{"id":9784,"date":"2026-03-02T08:00:50","date_gmt":"2026-03-02T08:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9784"},"modified":"2026-03-03T12:50:39","modified_gmt":"2026-03-03T12:50:39","slug":"quando-a-musica-pensa-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9784","title":{"rendered":"Quando a m\u00fasica pensa o Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"a-historia-da-mpb-como-tecnologia-cultural-e-instrumento-de-leitura-do-pais\"><strong><span style=\"color: #808080;\">A hist\u00f3ria da MPB como tecnologia cultural e instrumento de leitura do pa\u00eds<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da M\u00fasica Popular Brasileira \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de como o pa\u00eds aprendeu a se narrar por meio do som. Para Ivan Vilela, compositor, arranjador, violeiro, pesquisador e professor\u00a0da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA), a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de MPB deve ser vista de forma ampla: n\u00e3o apenas como um r\u00f3tulo surgido nos anos 1960, mas como continuidade de uma tradi\u00e7\u00e3o oral que atravessa s\u00e9culos. \u201cN\u00f3s fomos constru\u00eddos durante muito tempo por uma forma\u00e7\u00e3o oral\u201d, afirma. Ele compara os cantadores brasileiros a figuras como os griots africanos ou os aedos gregos, lembrando que, num pa\u00eds onde a escrita se espalhou tardiamente e o ensino formal demorou a se consolidar, a m\u00fasica funcionou como t\u00e9cnica de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva. Versos ritmados e metrificados n\u00e3o s\u00f3 emocionavam \u2014 tamb\u00e9m guardavam informa\u00e7\u00f5es que, de outro modo, se perderiam.<\/p>\n<p>Esse car\u00e1ter hist\u00f3rico da m\u00fasica popular ganha for\u00e7a ao longo do s\u00e9culo XX, especialmente durante a ditadura militar. A can\u00e7\u00e3o passa a operar como cr\u00f4nica social, enfrentando censura e inventando caminhos para dizer o indiz\u00edvel. Personagens, met\u00e1foras e ambiguidades se tornam estrat\u00e9gia est\u00e9tica e pol\u00edtica \u2014 recurso usado por nomes como Chico Buarque para driblar vigil\u00e2ncia e registrar as tens\u00f5es do per\u00edodo. Para Vilela, no entanto, essa fun\u00e7\u00e3o nunca deixou de existir. \u201cA m\u00fasica sempre foi a voz desse povo\u201d, diz. E ele estende essa leitura ao presente: rap, funk e outras linguagens perif\u00e9ricas continuam produzindo relatos potentes de realidades marginalizadas. \u201cEles est\u00e3o fazendo cr\u00f4nica tamb\u00e9m. Est\u00e3o mantendo viva a mesma fun\u00e7\u00e3o social que a gera\u00e7\u00e3o dos anos 60 exerceu.\u201d<\/p>\n<p>Mas se a m\u00fasica resiste, o cen\u00e1rio cultural que a envolve se transforma. Vilela aponta a concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do mercado musical, que espelha outras monoculturas brasileiras \u2014 das commodities ao controle das r\u00e1dios por grupos alinhados a interesses espec\u00edficos. Ao mesmo tempo, defende a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de proteger a diversidade cultural e atenuar os efeitos de uma l\u00f3gica exclusivamente mercadol\u00f3gica. \u201cNessa selvageria neoliberal, a salvaguarda das pessoas \u00e9 o Estado\u201d, afirma, incluindo a cultura ao lado da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade como \u00e1reas que dependem de apoio institucional para sobreviver.<\/p>\n<p>No encontro entre oralidade, tecnologia e novos ativismos, Vilela prop\u00f5e pensar a MPB a partir da ideia de \u201cepistemografia\u201d: reconhecer que o conhecimento brasileiro n\u00e3o se expressa apenas pela escrita acad\u00eamica, mas tamb\u00e9m por pr\u00e1ticas sonoras, sensoriais e corporais. Da batida do funk \u00e0s ra\u00edzes do congo de ouro e do maculel\u00ea, ele enxerga continuidades profundas que ligam passado e presente. Por isso, v\u00ea a m\u00fasica popular como um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico singular \u2014 talvez o mais abrangente do pa\u00eds. \u201cTalvez a m\u00fasica seja o maior patrim\u00f4nio hist\u00f3rico da cultura brasileira, porque ela registrou muito mais acontecimentos do que foram registrados em livros sobre hist\u00f3ria. E normalmente a hist\u00f3ria est\u00e1 narrando a hist\u00f3ria dos vencedores, dos grandes, dos administradores, dos poderosos e nunca a hist\u00f3ria do povo. Isso a gente vai encontrar na m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a ao epis\u00f3dio completo:<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Quando a m\u00fasica pensa o Brasil\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/6XtZJOQuUVtRDqBrU9ClMU?si=2aef16ce83704d14&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A hist\u00f3ria da MPB como tecnologia cultural e instrumento de leitura do&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9785,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9784"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9784"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9843,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9784\/revisions\/9843"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}