{"id":9997,"date":"2026-04-01T07:30:09","date_gmt":"2026-04-01T07:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9997"},"modified":"2026-03-31T18:35:10","modified_gmt":"2026-03-31T18:35:10","slug":"maria-deane-a-cientista-que-enfrentou-as-epidemias-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=9997","title":{"rendered":"Maria Deane, a cientista que enfrentou as epidemias do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Poucas trajet\u00f3rias na ci\u00eancia brasileira combinam, com tanta intensidade, rigor acad\u00eamico e atua\u00e7\u00e3o direta no enfrentamento de epidemias quanto a de Maria Jos\u00e9 von Paumgartten Deane. M\u00e9dica, parasitologista e professora, ela dedicou quase seis d\u00e9cadas \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as que marcaram profundamente a hist\u00f3ria sanit\u00e1ria do pa\u00eds, como mal\u00e1ria, leishmaniose visceral, filariose e doen\u00e7a de Chagas.<\/p>\n<p>Nascida em Bel\u00e9m, em 24 de julho de 1916, Maria Deane cresceu em um contexto familiar marcado por disciplina e por dificuldades econ\u00f4micas decorrentes da Primeira Guerra Mundial. Ainda jovem, vivenciou perdas pessoais que influenciaram sua escolha pela medicina. Aos 15 anos, ingressou na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Par\u00e1, em uma \u00e9poca em que a presen\u00e7a feminina no ensino superior \u2014 especialmente em \u00e1reas cient\u00edficas \u2014 era rara.<\/p>\n<p>Foi durante a gradua\u00e7\u00e3o que teve seus primeiros contatos com a pesquisa em sa\u00fade p\u00fablica. Ainda estudante, integrou equipes que investigavam a leishmaniose visceral na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, sob a lideran\u00e7a de Evandro Chagas. Ali come\u00e7ou uma trajet\u00f3ria que a levaria a percorrer o Brasil em miss\u00f5es cient\u00edficas voltadas \u00e0 compreens\u00e3o e ao controle de doen\u00e7as end\u00eamicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"maria-conjugava-grande-conhecimento-teorico-e-intenso-trabalho-de-campo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMaria conjugava grande conhecimento te\u00f3rico e intenso trabalho de campo.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao lado do m\u00e9dico e cientista Le\u00f4nidas de Mello Deane, seu companheiro de vida e pesquisa, Maria desenvolveu estudos fundamentais em parasitologia e entomologia m\u00e9dica. Juntos, tornaram-se refer\u00eancias no estudo dos vetores e dos ciclos de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as tropicais, combinando trabalho de campo em regi\u00f5es remotas com investiga\u00e7\u00f5es laboratoriais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"campanhas-sanitarias\">Campanhas sanit\u00e1rias<\/h4>\n<p>Na d\u00e9cada de 1940, Maria Deane participou de uma das mais importantes campanhas sanit\u00e1rias do pa\u00eds: o combate ao mosquito africano <em>Anopheles gambiae<\/em>, respons\u00e1vel por uma grave epidemia de mal\u00e1ria no Nordeste. A atua\u00e7\u00e3o da equipe foi decisiva para conter a dissemina\u00e7\u00e3o do vetor, em um esfor\u00e7o considerado exemplar na hist\u00f3ria da sa\u00fade p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-instituto-oswaldo-cruz-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9998\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig1.jpg 190w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig1-16x12.jpg 16w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><br \/>\nFigura 1. Instituto Oswaldo Cruz. Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua carreira tamb\u00e9m foi marcada pela produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta. Ao longo dos anos, publicou mais de 150 artigos em peri\u00f3dicos nacionais e internacionais, contribuindo para o avan\u00e7o do conhecimento sobre parasitos, vetores e mecanismos de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as. Al\u00e9m disso, participou da descri\u00e7\u00e3o de novas esp\u00e9cies de mosquitos, ampliando a compreens\u00e3o da biodiversidade associada \u00e0s enfermidades tropicais.