{"id":9932,"date":"2026-03-23T08:00:35","date_gmt":"2026-03-23T08:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9932"},"modified":"2026-03-23T10:39:09","modified_gmt":"2026-03-23T10:39:09","slug":"algoritmos-atencao-e-mercado-os-bastidores-cientificos-da-musica-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9932","title":{"rendered":"Algoritmos, aten\u00e7\u00e3o e mercado"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"plataformas-digitais-transformam-cancoes-em-dados-reorganizam-a-economia-do-setor-e-redefinem-a-experiencia-estetica-na-era-da-inteligencia-artificial\"><strong><span style=\"color: #808080;\">Plataformas digitais transformam can\u00e7\u00f5es em dados, reorganizam a economia do setor e redefinem a experi\u00eancia est\u00e9tica na era da intelig\u00eancia artificial.<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A m\u00fasica sempre ocupou um lugar central na vida social, como express\u00e3o art\u00edstica, identidade cultural e experi\u00eancia afetiva. Na contemporaneidade, por\u00e9m, o simples ato de ouvir uma can\u00e7\u00e3o envolve um complexo ecossistema cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico que opera de forma quase invis\u00edvel para o p\u00fablico. Ao apertar o bot\u00e3o \u201cplay\u201d, o ouvinte aciona uma engrenagem composta por algoritmos, sistemas de an\u00e1lise de dados, mecanismos automatizados de prote\u00e7\u00e3o de direitos autorais e modelos econ\u00f4micos baseados na chamada economia da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria musical do s\u00e9culo XXI tornou-se um espa\u00e7o privilegiado de converg\u00eancia entre ci\u00eancia, tecnologia, economia e cultura. Como observa o pesquisador David Hesmondhalgh, em <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/261554803_The_Cultural_Industries_3rd_Ed\"><strong>\u201c<em>The Cultural Industries\u201d<\/em><\/strong><\/a><\/span>, as ind\u00fastrias culturais sempre articularam criatividade e mercado, mas as plataformas digitais intensificaram essa rela\u00e7\u00e3o ao integrar produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e infraestrutura tecnol\u00f3gica em escala global.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"da-industria-fonografica-a-producao-digital\">Da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica \u00e0 produ\u00e7\u00e3o digital<\/h4>\n<p>Para compreender o funcionamento do ecossistema musical contempor\u00e2neo, \u00e9 necess\u00e1rio observar a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Segundo o compositor Claudiney Carrasco, professor do Departamento de M\u00fasica da <a href=\"https:\/\/unicamp.br\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)<\/span>,<\/strong><\/a> o modelo de neg\u00f3cio que estruturou o mercado musical durante grande parte do s\u00e9culo XX foi marcado por forte concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica. \u201cO perfil de com\u00e9rcio da m\u00fasica tal como conhecemos hoje come\u00e7a a se estruturar no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando surge o com\u00e9rcio fonogr\u00e1fico e a m\u00fasica passa a ser compreendida dentro de uma l\u00f3gica de mercado\u201d, explica. Nesse contexto, o desenvolvimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, especialmente o r\u00e1dio a partir da d\u00e9cada de 1920, per\u00edodo decisivo para ampliar a circula\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es e consolidar a ind\u00fastria musical.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a produ\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica esteve concentrada nas grandes gravadoras. O alto custo dos equipamentos tornava praticamente imposs\u00edvel que artistas produzissem de forma independente. \u201cPara gravar um disco, era necess\u00e1rio ter contrato com uma gravadora, que decidia o que seria gravado e distribu\u00eddo\u201d, afirma Claudiney Carrasco. M\u00e1quinas de grava\u00e7\u00e3o podiam custar entre 50 e 100 mil d\u00f3lares e chegar a pesar uma tonelada, o que limitava o acesso \u00e0s tecnologias de produ\u00e7\u00e3o. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-fabrica-de-vinil-nos-estados-unidos-em-1946-imagem-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9934\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-300x240.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-300x240.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-1024x818.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-768x613.