{"id":9632,"date":"2026-02-09T08:00:24","date_gmt":"2026-02-09T08:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9632"},"modified":"2026-02-06T18:41:40","modified_gmt":"2026-02-06T18:41:40","slug":"bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9632","title":{"rendered":"Bioac\u00fastica e a sa\u00fade dos ecossistemas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"sons-de-animais-plantas-e-fungos-revelam-diversidade-e-sinais-de-degradacao-ambiental\"><strong><span style=\"color: #808080;\">Sons de animais, plantas e fungos revelam diversidade e sinais de degrada\u00e7\u00e3o ambiental<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s mais diversas paisagens, vozes, passos e zumbidos, sensores e microfones de alta precis\u00e3o captam uma sinfonia natural que escapa mesmo aos olhares mais atentos. Essa trilha sonora \u00e9 a mat\u00e9ria-prima da bioac\u00fastica \u2013 um campo de estudos que transforma sons produzidos por seres vivos em dados cient\u00edficos capazes de revelar a diversidade de esp\u00e9cies, suas intera\u00e7\u00f5es e at\u00e9 entregar pistas sobre a sa\u00fade dos ecossistemas.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Felipe Toledo, pesquisador da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unicamp.br\/\"><strong>Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)<\/strong><\/a><\/span> e curador da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www2.ib.unicamp.br\/fnjv\/\"><strong>Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV)<\/strong><\/a><\/span>, uma das cinco maiores fonotecas do mundo e a maior da Am\u00e9rica Latina, afirma que todos os animais produzem sons: \u201cdesde aranhas, escorpi\u00f5es e insetos, como as formigas, at\u00e9 grandes mam\u00edferos, como macacos e baleias\u201d. Esses sinais t\u00eam papel central na comunica\u00e7\u00e3o: permitem identificar a esp\u00e9cie e o sexo, defender territ\u00f3rio, coordenar intera\u00e7\u00f5es sociais em grupo e at\u00e9 sinalizar condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas ou a presen\u00e7a de doen\u00e7as. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-captacao-de-sons-da-naturezafoto-antoninho-perri-unicamp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9635\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-300x166.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-300x166.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-768x425.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-200x110.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1-800x442.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Capta\u00e7\u00e3o de sons da natureza<br \/>\n<\/strong>(Foto: Antoninho Perri\/Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Simone Dena, tamb\u00e9m pesquisadora na Unicamp e na FNJV, os animais n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos organismos que participam da composi\u00e7\u00e3o. \u201cAs plantas produzem sons ultrass\u00f4nicos que nossos ouvidos n\u00e3o conseguem captar. Quando est\u00e3o muito ressecadas, sofrem danos mec\u00e2nicos ou s\u00e3o atacadas por insetos, por exemplo, emitem ru\u00eddos que podem ser registrados e interpretados por sensores espec\u00edficos\u201d, descreve. Ela acrescenta que estudos recentes tamb\u00e9m v\u00eam apontando para a produ\u00e7\u00e3o de sons por fungos. \u201cH\u00e1 pesquisas mostrando que cogumelos emitem sinais el\u00e9tricos que podem ser traduzidos em sons\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Ao direcionar microfones para determinados indiv\u00edduos ou para ambientes inteiros, pesquisadores conseguem investigar desde comportamentos particulares at\u00e9 padr\u00f5es coletivos. \u201cDuas esp\u00e9cies podem ser muito semelhantes do ponto de vista morfol\u00f3gico, mas produzir sinais ac\u00fasticos completamente distintos\u201d, explica Lu\u00eds Felipe Toledo. \u201c\u00c9 poss\u00edvel analisar como um animal atrai parceiros, como a f\u00eamea responde aos chamados do macho, como essas vocaliza\u00e7\u00f5es se modificam ao longo do tempo ou at\u00e9 diferenciar esp\u00e9cies visualmente parecidas\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-casos-de-desmatamento-ou-queimadas-e-comum-observar-um-periodo-de-silenciamento\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEm casos de desmatamento ou queimadas, \u00e9 comum observar um per\u00edodo de silenciamento.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A an\u00e1lise integrada das chamadas paisagens sonoras amplia essa perspectiva ao permitir a compreens\u00e3o do funcionamento do ecossistema como um todo. \u201cEm uma lagoa, por exemplo, \u00e9 comum encontrar v\u00e1rias esp\u00e9cies de sapos vocalizando simultaneamente, al\u00e9m de cigarras, aves e outros organismos\u201d, relata o pesquisador. Esse tipo de abordagem possibilita avaliar, ao longo do tempo, os efeitos de press\u00f5es antr\u00f3picas, como polui\u00e7\u00e3o sonora, urbaniza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o florestal.