{"id":9579,"date":"2026-01-28T07:30:38","date_gmt":"2026-01-28T07:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9579"},"modified":"2026-02-06T18:45:06","modified_gmt":"2026-02-06T18:45:06","slug":"milton-santos-o-geografo-do-mundo-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9579","title":{"rendered":"Milton Santos, o ge\u00f3grafo do mundo poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"intelectual-negro-brasileiro-ampliou-a-geografia-ao-integrar-espaco-economia-e-sociedade-oferecendo-uma-das-criticas-mais-profundas-a-globalizacao-contemporanea\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Intelectual negro brasileiro ampliou a geografia ao integrar espa\u00e7o, economia e sociedade, oferecendo uma das cr\u00edticas mais profundas \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea<\/strong><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando Milton Santos analisava uma cidade, ele n\u00e3o via apenas ruas, pr\u00e9dios e fluxos. Via rela\u00e7\u00f5es de poder, desigualdades hist\u00f3ricas, disputas simb\u00f3licas e, sobretudo, pessoas tentando viver em um mundo organizado para exclu\u00ed-las. Essa forma de olhar \u2014 profundamente humana, cr\u00edtica e pol\u00edtica \u2014 transformou a geografia e projetou o intelectual baiano como um dos maiores pensadores do s\u00e9culo XX, reconhecido mundialmente por ampliar os estudos geogr\u00e1ficos para al\u00e9m dos mapas, integrando sociologia, economia, filosofia e \u00e9tica.<\/p>\n<p>Nascido em 1926, em Brotas de Maca\u00fabas, na Chapada Diamantina, filho de professores prim\u00e1rios, Milton Almeida dos Santos construiu uma trajet\u00f3ria singular. Formado inicialmente em Direito pela Universidade Federal da Bahia, encontrou na geografia o campo capaz de reunir suas inquieta\u00e7\u00f5es sobre injusti\u00e7a social, desenvolvimento desigual e uso pol\u00edtico do territ\u00f3rio. Doutorou-se na Fran\u00e7a, na Universidade de Strasbourg, e ao longo da vida lecionou em algumas das mais prestigiadas universidades do mundo, como a Sorbonne, Columbia, Toronto, Dar es Salaam e a Universidade de S\u00e3o Paulo, onde se tornou professor em\u00e9rito.<\/p>\n<h6 id=\"foto-site-milton-santos-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9581\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-300x158.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-768x404.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-380x200.jpg 380w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-800x421.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1-1160x610.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton-santos1.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\n<strong>(Foto: Site Milton Santos. Reprodu\u00e7\u00e3o) <\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seria, no entanto, um equ\u00edvoco reduzir Milton Santos a uma carreira acad\u00eamica brilhante. Negro em uma intelectualidade majoritariamente branca, enfrentou o racismo institucional de forma direta e cotidiana \u2014 como quando foi impedido de entrar na USP por um porteiro que n\u00e3o acreditava que um homem negro pudesse ser professor daquela universidade. Essa experi\u00eancia, longe de ser epis\u00f3dica, atravessou sua vida e ajudou a moldar um pensamento atento \u00e0s desigualdades estruturais, ainda que a quest\u00e3o racial n\u00e3o fosse o eixo central de sua obra.<\/p>\n<p>A ditadura civil-militar instaurada em 1964 interrompeu brutalmente sua trajet\u00f3ria no Brasil. Preso por sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Milton Santos foi for\u00e7ado ao ex\u00edlio e passou 13 anos fora do pa\u00eds, vivendo e ensinando em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Canad\u00e1, Tanz\u00e2nia e Venezuela. Paradoxalmente, foi esse deslocamento for\u00e7ado que consolidou sua proje\u00e7\u00e3o internacional e aprofundou sua compreens\u00e3o do funcionamento desigual do mundo, especialmente a partir das periferias globais.<\/p>\n<p>Ao retornar ao Brasil, em 1977, Santos j\u00e1 era um intelectual maduro, com um pensamento sistematizado e radicalmente cr\u00edtico. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais duradoura talvez esteja na forma como redefiniu o conceito de espa\u00e7o geogr\u00e1fico. Para ele, o espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um simples palco onde a hist\u00f3ria acontece, mas um \u201cconjunto indissoci\u00e1vel de sistemas de objetos e sistemas de a\u00e7\u00f5es\u201d. Em outras palavras, n\u00e3o se pode separar as infraestruturas, as tecnologias e os objetos materiais das pr\u00e1ticas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas que os produzem e utilizam. O espa\u00e7o \u00e9, ao mesmo tempo, produto e produtor da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"espaco-espacos\">Espa\u00e7o, espa\u00e7os<\/h4>\n<p>Essa formula\u00e7\u00e3o, apresentada de maneira exemplar em \u201c<em>A Natureza do Espa\u00e7o\u201d<\/em> (1996), rompeu com vis\u00f5es deterministas e positivistas da geografia, predominantes at\u00e9 ent\u00e3o. Milton Santos defendia uma \u201cgeografia nova\u201d, capaz de compreender o espa\u00e7o como constru\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica, atravessada por conflitos, interesses e desigualdades. N\u00e3o por acaso, sua obra dialoga intensamente com o pensamento marxista, ainda que sem