Globalização das ciências sociais e sua vocação pública

Conceitos, teorias e descobertas das ciências humanas contribuem para a formulação de políticas pública voltadas para enfrentar os desafios das sociedades

Resumo

O artigo aborda o processo de expansão e globalização das ciências sociais, sua inserção numa uma estrutura de poder acadêmico assimétrica em função da distribuição desigual de recursos materiais, humanos e simbólicos das universidades e de seus países. Também procura ressaltar a presença ativa das ciências sociais diante de questões centrais da contemporaneidade, tanto no contexto internacional quanto no Brasil.

As ciências sociais, compreendidas nesse texto como a sociologia, antropologia e ciência política, tornaram-se um ator de fundamental importância na dinâmica das sociedades contemporâneas, na medida em que as produções de seus conhecimentos permitem analisar e compreender as aceleradas mudanças em diferentes esferas da vida social que estão ocorrendo nos níveis locais, nacionais e global. Suas análises recentes têm nos apresentado um mundo que está ganhando novos contornos por meio do surgimento de fenômenos recentes, tais como; ascensão de um capitalismo global, desregulação do mercado financeiro, complexas estruturas de poder global, proliferação de incessantes inovações tecnológicas, formação de uma cultura de massa em âmbito mundial, emergência de riscos ecológicos, sociais e pessoais. Simultaneamente, têm destacado a relativa perda de influência de determinadas instituições como classe social, família, partidos políticos, na orientação da conduta dos atores, assim como a emergência da centralidade da questão de gênero, eclosão de novos arranjos afetivos e de sexualidade e afirmação de referências identitárias, etc.[1, 2, 3, 4] Ao mesmo tempo, os conhecimentos produzidos por elas extrapolam o meio acadêmico no qual foram elaborados e tendem a se inserir de forma crescente na vida cotidiana das diversas sociedades nacionais, possibilitando os indivíduos compreenderem e refletirem sobre estas complexas mudanças que estão ocorrendo em ritmo acelerado e os possíveis impactos em suas vidas privadas.[5, 6] Em função de sua centralidade explicativa, as ciências sociais estão intensamente vinculadas com o advento e os caminhos da modernidade nos dias correntes, tal como ocorre com a presença e atuação das ciências naturais na dinâmica da sociedade contemporânea. (Figura 1)


Figura 1. Análises recentes apresentam um mundo que está ganhando novos contornos por meio do surgimento de fenômenos recentes.
(Foto: Inatimi Nathus, Unsplash.com. Reprodução)

 

Se por uma parte, as nomeadas ciências “hard” têm propiciado fundamentos científicos para a produção de novas tecnologias que vêm transformando constantemente o mundo da natureza e a própria vida humana, os conceitos, teorias e descobertas das ciências humanas têm permitido também sua intervenção na vida social, expressa por meio de formulação de políticas públicas, voltadas para enfrentar desafios prementes de diversas sociedades nacionais. Num primeiro momento, esse artigo, apresenta de forma abreviada o impacto do processo de globalização na dinâmica das ciências sociais nos dias correntes e na parte final, também de forma sucinta, aborda a expansão das ciências sociais no Brasil e sua inserção na sociedade brasileira. Em ambas partes, o artigo procura ressaltar a presença ativa das ciências sociais diante de questões centrais da contemporaneidade.

Embora o pensamento social esteja presente em todas as sociedades ao longo da história humana, as ciências sociais realizadas no interior de instituições especializadas, como universidades ou institutos de pesquisa, tiveram o início de sua institucionalização em determinadas sociedades europeias e no contexto norte-americano entre o final do século XIX e início do XX. A formação e desenvolvimento das ciências sociais nessas regiões estiveram relacionadas com seus respectivos processos de formação do estado-nação, bem como por meio de empreendimentos colonialistas. A organização de seus sistemas nacionais de ensino superior e de suas universidades propiciaram um suporte para o processo de institucionalização nestas regiões. Gradativamente, as ciências sociais foram surgindo e se institucionalizando em diferentes países por meio das atividades de ensino e pesquisa e em função dos distintos contextos histórico-sociais em que emergiram. Assim, assumiram percursos específicos no processo de formação e desenvolvimento e revelaram diferentes configurações e tradições intelectuais. A “nacionalização” das ciências sociais, ou seja, seu surgimento e vinculação com tradições sociais, culturais, políticas e acadêmicas de seus países, combinadas com a exploração de temas de pesquisas pertinentes aos seus contextos nacionais, resultou numa configuração pluralista no contexto acadêmico internacional dessas disciplinas em termos de uma diversidade de objetos e esquemas explicativos. Essa “nacionalização” das ciências sociais constituiu a base a partir da qual, paulatinamente, ocorreu, num momento posterior, um extenso processo de interação acadêmica entrelaçando vários países por meio do intercâmbio de ideias, resultados de suas pesquisas e de seus praticantes. Diante da presença das ciências sociais em várias partes do mundo nos dias atuais, torna-se oportuno interrogar se elas estariam se internacionalizando, ou movendo-se em direção a uma esfera global, em termos de produção e circulação de conhecimento.[7, 8, 9]

