{"id":9731,"date":"2026-02-26T07:30:45","date_gmt":"2026-02-26T07:30:45","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9731"},"modified":"2026-02-27T18:24:11","modified_gmt":"2026-02-27T18:24:11","slug":"a-crise-climatica-interage-e-agrava-outras-importantes-contradicoes-da-nossa-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9731","title":{"rendered":"\u201cA crise clim\u00e1tica interage e agrava outras importantes contradi\u00e7\u00f5es da nossa sociedade.\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-gabriela-di-giulio-professora-do-departamento-de-saude-ambiental-da-usp\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Confira entrevista com Gabriela Di Giulio, professora do Departamento de Sa\u00fade Ambiental da USP<\/strong><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Poucas pesquisadoras brasileiras transitam com tanta naturalidade entre sa\u00fade p\u00fablica, comunica\u00e7\u00e3o, governan\u00e7a do risco e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas quanto Gabriela Di Giulio. Professora do Departamento de Sa\u00fade Ambiental da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.fsp.usp.br\/\">Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP<\/a><\/strong><\/span>, ela construiu uma trajet\u00f3ria marcada pelo di\u00e1logo entre \u00e1reas que raramente conversam \u2014 e \u00e9 justamente desse encontro que nasce sua for\u00e7a anal\u00edtica. Jornalista de forma\u00e7\u00e3o, doutora em Ambiente e Sociedade pela Unicamp e com passagens por centros de pesquisa na Inglaterra e na Alemanha, Gabriela di Giulio atua na linha de frente dos estudos sobre crises, vulnerabilidades urbanas e adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. \u201cOs problemas socioambientais requerem compreens\u00e3o sobre processos decis\u00f3rios, arcabou\u00e7os regulat\u00f3rios e hiatos entre formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, defende. \u00c0 frente de grupos como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/portal.ige.unicamp.br\/node\/1466\">CIRIS \u2013 Governan\u00e7a, Risco e Comunica\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong><\/span> e integrante da coordena\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.biota.org.br\/\">Programa Biota-Fapesp<\/a><\/strong><\/span>, ela tem se dedicado a entender como ci\u00eancia, pol\u00edtica e sociedade se relacionam em um cen\u00e1rio de riscos crescentes e decis\u00f5es urgentes. Membro da Academia de Ci\u00eancias do Estado de S\u00e3o Paulo e da coordena\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/wwrp-urbanpredict.net\/\">URBAN Prediction Project<\/a><\/strong><\/span> da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, sua pesquisa ilumina um ponto crucial do debate contempor\u00e2neo: a emerg\u00eancia clim\u00e1tica s\u00f3 pode ser compreendida \u2014 e enfrentada \u2014 a partir de suas dimens\u00f5es humanas, sociais e profundas desigualdades. \u201cO enquadramento de emerg\u00eancia pode ser potente e mobilizador se houver espa\u00e7o para acomodar um discurso que refor\u00e7a a insustentabilidade do status quo\u201d, argumenta a pesquisadora.<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista completa!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Sua trajet\u00f3ria transita por jornalismo, pol\u00edtica cient\u00edfica, sa\u00fade p\u00fablica e estudos ambientais. Como essa forma\u00e7\u00e3o h\u00edbrida moldou o seu olhar sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o apenas como um fen\u00f4meno f\u00edsico, mas como um problema profundamente social, urbano e pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gabriela Di Giulio<\/strong> \u2013 \u00c9 interessante iniciar essa entrevista reconhecendo esse \u201chibridismo\u201d. Quando algu\u00e9m me pergunta sobre a minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e profissional, eu quase sempre devolvo com \u201cvoc\u00ea prefere a vers\u00e3o curta ou longa dessa resposta?\u201d. A curta \u00e9 direta: sou formada em comunica\u00e7\u00e3o social\/jornalismo, com doutorado em Ambiente e Sociedade. Mas reconhe\u00e7o que essa tentativa de \u201cobjetividade\u201d nem de longe situa a minha trajet\u00f3ria formativa e como ela tem sido fundamental na condu\u00e7\u00e3o das minhas pesquisas e na minha atua\u00e7\u00e3o como professora, pesquisadora e orientadora. Ent\u00e3o, se quem pergunta tem mais tempo e disposi\u00e7\u00e3o para a escuta da vers\u00e3o mais longa da resposta, eu imagino que ver\u00e1 tamb\u00e9m mais brilho nos meus olhos. Porque \u00e9 justamente quando revisito essa trilha que reelaboro as potencialidades e os desafios desse percurso.