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-1536x1227.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-15x12.jpg 15w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-800x639.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1-1160x926.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-1.jpg 2030w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. F\u00e1brica de vinil nos Estados Unidos em 1946.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, grandes est\u00fadios ligados a conglomerados de m\u00eddia concentravam parte significativa da produ\u00e7\u00e3o musical. Al\u00e9m da grava\u00e7\u00e3o, os contratos com gravadoras inclu\u00edam tamb\u00e9m estrat\u00e9gias de divulga\u00e7\u00e3o e marketing, consolidando um sistema altamente centralizado.<\/p>\n<p>Essa estrutura come\u00e7ou a mudar na d\u00e9cada de 1980, quando a miniaturiza\u00e7\u00e3o dos equipamentos reduziu custos e permitiu o surgimento dos chamados \u201cest\u00fadios de garagem\u201d. Artistas passaram a gravar de forma independente e a vender discos diretamente em shows. Movimentos como a chamada Vanguarda Paulista e parte do rock brasileiro emergiram nesse contexto. \u201cCom essas produ\u00e7\u00f5es independentes, ampliou-se tamb\u00e9m o contato do p\u00fablico com diferentes estilos musicais, porque j\u00e1 n\u00e3o eram apenas as gravadoras que determinavam o que seria comercializado\u201d, observa o pesquisador.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o se intensificou nos anos 1990 com a digitaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical. Os sistemas de grava\u00e7\u00e3o passaram a ser integrados aos computadores pessoais, dando origem aos chamados <em>home studios<\/em>. Inicialmente, as m\u00fasicas eram produzidas digitalmente, mas ainda distribu\u00eddas em m\u00eddias f\u00edsicas. A virada definitiva ocorre nos anos 2000, com a expans\u00e3o da internet e o surgimento das plataformas de streaming. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9935\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2-800x533.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CC-1E26-reportagem-Algoritmos-atencao-e-mercado-figura-2.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-tecnologia-atual-permite-utilizacao-de-estudios-de-gravacao-caseiros-modernos-foto-freepik-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2. Tecnologia atual permite utiliza\u00e7\u00e3o de est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o caseiros modernos.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Freepik. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Claudiney Carrasco, esse processo trouxe uma ambival\u00eancia. \u201cHouve uma democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, porque hoje qualquer artista pode gravar em casa\u201d, afirma. Ao mesmo tempo, surgiram novos desafios econ\u00f4micos. \u201cA remunera\u00e7\u00e3o nas plataformas \u00e9 muito pequena. Para que o artista receba algo significativo, \u00e9 necess\u00e1rio um volume muito grande de reprodu\u00e7\u00f5es.\u201d Nesse cen\u00e1rio, os shows continuam sendo uma das principais fontes de renda para m\u00fasicos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"segmentacao-e-inteligencia-artificial\">Segmenta\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial<\/h4>\n<p>De acordo com Alexei de Queiroz, professor da Faculdade de M\u00fasica da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unb.br\/\"><strong>Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/strong><\/a><\/span>, o mercado musical contempor\u00e2neo se aproxima cada vez mais da l\u00f3gica das redes sociais. \u201cHoje a caracter\u00edstica do mercado n\u00e3o \u00e9 atingir todo mundo, como na era do r\u00e1dio, mas uma parcela muito espec\u00edfica do p\u00fablico, segmentada\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Essa segmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 sustentada por algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o, sistemas de intelig\u00eancia artificial que analisam grandes volumes de dados para sugerir conte\u00fados personalizados. Cada a\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, ouvir uma faixa at\u00e9 o fim, interromp\u00ea-la nos primeiros segundos, repetir uma m\u00fasica ou adicion\u00e1-la a uma playlist, transforma-se em dado. Esses registros alimentam modelos matem\u00e1ticos capazes de identificar padr\u00f5es de comportamento em escala global.