O Modernismo nas Ciências Sociais

Reflexões em torno de três clássicos do Pensamento Social Brasileiro

Resumo

Os ensaios sócio-históricos e o romance social surgiram na década de 1930, em um momento de grandes mudanças e de uma ruptura radical na interpretação do Brasil. As obras de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., assim como as de José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiróz ficam mais inteligíveis quando remetidas ao horizonte do modernismo. São obras que tratam de algumas das consequências da colonização: o patriarcalismo, o patrimonialismo e o latifúndio, a antiga questão da terra.

O intelectual modernista

O foco inicial do modernismo, ainda na década de 1920 — inspirado pelos movimentos de vanguarda que ocorriam na Europa — incidiu sobre a renovação estética, congregando artistas e intelectuais diversos e heterogêneos do ponto de vista de sua ideologia e do valor de suas obras. O certo é que dão início naquele momento a pesquisas inéditas que resultam em obras experimentais de grande originalidade como “Macunaíma” (Mário de Andrade, 1928) ou “Memórias Sentimentais de João Miramar” (Oswald de Andrade, 1924). O repertório cultural amplia-se consideravelmente passando a incluir a herança africana e indígena, além do legado europeu, evidenciando o tão buscado caráter mestiço da cultura brasileira, original, singular, feita das misturas, ainda visíveis nas manifestações da cultura popular. A própria noção moderna e contemporânea de cultura brasileira, de cunho antropológico, nasce com o modernismo.

O modernismo significou assim, antes de mais nada, um corte na vida intelectual, um esforço crítico de toda uma geração que não se identificava com o estilo de pensamento e de escrita predominantes nas primeiras décadas do século passado, o beletrismo e o academicismo, assim como o determinismo geográfico e racial. Munidos de uma informação intelectual atualizada, de conceitos e métodos das Ciências Sociais e da História, os intelectuais modernistas, desde o ímpeto da Semana em 1922 e pelas décadas seguintes, trazem nova lente para interpretar a realidade brasileira, pondo em questão os valores éticos e estéticos vigentes.

Apesar de todas as diferenças e mesmo divergências existentes entre os intelectuais dessa geração, o traço comum que com mais propriedade poderia caracterizá-los seria a mudança de atitude frente à geração que os antecedeu, submissa às verdades produzidas na Europa, principalmente as ideias que se pretendiam ancoradas na ciência, relacionadas à questão da raça e do meio geográfico tropical. Ao assumirem nova posição, agora crítica e não mais subserviente, aqueles intelectuais produzem um deslocamento significativo que lhes permite enxergar novas realidades, comprometidos que estavam em descobrir e revelar o Brasil aos brasileiros. São modernistas porque acreditam ser intelectuais de vanguarda, imbuídos da missão de conhecer o passado, reinterpretá-lo a fim de exorcizar os dois maiores traumas históricos vividos pelo Brasil: o colonialismo e a escravidão. Consideram-se a geração responsável para apontar rumos inovadores, que teria a missão de mudar os destinos do país pela introdução de procedimentos, instituições e discursos modernos [i]. Os ensaístas modernistas estão interessados em produzir obras e análises que provoquem mudanças, que se tornem ação.

Na década de 1930, momento de mudanças políticas significativas e de intensa politização dos setores urbanos, o campo intelectual se torna mais complexo fragmentado. Porém, independentemente da posição no espectro ideológico, todos se sentem comprometidos em produzir conhecimentos que servissem para revelar aspectos pouco conhecidos de nossa formação social; encontrar elementos capazes de constituir uma totalidade, traços que compusessem a cultura brasileira.

É nessa configuração de ideias que nascem, como um gênero discursivo, os ensaios de interpretação do Brasil, produto do modernismo e referência fundadora das Ciências Sociais e da vida intelectual em geral. O ensaio científico-interpretativo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. surge em paralelo ao surto de ficção romanesca da década de 1930. Se o modernismo dos anos 20 é o momento das experimentações artísticas e poéticas, a década seguinte será o momento da prosa, seja ela ensaística ou ficcional.

