{"id":9846,"date":"2026-03-04T07:30:40","date_gmt":"2026-03-04T07:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9846"},"modified":"2026-03-03T18:08:04","modified_gmt":"2026-03-03T18:08:04","slug":"a-mulher-que-moldou-vacinas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9846","title":{"rendered":"A mulher que moldou vacinas no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"pioneira-na-ciencia-nacional-jandyra-planet-do-amaral-percorreu-todas-as-funcoes-no-instituto-butantan-especializou-se-em-tecnologia-de-vacinas-e-deixou-um-legado-decisivo-para-a-saude-publica-brasi\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Pioneira na ci\u00eancia nacional, Jandyra Planet do Amaral percorreu todas as fun\u00e7\u00f5es no Instituto Butantan, especializou-se em tecnologia de vacinas e deixou um legado decisivo para a sa\u00fade p\u00fablica brasileira.<\/strong><\/span><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Jandyra Planet do Amaral nasceu em 1905, em S\u00e3o Paulo, em um Brasil onde mulheres eram raridade nas universidades e praticamente invis\u00edveis na pesquisa cient\u00edfica. Ao longo de 45 anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, ela se tornaria a primeira mulher a ocupar a diretoria-geral do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/butantan.gov.br\/\"><strong>Instituto Butantan<\/strong><\/a><\/span>, um dos centros mais importantes de pesquisa biom\u00e9dica do pa\u00eds. Sua trajet\u00f3ria, marcada por pioneirismo e rigor cient\u00edfico, moldou a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de vacinas no Brasil.<\/p>\n<p>Formada em medicina em 1931 pela <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.fm.usp.br\/fmusp\/portal\/\"><strong>Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP)<\/strong><\/a><\/span>, Jandyra do Amaral ingressou no Butantan no mesmo ano como estagi\u00e1ria da subse\u00e7\u00e3o de Soroterapia Antibacteriana. Era o primeiro passo de uma carreira que escalaria, uma a uma, todas as fun\u00e7\u00f5es poss\u00edveis dentro da institui\u00e7\u00e3o \u2014 de subassistente a pesquisadora, de chefe de se\u00e7\u00e3o a diretora de divis\u00e3o \u2014 at\u00e9 alcan\u00e7ar a diretoria-geral, em 1968. Tornou-se, assim, a primeira mulher pesquisadora e administradora m\u00e1xima do instituto. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"foto-acervo-instituto-butantan-centro-de-memoria-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9847\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig1-186x300.png\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig1-186x300.png 186w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig1-7x12.png 7w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig1.png 289w\" sizes=\"(max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><br \/>\n(Foto: Acervo Instituto Butantan\/Centro de Mem\u00f3ria. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma \u00e9poca em que doen\u00e7as infecciosas eram respons\u00e1veis por parte significativa da mortalidade no pa\u00eds, Jandyra Amaral \u00a0voltou seus esfor\u00e7os para problemas urgentes de sa\u00fade p\u00fablica. Liderou estudos sobre tuberculose, difteria, poliomielite, t\u00e9tano, raiva, coqueluche e var\u00edola, trabalhando para ampliar a capacidade nacional de diagn\u00f3stico, preven\u00e7\u00e3o e formula\u00e7\u00e3o de imunizantes. Seu interesse precoce pela microbiologia, sinalizado ainda na tese sobre a bact\u00e9ria causadora da gonorreia, guiaria toda sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"pesquisadora-incansavel\">Pesquisadora incans\u00e1vel<\/h4>\n<p>A partir de 1945, \u00e0 frente da Divis\u00e3o de Bacteriologia, ela se dedicou com intensidade ao estudo e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da vacina BCG, utilizada na preven\u00e7\u00e3o da tuberculose. Embora o Brasil j\u00e1 aplicasse o imunizante desde 1929, a baixa cobertura vacinal fazia com que a doen\u00e7a seguisse como uma das principais causas de morte. S\u00f3 na cidade de S\u00e3o Paulo, estima-se que cerca de 10% dos \u00f3bitos no final da d\u00e9cada de 1940 eram atribu\u00eddos \u00e0 tuberculose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sua-trajetoria-marcada-por-pioneirismo-e-rigor-cientifico-moldou-a-historia-da-producao-de-vacinas-no-brasil\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSua trajet\u00f3ria, marcada por pioneirismo e rigor cient\u00edfico, moldou a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de vacinas no Brasil.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o ganharia novo alcance em 1958, quando foi convidada para um est\u00e1gio t\u00e9cnico de seis meses no Instituto Pasteur. L\u00e1, acompanhou de perto todas as etapas da produ\u00e7\u00e3o industrial da BCG, desenvolvida d\u00e9cadas antes por L\u00e9on Calmette e Alphonse Gu\u00e9rin. A experi\u00eancia consolidou sua especializa\u00e7\u00e3o na tecnologia de vacinas e permitiu que ela liderasse, no Brasil, a produ\u00e7\u00e3o em larga escala do imunizante.