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"sons-podem-indicar-saude-ou-colapso-de-ecossistemas\">Sons podem indicar sa\u00fade &#8211; ou colapso &#8211; de ecossistemas<\/h4>\n<p>Quando o som de motosserras, correntes e caminh\u00f5es se mescla com a paisagem sonora natural, as altera\u00e7\u00f5es na sinfonia podem se estender no tempo e no espa\u00e7o. \u201cA introdu\u00e7\u00e3o desses ru\u00eddos e os desequil\u00edbrios causados por essas atividades podem causar mudan\u00e7as no comportamento das esp\u00e9cies e acarretar uma redu\u00e7\u00e3o na diversidade\u201d, alerta Simone Dena. Para Tom\u00e1s Rostirolla, presidente da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.sbba.com.br\/\"><strong>Sociedade Brasileira de Bioac\u00fastica (SBBa)<\/strong><\/a><\/span>, a diversidade sonora \u00e9 um indicador-chave da sa\u00fade ambiental: \u201cquando essa diversidade se quebra, \u00e9 poss\u00edvel inferir que o ambiente est\u00e1 comprometido\u201d.<\/p>\n<p>Outros processos de degrada\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deixam marcas aud\u00edveis. Inc\u00eandios florestais e queimadas produzem assinaturas ac\u00fasticas espec\u00edficas que permitem sua detec\u00e7\u00e3o e monitoramento. Carolline Zatta Fieker, integrante do grupo de pesquisa <a href=\"https:\/\/cobra.ic.ufmt.br\/?page_id=22\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Computational Bioacoustics Research Unit (CO.BRA)<\/span><\/strong><\/a>, da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufmt.br\/\"><strong>Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)<\/strong><\/a><\/span>, explica que estalos e bramidos caracter\u00edsticos das chamas consumindo a biomassa podem, inclusive, gerar alertas quando integrados a sistemas autom\u00e1ticos. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-processos-de-degradacao-como-incendios-florestais-e-queimadas-produzem-assinaturas-acusticas-especificas-que-permitem-sua-deteccao-e-monitoramento-foto-joedson-alves-agencia-brasil-re\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9634\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-300x179.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-300x179.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-1024x613.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-768x459.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-800x479.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2-1160x694.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/CC-1E26-reportagem-Bioacustica-e-a-saude-dos-ecossistemas-figura2.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Processos de degrada\u00e7\u00e3o, como inc\u00eandios florestais e queimadas, produzem assinaturas ac\u00fasticas espec\u00edficas que permitem sua detec\u00e7\u00e3o e monitoramento.<br \/>\n<\/strong>(Foto. Jo\u00e9dson Alves\/ Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s perturba\u00e7\u00f5es ambientais como essas, uma das consequ\u00eancias mais evidentes \u00e9 o sil\u00eancio. \u201cEm casos de desmatamento ou queimadas, \u00e9 comum observar um per\u00edodo de silenciamento\u201d, relata Simone Dena. Com o retorno gradual das esp\u00e9cies, os sons reaparecem, mas revelam um cen\u00e1rio ac\u00fastico diferente, resultado de processos de fuga ou interrup\u00e7\u00e3o de ciclos reprodutivos, por exemplo. \u201cOs indiv\u00edduos precisam de um per\u00edodo de adapta\u00e7\u00e3o ao novo contexto\u201d, relata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"bioacustica-como-aliada-para-a-conservacao\">Bioac\u00fastica como aliada para a conserva\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>A bioac\u00fastica tem se consolidado como uma ferramenta estrat\u00e9gica para a conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e ecossistemas. \u201cUma das coisas mais importantes para elaborar planos de conserva\u00e7\u00e3o \u00e9 saber quais esp\u00e9cies est\u00e3o presentes, como interagem e de que forma ocupam o espa\u00e7o\u201d, explica Simone Dena.<\/p>\n<p>Em ambientes como o cerrado, registros ac\u00fasticos permitem identificar per\u00edodos espec\u00edficos de reprodu\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o essencial para orientar o manejo do territ\u00f3rio. \u201cConhecer at\u00e9 onde as esp\u00e9cies v\u00e3o e quando est\u00e3o ativas ajuda a definir \u00e1reas priorit\u00e1rias de conserva\u00e7\u00e3o e a evitar interven\u00e7\u00f5es inadequadas, como queimadas em fases sens\u00edveis\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os dados ac\u00fasticos tamb\u00e9m podem ser empregados na detec\u00e7\u00e3o de atividades ilegais em \u00e1reas protegidas, como ca\u00e7a, extra\u00e7\u00e3o de madeira ou presen\u00e7a humana n\u00e3o autorizada. Carolline Zatta Fieker destaca que trabalhos conduzidos pelo grupo CO.BRA demonstram que sensores ac\u00fasticos s\u00e3o capazes de identificar assinaturas sonoras associadas at\u00e9 mesmo \u00e0 presen\u00e7a de gado. \u201cEsses registros funcionam como uma ferramenta adicional de fiscaliza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o ambiental em \u00e1reas onde a presen\u00e7a de gado \u00e9 proibida ou restrita\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"monitoramentos-de-fauna-hoje-para-empreendimentos-e-licenciamento-ambiental-podem-ser-feitos-com-base-no-estudo-desses-sons\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMonitoramentos de fauna hoje, para empreendimentos e licenciamento ambiental, podem ser feitos com base no estudo desses sons.