As interpretações que os sociólogo-historiadores modernistas produziram tiveram consequências marcantes não só sobre o pensamento brasileiro, mas também provocaram alterações profundas, evidenciando o poder das ideias de agir na sociedade. São novas pesquisas, novas sínteses, consideradas um divisor de águas, uma revelação que mudou radicalmente a percepção que o brasileiro tem de si mesmo, afetando positivamente sua autoestima, cumprindo assim um de seus propósitos, o de reconhecer a singularidade de nossa formação histórica e cultural. Inverteram-se os sinais. Ser um país mestiço e tropical, características antes consideradas como impasses insuperáveis, quando vistas a partir da noção modernista de cultura brasileira tornam-se pontos positivos, potencialidades criativas, motivos de orgulho e de riqueza.

Quando se observa de perto o conjunto de narrativas que mais marcaram os anos 1930, tanto o ensaio como a ficção, constata-se a coexistência de posições e ideologias muito diferenciadas que se embatiam na cena intelectual. Por mais distantes e opostas que fossem, porém, havia uma afirmação subjacente de ser aquele o discurso que detém o saber sobre a sociedade e sobre o Brasil. Uma vontade de verdade [7], uma ânsia de captar o Brasil como totalidade e propor saídas para os impasses identificados.

É nesse embate de ideias que emerge o romance social. Este, mesmo tratando de realidades locais das várias regiões do país, não se deixa classificar facilmente como regionalista, pois nele sobressaem os temas relacionados à denúncia de um país dividido, a busca de elementos que pudessem aglutinar a nação, dotá-la de uma identidade nacional, questão que ressurge envolvida em acirrado debate ideológico.

“Ao assumirem nova posição, agora crítica e não mais subserviente, aqueles intelectuais produzem um deslocamento significativo que lhes permite enxergar novas realidades, comprometidos que estavam em descobrir e revelar o Brasil aos brasileiros.”

 

Alguns intelectuais atuavam próximos ao governo de Getúlio Vargas, como Oliveira Vianna, Francisco Campos e Almir de Andrade, ideólogos da ordem e do Estado forte e centralizador, autores considerados representantes do pensamento autoritário e hierárquico. Outros são defensores de um nacionalismo inspirado no nazifascismo, como os integralistas Plínio Salgado e Menotti del Picchia. Havia os representantes da direita católica como Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Havia ainda intelectuais que não faziam uma oposição direta ao regime e foram absorvidos pelo serviço público, ocupando cargos no governo, sem necessariamente compartilhar de seus ideais, como Gustavo Capanema e Carlos Drummond de Andrade, Prudente de Morais Neto, Sérgio Buarque, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Augusto Meyer, entre outros; e os que representaram uma oposição explícita ao regime, em geral, membros do PCB e da ANL, que foram exilados ou presos na Ilha Grande, como Jorge Amado, Caio Prado ou Graciliano Ramos [9].

Clássicos e… Modernos

Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. são considerados os autores dos ensaios clássicos modernos sobre a constituição da sociedade brasileira. Suas obras não nasceram do acaso. Tiveram antecessores, é claro, também preocupados em compreender as características da nação. Autores como Silvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres, Oliveira Vianna, também empenhados em conhecer e mudar o Brasil, mas ainda presos a um paradigma determinista e cientificista, teorizavam sobre a inferioridade do mestiço e duvidavam das possibilidades de o Brasil tornar-se uma nação moderna. Alguns deles sustentavam o branqueamento da população brasileira e defendiam o Estado forte. Mas as obras dos então jovens “intérpretes do Brasil” representam um corte significativo, um legado inestimável, por trazerem uma leitura diferenciada, em relação aos pensadores que os precederam. A livre apropriação das ideias estrangeiras, sem culpa e sem subserviência, para entender a realidade brasileira; a leitura crítica dos documentos históricos; a postura comprometida diante do momento e do país são evidências que, para além do simples pertencimento geracional, justificam considerar os “Intérpretes do Brasil” dos anos 1930 como autores modernistas.