dogmatismos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"para-milton-santos-o-espaco-geografico-nao-e-cenario-neutro-mas-produto-vivo-das-relacoes-sociais-economicas-e-politicas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cPara Milton Santos, o espa\u00e7o geogr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 cen\u00e1rio neutro, mas produto vivo das rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m observando as cidades dos pa\u00edses pobres que Santos elaborou uma de suas teorias mais influentes: a dos dois circuitos da economia urbana, apresentada em \u201c<em>O Espa\u00e7o Dividido\u201d<\/em> (1979). Segundo ele, as cidades do chamado Terceiro Mundo s\u00e3o estruturadas por um circuito superior, moderno, capital-intensivo e conectado \u00e0 economia global, e por um circuito inferior, formado por atividades informais, trabalho intensivo e baixa tecnologia, voltado \u00e0 sobreviv\u00eancia local. Esses dois circuitos coexistem, se interligam, mas n\u00e3o se equilibram: o circuito inferior \u00e9 estruturalmente subordinado ao superior.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise ajudou a desmontar explica\u00e7\u00f5es simplistas sobre \u201catraso\u201d urbano, mostrando que a informalidade n\u00e3o \u00e9 res\u00edduo do subdesenvolvimento, mas parte funcional de um sistema global desigual. A cidade, para Milton Santos, \u00e9 simultaneamente lugar da globaliza\u00e7\u00e3o e da resist\u00eancia \u2014 espa\u00e7o onde se imp\u00f5em as l\u00f3gicas do capital, mas tamb\u00e9m onde emergem solidariedades, culturas populares e formas alternativas de exist\u00eancia.<\/p>\n<h6 id=\"foto-site-milton-santos-reproducao-2\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9583\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton_santos2-300x200.webp\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton_santos2-300x200.webp 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton_santos2-18x12.webp 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/milton_santos2.webp 350w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\n<strong>(Foto: Site Milton Santos. Reprodu\u00e7\u00e3o) <\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa ambival\u00eancia reaparece de forma contundente em sua cr\u00edtica \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. Muito antes de o termo se popularizar, Santos j\u00e1 analisava seus efeitos e alertava para seus riscos. Em \u201c<em>Por uma Outra Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> (2000), talvez sua obra mais conhecida fora da geografia, ele prop\u00f4s uma leitura em tr\u00eas camadas: a globaliza\u00e7\u00e3o como f\u00e1bula (a narrativa otimista vendida pelo mercado), como perversidade (a realidade da exclus\u00e3o, da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e da precariza\u00e7\u00e3o da vida) e como possibilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"tiranias\">Tiranias<\/h4>\n<p>\u00c9 nesse \u00faltimo ponto que reside o car\u00e1ter singularmente esperan\u00e7oso de seu pensamento. Apesar de denunciar a \u201ctirania do dinheiro\u201d e a \u201ctirania da informa\u00e7\u00e3o\u201d, Santos acreditava que a pr\u00f3pria globaliza\u00e7\u00e3o criava as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e comunicacionais para sua supera\u00e7\u00e3o. As novas tecnologias, quando apropriadas pelos povos, poderiam fortalecer redes solid\u00e1rias, culturas locais e lutas coletivas. Para ele, das periferias do mundo poderia emergir uma outra racionalidade, mais justa e mais humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ao-estudar-as-cidades-dos-paises-pobres-o-geografo-revelou-que-a-informalidade-nao-e-falha-do-sistema-mas-parte-estrutural-dele\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cAo estudar as cidades dos pa\u00edses pobres, o ge\u00f3grafo revelou que a informalidade n\u00e3o \u00e9 falha do sistema, mas parte estrutural dele.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa confian\u00e7a nas cidades como espa\u00e7os de liberdade cultural e de inven\u00e7\u00e3o social contrasta com leituras apocal\u00edpticas do presente. Mesmo cr\u00edtico feroz do capitalismo, Milton Santos nunca abriu m\u00e3o da ideia de transforma\u00e7\u00e3o. Acreditava que questionar consensos era uma tarefa intelectual e pol\u00edtica fundamental \u2014 e fez disso sua marca.<\/p>\n<p>Autor de mais de 40 livros, traduzidos em diversos idiomas, consultor de organismos internacionais como a OIT e a Unesco, vencedor do Pr\u00eamio Vautrin Lud em 1994 \u2014 o mais importante da geografia mundial \u2014, Milton Santos deixou um legado que segue mobilizando pesquisadores, movimentos sociais e leitores muito al\u00e9m da academia. Seu pensamento permanece atual porque continua nos ajudando a entender por que o mundo funciona como funciona \u2014 e, sobretudo, como poderia funcionar de outro modo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-divulgacao\"><strong>(Capa: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Intelectual negro brasileiro ampliou a geografia ao integrar espa\u00e7o, economia e sociedade,&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9580,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9579"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9579"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9701,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9579\/revisions\/9701"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}