Confira entrevista com Valéria Cristina Pereira Silva, poeta e professora do instituo de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG)
Valéria Cristina Pereira da Silva é geógrafa, pesquisadora e poeta que faz da sensibilidade uma ferramenta científica. Doutora pela UNESP, com pós-doutorados na Sorbonne Université – Paris 3 e na Universidade Nova de Lisboa, ela é professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde atua em programas de pós-graduação ligados à Geografia da Arte, imaginário da cidade, memória urbana e performances culturais. Autora de livros acadêmicos e literários — da geografia fenomenológica à poesia — Valéria transita entre linguagens com naturalidade. Coordena o GEIPaT/CNPq, integra redes internacionais de pesquisa em imagem e imaginário e já esteve à frente da Revista Terceiro Incluído. Seu trabalho, porém, tem raízes mais antigas: a infância às margens do Rio Mandaguari, cercada por histórias contadas à luz da lua, que a ensinaram a olhar o mundo com curiosidade e afeto. Essa dimensão sensível atravessa toda a sua produção. Entre viagens, pesquisas e escritas que conectam paisagens, cinema, literatura e experiência urbana, reafirma a potência da imaginação como método e como caminho de conhecimento. Para ela, “a poesia, a arte de modo geral, traduzem sentimentos existenciais e, portanto, espaço-temporais de modo único”, e é impossível compreender as cidades ignorando o que sentimos nelas. Como afirma, “o afeto não desaparece porque você adota um modelo racional e econômico-produtivista de mundo”.
Confira a entrevista completa!
C&C – Seu trabalho articula geografia, arte, cinema, literatura e estudos do imaginário, tensionando fronteiras disciplinares tradicionais. Em que momentos essa abordagem foi vista como potência científica — e em quais ela encontrou resistência dentro da academia?
Valéria Cristina Pereira Silva – Se eu for fazer uma retrospectiva, esses momentos de aceitação e recusa se alternaram paralelamente. Há sempre uma ala dura da ciência, mesmo nas humanidades, que acredita numa objetividade inflexível, para a qual sujeito e objeto devem estar separados; a precisão da linguagem é um paradigma, e a poesia, a arte, subverte tudo isso. Todavia, há um grupo muito receptivo também às relações e aos resultados da junção entre ciência e arte, e vê no borrar dessa fronteira uma grande possibilidade para o pensamento. Eu trabalho com essa trama desde o início dos meus estudos e pesquisas e, no final, sempre tive os meus trabalhos importantes bem avaliados e aprovados — e foi onde as críticas também ajudaram a melhorar ao longo do tempo. Pouca coisa foi rejeitada por falta de entendimento. Mas, sem dúvida, ainda hoje há um misto de encanto e estranhamento e, ainda hoje, aceitação e recusa, dependendo de quem recebe a comunicação.
“Há sempre uma ala dura da ciência (…) para a qual sujeito e objeto devem estar em separado.”
C&C – A imagem, a sensibilidade e a experiência urbana ocupam lugar central em suas pesquisas. Produzir conhecimento científico a partir do sensível ainda desafia noções hegemônicas de objetividade na ciência?
VCPS – Sim, ainda é um terreno insólito para muitos. A nossa sociedade tem muita dificuldade de compreender o poder, os efeitos e os próprios sentidos da sensibilidade e da emoção sobre os espaços. Vou dar alguns exemplos, a título de ilustração: ainda são raras pesquisas que trabalhem o efeito emocional dos divórcios na estruturação da cidade — pessoas que vão morar sozinhas e necessitam, aceitam ou se adequam a apartamentos menores; o que muda na circulação dessas pessoas; ou como a emoção provocada por uma obra de arte urbana altera os sentidos e os valores do lugar. Por que alguns espaços com o mesmo potencial “natural” são cuidados e outros não? O que a sensibilidade tem a ver com essas paisagens e com o imaginário? Talvez essas perspectivas não sejam inéditas, mas ainda são novas na tradição acadêmica. A poesia e a arte, de modo geral, traduzem sentimentos existenciais e, portanto, espaço-temporais de modo único — mas, ao mesmo tempo, são sentimentos e imagens que podem ser reconhecidos intersubjetivamente. Em cada etapa tento fazer um esforço para não separar natureza e cultura. Nós participamos da emoção de uma obra de arte. Outro exemplo, também como ilustração: quantas pessoas da minha geração assistiram ao filme O Mágico de Oz e têm aquela tempestade assistida em suas almas como um temporal poético — a escuridão, o tornado chegando na casa, uma realidade norte-americana, do clima do Kansas, nos EUA, mas que, do ponto de vista da recepção, torna-se uma verdadeira tempestade emotiva e simbólica que baliza nossos próprios redemoinhos. Com que emoção olhamos o céu escuro num dia de chuva? Isso é um verdadeiro sentimento do lugar, pleno de significação. Muitos poetas são verdadeiros “termômetros” sentimentais da meteorologia dos lugares, do sentido das cidades, dos seus segredos, da sua aquarelagem imaginária.
C&C – Ao longo da sua trajetória, você transitou entre diferentes campos — geografia, artes, comunicação e literatura. Que desafios uma mulher enfrenta ao construir uma carreira científica que não se encaixa em categorias rígidas de área ou método?