Familiarizados com tendências teóricas que lhes são contemporâneas, os pensadores modernistas trazem sofisticados instrumentos conceituais, novos métodos de análise e partem em busca de compreender o país como totalidade. Praticam leitura minuciosa dos documentos, buscando extrair deles índices da cultura e particularidades da história social, por meio de análises críticas insuperáveis contidas em obras como “Casa Grande e Senzala” (1933), “Raízes do Brasil” (1936), “Evolução Política do Brasil” (1933) e “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia” (1942), consideradas iluminadoras até nossos dias. São análises que — mesmo diferenciadas em termos de métodos, objetos e temas — se esclarecem umas às outras e se tornam mais inteligíveis quando remetidas ao horizonte do Modernismo. Metáfora e conceito, a antropofagia utópica oswaldiana, desde a década anterior já abrira o caminho para uma apropriação interessada das ideias estrangeiras, sintetizando a nova atitude que permitia “ver com olhos livres” a realidade brasileira [ii] (Figura 1).

Não é possível negar o impacto daquelas narrativas sobre as gerações que foram a elas expostas, conforme convincente depoimento de Antonio Candido (1963) que vê naquelas obras “um sopro de radicalismo intelectual” [iii], entendendo-as como livros formadores de uma visão inédita do Brasil, superando preconceitos ainda muito presentes na intelectualidade e difundidos por toda a sociedade.

Marcante no pensamento de toda essa geração é a consciência da importância da História. Entendem-na a partir de uma visão descontínua, como mudança permanente, ruptura. Daí surgirem essas interpretações renovadas, baseadas em tendências teóricas que estão, por sua vez, revolucionando as Ciências Sociais na Europa e nos Estados Unidos: a Antropologia Cultural, de Franz Boas, inspiradora de Freyre; a Sociologia de Max Weber, Georg Simmel e Lukàcs, a historiografia alemã de Meinecke e Rank, a Nova História de Marc Bloch, trazidas nas reflexões de Sérgio Buarque; o Marxismo com todo seu potencial explicativo sobre o modelo de capitalismo instalado nas regiões periféricas, orientação teórico-metodológica de toda a obra de Caio Prado Junior.

São assim introduzidas novas categorias analíticas e procedimentos modernos de pesquisa, a etnografia, registros fotográficos e fonográficos, entrevistas, o levantamento de fontes não tradicionais, como diários, correspondências e livros de receita, trazidos como novidade na obra de Gilberto Freyre. Freyre foi um praticante de primeira hora da História do cotidiano e da vida privada.

Não é um acaso tampouco o grande interesse despertado em todos esses pensadores, pelo período colonial. Foi de uma releitura crítica dos documentos históricos — relatos dos viajantes, portarias e alvarás — que emergiu a força dessas narrativas, seu impacto revolucionário ao revelar um passado que precisava ser melhor conhecido.

A pesquisa sobre a Colônia produziu conhecimentos críticos e promoveu a valorização da arquitetura e da arte barroca, manifestações em que ficavam patentes as misturas culturais e o legado das tradições [iv]. Os modernistas viajam, fotografam e documentam paisagens e monumentos, valorizam e registram saberes orais, festas, cantos e danças. Valorizar as tradições não os torna tradicionalistas e sim os buscadores utópicos de sintomas da cultura brasileira, de elementos capazes de evidenciar a síntese cultural que aqui se operara desde o período colonial, um resultado diferente das matrizes de que se originaram a fim de encontrar uma identidade para a nação.

As obras de Freyre, Holanda e Prado Júnior inscrevem-se, como gênero, no ensaio sócio-histórico, escrita baseada em pesquisas e análises, mas que comporta um viés subjetivo, liberdade na condução dos argumentos e clareza de exposição além da busca deliberada de estilo. Exuberante e barroco, em Freyre; mais sóbrio e erudito em Buarque de Holanda; comedido e sintético em Prado. Suas narrativas rompem com a visão naturalista, continuísta, oficial, que havia orientado estudos históricos e sociológicos sobre o Brasil desde o século XIX. As inovações estilísticas que trouxeram tornam esses ensaios um ponto alto do gênero [v], elevando-os à categoria de texto literário ao produzir “retratos de corpo inteiro do Brasil” [vi], que permitiam enxergar a realidade, problematizando a condição colonial.

