \u2014 15,6 milh\u00f5es de hectares devastados em 2024 \u2014 fica ainda mais evidente o papel estrat\u00e9gico de quem h\u00e1 s\u00e9culos cuida da floresta.<\/p>\n<p>O filme tamb\u00e9m amplia a quest\u00e3o clim\u00e1tica para al\u00e9m dos eventos extremos e revela o ac\u00famulo de amea\u00e7as que se sobrep\u00f5em ao cotidiano ind\u00edgena: invas\u00f5es, viol\u00eancia, racismo, precariza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma luta permanente pela demarca\u00e7\u00e3o territorial. A recente aprova\u00e7\u00e3o da PEC do Marco Temporal no Senado, apontada por juristas como uma amea\u00e7a grav\u00edssima aos direitos constitucionais desses povos, atravessa o debate e projeta um futuro ainda mais inst\u00e1vel. A narrativa do curta ecoa esse momento hist\u00f3rico, lembrando que, sem terra \u2014 e sem seguran\u00e7a jur\u00eddica \u2014 n\u00e3o h\u00e1 cultura, n\u00e3o h\u00e1 futuro e n\u00e3o h\u00e1 floresta em p\u00e9.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9429\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-212x300.jpg 212w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-724x1024.jpg 724w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-768x1086.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-1086x1536.jpg 1086w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-1448x2048.jpg 1448w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-800x1132.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1-1160x1641.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/nao-tem-clima-fig1.jpg 1587w\" sizes=\"(max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao registrar a dor, o medo e a indigna\u00e7\u00e3o, \u201cN\u00e3o tem clima!\u201d n\u00e3o cai no sensacionalismo. Pelo contr\u00e1rio: cada depoimento \u00e9 constru\u00eddo com uma delicadeza que preserva a dignidade e a for\u00e7a das lideran\u00e7as na tela. H\u00e1 um cuidado profundo em manter o olhar das pessoas como centro da narrativa, permitindo que elas mesmas definam o que precisa ser dito \u2014 e como precisa ser ouvido.<\/p>\n<p>Essa sensibilidade se intensifica com a trilha sonora original de Ollivia Maria Gon\u00e7alves, que se integra ao filme quase como um fio ancestral conduzindo o espectador entre passado, presente e futuro. A m\u00fasica n\u00e3o ilustra \u2014 ela convoca. E essa convoca\u00e7\u00e3o se soma \u00e0 dire\u00e7\u00e3o firme de Bianca Fran\u00e7a, que transforma uma pesquisa acad\u00eamica em uma obra que ultrapassa a universidade para ganhar o mundo.<\/p>\n<p>O percurso do curta confirma essa for\u00e7a: o document\u00e1rio participou de oito festivais \u2014 sete internacionais e um nacional \u2014 com exibi\u00e7\u00f5es no Brasil (Rio de Janeiro e Goi\u00e1s), Estados Unidos (Nova York), Alemanha (Berlim), Coreia do Sul (Seoul), Reino Unido (Londres), \u00cdndia e Fran\u00e7a. No Brasil, integrou a Mostra de Cinema da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Hist\u00f3ria Oral \u2013 Centro-Oeste, realizada em Goi\u00e1s em maio de 2025. O reconhecimento veio por meio de premia\u00e7\u00f5es em festivais nos Estados Unidos (New York Tri-State Film Festival, Melhor Document\u00e1rio), \u00cdndia (Good Vibes International Film Awards; Melhor Document\u00e1rio Curta-Metragem, Melhor Dire\u00e7\u00e3o e Produ\u00e7\u00e3o Feminina, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Fotografia, Melhor Elenco de Document\u00e1rio) e Fran\u00e7a (Zeal International Film Festival, Melhor Document\u00e1rio Curta-Metragem).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"se-nao-esta-tudo-bem-para-eles-nao-estara-para-nos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSe n\u00e3o est\u00e1 tudo bem para eles, n\u00e3o estar\u00e1 para n\u00f3s.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O filme recebeu o reconhecimento que merecia justamente por fazer o que o cinema documental muitas vezes hesita: ceder o protagonismo. Salom\u00e3o In\u00e1cio Clemente e Mendison Agostinho (povo Tikuna), respons\u00e1veis pelas imagens, e as lideran\u00e7as Cleobina Torres Florentino (povo Tikuna), Jos\u00e9 Fernandes Mendon\u00e7a (povo Tikuna) e Beto Marubo (Uni\u00e3o dos Povos do Vale do Javari), elenco do document\u00e1rio, ganharam pr\u00eamios individuais que celebram n\u00e3o apenas suas participa\u00e7\u00f5es, mas sua autoria na constru\u00e7\u00e3o dessa narrativa coletiva.<\/p>\n<p>No fim, \u201cN\u00e3o tem clima!\u201d n\u00e3o se limita a registrar problemas \u2014 ele reafirma a centralidade das narrativas ind\u00edgenas na busca por solu\u00e7\u00f5es. A pergunta que atravessa o curta, \u201cqual ser\u00e1 o futuro desses povos \u2014 e do planeta?\u201d, funciona menos como alerta e mais como lembrete de que n\u00e3o h\u00e1 caminhos poss\u00edveis sem aqueles que sempre souberam cuidar da Terra. E, de forma sutil, o filme devolve ao p\u00fablico o desconforto necess\u00e1rio: se n\u00e3o est\u00e1 tudo bem para eles, n\u00e3o estar\u00e1 para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Em tempos de retrocessos pol\u00edticos, intensifica\u00e7\u00e3o de conflitos e acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o curta se torna mais do que um registro: \u00e9 um chamado \u00e9tico. Um convite \u00e0 escuta. Um pedido para que paremos de repetir que \u201cn\u00e3o tem clima\u201d para debate, para a\u00e7\u00e3o ou para mudan\u00e7a \u2014 quando, na verdade, o que n\u00e3o temos \u00e9 tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o tem clima! <\/strong><\/p>\n<p>Filme de 2024<\/p>\n<p>Dire\u00e7\u00e3o: Bianca Luiza Freire de Castro Fran\u00e7a<\/p>\n<p>Trilha sonora original: Ollivia Maria Gon\u00e7alves<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o e montagem: Bianca Luiza Freire de Castro Fran\u00e7a<\/p>\n<p>Imagens: Mendison Agostinho e Salom\u00e3o In\u00e1cio Clemente<\/p>\n<p>G\u00eanero: Document\u00e1rio<\/p>\n<p>Dura\u00e7\u00e3o: 28:08<\/p>\n<p>Classifica\u00e7\u00e3o: livre<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Assista ao document\u00e1rio aqui:<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"N\u00c3O TEM CLIMA! - DOCUMENT\u00c1RIO\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IrbJ6f5UTM8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Document\u00e1rio faz retrato direto da crise clim\u00e1tica nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas e da&hellip;\n","protected":false},"author":11,"featured_media":9428,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,865],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9427"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9427"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9427\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9431,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9427\/revisions\/9431"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}