<\/p>\n<p>Foi no meu est\u00e1gio de p\u00f3s-doc, entre 2011 e 2013, no <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.nepam.unicamp.br\/\">N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM)<\/a><\/strong><\/span>, na Unicamp, que direcionei meus estudos para o debate sobre dimens\u00f5es humanas e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 tem\u00e1tica principal das pesquisas que venho desenvolvendo ao longo desses 15 anos. A pesquisa de p\u00f3s-doutorado, sob supervis\u00e3o da L\u00facia da Costa Ferreira, com financiamento da Fapesp, foi vinculada a um projeto tem\u00e1tico coordenado por ela e envolveu um amplo estudo sobre situa\u00e7\u00f5es de risco no litoral norte paulista associadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e ambientais. Na pesquisa, buscamos situar comportamentos individuais e institucionais frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e ambientais, aos poss\u00edveis conflitos que poderiam ser gerados com os novos empreendimentos instalados na regi\u00e3o e \u00e0s informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre os riscos.<\/p>\n<p>O estudo emp\u00edrico envolveu realiza\u00e7\u00e3o de grupos focais, laborat\u00f3rios participativos, registro de entrevistas semiestruturadas e observa\u00e7\u00e3o, e revelou um conjunto de elementos que moldavam as diferentes formas pelas quais os atores sociais (moradores de \u00e1reas consideradas de risco e atores institucionais) elaboravam conex\u00f5es e compreens\u00f5es do fen\u00f4meno, seus riscos e incertezas, e formavam suas percep\u00e7\u00f5es, incluindo informa\u00e7\u00e3o e conhecimento; experi\u00eancias pessoais relacionadas a eventos clim\u00e1ticos; rela\u00e7\u00f5es entre lugar, identidade e pertencimento; condi\u00e7\u00f5es financeiras e afetivas. Naquele momento, nossa an\u00e1lise mostrou que, enquanto os riscos associados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas apareciam como uma prioridade ainda relativamente baixa, os potenciais conflitos e problemas gerados com os novos empreendimentos que estavam em curso no litoral norte, e que poderiam trazer impactos negativos e urgentes no dia a dia da regi\u00e3o, eram encarados com preocupa\u00e7\u00e3o maior pelos atores. As intera\u00e7\u00f5es com os atores sociais do litoral norte paulista j\u00e1 nos mostravam, na pr\u00e1tica, como a crise clim\u00e1tica interage e agrava outras importantes contradi\u00e7\u00f5es da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Embora meu foco de estudo sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tenha iniciado no p\u00f3s-doc, \u00e9 fundamental situar que a instiga\u00e7\u00e3o para a pesquisa, sobretudo nesta perspectiva, como voc\u00ea coloca, de compreender as rela\u00e7\u00f5es entre crises ambientais e contextos socioculturais e como essas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o incorporadas e expressas em pr\u00e1ticas sociais, conflitos e processos decis\u00f3rios, surgiu j\u00e1 na especializa\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cient\u00edfico, no <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.labjor.unicamp.br\/\">Labjor\/Unicamp<\/a><\/strong><\/span>, quando tive uma bolsa de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da Fapesp do projeto tem\u00e1tico coordenado por Bernardino Figueiredo, que depois veio a ser meu orientador do doutorado. Foi com Bernardino, com seu olhar agu\u00e7ado e sua generosidade para sempre nos motivar com boas perguntas de pesquisa, que me aproximei dos temas de comunica\u00e7\u00e3o e governan\u00e7a de risco.<\/p>\n<p>Foi neste projeto que se abriu uma possibilidade instigante e desafiadora de pesquisa, conduzida depois no mestrado em Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica e no doutorado em Ambiente e Sociedade, ambos na Unicamp, na perspectiva de entender mais a fundo o processo de constru\u00e7\u00e3o de problemas socioambientais e dos pr\u00f3prios riscos. Foi a partir dessa experi\u00eancia de pesquisa tamb\u00e9m que comecei a construir as bases daquilo que entendo ser uma caracter\u00edstica da minha produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e trajet\u00f3ria acad\u00eamica: a atua\u00e7\u00e3o inter e transdisciplinar sedimentada nas parcerias e colabora\u00e7\u00f5es para pensar quest\u00f5es e processos sociais nas interfaces entre ambiente, sa\u00fade e sustentabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"as-desigualdades-sociais-continuam-a-definir-como-os-impactos-relacionados-aos-eventos-climaticos-sao-experienciados\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cAs desigualdades sociais continuam a definir como os impactos relacionados aos eventos clim\u00e1ticos s\u00e3o experienciados.