Figura 1. Capa da segunda edição do livro “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre
(Schmidt Editor. Reprodução)

 

Não foram poucas as objeções assim como as confirmações pelas gerações que se seguiram. Objeta-se, por exemplo, que o conceito de raça e outros conceitos de natureza biológica ainda estejam tão presentes na obra de Freyre, quando este afirma operar de preferência com o conceito de cultura. De fato, “Casa Grande e Senzala”, um livro que estuda a família patriarcal e a escravidão doméstica nos latifúndios da zona da mata pernambucana, não podia abandonar critérios raciais como parâmetro de análise. Características como a adaptabilidade e a miscibilidade do colonizador português teriam viabilizado a implantação de uma civilização nos trópicos que, no entanto, não teria sido possível sem o concurso dos africanos. Se por um lado, Gilberto Freyre, ao exaltar o papel civilizador fundamental do escravo para a construção da civilização brasileira, contribui para o reconhecimento social dos negros e dos mulatos, por outro lado, mascara o racismo latente e endêmico da sociedade. A metáfora conciliatória “antagonismos em equilíbrio” para explicar a situação colonial ameniza as oposições e leva a considerar o senhor e o escravo como atores que agem em uma zona de confraternização, entre a casa grande e a senzala.

Perguntado sobre a impropriedade de estender o modelo de família da Casa Grande para todo o Brasil, Freyre responde que o que há em comum entre todas as regiões, toda a zona rural brasileira, fossem os canaviais nordestinos, os cafezais do Vale do Paraíba ou as fazendas de gado sulistas, é a escravidão. Impossível qualquer estudo da sociedade colonial e imperial que não considere esse modelo de domínio e de exploração da terra e da mão de obra. Impossível não examinar as consequências políticas do modelo de família que se implantou no período colonial — família alargada, que incluía parentes, agregados e filhos bastardos sob o domínio do pater familiae.

Os três autores concordam com a força do patriarcalismo, mas avaliam diferentemente suas consequências, todas elas duradouras. Para Gilberto, o colonizador português teria conseguido implantar no Brasil, com a força de trabalho escravo, uma verdadeira civilização nos trópicos; para Sérgio, a Casa Grande seria o locus do personalismo, o criadouro do “homem cordial”, um sujeito que age de acordo com os valores domésticos carreando-os para a vida pública; para Caio, foi a partir desse complexo colonial que se organizou o modelo de produção, a empresa comercial portuguesa, que definiu o sentido da colonização: uma estrutura econômica baseada no latifúndio, na monocultura e na escravidão, voltada para a exportação, trazendo consequências nefastas para a construção da nacionalidade, como a dependência do mercado externo e, no plano interno, o desprezo pelo trabalho.

Referindo-se ao modo de ser profundo do brasileiro, suas raízes, conforme metáfora dominante nesta obra inaugural, Sérgio Buarque encontra o personalismo como traço marcante do brasileiro, herdado do colonizador português e que se rebateria em cheio na vida política. O personalismo corresponderia a um tipo de individualismo exacerbado, gestado no interior da família, que resultaria em uma certa inaptidão para virtudes coletivas, dificultando a implantação de instituições onde deveria prevalecer uma lei geral. Sua encarnação é o “homem cordial”, expressão apropriada de Ribeiro Couto, que gerou controvérsias e mal-entendidos. O autor adverte que cordial deve ser entendido em seu sentido etimológico, do latim, cor, cordis, aquele que age movido pelo coração, que pratica uma ética de fundo emotivo, derivada tanto do amor como do ódio, dirigida aos amigos e aos inimigos.

O Estado não pode ser uma extensão da família, ele surge de uma ruptura entre a ordem doméstica e a vida pública. Na gestão do Estado, na burocracia, nas instituições políticas e na própria sociedade, predominam ainda os fundamentos personalistas de nossa cultura, sobrevivências arcaicas do patriarcalismo rural. As oligarquias são o prolongamento do personalismo, seu extravasamento para o espaço público. O homem cordial impõe sua vontade; a primazia é dada às suas conveniências e interesses particulares; ele pode infringir ou burlar a lei impunemente.