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Lu\u00eds Felipe Toledo, o monitoramento ac\u00fastico da fauna j\u00e1 vem sendo incorporado a processos de licenciamento ambiental e avalia\u00e7\u00e3o de impactos. \u201cMonitoramentos de fauna hoje, para empreendimentos e licenciamento ambiental, podem ser feitos com base no estudo desses sons\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"ferramentas-tecnologias-e-o-uso-da-inteligencia-artificial\">Ferramentas, tecnologias e o uso da Intelig\u00eancia Artificial<\/h4>\n<p>Al\u00e9m dos gravadores de m\u00e3o, o monitoramento ac\u00fastico passivo \u00e9 uma das principais ferramentas da bioac\u00fastica atual. Nesse m\u00e9todo, gravadores aut\u00f4nomos s\u00e3o instalados em campo para registrar sons continuamente por dias ou semanas, permitindo amostragens padronizadas e de longo prazo, com menor interfer\u00eancia humana.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o dos sons depende de acervos especializados, como as fonotecas, onde os registros s\u00e3o catalogados e comparados. \u201cEssas cole\u00e7\u00f5es s\u00e3o refer\u00eancias cient\u00edficas que apoiam estudos de taxonomia, varia\u00e7\u00f5es de vocaliza\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies\u201d, explica Simone Dena. Em algumas cole\u00e7\u00f5es, como a Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV), os registros sonoros podem ser acompanhados por v\u00eddeos e imagens, o que amplia o potencial de an\u00e1lise e contextualiza\u00e7\u00e3o dos dados. Segundo a pesquisadora, os dados mantidos nos acervos podem subsidiar pol\u00edticas p\u00fablicas, contribuir para a avalia\u00e7\u00e3o de impactos ambientais, orientar estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o e servir de base para o treinamento de ferramentas de IA, cada vez mais utilizadas na an\u00e1lise automatizada de sons da natureza.<\/p>\n<p>Ver\u00f4nica Sales, tesoureira da SBBa, pontua que as ferramentas de IA, quando alimentadas por conjuntos extensos e bem estruturados de dados ac\u00fasticos, podem impulsionar avan\u00e7os significativos nesse campo. \u201cEntre os usos, est\u00e3o a identifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, seja focando em esp\u00e9cies end\u00eamicas ou chaves para monitoramento do ambiente ou tentando identificar esp\u00e9cies invasivas\u201d, diz. Entre as vantagens, est\u00e3o a possibilidade de an\u00e1lises mais r\u00e1pidas, em larga escala, e a identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es ac\u00fasticos dif\u00edceis de perceber manualmente. A pesquisadora alerta, no entanto, para a necessidade de cautela. \u201cO uso precisa ser devidamente estudado para garantir uma aplica\u00e7\u00e3o que seja, de fato, eficaz\u201d, defende.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"fonotecas-um-recorte-no-tempo\">Fonotecas: um recorte no tempo<\/h4>\n<p>As fonotecas funcionam como c\u00e1psulas do tempo para os ecossistemas e para as esp\u00e9cies. \u201cO som captura um recorte do tempo que pode ser armazenado, em teoria, para sempre\u201d, pontua Simone Dena. Ela argumenta que, ao ouvir hoje uma grava\u00e7\u00e3o feita na d\u00e9cada de 1960, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel \u201cse transportar para aquele per\u00edodo\u201d e compreender como era exatamente aquela esp\u00e9cie, como cantava e como interagia com outras esp\u00e9cies presentes no ambiente. \u201cIsso representa um tipo de registro \u00fanico da diversidade, o que torna essas cole\u00e7\u00f5es extremamente importantes\u201d, diz.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Felipe Toledo exemplifica o potencial desses acervos. \u201cQuando temos a grava\u00e7\u00e3o do som de uma esp\u00e9cie em um determinado local, sabemos que aquele bicho existiu naquele lugar e naquela data. Possu\u00edmos registros sonoros de animais que j\u00e1 foram at\u00e9 extintos\u201d, explica. Simone Dena complementa: \u201cs\u00e3o vozes que nunca mais ser\u00e3o ouvidas na natureza. Ainda assim, as grava\u00e7\u00f5es permitem conhecer como essas esp\u00e9cies soavam\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"desafios-para-o-presente-e-o-futuro-da-bioacustica\">Desafios para o presente e o futuro da bioac\u00fastica<\/h4>\n<p>Embora grande parte dos registros mais recentes j\u00e1 chegue \u00e0s cole\u00e7\u00f5es em formato digital, os pesquisadores ainda precisam lidar com acervos hist\u00f3ricos armazenados em diferentes m\u00eddias, como fitas de rolo e CDs, que demandam processos cuidadosos de digitaliza\u00e7\u00e3o. Os dados ainda precisam ser catalogados, padronizados e incorporados \u00e0s cole\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de exigirem um trabalho cont\u00ednuo de curadoria, atualiza\u00e7\u00e3o, controle de acesso e integra\u00e7\u00e3o com bases de dados de outras institui\u00e7\u00f5es. \u201cManter essas cole\u00e7\u00f5es exige trabalho permanente, equipamentos adequados, profissionais qualificados e financiamento cont\u00ednuo\u201d, explica Simone Dena.