Poucas trajetórias na ciência brasileira combinam, com tanta intensidade, rigor acadêmico e atuação direta no enfrentamento de epidemias quanto a de Maria José von Paumgartten Deane. Médica, parasitologista e professora, ela dedicou quase seis décadas à investigação de doenças que marcaram profundamente a história sanitária do país, como malária, leishmaniose visceral, filariose e doença de Chagas.
Nascida em Belém, em 24 de julho de 1916, Maria Deane cresceu em um contexto familiar marcado por disciplina e por dificuldades econômicas decorrentes da Primeira Guerra Mundial. Ainda jovem, vivenciou perdas pessoais que influenciaram sua escolha pela medicina. Aos 15 anos, ingressou na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, em uma época em que a presença feminina no ensino superior — especialmente em áreas científicas — era rara.
Foi durante a graduação que teve seus primeiros contatos com a pesquisa em saúde pública. Ainda estudante, integrou equipes que investigavam a leishmaniose visceral na região amazônica, sob a liderança de Evandro Chagas. Ali começou uma trajetória que a levaria a percorrer o Brasil em missões científicas voltadas à compreensão e ao controle de doenças endêmicas.
“Maria conjugava grande conhecimento teórico e intenso trabalho de campo.”
Ao lado do médico e cientista Leônidas de Mello Deane, seu companheiro de vida e pesquisa, Maria desenvolveu estudos fundamentais em parasitologia e entomologia médica. Juntos, tornaram-se referências no estudo dos vetores e dos ciclos de transmissão de doenças tropicais, combinando trabalho de campo em regiões remotas com investigações laboratoriais.
Campanhas sanitárias
Na década de 1940, Maria Deane participou de uma das mais importantes campanhas sanitárias do país: o combate ao mosquito africano Anopheles gambiae, responsável por uma grave epidemia de malária no Nordeste. A atuação da equipe foi decisiva para conter a disseminação do vetor, em um esforço considerado exemplar na história da saúde pública brasileira.

Figura 1. Instituto Oswaldo Cruz. Reprodução.
Sua carreira também foi marcada pela produção científica robusta. Ao longo dos anos, publicou mais de 150 artigos em periódicos nacionais e internacionais, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre parasitos, vetores e mecanismos de transmissão de doenças. Além disso, participou da descrição de novas espécies de mosquitos, ampliando a compreensão da biodiversidade associada às enfermidades tropicais.
Entre suas contribuições mais relevantes está o aprofundamento dos estudos sobre o Trypanosoma cruzi, agente da doença de Chagas. Em uma descoberta marcante, Maria Deane ajudou a descrever o duplo ciclo de multiplicação do parasita no gambá, revelando aspectos fundamentais da transmissão oral da doença e ampliando o entendimento de sua dinâmica epidemiológica.
A atuação de Maria Deane não se restringiu aos laboratórios. Em suas expedições pelo Norte e Nordeste, ela também se dedicava à orientação de comunidades sobre saneamento básico e prevenção de doenças, estabelecendo uma ponte entre ciência e população. Essa dimensão educativa reforça o caráter aplicado e social de sua produção científica.
Ciência brasileira
Sua trajetória institucional inclui passagens por centros estratégicos da ciência brasileira, como o Instituto Evandro Chagas, o Serviço Especial de Saúde Pública e a Universidade de São Paulo (USP). Também atuou no exterior, em Portugal e na Venezuela, onde contribuiu para a formação e reestruturação de departamentos de parasitologia.

Figura 2. Fundação Oswaldo Cruz. Reprodução
Na Fundação Oswaldo Cruz, a partir de 1980, consolidou sua liderança científica. Chefiou o Departamento de Protozoologia, ocupou a vice-direção do Instituto Oswaldo Cruz e participou da reestruturação da pós-graduação da instituição. Seu trabalho ajudou a formar gerações de pesquisadores e a fortalecer a pesquisa em doenças tropicais no país.
Maria Deane morreu em 13 de agosto de 1995, no Rio de Janeiro, deixando um legado que ultrapassa a produção científica. Seu nome permanece associado a importantes instituições, como o Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane, da Fiocruz Amazônia, e a espaços acadêmicos que homenageiam sua contribuição.
“Maria José Deane foi uma das mais destacadas protozoologistas brasileiras e publicou mais de 150 trabalhos em periódicos nacionais e estrangeiros.”
Mais do que uma cientista de destaque, Maria Deane foi uma pioneira que desafiou barreiras de gênero e ajudou a moldar a ciência brasileira. Sua trajetória revela como conhecimento, compromisso social e coragem podem transformar não apenas a compreensão das doenças, mas também as condições de vida de populações inteiras.
Capa. Instituto Oswaldo Cruz. Reprodução.