 

“As ciências sociais estão intensamente vinculadas com o advento e os caminhos da modernidade nos dias correntes, tal como ocorre com a presença e atuação das ciências naturais na dinâmica da sociedade contemporânea.”

 

O artigo parte do pressuposto que o processo de globalização, compreendido como intensificação de relações sociais, políticas, econômicas e culturais que conectam de forma recíproca os níveis locais, nacionais e global, presentes na sociedade contemporânea, encontra-se reverberando também na dinâmica das ciências sociais.[10, 11, 12, 13, 14] Nos dias correntes, as ciências sociais operam simultaneamente, tanto no interior de diversos países quanto num plano transnacional. Se por uma parte, elas têm realizado produções significativas sobre o processo de globalização em suas dimensões econômica, política e cultural, constata-se que apenas recentemente surgiram trabalhos a respeito da globalização das ciências sociais.[15, 16, 17, 18, 19] De forma sintética, pode-se distinguir duas fases no processo de interação acadêmica internacional nas ciências sociais. A primeira compreende o período que se estende da metade do século XIX até o momento entre as duas guerras mundiais. O intercâmbio acadêmico internacional ocorria, basicamente, por meio de conferências internacionais e da formação de associações científicas internacionais, duas modalidades de práticas acadêmicas até então inexistentes. Áreas do conhecimento como estatística, antropologia, sociologia e história passaram a organizar encontros internacionais e criar suas respectivas associações científicas internacionais. O Congresso Internacional de Estatística, organizado entre 1853 e 1876 pelo astrônomo e estatístico Adolphe Quételet, de certa forma, antecipou os primeiros encontros internacionais em ciências sociais. As reuniões desse congresso ocorreram regularmente num intervalo de dois ou três anos, propiciando o surgimento do Instituto Internacional de Estatística, em 1883. Na área de antropologia física e social, os congressos internacionais começaram a ocorrer a partir de 1865, impulsionando a criação do International Congress of Anthropological and Etnological Sciences, em 1934. Essas iniciativas contribuíram para a criação da Associação Internacional de Antropologia, após a Segunda Guerra Mundial. A institucionalização da ciência política e da psicologia seguiu, mutatis mutandis, a mesma rota e cronologia da antropologia. Em 1893, em Paris, René Worms criou o Institut Internacional de Sociologie e, no mesmo período, passou a editar a “Revue Internationale de Sociologie”. A publicação da “Encyclopedia of Social Science”, obra de 15 volumes produzida entre 1930 e 1935, editada pelos economistas americanos Edwin Seligman e Alvin Johnson e financiada pela Fundação Rockefeller, representou uma iniciativa marcante no processo de interação internacional nessa primeira fase. No entanto, esse empreendimento contou com uma participação internacional restrita de acadêmicos, envolvendo basicamente diversas sociedades científicas norte-americanas e europeias nas áreas de antropologia, economia, história, ciência política, psicologia, estatística e educação.[20] (Figura 2)


Figura 2. Encyclopedia of Social Science, obra de 15 volumes produzida entre 1930 e 1935, editada pelos economistas americanos Edwin Seligman e Alvin
(Foto: Macmillan Publishers. Reprodução)

 