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda que a quest\u00e3o clim\u00e1tica siga como meu principal tema de investiga\u00e7\u00e3o, em particular com enfoque em cidades e adapta\u00e7\u00e3o, outros temas desafiadores dessas interfaces seguem me instigando, sobretudo a partir das perguntas trazidas pelos estudantes que oriento, em seus diferentes n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o, na <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.fsp.usp.br\/\">Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP<\/a><\/strong><\/span>, onde sou docente desde 2013. Ao revisitar essa trilha, vejo como essas experi\u00eancias e as muitas pessoas com quem tenho tido a alegria de partilhar e aprender s\u00e3o fundamentais para seguir com a ideia de que, mais do que situarmos os \u201cfen\u00f4menos\u201d a partir de an\u00e1lises cient\u00edficas acuradas, os problemas socioambientais requerem compreens\u00e3o sobre processos decis\u00f3rios, arcabou\u00e7os regulat\u00f3rios e hiatos entre formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, e disposi\u00e7\u00e3o para prestar aten\u00e7\u00e3o em outras formas de enxergar e viver o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Grande parte do seu trabalho se dedica \u00e0s dimens\u00f5es humanas das crises clim\u00e1ticas, aos riscos e \u00e0s incertezas. Nas cidades \u2014 onde vivem hoje a maioria das pessoas \u2014 quem tende a ficar mais exposto aos impactos clim\u00e1ticos e por qu\u00ea? O que essa desigualdade revela sobre a forma como planejamos e governamos os espa\u00e7os urbanos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GG<\/strong> \u2013 Nos nossos estudos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e cidades, temos insistido muito em tr\u00eas pontos. O primeiro \u00e9 que as cidades e regi\u00f5es brasileiras t\u00eam sido cada vez mais afetadas pelos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e expostas a eventos simult\u00e2neos e cumulativos (por exemplo, inunda\u00e7\u00f5es, secas, aumento de temperatura), que amea\u00e7am o abastecimento de \u00e1gua, a infraestrutura e a agricultura, gerando impactos sociais, econ\u00f4micos e de sa\u00fade em cascata. Um exemplo claro disso \u00e9 o Rio Grande do Sul, que em 2023 sofreu uma seca causada pelo fen\u00f4meno La Ni\u00f1a \u2013 a pior em 17 anos \u2013 resultando em perdas econ\u00f4micas substanciais e, em 2024, sofreu inunda\u00e7\u00f5es extremas que deslocaram mais de 615 mil pessoas, principalmente moradores de baixa renda que viviam em moradias inadequadas e com acesso prec\u00e1rio a servi\u00e7os p\u00fablicos. Esse e outros tantos exemplos mostram a gravidade dos impactos dos eventos clim\u00e1ticos nas cidades brasileiras e a necessidade de respostas coordenadas de pol\u00edticas p\u00fablicas e apoio financeiro e institucional urgente. Embora cada vez mais a quest\u00e3o clim\u00e1tica esteja no bojo das discuss\u00f5es p\u00fablicas e pol\u00edticas, ainda temos muito a avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a abordagens consistentes e abrangentes para tornar nossas cidades adaptadas e resilientes.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que h\u00e1 uma interdepend\u00eancia cr\u00edtica entre os impactos dos eventos clim\u00e1ticos extremos, quest\u00f5es pol\u00edticas e din\u00e2micas locais de planejamento urbano, e essa interdepend\u00eancia est\u00e1 na base das chamadas \u201ctrag\u00e9dias anunciadas\u201d nas cidades. \u00c9 fundamental situarmos como o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada que caracteriza, em geral, a maioria das cidades brasileiras, e a segrega\u00e7\u00e3o socioespacial interferem criticamente nos impactos clim\u00e1ticos. Al\u00e9m disso, a falta de defini\u00e7\u00e3o de responsabilidades e prioridades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s a\u00e7\u00f5es a serem executadas, a desarticula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas setoriais (como as relacionadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o ambiental e habita\u00e7\u00e3o, por exemplo) e o predom\u00ednio de uma perspectiva pol\u00edtica utilitarista, fortemente influenciada por interesses pol\u00edticos bastante hostis \u00e0s quest\u00f5es ambientais, s\u00e3o elementos importantes e que tornam as cidades ainda mais suscet\u00edveis aos impactos negativos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. H\u00e1 de se ressaltar ainda a atua\u00e7\u00e3o de grupos de press\u00e3o, que est\u00e3o constantemente fazendo lobby por a\u00e7\u00f5es que beneficiem interesses particulares (no caso dos centros urbanos, sobretudo os setores imobili\u00e1rio e de transporte e mobilidade), em detrimento dos interesses p\u00fablicos; e a fiscaliza\u00e7\u00e3o insuficiente na governan\u00e7a dos regulamentos, normas e marcos vigentes.