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"hoje-a-caracteristica-do-mercado-nao-e-atingir-todo-mundo-como-na-era-do-radio-mas-uma-parcela-muito-especifica-do-publico-segmentada\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cHoje a caracter\u00edstica do mercado n\u00e3o \u00e9 atingir todo mundo, como na era do r\u00e1dio, mas uma parcela muito espec\u00edfica do p\u00fablico, segmentada\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pesquisador Nick Srnicek, em \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/temascontemporaneosdotorg.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/traducao-livre_srnicek_platform-capitalism-1.pdf\"><strong><em>Platform Capitalism<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>\u201d<\/em>, descreve esse modelo como caracter\u00edstico do capitalismo de plataforma, no qual dados se tornam recurso central de extra\u00e7\u00e3o de valor. No caso da m\u00fasica, a escuta converte-se em informa\u00e7\u00e3o process\u00e1vel, integrando um dos maiores fluxos de dados culturais j\u00e1 produzidos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"direitos-autorais-e-rastreamento-digital\">Direitos autorais e rastreamento digital<\/h4>\n<p>A digitaliza\u00e7\u00e3o intensificou desafios hist\u00f3ricos relacionados \u00e0 propriedade intelectual. Em um ambiente de circula\u00e7\u00e3o veloz e global, garantir que compositores, int\u00e9rpretes e produtores sejam remunerados exige solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas sofisticadas.<\/p>\n<p>Sistemas de reconhecimento autom\u00e1tico de \u00e1udio permitem identificar m\u00fasicas incorporadas a v\u00eddeos e transmiss\u00f5es em diferentes plataformas, possibilitando o rastreamento de usos e a distribui\u00e7\u00e3o de royalties. Tecnologias como <em>blockchain<\/em> e contratos inteligentes v\u00eam sendo discutidas como alternativas para ampliar a transpar\u00eancia no licenciamento.<\/p>\n<p>O jurista Lawrence Lessig, em \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/220693351_Free_Culture_The_Nature_and_Future_of_Creativity\"><strong><em>Free Culture<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>\u201d<\/em>, j\u00e1 apontava, ainda nos anos 2000, que a arquitetura digital redefine as bases do controle autoral e exige novos equil\u00edbrios entre prote\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-algoritmo-e-desenhado-para-ser-favoravel-a-quem-paga-por-ele\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO algoritmo \u00e9 desenhado para ser favor\u00e1vel a quem paga por ele\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No modelo de streaming, a remunera\u00e7\u00e3o ocorre com base no n\u00famero de reprodu\u00e7\u00f5es, combinando receitas de assinaturas e publicidade. Estudos sobre a economia da m\u00fasica digital indicam que esse sistema tende a concentrar rendimentos em artistas de grande audi\u00eancia, ampliando desigualdades estruturais no setor.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-economia-da-atencao\">A economia da aten\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>No centro desse arranjo est\u00e1 a economia da aten\u00e7\u00e3o. O cientista pol\u00edtico Herbert A. Simon j\u00e1 advertia, nos anos 1970, que a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o produz escassez de aten\u00e7\u00e3o. D\u00e9cadas depois, o ensa\u00edsta Tim Wu, em \u201c<em>The Attention Merchants\u201d<\/em>, analisa como empresas competem sistematicamente pela captura desse recurso.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica, essa l\u00f3gica se traduz em m\u00e9tricas de engajamento que orientam tanto o design das plataformas quanto as estrat\u00e9gias de lan\u00e7amento. Alexei de Queiroz descreve os algoritmos como \u201cescultores da m\u00fasica\u201d, capazes de influenciar o que ganha visibilidade. \u201cO algoritmo \u00e9 desenhado para ser favor\u00e1vel a quem paga por ele\u201d, afirma, destacando o papel do impulsionamento e das inser\u00e7\u00f5es patrocinadas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria forma musical passa a refletir esse ambiente. O m\u00fasico Jack Stauber tornou-se exemplo de composi\u00e7\u00f5es ultracurtas, com cerca de 30 segundos, ajustadas \u00e0 din\u00e2mica acelerada das redes digitais. Embora criativamente instigante, esse formato tamb\u00e9m revela a press\u00e3o por reten\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"experiencia-estetica-e-mediacao-tecnologica\">Experi\u00eancia est\u00e9tica e