O segundo período no processo de intercâmbio internacional das ciências sociais iniciou-se após a Segunda Guerra Mundial. A Unesco, criada no final de 1946, desempenhou papel importante no incremento desta interação, tendo como alvo a criação de uma cultura de paz e de diálogo entre as nações. Sob o auspício da Unesco foram criadas associações disciplinares internacionais, como a Internacional Sociological Association e a International Political Science Association.[21] Seguindo o modelo de organização da ONU, de privilegiar as representações nacionais, essas associações internacionais foram constituídas a partir de um pequeno número de associações nacionais que estavam concentradas em alguns países europeus e na América do Norte. A partir do final dos anos 1960, essas associações permitiram a entrada e participação de indivíduos em suas atividades, aumentando seu escopo de recrutamento. Com o processo de descolonização que ocorreu por volta dessa época, as nações pós-coloniais também passaram a integrar essas associações, bem como países comunistas do leste europeu. De tal forma que, a partir dos anos 1970, ocorreu um processo inicial de uma transnacionalização das ciências sociais, através de uma ampliação da base geográfica de suas associações internacionais. Essa abertura para participação de cientistas sociais oriundos de diferentes partes do mundo, pouco a pouco, repercutiu nas discussões temática, teóricas e metodológicas em seu interior, propiciando o surgimento de novos conceitos e abordagens que passaram a questionar tradições explicativas correntes, ensejando o aparecimento de novos movimentos acadêmicos e áreas de estudos, como black studies, postcolonial studies, subaltern studies, etc. que tiveram uma ampla circulação nos departamentos de ciências existentes em uma ampla gama de países.[22]

Nas últimas décadas do século passado, uma constelação de fenômenos ocorridos em distintos planos da sociedade contribuíram para a constituição progressiva de um espaço global de produção e circulação de conhecimentos das ciências sociais. Nesse sentido, vale destacar determinados fenômenos, como: (i) colapso dos regimes comunistas no leste europeu; (ii) surgimento de novos centros econômicos e acadêmicos dinâmicos na Ásia e em outras regiões do hemisfério sul; (iii) desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação que conectam pesquisadores situados em diversos continentes; (iv) forte expansão mundial do ensino superior; (v) incremento da mobilidade acadêmica internacional de docentes e de estudantes (vi) realização contínua de Congressos, Seminários, Colóquios internacionais sobre temas pertinentes destas disciplinas. Esses eventos e outros similares, como a constituição de redes transfronteiriças de pesquisadores, impulsionaram de forma vertiginosa o intercâmbio de conhecimentos das ciências sociais, num patamar diferenciado com relação ao seu passado histórico e distinto de um período recente.

 

“As ciências sociais tendem a desempenhar um papel relevante no espaço público ao abordar temas como desigualdades de classe, gênero, raça e etnia, ao analisar as modalidades macro e micro de poder e dominação, ao enfocar as novas formas de ameaças a democracia, ao tratar de questões do meio ambiente, de saúde, educação, habitação, urbanização, conflitos e imigrações internacionais e temas correlatos.”

 

Nessa dinâmica, ocorreu a constituição de associações nacionais e regionais de ciências sociais em países que ocupam posições periféricas e semiperiféricas no espaço global dessas disciplinas, como: Arab Council for the Social Sciences, Association of Asian Social Science Research Councils, Council for the Development of Social Science Research in Africa, Latin America Council of Social Sciences, entre outras. Cada vez mais se observa a formação de equipes de pesquisadores oriundos de diferentes países, que trabalham conjuntamente, por um determinado período, em um mesmo objeto, compartilhando fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos que tendem a extravasar suas tradições culturais e acadêmicas nacionais. Nessa direção, compartilham ideias comuns, tendem a se reportar às obras que possuem aproximações temáticas, consultam revistas científicas similares, de tal forma que o processo de globalização acadêmica, vem reverberando e intensificando-se no campo das ciências sociais.[23]

No entanto, o surgimento desse espaço global apresenta uma estrutura de poder acadêmico assimétrica em função da distribuição desigual de recursos materiais, humanos e simbólicos das universidades e de seus países. Nesse sentido, ocorre uma nítida dominação da produção do conhecimento, de autores, editoras e de revistas internacionais localizadas em determinados países do Ocidente. Persiste uma acentuada desigualdade na dinâmica de tradução de trabalhos nesta área, uma vez que predomina a tradução de livros publicados em inglês para as línguas vernáculas dos diferentes países. No entanto, são raramente traduzidos para o inglês produções de cientistas sociais localizados em países periféricos e semiperiféricos.[24]