<\/p>\n<p>Entre suas contribui\u00e7\u00f5es mais relevantes est\u00e1 o aprofundamento dos estudos sobre o <em>Trypanosoma cruzi<\/em>, agente da doen\u00e7a de Chagas. Em uma descoberta marcante, Maria Deane ajudou a descrever o duplo ciclo de multiplica\u00e7\u00e3o do parasita no gamb\u00e1, revelando aspectos fundamentais da transmiss\u00e3o oral da doen\u00e7a e ampliando o entendimento de sua din\u00e2mica epidemiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de Maria Deane n\u00e3o se restringiu aos laborat\u00f3rios. Em suas expedi\u00e7\u00f5es pelo Norte e Nordeste, ela tamb\u00e9m se dedicava \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de comunidades sobre saneamento b\u00e1sico e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, estabelecendo uma ponte entre ci\u00eancia e popula\u00e7\u00e3o. Essa dimens\u00e3o educativa refor\u00e7a o car\u00e1ter aplicado e social de sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ciencia-brasileira\">Ci\u00eancia brasileira<\/h4>\n<p>Sua trajet\u00f3ria institucional inclui passagens por centros estrat\u00e9gicos da ci\u00eancia brasileira, como o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/iec\/pt-br\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Instituto Evandro Chagas<\/span><\/strong><\/a>, o Servi\u00e7o Especial de Sa\u00fade P\u00fablica e a <a href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/span><\/strong><\/a>. Tamb\u00e9m atuou no exterior, em Portugal e na Venezuela, onde contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o de departamentos de parasitologia.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-fundacao-oswaldo-cruz-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9999\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig2.jpg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig2.jpg 198w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CB-maria-deane-fig2-8x12.jpg 8w\" sizes=\"(max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><br \/>\nFigura 2. Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na <a href=\"https:\/\/fiocruz.br\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz<\/span><\/strong><\/a>, a partir de 1980, consolidou sua lideran\u00e7a cient\u00edfica. Chefiou o Departamento de Protozoologia, ocupou a vice-dire\u00e7\u00e3o do Instituto Oswaldo Cruz e participou da reestrutura\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o. Seu trabalho ajudou a formar gera\u00e7\u00f5es de pesquisadores e a fortalecer a pesquisa em doen\u00e7as tropicais no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Maria Deane morreu em 13 de agosto de 1995, no Rio de Janeiro, deixando um legado que ultrapassa a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu nome permanece associado a importantes institui\u00e7\u00f5es, como o Centro de Pesquisa Le\u00f4nidas e Maria Deane, da Fiocruz Amaz\u00f4nia, e a espa\u00e7os acad\u00eamicos que homenageiam sua contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"maria-jose-deane-foi-uma-das-mais-destacadas-protozoologistas-brasileiras-e-publicou-mais-de-150-trabalhos-em-periodicos-nacionais-e-estrangeiros\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cMaria Jos\u00e9 Deane foi uma das mais destacadas protozoologistas brasileiras e publicou mais de 150 trabalhos em peri\u00f3dicos nacionais e estrangeiros.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais do que uma cientista de destaque, Maria Deane foi uma pioneira que desafiou barreiras de g\u00eanero e ajudou a moldar a ci\u00eancia brasileira. Sua trajet\u00f3ria revela como conhecimento, compromisso social e coragem podem transformar n\u00e3o apenas a compreens\u00e3o das doen\u00e7as, mas tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de vida de popula\u00e7\u00f5es inteiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-instituto-oswaldo-cruz-reproducao\">Capa. Instituto Oswaldo Cruz. Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Poucas trajet\u00f3rias na ci\u00eancia brasileira combinam, com tanta intensidade, rigor acad\u00eamico e&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":10000,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9997"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9997"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9997\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10005,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9997\/revisions\/10005"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}