media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<\/h4>\n<p>Para Jos\u00e9 Augusto Manni, professor do <a href=\"https:\/\/www.iar.unicamp.br\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Instituto de Artes da Unicamp<\/span><\/strong><\/a>, a media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica altera a pr\u00f3pria experi\u00eancia est\u00e9tica. \u201cA escuta deixou de ser um momento concentrado para se tornar uma pr\u00e1tica dispersa, integrada a outras atividades do cotidiano\u201d, afirma. Segundo ele, essa transforma\u00e7\u00e3o influencia a composi\u00e7\u00e3o, com introdu\u00e7\u00f5es mais curtas e refr\u00f5es antecipados, adequando-se aos padr\u00f5es de reten\u00e7\u00e3o medidos em segundos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-escuta-deixou-de-ser-um-momento-concentrado-para-se-tornar-uma-pratica-dispersa-integrada-a-outras-atividades-do-cotidiano\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA escuta deixou de ser um momento concentrado para se tornar uma pr\u00e1tica dispersa, integrada a outras atividades do cotidiano\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o dialoga com an\u00e1lises do soci\u00f3logo Zygmunt Bauman em \u201c<em>Liquid Modernity\u201d<\/em>, ao discutir a fluidez e a fragmenta\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias culturais na modernidade tardia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"democratizacao-e-opacidade\">Democratiza\u00e7\u00e3o e opacidade<\/h4>\n<p>As tecnologias digitais foram frequentemente associadas \u00e0 promessa de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso. Em tese, qualquer artista pode distribuir sua m\u00fasica globalmente. Contudo, como argumenta Shoshana Zuboff em \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.hbs.edu\/faculty\/Pages\/item.aspx?num=56791\"><strong><em>The Age of Surveillance Capitalism<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>\u201d<\/em>, plataformas digitais operam sob l\u00f3gicas de captura e monetiza\u00e7\u00e3o de dados que tendem \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de poder e \u00e0 opacidade decis\u00f3ria.<\/p>\n<p>Persistem desigualdades relacionadas ao acesso a dados, capital e estrat\u00e9gias de visibilidade algor\u00edtmica. Pesquisadores alertam para vieses em sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o, riscos \u00e0 privacidade e necessidade de maior transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 evidente: nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil produzir e distribuir m\u00fasica, mas nunca os processos que definem o que ser\u00e1 ouvido foram t\u00e3o complexos e pouco transparentes. Por tr\u00e1s das can\u00e7\u00f5es que embalam o cotidiano, operam sistemas cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos que redefinem cria\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e valor simb\u00f3lico. Compreender esses bastidores \u00e9 fundamental para entender n\u00e3o apenas a m\u00fasica do nosso tempo, mas as transforma\u00e7\u00f5es mais amplas na rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, tecnologia e cultura na sociedade digital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"hoje-em-dia-e-muito-simples-criar-e-compartilhar-musica-no-entanto-as-regras-que-decidem-o-que-as-pessoas-ouvirao-estao-muito-complicadas-e-nao-sao-claras-foto-freepik-reproducao\"><strong>Hoje em dia, \u00e9 muito simples criar e compartilhar m\u00fasica. No entanto, as regras que decidem o que as pessoas ouvir\u00e3o est\u00e3o muito complicadas e n\u00e3o s\u00e3o claras.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Freepik. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Plataformas digitais transformam can\u00e7\u00f5es em dados, reorganizam a economia do setor e&hellip;\n","protected":false},"author":311,"featured_media":9933,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9932"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/311"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9932"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9932\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9964,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9932\/revisions\/9964"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9933"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9932"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9932"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9932"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}