Apesar dessas disparidades, o documento World Social Science Report (2010) [23] indica que as ciências sociais nos dias atuais estão presentes em todas as regiões do mundo, nas quais existem sistemas de ensino superior, apresentados traços acadêmicos específicos. Como foi assinalado no início deste artigo, as ciências sociais tendem a desempenhar um papel relevante no espaço público na maioria dos países em que estão presentes ao abordar temas como desigualdades de classe, gênero, raça e etnia, ao analisar as modalidades macro e micro de poder e dominação, ao enfocar as novas formas de ameaças a democracia, ao tratar de questões do meio ambiente, de saúde, educação, habitação, urbanização, conflitos e imigrações internacionais e temas correlatos. Ao mesmo tempo, a profissionalização dos cientistas sociais os têm conduzidos a atuar em diferentes espaços no interior de suas sociedades nacionais, como universidades, institutos de pesquisa, órgãos de governos, instituições da sociedade civil, e também em diversos organismos internacionais. Os trabalhos teóricos e de intervenções praticas dos cientistas sociais em questões relevantes da sociedade contemporânea tendem a ressaltar que diversos aspectos relativos à natureza e à sociedade nos dias atuais não devem ser consideradas e analisadas como fenômenos pertencendo a compartimentos separados. Suas contribuições têm colocado em relevo que as esferas da natureza, cultura, política, sociedade, economia, religião e outros fenômenos correlatos são atravessados por lógicas comuns e constituem partes integrantes da sociedade em sua totalidade.[25]

As ciências sociais não apenas se encontram presentes no Brasil, mas efetivamente, ocupam uma posição de destaque tanto no campo cientifico nacional quanto um papel proeminente diante das questões públicas do país. Durante a primeira década de 1930 surgiram determinados trabalhos voltados para a interpretação do Brasil que se tornaram clássicos do pensamento social brasileiro. Apesar de sua importância e contribuição intelectual, boa parte deles foram escritos por autores que não possuíam treinamento em ciências sociais. O surgimento das primeiras instituições de ensino e pesquisa voltadas para as ciências sociais foi um acontecimento tardio, na medida em que surgiram apenas na década de 1930, tais como a Escola Livre de Sociologia e Política, (1933), em São Paulo, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1934), a Universidade do Distrito Federal (1935), a Faculdade de Filosofia do Brasil (1939), localizadas no Rio de Janeiro. Essas instituições forneceram gradativamente uma base institucional para o desenvolvimento das ciências sociais no país.[26, 27, 28]

 

“Nos dias correntes, as ciências sociais no Brasil continuam atuantes em prol de uma sociedade democrática e mais igualitária e, ao mesmo tempo, atenta às suas conexões com o campo global dessas disciplinas.”

 

Durante as três décadas subsequentes, a criação dessa base institucional propiciou a uma geração pioneira de cientistas sociais produzir um conjunto expressivo de trabalhos voltados para a análise da acelerada mudança social que estava ocorrendo na sociedade brasileira, abordando temas pertinentes que favoreceram a construção de uma consciência crítica do país, tais como relações raciais, desagregação e crise do mundo rural, processo de urbanização, formação do proletariado urbano e da burguesia nacional, constituição das camadas médias, política e desenvolvimento em sociedades periféricas, educação e desenvolvimento socioeconômico, etc. Quando caminhava para um processo de maturação acadêmica, as ciências sociais sofreram uma brutal repressão de suas atividades praticadas pela ditadura militar. Nesse contexto, ocorreram aposentadorias compulsórias de professores em várias universidades públicas, forte controle de liberdade de expressão nas universidades exercido por meio de órgãos de segurança, localizados no interior das universidades públicas, perseguições ideológicas amparadas em legislação que previa a punição de docentes, discentes e funcionários que desenvolvessem atos considerados contrários ao regime, tal como o decreto 477 /69.[29]

No entanto, a mobilização da comunidade científica nacional conduzida pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), assim como a participação de pesquisadores e discentes em ciências sociais e de outras áreas do conhecimento, resistiram às intempéries repressivas. Na verdade, as ciências sociais saíram fortalecidas institucionalmente do regime autoritário, na medida em que na década de 1970 ocorreu o processo inicial da formação do sistema nacional de pós-graduação. A construção do sistema de pós-graduação derivou de um complexo empreendimento coletivo que contou com a participação de atores do Estado, de organismos representativos da comunidade científica, do corpo docente das instituições de ensino e pesquisa envolvidas com esse nível de ensino. De certa forma, a emergência da pós-graduação foi o resultado de uma longa luta desencadeada por esses atores, visando a superação de um padrão de organização do ensino superior no país que historicamente se constituiu através de escolas isoladas e que tinha como alvo a construção de um sistema universitário capaz de integrar as atividades de ensino e pesquisa.[30]