<\/p>\n<p>Ver\u00f4nica Sales concorda que, apesar do enorme potencial da bioac\u00fastica, limita\u00e7\u00f5es de financiamento e infraestrutura configuram entraves relevantes para o avan\u00e7o da \u00e1rea. \u201cAs universidades p\u00fablicas concentram a maior parte da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pa\u00eds, mas, recentemente, tivemos a not\u00edcia de um corte enorme no or\u00e7amento da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\"><strong>Capes<\/strong><\/a><\/span> e do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\"><strong>CNPq<\/strong><\/a>\u00a0<\/span> [as principais ag\u00eancias brasileiras de fomento \u00e0 pesquisa] previsto para 2026\u201d, alerta. Esse cen\u00e1rio compromete tanto a manuten\u00e7\u00e3o dos acervos quanto o desenvolvimento de novas pesquisas e tecnologias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-bioacustica-e-capaz-de-gerar-dados-robustos-para-embasar-decisoes-e-politicas-publicas-a-incorporacao-dos-resultados-das-pesquisas-e-viavel-tanto-pela-qualidade-quanto-pela-aplicabilidade\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA bioac\u00fastica \u00e9 capaz de gerar dados robustos para embasar decis\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas. A incorpora\u00e7\u00e3o dos resultados das pesquisas \u00e9 vi\u00e1vel, tanto pela qualidade quanto pela aplicabilidade dos dados produzidos.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda assim, a pesquisadora defende que, nos pr\u00f3ximos anos, a bioac\u00fastica tende a se tornar cada vez mais estrat\u00e9gica na formula\u00e7\u00e3o de planos e pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o. \u201cA bioac\u00fastica \u00e9 capaz de gerar dados robustos para embasar decis\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas. A incorpora\u00e7\u00e3o dos resultados das pesquisas \u00e9 vi\u00e1vel, tanto pela qualidade quanto pela aplicabilidade dos dados produzidos\u201d, afirma. No entanto, ela pondera que a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, n\u00e3o garante impacto direto na legisla\u00e7\u00e3o. \u201cMesmo com dados s\u00f3lidos sobre impactos ambientais, a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o depende de interesses econ\u00f4micos, prioridades governamentais, valores culturais e da percep\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre as medidas propostas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s Rostirolla tamb\u00e9m destaca a necessidade de mudan\u00e7as estruturais e pol\u00edticas para que o potencial da bioac\u00fastica seja plenamente aproveitado. \u201cEstamos apenas no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que a bioac\u00fastica pode abra\u00e7ar, mas, sem uma mudan\u00e7a de mentalidade sobre a import\u00e2ncia da conserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel reverter o cen\u00e1rio que se desenha para o futuro da biodiversidade\u201d, afirma. Para ele, n\u00e3o basta desenvolver tecnologias sofisticadas se n\u00e3o houver compromisso com sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. \u201cN\u00e3o adianta criar o melhor gravador do mundo se n\u00e3o houver cobran\u00e7a para que ele seja usado no monitoramento ambiental\u201d, diz. O pesquisador aponta caminhos claros, como o monitoramento em tempo real, o registro de esp\u00e9cies raras, a amplia\u00e7\u00e3o dos repert\u00f3rios ac\u00fasticos conhecidos, o uso da IA e o fortalecimento da educa\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cMas nada disso ter\u00e1 efeito se continuarmos assistindo ao desmonte das universidades p\u00fablicas, os principais centros de pesquisa no Brasil, e ao enfraquecimento das leis que regem o licenciamento ambiental, o monitoramento e a gest\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"foto-co-bra-reproducao\">(Foto: CO.BRA. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sons de animais, plantas e fungos revelam diversidade e sinais de degrada\u00e7\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":124,"featured_media":9633,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9632"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9632"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9632\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9692,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9632\/revisions\/9692"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}