<\/p>\n<p>O terceiro ponto, e que responde mais diretamente \u00e0s suas perguntas, \u00e9 que as consequ\u00eancias associadas aos eventos extremos, como deslizamentos de terra, enchentes e ondas de calor, t\u00eam efeitos dr\u00e1sticos sobretudo para os grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados, que j\u00e1 lutam contra a pobreza e a marginaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental reconhecer que as desigualdades sociais continuam a definir como os impactos relacionados aos eventos clim\u00e1ticos s\u00e3o experienciados de diferentes formas, e como as capacidades de resposta e as condi\u00e7\u00f5es que facilitam ou dificultam as estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o pelos indiv\u00edduos e nos territ\u00f3rios tamb\u00e9m s\u00e3o diversas. \u00c9 por isso que a quest\u00e3o clim\u00e1tica, como temos argumentado, n\u00e3o pode jamais ser dissociada de quest\u00f5es relacionadas \u00e0s injusti\u00e7as em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es (ambientais, clim\u00e1ticas, alimentar, energ\u00e9tica) e ao racismo ambiental e clim\u00e1tico. As clivagens de classe, ra\u00e7a, etnia e g\u00eanero, t\u00e3o presentes na estrutura social da nossa sociedade, e as diversas car\u00eancias de infraestrutura e acessos desiguais a servi\u00e7os b\u00e1sicos e assist\u00eancia produzem distintas temporalidades em que os impactos dos eventos extremos e o sofrimento social s\u00e3o vivenciados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>A comunica\u00e7\u00e3o aparece como um eixo central da sua pesquisa, especialmente na rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, pol\u00edticas p\u00fablicas e sociedade. O que ainda estamos fazendo mal \u2014 ou deixando de fazer \u2014 na comunica\u00e7\u00e3o sobre riscos clim\u00e1ticos, sobretudo quando falamos com popula\u00e7\u00f5es urbanas diversas e desiguais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GG<\/strong> \u2013 Certamente a emerg\u00eancia clim\u00e1tica traz desafios tanto \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (quanto \u00e0s formas, formatos, conte\u00fados, p\u00fablicos), ao nosso papel enquanto divulgadoras e divulgadores da ci\u00eancia, como tamb\u00e9m ao entendimento sobre o papel da m\u00eddia (e agora, sobretudo, das m\u00eddias sociais) em criar um f\u00f3rum para potencializar o discurso p\u00fablico sobre o tema, a pr\u00f3pria compreens\u00e3o p\u00fablica sobre os riscos, incertezas, consequ\u00eancias e medidas de enfrentamento que s\u00e3o apresentadas pela ci\u00eancia e pela pol\u00edtica. Neste sentido, menos do que situar as poss\u00edveis falhas na comunica\u00e7\u00e3o sobre riscos clim\u00e1ticos, eu gostaria de situar alguns elementos que me parecem importantes para nossa reflex\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 sobre o pr\u00f3prio enquadramento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas enquanto uma emerg\u00eancia e como esse enquadramento tem contribu\u00eddo (ou n\u00e3o) para a compreens\u00e3o p\u00fablica sobre as a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias urgentes. Nos estudos cr\u00edticos da sa\u00fade global, temos argumentado que esse enquadramento de emerg\u00eancia pode ser potente e mobilizador se, diferentemente do paradigma tecnocr\u00e1tico dominante que compreende emerg\u00eancia desde uma perspectiva securitizadora (na qual os fen\u00f4menos tendem a ser perpassados por narrativas excessivamente deterministas e por abordagens autorit\u00e1rias de enfrentamento), houver espa\u00e7o para acomodar um discurso de emerg\u00eancia enquanto estrat\u00e9gia que refor\u00e7a a insustentabilidade do status quo. Um enquadramento que possibilite desvelar os contextos e implica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas mais amplas, que desperte a mobiliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria dos Estados e das sociedades para enfrentar concretamente as neglig\u00eancias e os determinantes socioecon\u00f4micos que est\u00e3o nas bases constituintes dos problemas.