Do “homem cordial” emerge o malandro, aquele que mesmo agindo fora ou no limiar da lei é visto como esperto, inteligente, cheio de artimanhas para manipular as pessoas e levar vantagem; caracteriza-o também a falta de disposição para o trabalho, o gosto da vadiagem e das profissões incertas. É mestre da navalha e da capoeira, esse criador do “jeitinho brasileiro”. Do mesmo modo, do “homem cordial” emerge também o governante autoritário, o caudilho, o demagogo, o descendente político do senhor de engenho, conduzindo a vida pública como assunto particular, malandro à sua maneira.

As Constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e oligarquias são fenômeno corrente em toda a história da América do Sul. [2]

Para que a democracia e a civilidade pudessem vigorar, sustenta o autor, seria preciso extirpar valores — o patrimonialismo, o personalismo, a cordialidade — responsáveis pela criação de um modelo de Estado patrimonial, obstáculos que impediam que fosse introduzida uma nova ordem, mais neutra e mais democrática, na vida política brasileira.

Raízes transplantadas para terreno exótico, a colonização portuguesa nas terras americanas teria deixado consequências, dentre elas, a já referida influência da família na organização política, o uso do Estado para fins privados, o patrimonialismo. A escravidão teria deixado como legado, o racismo e o desprezo pelo trabalho.

 

“Os ensaístas modernistas estão interessados em produzir obras e análises que provoquem mudanças, que se tornem ação.”

 

Para que a democracia e a civilidade pudessem vigorar, sustenta o autor, seria preciso extirpar valores — o patrimonialismo, o personalismo, a cordialidade — responsáveis pela criação de um modelo de Estado patrimonial, obstáculos que impediam que fosse introduzida uma nova ordem, mais neutra e mais democrática, na vida política brasileira.

Raízes transplantadas para terreno exótico, a colonização portuguesa nas terras americanas teria deixado consequências, dentre elas, a já referida influência da família na organização política, o uso do Estado para fins privados, o patrimonialismo. A escravidão teria deixado como legado, o racismo e o desprezo pelo trabalho.

A pergunta do historiador é o que faz com que as instituições políticas, funcionando com base em valores emotivos e personalistas, sejam impedidas de atingir os patamares desejáveis de democracia e de civilidade, deixando as conclusões em aberto, apenas sugerindo que seria necessária uma revolução vertical, mas demorada, que fosse capaz de aniquilar as raízes ibéricas indesejáveis.

Caio Prado tem seu primeiro livro publicado em 1933, “Evolução Política do Brasil”, um estudo sobre as rebeliões populares mais importantes da colônia e do Império. Neste opúsculo, o autor está introduzindo e revelando — por meio de uma moldura marxista — um novo ator para a história, um ator coletivo capaz de ação, o povo brasileiro. Trata-se de um livro curto e denso em que Caio Prado capta um momento em que o povo, apanhado em uma situação de urgência, é instado a assumir um papel político ativo. Ao estudar as rebeliões populares, especialmente as da primeira metade do século XIX, Caio Prado constata que aquelas eram revoltas urbanas, “a luta das classes médias (…) contra a política aristocrata e oligárquica das classes abastadas, grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantara no país” [10].

Mas a obra que marcará o pensamento social brasileiro será “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia”, publicada em 1942. Nesta, como na anterior, Caio Prado utiliza conceitos e métodos do materialismo histórico-dialético, pensando a sociedade brasileira como totalidade, levando em conta sua estrutura de classes, as contradições entre grupos antagônicos, o mundo urbano e o mundo rural, operários e camponeses. Toma como ponto de partida o ano da transferência da família real portuguesa para a colônia, 1808, argumentando que aquele momento seria decisivo para compreender o processo histórico brasileiro, uma síntese, momento em que se cruzaria a obra realizada pelo colonizador durante três séculos com os anseios de construção da nacionalidade (Figura 2).

Caio Prado identifica também a existência de um setor que existe fora da estrutura produtiva — entre a minoria dos senhores e a maioria dos escravos — uma parte da população constituída por homens livres e pobres, ex-escravos, agregados, desclassificados que não participavam do polo dinâmico da economia baseada na monocultura exportadora. São populações instáveis e desenraizadas que formam essa mancha inorgânica, flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada.

