Quando pensamos em patrimônio, é comum lembrarmos de monumentos, igrejas, centros históricos ou festas populares. Mas o patrimônio também está na natureza. Amazônia, Pantanal, Fernando de Noronha e Lençóis Maranhenses, entre tantos outros territórios, preservam não apenas paisagens e biodiversidade, mas também histórias evolutivas, conhecimentos ancestrais e modos de vida profundamente vinculados aos ambientes naturais. Alguns desses lugares são reconhecidos pela UNESCO como Patrimônios da Humanidade por seu Valor Universal Excepcional — uma classificação atribuída a bens cuja importância ecológica, evolutiva, científica ou estética ultrapassa fronteiras nacionais. O Brasil reúne diversos sítios de patrimônio natural mundial reconhecidos pela organização. “O Brasil, no que se refere ao patrimônio natural, é um país completamente singular, porque, biologicamente falando, ele é o país mais rico do mundo”, afirma Luiz Cesar Marques Filho, professor do Departamento de História, Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e coordenador do Projeto MARE – Museu de Arte para a Educação.
Além de seu valor intrínseco, os patrimônios naturais são espaços fundamentais para a produção de conhecimento. Grandes reservas ecológicas e diferentes ecossistemas funcionam como verdadeiros laboratórios vivos, permitindo investigar processos evolutivos, relações ecológicas e transformações ambientais. Ao mesmo tempo, esses territórios aproximam a ciência acadêmica dos conhecimentos produzidos por comunidades que vivem há gerações em contato com a natureza. “Os conhecimentos dessas comunidades, que são milenares e já comprovaram ao longo do tempo que são utilizados para manutenção da floresta, é a forma mais inteligente da gente continuar mantendo as florestas”, pontua Sue Anne Regina Ferreira da Costa, Coordenadora de Comunicação e Extensão do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Essa relação entre natureza, cultura e sociedade também evidencia que a preservação do patrimônio natural não pode ser dissociada da proteção das populações e dos modos de vida associados aos territórios. As mudanças climáticas estão entre os principais fatores de degradação, agravando ameaças já existentes, alterando ecossistemas, afetando a biodiversidade e comprometendo paisagens e outros bens culturais. No Brasil, desmatamento, queimadas, expansão agropecuária e mineração predatória estão entre as principais pressões sobre esses patrimônios. Enfrentar essas ameaças, portanto, exige considerar simultaneamente a conservação ambiental, a diversidade cultural e os conhecimentos das comunidades que historicamente contribuem para a manutenção desses territórios.
Preservar o patrimônio natural significa, assim, proteger muito mais do que paisagens. Significa conservar a biodiversidade, contribuir para a segurança hídrica e para o equilíbrio climático e manter processos ecológicos essenciais à vida. “No campo do patrimônio natural, ele não existe para pensar só a preservação de biomas e ecossistemas. Ele existe para pensar a integração. assim como paisagem cultural, está tanto no campo do cultural quanto do natural”, explica Maria Tereza Duarte Paes, livre docente na área de Meio Ambiente Urbano pelo Departamento de Geografia (IG) da Unicamp. Para a pesquisadora, essa perspectiva também exige reconhecer que os territórios estão em permanente transformação: “a vida é dinâmica, o patrimônio é dinâmico também, embora a gente fale aqui em preservação, mas ele é constituído por uma dinâmica da própria população”, conclui.
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