<\/p>\n<p>O segundo elemento, que est\u00e1 conectado a esse primeiro, reside justamente no desafio sobre como promover a comunica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia dentro de uma perspectiva reflexiva, interrogativa e problematizadora. Aqui, os estudos sociais de ci\u00eancia e tecnologia lan\u00e7am luz a alguns aspectos importantes que temos buscado avan\u00e7ar, inclusive no nosso grupo de pesquisa <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/portal.ige.unicamp.br\/node\/1466\">CIRIS<\/a><\/strong><\/span>, com quem divido a coordena\u00e7\u00e3o com Marko Monteiro (DPCT\/Unicamp), e que conta com a colabora\u00e7\u00e3o da pesquisadora Simone Figueiredo (Labjor\/Unicamp). Em especial, eu destacaria a reflex\u00e3o sobre como a ci\u00eancia, sobretudo quando se debru\u00e7a sobre fen\u00f4menos que combinam falta de garantias, incerteza e inseguran\u00e7a, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, tamb\u00e9m precisa reconhecer os limites da sua habilidade em imaginar poss\u00edveis eventos futuros e seus desdobramentos, e ser transparente sobre isso. Um outro aspecto que me parece relevante est\u00e1 associado \u00e0 ideia de narrativas cient\u00edficas, sobre como, no processo de constru\u00e7\u00e3o social de um problema (como \u00e9 o caso das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas), n\u00f3s, pesquisadoras e pesquisadores, temos um papel central na forma como apresentamos nossos achados cient\u00edficos por meio de narrativas que ajudam a tornar fen\u00f4menos complexos mais acess\u00edveis, intuitivos e memor\u00e1veis. \u00c9 preciso estarmos cientes de que as narrativas, que cont\u00eam elementos descritivos e prescritivos sobre determinado problema, t\u00eam importantes implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Especialmente porque a aceitabilidade de determinadas narrativas cient\u00edficas pelos atores pol\u00edticos depende da extens\u00e3o com que elas concordam com suas cren\u00e7as e suas motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Um terceiro elemento que gostaria de destacar est\u00e1 relacionado \u00e0 ideia de usabilidade da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que \u00e9 gerada e comunicada. O uso da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2014 neste caso, da informa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u2014 para subsidiar pol\u00edticas p\u00fablicas e impulsionar a\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas depende fortemente de arranjos institucionais e dos contextos nos quais as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas. Os estudos sobre as interfaces entre ci\u00eancia e pol\u00edtica chamam aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a usabilidade da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nas decis\u00f5es (individuais, coletivas e institucionais) depende da percep\u00e7\u00e3o que os atores sociais t\u00eam quanto \u00e0 informa\u00e7\u00e3o disponibilizada; de como os novos conhecimentos produzidos se articulam com aqueles j\u00e1 existentes e disseminados; e, principalmente, do n\u00edvel e da qualidade da intera\u00e7\u00e3o entre os chamados \u201catores cient\u00edficos\u201d e \u201cn\u00e3o cient\u00edficos\u201d. E \u00e9 aqui que me parece estar uma chave importante nesse processo de comunica\u00e7\u00e3o, sensibiliza\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o com a sociedade. Quando pensamos na urg\u00eancia de a\u00e7\u00f5es de enfrentamento \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, por toda sua complexidade e transversalidade, entendo que h\u00e1 a necessidade de uma intera\u00e7\u00e3o (dial\u00f3gica, mas sobretudo respeitosa, leg\u00edtima, genu\u00edna) entre os atores da ci\u00eancia, os que formulam pol\u00edticas e a sociedade (na sua perspectiva mais pluralista poss\u00edvel) para tratar de quest\u00f5es globais e, em particular, de quest\u00f5es locais espec\u00edficas, e para evitar a amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e das condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"garantir-espaco-e-legitimidade-a-outros-saberes-conhecimentos-narrativas-e-enquadramentos-e-um-compromisso-cientifico-etico-e-politico-fundamental\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cGarantir espa\u00e7o e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos \u00e9 um compromisso cient\u00edfico, \u00e9tico e pol\u00edtico fundamental.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temos insistido bastante que essa intera\u00e7\u00e3o pode ser facilitada por meio da coprodu\u00e7\u00e3o de conhecimento, rompendo assim os cl\u00e1ssicos modelos de d\u00e9ficit de conhecimento e de transfer\u00eancia e abrindo possibilidades de produ\u00e7\u00e3o coletiva de conhecimento. Experi\u00eancias de coprodu\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso do nosso projeto Biota S\u00edntese, coordenado por Jean Paul Metzger (IB\/USP) e pelo especialista ambiental Rafael Chaves (SEMIL), t\u00eam mostrado um enorme potencial para fomentar estrat\u00e9gias e solu\u00e7\u00f5es criativas para os problemas postulados e maior usabilidade do conhecimento coproduzido em processos decis\u00f3rios. Certamente h\u00e1 desafios, desde quest\u00f5es relacionadas aos diferentes tempos (o tempo da pesquisa, da pol\u00edtica, da mobiliza\u00e7\u00e3o social, da a\u00e7\u00e3o) aos recursos necess\u00e1rios (inclusive financeiros), mas envolve tamb\u00e9m como n\u00f3s, pesquisadoras e pesquisadores, precisamos repensar nossas tradi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, especialmente considerando que as solu\u00e7\u00f5es reais para o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas dependem de como a sociedade pluralista \u00e9 representada no pr\u00f3prio contexto de pesquisa. Garantir espa\u00e7o e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos sobre o problema que investigamos \u00e9 um compromisso cient\u00edfico, \u00e9tico e pol\u00edtico fundamental no enfrentamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Voc\u00ea integra iniciativas internacionais ligadas \u00e0 <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/worldweather.wmo.int\/pt\/home.html\">Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (WMO)<\/a><\/span> e \u00e0 previs\u00e3o urbana. Como o di\u00e1logo entre ci\u00eancia global e realidades locais pode contribuir para cidades mais preparadas diante de eventos extremos? E quais s\u00e3o os principais desafios para que esse conhecimento chegue de forma efetiva \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GG<\/strong> \u2013 O convite para integrar essa iniciativa da WMO veio em um momento muito oportuno. Somos um time interdisciplinar de pesquisadoras e pesquisadores de seis continentes, com bagagens e viv\u00eancias diversas, e juntos temos o desafio de avan\u00e7ar tanto no debate como na pr\u00e1tica sobre o desenvolvimento de sistemas de previs\u00e3o de riscos urbanos e alertas para alcan\u00e7ar cidades e comunidades mais preparadas, adaptadas e resilientes frente aos eventos extremos clim\u00e1ticos. Eu colaboro sobretudo em duas frentes: uma mais focada na acessibilidade e relev\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o, ou seja, que dados s\u00e3o necess\u00e1rios na escala local para a tomada de decis\u00e3o e como o contexto local (dados, experi\u00eancias, pr\u00e1ticas) \u00e9 fundamental para o fortalecimento de capacidades com foco na adapta\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia; e outra mais focada na interface entre ci\u00eancia e pol\u00edticas p\u00fablicas, por meio de processos participativos que envolvem o di\u00e1logo entre cientistas, governos e comunidades para promover equidade na adapta\u00e7\u00e3o e buscar pol\u00edticas culturalmente sens\u00edveis, inclusivas e baseadas na aprendizagem m\u00fatua.<\/p>\n<p>A base dessa iniciativa \u00e9 justamente conectar a ci\u00eancia global \u00e0s necessidades da sociedade e de fortalecer a colabora\u00e7\u00e3o mundial na previs\u00e3o do clima e nas a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e protetivas diante dos m\u00faltiplos riscos relacionados ao clima. Estamos, neste momento, selecionando as primeiras cidades nas quais poderemos avan\u00e7ar nessas frentes, a partir da metodologia participativa baseada na coprodu\u00e7\u00e3o de conhecimento. Certamente as experi\u00eancias dessas cidades, que trazem diversidades m\u00faltiplas nas suas potencialidades e desafios, nas diferentes formas como est\u00e3o lidando com os impactos dos eventos clim\u00e1ticos e nos aprendizados, v\u00e3o contribuir para os estudos atuais sobre cidades e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Nossa aposta \u00e9 que poderemos avan\u00e7ar tamb\u00e9m sobre os desafios imbricados na chamada \u201cpol\u00edtica baseada em evid\u00eancias\u201d, entendendo inclusive suas limita\u00e7\u00f5es, sobre a circula\u00e7\u00e3o e os usos da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e sobre as m\u00faltiplas din\u00e2micas que caracterizam as intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sobre as interlocu\u00e7\u00f5es estabelecidas entre ci\u00eancia e pol\u00edtica na quest\u00e3o clim\u00e1tica e os principais desafios para que o conhecimento chegue de forma efetiva \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil, nossas experi\u00eancias emp\u00edricas t\u00eam mostrado que os modos de intera\u00e7\u00e3o entre os chamados produtores, usu\u00e1rios e mediadores da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00e3o fundamentais nesse processo. A ideia de uma interface ci\u00eancia-pol\u00edtica n\u00e3o pode ser conceituada de forma simplista como atividades sobrepostas de entidades que, de outra forma, agiriam de forma independente. \u00c9 preciso reconhecer que as intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e pol\u00edtica n\u00e3o s\u00e3o lineares nem unidirecionais; ao contr\u00e1rio, s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es emaranhadas que coproduzem conjuntamente seus arranjos.