Em busca de um sentido para compreender a colonização, Caio parte do princípio de ser o Brasil um capítulo da história da expansão do capitalismo mercantil europeu que aqui instalou uma colônia de exploração, baseada no latifúndio, na monocultura e na escravidão. Se a história fosse narrada a partir da colônia, a modernidade europeia seria uma simples consequência do ouro e da prata repassados por Portugal à Inglaterra, o que permitiu o acúmulo de capital que resultou na revolução industrial, ensina logo nas primeiras páginas.

A prova dos nove

Relendo com cuidado essas obras é possível compreender melhor as raízes do autoritarismo e dos dilemas mais cruéis que até hoje atormentam a vida política e sociedade civil no Brasil, a fragilidade das instituições políticas, o déficit de democracia e de cidadania, a desigualdade, o racismo e a violência endêmica como forma de solução dos conflitos.

Passado o tempo da alegria turbulenta da Semana de 22, o que trazem de novo os ensaios sócio-históricos que marcaram o período? É certo que dialogam com o surto da ficção nordestina de grande voga e sucesso à mesma época. Como não perceber as afinidades eletivas e a mesma disposição nostálgica da obra de Gilberto Freyre e o memorialismo de Lins do Rego? Como não perceber traços comuns entre a leitura renovadora trazida por Caio Prado sobre a questão agrária, sobre os atores anônimos das revoltas populares e os primeiros personagens criados por Jorge Amado, os trabalhadores das fazendas de cacau no sul da Bahia? Como não fazer associações entre as questões estruturais tratadas em “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia” e os romances mais clássicos de Graciliano Ramos, como “Vidas Secas” e “São Bernardo”?

Seria interessante pensar essas narrativas como um conjunto, como a emergência de uma formação discursiva [7] em que são reiterados temas — a questão da posse da terra, da exploração da mão de obra, as fraturas de que se originaram nossas classes sociais — que trazem à tona problemas pouco conhecidos, ou mesmo desconhecidos dos brasileiros, um Brasil injusto e arcaico, um povo abandonado.

Os ensaios renovam a abordagem da História, rompendo com uma historiografia romântica e naturalista, buscando uma linguagem livre e fluente visando atingir um número mais amplo de leitores. Os romances, por sua vez, abandonam o experimentalismo vanguardista, tornam-se mais documentais e renovam a linguagem literária incorporando a fala estrangeira, a gíria, os dialetos e sotaques regionais.

Figura 2. “Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil” e “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia” são narrativas que não cessam de inspirar e atrair discursos críticos
(Livraria Martins Editora. Reprodução)

 

O Romance social, apesar de denominado regionalista, não corresponde mais ao sentido estrito do termo, pois nele a região se apresenta menos como realidade geográfica do que como realidade social, o latifúndio e as formas de exploração da terra e do trabalhador, o mandonismo e outros traços arcaicos e persistentes no Brasil. Parte-se da região como realidade concreta, mas concebida como metáfora do Brasil. Querem falar do Brasil aos brasileiros. Quando abordam o problema da seca, por exemplo, falam de um problema social, que penaliza os mais vulneráveis, as piores consequências recaindo sobre os trabalhadores rurais, os retirantes, representados por Chico Bento, Cordulina, Mocinha, personagens de “O Quinze” (1930) de Rachel de Queiróz. Surgem personagens antes pouco tratados na literatura, pobres, retirantes, famintos e miseráveis um número considerável de brasileiros desamparados, abandonados à própria sorte [1].

Não se trata de afirmar influências entre os ensaios e as obras de ficção, e sim confirmar que, quando vêm à luz, emergem em série, tendo sua origem na mesma rede de necessidades e condições de possibilidade [7]. A centralidade da prática documental é reveladora do desejo, tanto nos romances quanto nos ensaios, de constatar e interpretar as questões candentes que ainda atormentavam, e muitas delas ainda atormentam, a sociedade brasileira.

