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Ciência sem fronteiras: o desafio de fortalecer o Sul Global

Dia Internacional da Ciência, Tecnologia e Inovação para o Sul chama atenção para as desigualdades na produção de conhecimento

Em um mundo no qual uma nova tecnologia pode transformar uma economia, uma descoberta científica pode salvar vidas e uma inovação pode mudar a maneira como uma comunidade enfrenta a crise climática, ter acesso ao conhecimento deixou de ser apenas uma vantagem: tornou-se uma questão de desenvolvimento. Mas esse acesso está longe de ser distribuído de forma equilibrada. É nesse cenário que, em 16 de setembro, o Dia Internacional da Ciência, Tecnologia e Inovação para o Sul coloca no centro do debate a necessidade de fortalecer a capacidade científica e tecnológica dos países do Sul Global.

 

Ciência e desenvolvimento

A data foi oficialmente proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 9 de janeiro de 2024, por meio da resolução A/RES/78/259. A decisão reconhece o papel da ciência, da tecnologia e da inovação (CTI) no crescimento econômico e no desenvolvimento sustentável e relaciona essas áreas ao cumprimento da Agenda 2030, da Agenda de Ação de Addis Abeba e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A criação da data havia sido acordada meses antes, durante a Cúpula sobre Ciência, Tecnologia e Inovação do G77 e da China, realizada em Havana, nos dias 15 e 16 de setembro de 2023.

A escolha do tema responde a um problema que vai muito além da capacidade de produzir novas tecnologias. Embora a ciência e a inovação sejam cada vez mais importantes em praticamente todas as esferas da vida, as condições para pesquisar, desenvolver e aplicar novos conhecimentos permanecem profundamente desiguais. Países com sistemas científicos consolidados dispõem de mais recursos, infraestrutura, pesquisadores e instituições capazes de transformar conhecimento em produtos, serviços e políticas públicas. Em muitas nações em desenvolvimento, por outro lado, limitações de financiamento, infraestrutura e governança dificultam esse processo.

 

Uma desigualdade que começa na pesquisa

Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa diferença. Segundo a ONU, os gastos mundiais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) chegaram a cerca de US$ 2,5 trilhões em 2022, mas os investimentos continuam concentrados nos países desenvolvidos e na China. Naquele ano, os países de alta renda responderam por 77% dos gastos globais em P&D, enquanto os países de baixa renda contribuíram com apenas 0,3%. A concentração é ainda maior quando se considera que uma parcela significativa dos investimentos mundiais está reunida em um número relativamente pequeno de países.

Figura 1. ONU. Reprodução.

 

Essa assimetria também aparece na área da saúde, com consequências particularmente graves. Em 2022, países de alta renda tinham 59 vezes mais pesquisadores em saúde do que os países de baixa renda, enquanto apenas 0,2% dos recursos destinados a bolsas de pesquisa em saúde chegaram aos países de baixa renda. Isso significa que regiões que enfrentam alguns dos problemas mais urgentes de saúde, pobreza, insegurança alimentar e mudanças climáticas frequentemente possuem menos recursos para produzir conhecimento sobre suas próprias realidades.

 

O potencial de “pular etapas”

Apesar das dificuldades, o cenário não é apenas de carência. O avanço acelerado das tecnologias digitais, da inteligência artificial, das biotecnologias, das energias renováveis e de outras áreas abre possibilidades para que determinados países em desenvolvimento avancem rapidamente, sem necessariamente reproduzir todas as etapas percorridas pelas nações industrializadas. Essa capacidade de “pular etapas” — ou leapfrogging — pode permitir, por exemplo, a adoção de soluções tecnológicas mais recentes sem a necessidade de construir toda a infraestrutura associada às tecnologias anteriores.

 

“Ter acesso ao conhecimento deixou de ser apenas uma vantagem: tornou-se uma questão de desenvolvimento.”

 

Mas aproveitar essas oportunidades depende de condições que não surgem automaticamente com a chegada de uma nova tecnologia. É necessário contar com pesquisadores qualificados, instituições de ensino e pesquisa fortalecidas, infraestrutura científica, financiamento contínuo e políticas públicas capazes de transformar conhecimento em inovação. Também é fundamental que tecnologias sejam acessíveis e adaptadas às necessidades locais, evitando que a inovação seja simplesmente importada sem considerar as características econômicas, ambientais, sociais e culturais de cada território.