<\/p>\n<p>Nossos estudos t\u00eam mostrado que experi\u00eancias que unem iterativamente formas de conhecer e agir, envolvendo uma maior diversidade de participantes (cientistas, atores institucionais governamentais, atores da sociedade civil), apostando no processo de coprodu\u00e7\u00e3o de conhecimento, alcan\u00e7am m\u00faltiplos benef\u00edcios, inclusive o fomento a estrat\u00e9gias e solu\u00e7\u00f5es criativas para os problemas colocados. Posso dar dois exemplos bem recentes sobre isso.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 um estudo coproduzido pela equipe do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/biotasintese.iea.usp.br\/pt\/\">Biota S\u00edntese<\/a><\/strong><\/span> e liderado pela pesquisadora Luciana Ferreira, que faz seu est\u00e1gio de p\u00f3s-doc sob minha supervis\u00e3o. A partir das intera\u00e7\u00f5es dentro do grupo, veio a ideia de mapear o potencial para restaura\u00e7\u00e3o florestal nas chamadas bordas urbanas (ou periurbano) da macrometr\u00f3pole paulista. O estudo n\u00e3o s\u00f3 conseguiu quantificar esse potencial, como tem suscitado discuss\u00f5es sobre como essa estrat\u00e9gia de restaura\u00e7\u00e3o do periurbano pode ser importante para o estado de S\u00e3o Paulo para a recupera\u00e7\u00e3o da biodiversidade, prote\u00e7\u00e3o ambiental e, em particular, para a mitiga\u00e7\u00e3o de eventos extremos, melhoria da qualidade da \u00e1gua e do ar, oferta de espa\u00e7os de lazer, contribuindo para a sa\u00fade e o bem-estar humano. Seguimos atentos acompanhando os poss\u00edveis desdobramentos dessa an\u00e1lise em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas no estado.<\/p>\n<p>O segundo exemplo s\u00e3o os esfor\u00e7os que temos feito para avan\u00e7ar em estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o para S\u00e3o Paulo. No projeto <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ciadapta.webnode.page\/\">CiAdapta<\/a><\/strong><\/span>, desenvolvemos um \u00edndice de adapta\u00e7\u00e3o urbana e aplicamos primeiramente nos 645 munic\u00edpios paulistas. Ao mapear a exist\u00eancia (ou inexist\u00eancia) de pol\u00edticas p\u00fablicas e instrumentos que s\u00e3o da al\u00e7ada dos munic\u00edpios, e que t\u00eam rela\u00e7\u00f5es importantes com o maior ou menor potencial que as cidades t\u00eam em avan\u00e7ar na trajet\u00f3ria de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, pudemos alcan\u00e7ar um retrato sobre a capacidade adaptativa institucional dessas cidades. Al\u00e9m disso, no projeto Biota S\u00edntese seguimos contribuindo com a elabora\u00e7\u00e3o e o aprimoramento da principal pol\u00edtica p\u00fablica de adapta\u00e7\u00e3o do estado paulista, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/semil.sp.gov.br\/mudancas-climaticas-e-sustentabilidade\/plano-estadual-de-adaptacao-e-resiliencia-climatica-pearc\/\">Plano Estadual de Adapta\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia Clim\u00e1tica (Pearc)<\/a><\/strong><\/span>. Mais recentemente, tamb\u00e9m coproduzimos uma nota t\u00e9cnica sobre ondas de calor, resultado de uma oficina que contou com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores e t\u00e9cnicos da SEMIL e das prefeituras de S\u00e3o Paulo e Campinas. O documento, disponibilizado publicamente e lan\u00e7ado no final de 2025, discute os principais desafios para implanta\u00e7\u00e3o de Solu\u00e7\u00f5es baseadas na Natureza (SbN) para minimizar os efeitos do aumento de temperatura e das ondas de calor, como encontrar espa\u00e7os em cidades consolidadas, garantir participa\u00e7\u00e3o social para decidir onde e quais SbN podem ser adotadas, e como monitorar e avaliar seus efeitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Ao longo da sua carreira, voc\u00ea ocupou espa\u00e7os de lideran\u00e7a cient\u00edfica em ambientes ainda marcados por desigualdades de g\u00eanero. Como avalia hoje a presen\u00e7a das mulheres na ci\u00eancia clim\u00e1tica e ambiental no Brasil? Que avan\u00e7os s\u00e3o vis\u00edveis e que barreiras \u2014 expl\u00edcitas ou sutis \u2014 ainda persistem?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que meu campo de estudos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o enfoque especificamente a participa\u00e7\u00e3o de mulheres e a incorpora\u00e7\u00e3o dos debates de g\u00eanero na governan\u00e7a clim\u00e1tica e na ci\u00eancia clim\u00e1tica \u2014 tema, por exemplo, dos estudos da pesquisadora Ligia Galbiati \u2014, me somo \u00e0s muitas an\u00e1lises que mostram que, embora a participa\u00e7\u00e3o de cientistas mulheres venha aumentando de forma substancial, com pesquisadoras liderando iniciativas fant\u00e1sticas e transformadoras que aliam conhecimento e criatividade, lan\u00e7ando luz a temas e desafios cr\u00edticos no enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00f3s ainda enfrentamos barreiras hist\u00f3ricas e sociais importantes, que limitam nossa participa\u00e7\u00e3o plena na ci\u00eancia, como desigualdades claras em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, financiamentos de ponta e reconhecimento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"somos-todos-produtores-de-conhecimento-e-fazer-ciencia-envolve-curiosidade-brilho-no-olhar-persistencia-solidariedade-e-muita-disposicao-para-dialogar\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSomos todos produtores de conhecimento e fazer ci\u00eancia envolve curiosidade, brilho no olhar, persist\u00eancia, solidariedade e muita disposi\u00e7\u00e3o para dialogar.