{"id":9757,"date":"2026-02-25T07:30:18","date_gmt":"2026-02-25T07:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9757"},"modified":"2026-02-17T19:40:36","modified_gmt":"2026-02-17T19:40:36","slug":"a-cientista-que-desbravou-oceanos-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9757","title":{"rendered":"A cientista que desbravou oceanos para o Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"de-pioneira-da-oceanografia-nacional-a-primeira-mulher-da-academia-brasileira-de-ciencias-marta-vannucci-construiu-uma-trajetoria-que-uniu-pesquisa-viagem-resistencia-e-a-criacao-de-instituicoes-fu\"><strong><span style=\"color: #808080;\">De pioneira da oceanografia nacional a primeira mulher da Academia Brasileira de Ci\u00eancias, Marta Vannucci construiu uma trajet\u00f3ria que uniu pesquisa, viagem, resist\u00eancia e a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es fundamentais para o pa\u00eds.<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Marta Vannucci atravessa quase um s\u00e9culo de ci\u00eancia brasileira. Nascida em Floren\u00e7a, em 1921, chegou ao pa\u00eds ainda menina, fugindo do avan\u00e7o do fascismo. Seu pai, m\u00e9dico e antifascista, moldou-lhe a curiosidade e o rigor intelectual, influ\u00eancias que mais tarde guiariam sua escolha pela biologia e pelo estudo do mar. Aos 25 anos, j\u00e1 havia defendido um doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo e trabalhava como assistente do zo\u00f3logo Ernst Marcus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-instituto-de-oceanografia\">O Instituto de Oceanografia<\/h4>\n<p>A entrada de Marta Vannucci no nascente Instituto Paulista de Oceanografia marcou o in\u00edcio de sua atua\u00e7\u00e3o decisiva para a estrutura\u00e7\u00e3o da pesquisa oceanogr\u00e1fica no Brasil. Ao lado de Wladimir Besnard, empenhou-se em transformar o instituto em uma unidade universit\u00e1ria voltada integralmente \u00e0s ci\u00eancias do mar. O esfor\u00e7o culminou, em 1951, na cria\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.io.usp.br\/\">Instituto Oceanogr\u00e1fico da USP (UOUSP)<\/a><\/strong>,<\/span> marco institucional que redefiniu a forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica brasileira na \u00e1rea. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-inauguracao-do-instituto-oceanografico-como-unidade-de-pesquisa-da-usp-em-1951-foto-acervo-iousp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9759\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci1-300x181.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci1-300x181.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci1.jpg 398w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Inaugura\u00e7\u00e3o do Instituto Oceanogr\u00e1fico como Unidade de Pesquisa da USP, em 1951.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Acervo IOUSP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No IOUSP, a pesquisadora ajudou a organizar cursos, liderou pesquisas sobre pl\u00e2ncton e ecossistemas costeiros e participou da constru\u00e7\u00e3o do primeiro navio oceanogr\u00e1fico brasileiro, o Professor Wladimir Besnard. Aos poucos, consolidou-se como uma das principais especialistas em manguezais do mundo, combinando expedi\u00e7\u00f5es extensas pelo litoral brasileiro com pesquisas em bases internacionais. Sua atua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a levou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Instituto, cargo que assumiu em 1964 \u2014 tornando-se a primeira mulher a ocupar o posto.<\/p>\n<p>Ao longo de sua carreira, Marta Vannucci enfrentou desafios frequentes em um ambiente predominantemente masculino e pouco receptivo \u00e0 presen\u00e7a feminina nos altos cargos cient\u00edficos. Ela nunca romantizou tais dificuldades. Em depoimentos posteriores, reconheceria a tens\u00e3o entre maternidade, vida pessoal e produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, destacando como as redes de apoio foram determinantes para que conseguisse seguir no caminho da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"do-brasil-para-o-mundo\">Do Brasil para o mundo<\/h4>\n<p>Sua sa\u00edda do IOUSP, em 1969, aconteceu sob o peso da ditadura militar, que a \u201caconselhou\u201d a se afastar. A partir desse momento, sua trajet\u00f3ria ganhou dimens\u00e3o global. Convidada pela <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unesco.org\/en\">UNESCO<\/a><\/strong><\/span>, trabalhou como perita em oceanografia na \u00cdndia, depois no M\u00e9xico, e posteriormente voltou ao sul da \u00c1sia para dirigir um escrit\u00f3rio regional. Mais tarde, dedicou-se tamb\u00e9m ao estudo e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos manguezais, atuando em projetos internacionais que definiram par\u00e2metros globais para o tema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sua-presenca-abriu-caminho-para-geracoes-futuras-ajudando-a-questionar-a-desigualdade-de-genero-no-meio-cientifico\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSua presen\u00e7a abriu caminho para gera\u00e7\u00f5es futuras, ajudando a questionar a desigualdade de g\u00eanero no meio cient\u00edfico.