 

Cooperação como estratégia

É nesse ponto que a cooperação entre países do Sul Global ganha importância. Em vez de considerar o conhecimento como algo que circula exclusivamente dos países mais ricos para os demais, a cooperação Sul-Sul busca reconhecer capacidades, experiências e soluções desenvolvidas nos próprios países do Sul. A colaboração pode envolver universidades, centros de pesquisa, governos, empresas e comunidades, criando redes para compartilhar conhecimentos, infraestrutura, formação de pesquisadores e experiências em áreas como saúde, energia, agricultura, educação e meio ambiente.

Declaração de Havana sobre os Desafios Atuais do Desenvolvimento: O Papel da Ciência, Tecnologia e Inovação destaca o papel essencial da CTI no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento, promovendo uma melhor cooperação, o acesso equitativo à tecnologia e o uso responsável das inovações científicas.

A própria resolução que criou a data reforça a necessidade de um ambiente científico e tecnológico aberto, justo, inclusivo e não discriminatório. O documento também destaca a importância de fortalecer a cooperação Sul-Sul e triangular, ao mesmo tempo em que reconhece que a cooperação Sul-Sul não substitui a cooperação Norte-Sul, mas a complementa. A proposta é ampliar as possibilidades de acesso a recursos, conhecimento e tecnologias e permitir que os países desenvolvam, adaptem e utilizem esses conhecimentos de acordo com suas próprias necessidades.

 

Inovação para problemas reais

Fortalecer a ciência no Sul Global significa, portanto, mais do que aumentar o número de laboratórios ou de publicações científicas. Significa criar condições para que a produção de conhecimento responda a problemas concretos. Mudanças climáticas, doenças, pobreza, desigualdade, segurança alimentar, acesso à energia e transformação digital são desafios que assumem características diferentes em cada região e exigem soluções contextualizadas.

Figura 2. Unicef. Reprodução.

 

Nesse processo, universidades e instituições de pesquisa ocupam posição estratégica. Elas podem formar pesquisadores, aproximar ciência e sociedade e estabelecer parcerias com governos, empresas e comunidades para desenvolver soluções construídas a partir das necessidades locais. A experiência destacada pela UNESCO em torno da data mostra justamente a importância das instituições de ensino superior na mobilização de conhecimento e na criação conjunta de respostas para desafios concretos.

 

O desafio de chegar a 2030

A urgência também está relacionada ao prazo estabelecido pela Agenda 2030. Faltando poucos anos para o cumprimento dos ODS, ampliar a capacidade científica e tecnológica é considerado fundamental para enfrentar problemas complexos como pobreza, desigualdade, mudanças climáticas e pandemias. A ciência pode oferecer evidências para orientar políticas públicas; a tecnologia pode ampliar a eficiência e o acesso a serviços; e a inovação pode transformar conhecimentos em soluções aplicáveis. Sem investimentos nessas áreas, porém, os países correm o risco de permanecer dependentes de tecnologias desenvolvidas em outros contextos.

O caminho passa por medidas como o aumento do financiamento para pesquisa e inovação, a ampliação de bolsas e oportunidades para pesquisadores, o fortalecimento das instituições de ensino e a criação de redes permanentes de colaboração entre países do Sul. Também é necessário repensar sistemas educacionais para estimular a curiosidade, a pesquisa e a capacidade de solucionar problemas, em vez de privilegiar exclusivamente a memorização. Ao mesmo tempo, políticas de inclusão digital e científica podem ampliar o acesso ao conhecimento e permitir que mais pessoas participem dos processos de produção e utilização da ciência.

 

Um compromisso com a inclusão

O Dia Internacional da Ciência, Tecnologia e Inovação para o Sul, portanto, não é apenas uma celebração das conquistas científicas. É também um lembrete de que conhecimento, infraestrutura e capacidade de inovação são distribuídos de maneira desigual — e de que essa desigualdade tem consequências para o desenvolvimento e para a autonomia dos países. A data reafirma a ideia de que o avanço científico precisa ser acompanhado por políticas capazes de ampliar o acesso, fortalecer sistemas nacionais de CTI e estimular a cooperação.

 

 “Mais do que aproximar o Sul Global das fronteiras tecnológicas, o desafio é construir condições para que seus países também sejam produtores de conhecimento, tecnologias e soluções.”

 

Mais do que aproximar o Sul Global das fronteiras tecnológicas, o desafio é construir condições para que seus países também sejam produtores de conhecimento, tecnologias e soluções. Como sintetiza a ONU, a ciência, a tecnologia e a inovação devem contribuir não apenas para alcançar os ODS, mas para construir sociedades mais justas, participativas e inclusivas. Nesse sentido, investir na ciência do Sul não significa apenas reduzir uma distância tecnológica: significa ampliar a capacidade de diferentes sociedades de imaginar, pesquisar e construir seus próprios futuros.

 

Capa. ONU Mulheres. Reprodução.
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