A inserção do Brasil no espaço global das ciências sociais foi impulsionada pela construção do sistema nacional de pós-graduação. Na esteira do desenvolvimento desse sistema surgiu, em 1977, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), que desempenhou um papel relevante na organização do campo das ciências sociais no país. Os Encontros Anuais da Anpocs, marcado por uma perspectiva interdisciplinar, desempenharam um papel estratégico no processo de institucionalização das ciências sociais no país e um importante vetor de interação dos programas de pós-graduação com centros internacionais dessas disciplinas. Ao lado da Anpocs, deve-se destacar também as atividades das associações cientificas das três áreas – Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Associação Brasileira de Ciência Política, (ABCP) – que veem trabalhando de forma recorrente, visando a institucionalização de ensino e pesquisa em suas respectivas áreas. Ao mesmo tempo, tem se posicionado de forma crítica diante de questões públicas e assumindo posições contra a injustiça social e pela defesa intransigente dos direitos humanos e da democracia. O documento elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, denominado Diagnóstico das Ciências Humanas, Sociais Aplicadas, Linguística, Letras e Artes no Brasil” (2020) [31] demonstra – através de um levantamento exaustivo de dados – que a sociologia, antropologia e ciência política, vem realizando trabalhos sobre questões fundamentais da sociedade brasileira contemporânea. (Figura 3)


Figura 3. Ata de constituição da Anpocs em 1977
(Foto: Anpocs. Reprodução)

 

A Tabela 1 mostra a presença das ciências sociais no Brasil que mobiliza um número considerável de pesquisadores docentes e discentes.


Tabela 1. Cursos de pós-graduação em Ciências Sociais (2021)
(Fonte: Geocapes)

 

Além de estar sintonizada com uma agenda de questões públicas relevantes para a sociedade brasileira, cumpre destacar que as ciências sociais atuaram de forma firme diante do cenário de ruptura democrática representado pelo último governo. Como se sabe, durante aquele período, o contexto acadêmico foi impactado não apenas pelos drásticos cortes orçamentários, mas também por iniciativas governamentais visando cercear a liberdade de ensinar, pesquisar, acolhendo favoravelmente iniciativas inibidoras de livre manifestação de pensamento provenientes por parte de segmentos conservadores da sociedade civil e de membros o poder legislativo. Nesse cenário adverso, durante a realização do “38 Encontro da Anpocs” realizado em 2018, as três associações cientificas da área passaram atuar conjuntamente em defesa da democracia, liberdade acadêmica e autonomia universitária, estabelecendo contatos periódicos com membros do poder judiciário e legislativo. Nos dias correntes, as ciências sociais no Brasil continuam atuantes em prol de uma sociedade democrática e mais igualitária e, ao mesmo tempo, atenta às suas conexões com o campo global dessas disciplinas. Tem diante de si o desafio de manter seu espaço intelectual e sua relevância pública na sociedade brasileira e manter um diálogo com outras áreas de conhecimento. Também tem o desafio de preservar sua independência científica diante de movimentos sociais e interesses partidários, pois sua capacidade de intervir no mundo social repousa na sua competência em oferecer explicações sobre a vida social, alicerçadas em sólidos fundamentos lógicos, teóricos, conceituais e empíricos.

 

Capa. Fenômenos ocorridos em distintos planos da sociedade nas últimas décadas contribuíram para a constituição progressiva de um espaço global de produção e circulação de conhecimentos das ciências sociais.
(Foto: @rawpixel, Freepik.com. Reprodução)

MARTINS, Carlos Benedito de Campos. Globalização das ciências sociais e sua vocação públicaconceitos, teorias e descobertas das ciências humanas contribuem para a formulação de políticas públicas voltadas a enfrentar os desafios das sociedades. Cienc. Cult. [online]. 2023, vol.75, n.2, pp.01-08. ISSN 0009-6725.  http://dx.doi.org/10.5935/2317-6660.20230018.

 

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Carlos Benedito de Campos Martins é professor titular do departamento Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Foi Visiting Scholar da Universidade Columbia (EUA), Universidade Oxford (Inglaterra), Universidade Livre de Berlim (Alemanha), Universidade de Hong Kong (China), Universidade Nacional de Singapura (Singapura), University London College (Inglaterra). Coordenador do projeto Capes-Cofecub “Globalização das sociologias francesa e brasileira: agentes, instituições, temáticas…

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