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante mais de quatro d\u00e9cadas de viagens constantes, Marta Vannucci colecionou experi\u00eancias em diferentes mares e culturas, aprendeu v\u00e1rios idiomas e tornou-se refer\u00eancia mundial na pesquisa sobre ecossistemas de mangue. Ainda assim, nunca rompeu sua liga\u00e7\u00e3o com o Brasil. Publicou mais de cem artigos, colaborou com institui\u00e7\u00f5es nacionais e criou, em homenagem ao filho, o Pr\u00eamio \u00c9rico Vannucci Mendes, hoje parte importante do reconhecimento de pesquisas sobre cultura e mem\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"academia-brasileira-de-ciencias\">Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/h4>\n<p>O prest\u00edgio cient\u00edfico que acumulou ao longo da vida lhe garantiu, em 1955, a entrada na <strong><a href=\"https:\/\/www.abc.org.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC)<\/span><\/a><\/strong> como membro associado. Em 1966, tornou-se a primeira mulher eleita membro titular da institui\u00e7\u00e3o, conquistando um espa\u00e7o at\u00e9 ent\u00e3o reservado quase exclusivamente aos homens. Sua presen\u00e7a abriu caminho para gera\u00e7\u00f5es futuras, ajudando a questionar a desigualdade de g\u00eanero no meio cient\u00edfico. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-marta-vannucci-foi-a-primeira-mulher-a-se-tornar-membro-titular-da-academia-brasileira-de-letras-abcfoto-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9760\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci2-274x300.png\" alt=\"\" width=\"457\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci2-274x300.png 274w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci2-11x12.png 11w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/vannucci2.png 403w\" sizes=\"(max-width: 457px) 100vw, 457px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Marta Vannucci foi a primeira mulher a se tornar membro titular da Academia Brasileira de Letras (ABC)<br \/>\n<\/strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O legado de Marta Vannucci se estende tamb\u00e9m pela dimens\u00e3o formadora. Orientadora exigente, formou pesquisadores que mais tarde se tornaram refer\u00eancia em oceanografia e ecologia. Muitos deles destacam sua disciplina, sua generosidade intelectual e sua capacidade de enxergar al\u00e9m das fronteiras da pr\u00f3pria \u00e1rea \u2014 marca de uma carreira que atravessou desde o pl\u00e2ncton marinho at\u00e9 estudos de antropologia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, sua atua\u00e7\u00e3o institucional transformou a pesquisa oceanogr\u00e1fica no pa\u00eds. Do fortalecimento do IOUSP ao estabelecimento de v\u00ednculos internacionais, Marta contribuiu para estruturar uma \u00e1rea que, at\u00e9 sua chegada, praticamente n\u00e3o existia. Hoje, o reconhecimento internacional dos estudos brasileiros em manguezais e ecossistemas costeiros deve muito ao seu trabalho inicial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"pioneirismo-e-legado\">Pioneirismo e legado<\/h4>\n<p>A cientista tamb\u00e9m legou uma reflex\u00e3o importante sobre o papel das mulheres na ci\u00eancia. Apesar de resistir ao r\u00f3tulo de pioneira feminista, sua trajet\u00f3ria evidencia a complexidade de avan\u00e7ar em um campo dominado por homens, enfrentando pr\u00e9-julgamentos, sobrecarga e expectativas sociais r\u00edgidas. Sua hist\u00f3ria revela, portanto, n\u00e3o apenas a consolida\u00e7\u00e3o da oceanografia no Brasil, mas tamb\u00e9m a persist\u00eancia necess\u00e1ria para ocupar espa\u00e7os onde antes nenhuma mulher havia estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"hoje-o-reconhecimento-internacional-dos-estudos-brasileiros-em-manguezais-e-ecossistemas-costeiros-deve-muito-ao-seu-trabalho-inicial\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cHoje, o reconhecimento internacional dos estudos brasileiros em manguezais e ecossistemas costeiros deve muito ao seu trabalho inicial.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao morrer, em 2021, aos 99 anos, Marta Vannucci deixou uma marca profunda na ci\u00eancia brasileira e internacional. Seu nome permanece associado \u00e0 expans\u00e3o da oceanografia, \u00e0 defesa dos manguezais e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade cient\u00edfica s\u00f3lida no pa\u00eds. Mais do que isso, sua hist\u00f3ria inspira novas gera\u00e7\u00f5es a navegar seus pr\u00f3prios caminhos em busca de conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De pioneira da oceanografia nacional a primeira mulher da Academia Brasileira de&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9758,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9757"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9757"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9757\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9763,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9757\/revisions\/9763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9757"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9757"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9757"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}