<\/p>\n<p>De volta ao Butantan, Jandyra Amaral coordenou o esfor\u00e7o que possibilitou a fabrica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da BCG entre 1949 e 1954, contribuindo para que milh\u00f5es de doses fossem distribu\u00eddas em todo o pa\u00eds. Nos anos 1970, j\u00e1 como diretora-geral, supervisionou a implementa\u00e7\u00e3o da BCG liofilizada \u2014 vers\u00e3o em p\u00f3 que facilitava transporte e armazenamento \u2014 seguindo recomenda\u00e7\u00f5es da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.who.int\/pt\/about\"><strong>Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)<\/strong><\/a><\/span>. O imunizante seria incorporado ao Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es em 1977 e \u00e9 utilizado at\u00e9 hoje. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"foto-acervo-instituto-butantan-centro-de-memoria-reproducao-2\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9849\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig2-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-Jandyra-Planet-do-Amaral-fig2.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n(Foto: Acervo Instituto Butantan\/Centro de Mem\u00f3ria. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua gest\u00e3o \u00e0 frente do instituto foi marcada tanto pela moderniza\u00e7\u00e3o administrativa quanto pelo alinhamento entre pesquisa cient\u00edfica e pol\u00edticas p\u00fablicas. Jandyra do Amaral introduziu planos anuais de trabalho, reorganizou setores t\u00e9cnicos e estreitou a articula\u00e7\u00e3o com a Secretaria de Sa\u00fade do Estado de S\u00e3o Paulo, o que fortaleceu a atua\u00e7\u00e3o do Butantan em campanhas estrat\u00e9gicas. Essa parceria seria decisiva para o sucesso das a\u00e7\u00f5es de erradica\u00e7\u00e3o da var\u00edola no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da BCG, sua carreira inclui contribui\u00e7\u00f5es importantes para vacinas contra difteria e outras doen\u00e7as bacterianas. Ao longo das d\u00e9cadas, publicou 35 artigos cient\u00edficos, coordenou grupos de pesquisa e ajudou a estruturar as bases para a forma\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dentro do instituto. Sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e administrativa ajudou a moldar a cultura de vacina\u00e7\u00e3o que se tornaria marca da sa\u00fade p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"pioneirismo-e-legado\">Pioneirismo e legado<\/h4>\n<p>Em 1968, ao assumir a dire\u00e7\u00e3o-geral, Jandyra quebrava mais uma barreira: era a primeira mulher a chefiar uma institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica estadual de grande porte em S\u00e3o Paulo. Em um ambiente majoritariamente masculino, sua lideran\u00e7a combinava rigor t\u00e9cnico, vis\u00e3o institucional e capacidade de negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 atributos essenciais para consolidar a posi\u00e7\u00e3o do Butantan como refer\u00eancia em biotecnologia e produ\u00e7\u00e3o de vacinas.<\/p>\n<p>A aposentadoria compuls\u00f3ria veio em 1975, aos 70 anos. Jandyra Amaral deixava um instituto mais estruturado, laborat\u00f3rios renovados e um legado cient\u00edfico fundamentado na continuidade e na responsabilidade p\u00fablica. Seu trabalho seria reconhecido, d\u00e9cadas depois, como pe\u00e7a fundamental para que institui\u00e7\u00f5es brasileiras estivessem preparadas para desafios sanit\u00e1rios contempor\u00e2neos, como a pandemia de COVID-19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-1968-ao-assumir-a-direcao-geral-jandyra-quebrava-mais-uma-barreira-era-a-primeira-mulher-a-chefiar-uma-instituicao-cientifica-estadual-de-grande-porte-em-sao-paulo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEm 1968, ao assumir a dire\u00e7\u00e3o-geral, Jandyra quebrava mais uma barreira: era a primeira mulher a chefiar uma institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica estadual de grande porte em S\u00e3o Paulo.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jandyra Planet do Amaral viveu at\u00e9 2011, alcan\u00e7ando 105 anos, e tornou-se s\u00edmbolo de perseveran\u00e7a cient\u00edfica. Em uma \u00e9poca de obst\u00e1culos para mulheres na ci\u00eancia, ela n\u00e3o s\u00f3 ocupou espa\u00e7os in\u00e9ditos, como redefiniu o papel do conhecimento biom\u00e9dico em pol\u00edticas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da BCG, sua contribui\u00e7\u00e3o permanece evidente. Em um momento de queda na cobertura vacinal e retorno de doen\u00e7as que poderiam ser prevenidas, o legado de Jandyra lembra que a ci\u00eancia exige continuidade, investimento e compromisso social. Seu percurso no Butantan mostra que o pioneirismo feminino n\u00e3o apenas abriu portas, mas salvou vidas \u2014 e continua a salvar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-foto-acervo-instituto-butantan-centro-de-memoria-reproducao\">Capa. (Foto: Acervo Instituto Butantan\/Centro de Mem\u00f3ria. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pioneira na ci\u00eancia nacional, Jandyra Planet do Amaral percorreu todas as fun\u00e7\u00f5es&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":9848,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9846"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9846"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9846\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9852,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9846\/revisions\/9852"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9848"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9846"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9846"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9846"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}