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cito aqui um estudo publicado recentemente, liderado por pesquisadoras do IB da USP, que discute como a falta de representa\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres na academia seguem sendo uma realidade perversa, apesar dos esfor\u00e7os crescentes para promover inclus\u00e3o e reduzir as desigualdades de g\u00eanero. Especificamente neste estudo, as autoras analisaram dados de uma s\u00e9rie de semin\u00e1rios sobre biodiversidade, a partir da presen\u00e7a do p\u00fablico, e demonstraram que mulheres, especialmente em n\u00edveis acad\u00eamicos mais seniores, atra\u00edram consistentemente p\u00fablicos menores do que seus colegas homens neste f\u00f3rum de discuss\u00e3o, mostrando como formas sutis de exclus\u00e3o ainda persistem na cultura acad\u00eamica. Enquanto comunidade cient\u00edfica, ainda temos muito a fazer para alcan\u00e7ar, de fato, uma comunidade mais equitativa e inclusiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C<\/strong> \u2013 <strong>Pensando nas novas gera\u00e7\u00f5es de pesquisadoras, especialmente aquelas interessadas em temas como clima, sa\u00fade, cidades e justi\u00e7a social: que tipo de ci\u00eancia voc\u00ea considera mais urgente hoje? E que conselho daria para mulheres que desejam atuar nesse campo interdisciplinar e politicamente sens\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GG<\/strong> \u2013 Uma ci\u00eancia com e para a sociedade, que integre considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, sociais e ambientais em todo o processo (das perguntas de partida \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o e implica\u00e7\u00f5es dos seus achados). Uma ci\u00eancia mais diversa, plural, inclusiva, equitativa, comprometida com a persist\u00eancia em alcan\u00e7ar resultados ben\u00e9ficos, inclusivos e alinhados aos valores societais. Uma ci\u00eancia menos produtivista e mais reflexiva, que nos incentive a refletir sobre nossos pap\u00e9is, pressupostos e responsabilidades dentro da sociedade. Uma ci\u00eancia que reconhe\u00e7a, d\u00ea espa\u00e7o e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos sobre o problema que investigamos para que junt@s possamos acelerar as transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para um futuro mais adaptado e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se seria um conselho, mas algo que aprendi \u2014 e continuo reelaborando com colegas e estudantes que oriento \u2014 \u00e9 que somos todos produtores de conhecimento e que fazer ci\u00eancia envolve curiosidade, brilho no olhar, persist\u00eancia, solidariedade e muita disposi\u00e7\u00e3o para dialogar, refletir, repensar, compartilhar e aprender junto. Nossas viv\u00eancias, aspira\u00e7\u00f5es, frustra\u00e7\u00f5es, expectativas e sonhos s\u00e3o fundamentais no processo de elabora\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise e reflex\u00e3o envolto \u00e0 pesquisa realizada. Sou neta de uma av\u00f3 que n\u00e3o sabia ler e escrever, n\u00e3o dominava o alfabeto e a linguagem escrita, e que viveu at\u00e9 os 94 anos compartilhando sua sabedoria e seu olhar sobre a realidade de quem viveu na ro\u00e7a, aprendeu a ler a natureza e soube se virar na vida da cidade, sempre atenta ao que se passava com suas sete filhas e seus tantos netos e bisnetos. Quanto mais eu fa\u00e7o ci\u00eancia e aprendo, sinto que mais me reconecto \u00e0 minha av\u00f3 e mais valor eu dou \u00e0s partilhas e ao processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Gabriela Di Giulio, professora do Departamento de Sa\u00fade Ambiental&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9732,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9731"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9731"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9731\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9755,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9731\/revisions\/9755"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}