VCPS – Há muitos enfrentamentos, mas destaco aqui três que considero primordiais. O primeiro é lutar contra a desvalorização do senso cotidiano da sociedade acadêmica, que muitas vezes tem o conhecimento endurecido por ideologias. Não gosto do termo “senso comum”, porque ele cria a ilusão de que o saber da ciência — ou de uma forma de ciência — é superior aos demais saberes e, por vezes, são os demais saberes, como o saber popular, o saber das artes, o saber dos mitos, que são a base para que se possa investigar em ciências humanas, compreender e avançar em novas descobertas. Contudo, tenho a ideia de que as ideologias travam o conhecimento, reproduzem sempre os mesmos resultados modulares e retiram, inclusive, a capacidade de autocrítica e revisão. Assim, o segundo desafio é tentar superar essas ideologias, abrindo-se para um conhecimento livre desses moldes, que geralmente operam com marcos teóricos sedimentados — sabendo que só temos uma garantia, que é o reconhecimento a partir do olhar do outro, numa situação de honestidade intelectual, ética e intersubjetiva, que vê valor e qualidade num resultado de pesquisa apresentado. O terceiro grande desafio é, como a questão propõe: ser mulher. Sabemos que há uma questão de gênero na ciência. Muitas mulheres importantes na ciência foram completamente apagadas em suas descobertas. Nossa voz, mesmo tentando aumentar o volume, nem sempre é ouvida — e talvez não será. Contra isso, não importa o agora ou o amanhã: o que importa é continuar seguindo e fazendo o melhor possível, seguir sem olhar “a casca dourada das horas”, como disse Mário Quintana, e enfrentar cada desafio com a experiência adquirida na alma. Assim, o dia de fazer é sempre hoje. O máximo que podemos advogar é amar o trabalho que fazemos, e essa é a maior força para o enfrentamento.
“As ideologias travam o conhecimento, reproduzem sempre os mesmos resultados modulares.”
C&C – Sua atuação em temas como memória urbana, imaginário da cidade e ontologia do espaço sugere que o território é também afetivo e simbólico. Por que essas dimensões ainda são frequentemente marginalizadas nas políticas urbanas e ambientais?
VCPS – Penso que essas dimensões ainda assustam porque colocam você o tempo todo num verdadeiro estado de complexidade, tal como definiu Edgar Morin: “Complexidade é conciliação de contrários” — tal como numa trama têxtil em que os fios vêm ao contrário para se entrelaçar e se conciliam no sentido de que convivem, mesmo continuando contrários, para formar o tecido. O movimento da vida é mais realista visto assim: os contrários convivem, ou seja, estão aí, mesmo que conflitando — mais realista do que na lógica linear hegeliana, em que um supera o outro, nega e anula o outro. O afeto não desaparece porque você adota um modelo racional e econômico-produtivista de mundo; o simbólico continua cada vez mais presente e acredito que sempre continuará, porque a capacidade simbólica é que nos torna realmente humanos. Até um animal, como um papagaio, pode ter linguagem verbal, mesmo que reduzida. Mas a linguagem simbólica é um dos traços mais profundos da nossa humanidade. Por isso, a arte é simbólica, a religião é simbólica, e a vida humana é repleta de simbolismos.
C&C – Além da produção acadêmica, você atua como escritora, poeta e editora científica. Como essas múltiplas linguagens ampliam — ou tensionam — a forma como a ciência é produzida, comunicada e reconhecida?
VCPS – Essas duas asas (científica e poética) me ajudam, embora os resultados sejam distintos: de um lado, um saber científico humano; de outro, uma criação estética. Mas minha pesquisa com o imaginário envolve também cruzar essas duas esferas. Assim, essa combinação alternada mais ajuda e amplia os horizontes do que tensiona. Eu digo sempre que na ciência eu trabalho, crio e produzo, mas a poesia é interlúdio: ela me acontece, ou seja, de certo modo é ela que me cria no recreio em que acontece. A poesia é um vale onde ainda podemos brincar. Lembro-me também da mensagem do geógrafo Eric Dardel: uma visão puramente científica do mundo pode muito bem designar um refúgio, quando a liberdade de ser livre nos pesa.
“A poesia é um vale onde ainda podemos brincar.”
C&C – Diante de um cenário acadêmico ainda marcado por hierarquias de gênero e disciplinaridade, que caminhos você enxerga para jovens mulheres que desejam fazer ciência a partir da arte, da imaginação e da experiência urbana?
VCPS – Penso que, apesar de todas as dificuldades ainda enfrentadas e a enfrentar, agora está melhor do que antes. Acredito que evoluímos: o debate e as reivindicações de gênero ganham fórum, e essa é uma luta que não se deve abandonar, assim como para todas as minorias. Penso que esse caminho, que chamo de Geografia da Arte, de maneira mais lata, está aberto a milhões de coisas que são ainda inteira novidade. Minhas palavras são de incentivo às jovens pesquisadoras a se engajarem na força e na beleza desses temas, que nos ajudam ao mesmo tempo a compreender, criar e transformar o mundo de maneira mais sensível, humana e respeitosa conosco mesmas e com os outros seres.