O ensaísmo dos anos 1930 coloca questões e temas retomados pelos debates do pós-modernismo e dos estudos pós-coloniais [vii]. A consciência crítica contemporânea renova a leitura dos nossos clássicos modernistas. A prova dos nove de que essas narrativas continuam vivas é sua produtividade, interesse que continuam a despertar em gerações seguidas, suscitando análises críticas muito finas e cuidadosas [viii]. Cada geração pode lê-las conforme suas expectativas, à luz das questões mais prementes de seu próprio tempo. Por estarem em busca de uma identidade para a nação, abordando o modo de ser do brasileiro a partir dos valores que o formaram, esses ensaios tocam em um ponto sensível, isto é, naquilo que é mais difícil de alterar ou erradicar, o que há de mais entranhado na subjetividade. Os valores são o que há de mais arraigado na cultura e são eles os orientadores da conduta e das ações sociais.

A atualidade dessas obras é inegável. Cada uma delas apresentando interesses distintos. Cada uma delas constrói seus objetos de análise, formula questões, desenvolve feixes de argumentos que aqui tangenciamos apenas.

“Casa Grande e Senzala” continua a provocar questionamentos e correções. Não é por ser clássico que não esteja sujeito a objeções. Em recente entrevista, Eliane Alves Cruz, jornalista e autora de “Água de Barrela” (2016) diz ter decidido escrever essa sua memória/romance, depois de ter lido “Casa Grande”, que tratava da família do Senhor de engenho e dos escravos domésticos. Com algum pouco material recolhido de uma tia-avó idosa e com muita imaginação, a autora refaz o percurso de sua família, o caminho de volta, até a África. Mostra o apresamento e o embarque dos escravos, a viagem penosa, a vida nas senzalas, o abuso das mulheres negras pelos homens brancos, a separação dos filhos de suas mães, para serem vendidos, a apreensão diante da violência, descrevendo cenas de crueldade com requintes de sadismo. Assim viviam as famílias na senzala.

Também foi em resposta a “Casa Grande” que Darcy Ribeiro decidiu escrever o seu “O povo Brasileiro” (1995). Segundo Ribeiro, Gilberto Freyre teria negligenciado, e muito, o tratamento dado aos indígenas brasileiros. Considerando-os muitas vezes de forma genérica e minimizando seu peso na formação da cultura brasileira. “Viva o Povo Brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, pode também ser referido a “Casa Grande”, deslocando o modelo das três raças formadoras e elaborando outro mito de origem, desta vez no litoral baiano em torno da caça à baleia. O romancista consegue matizar ainda mais a mestiçagem do povo brasileiro, trazendo como primeiros personagens dois holandeses perdidos no sertão após terem sido derrotados na guerra. Estes talvez sejam os últimos retratos de corpo inteiro do Brasil, narrativas que trazem uma versão mais severa da mestiçagem, resultado do estupro e da violência sexual. Esta valorização de uma mestiçagem indiferenciada talvez seja um dos tópicos mais questionados pelo movimento antirracista contemporâneo.

Ao articular a dinâmica econômica, política e social, a conjuntura interna e externa, a compreensão das formações nacionais em relação ao capitalismo internacional, com seu instrumental marxista, Caio Prado torna-se um precursor da crítica cultural contemporânea, dita pós-colonial. Ressalte-se em “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia”, tema recorrente que abre a obra e orienta a análise — o sentido da colonização — e que sugere a Caio Prado construir a imagem de um tripé cujos termos só existem quando referidos uns aos outros: latifúndio, monocultura e escravidão. Eis a súmula da colônia: lugar de produção da matéria-prima para suprir as demandas do mercado externo.

Outro tema recorrente e premonitório, antecipando um dos debates mais candentes de nosso tempo, foi o processo de ocupação do território que conduz a reflexões sobre os malefícios advindos da destruição da natureza. A natureza, para Caio Prado, não é tratada como submetida a leis imutáveis e sim como fruto do trabalho humano. Ele historiciza a geografia, entendendo o povoamento como um processo social concreto. Assim, prenuncia o risco de destruição do meio-ambiente, denunciando o modelo predatório de exploração da natureza, a derrubada das florestas para suprir de lenha os fornos dos engenhos.

“A devastação da mata em larga escala ia semeando desertos estéreis atrás do colonizador, sempre em busca de solos frescos e que não exigissem maior esforço de sua parte”.[11]

Consequência do colonialismo e da escravidão, o atraso tecnológico do mundo rural brasileiro — no seu tempo ainda baseado na enxada e no arado, na força humana e tração animal — fica mais saliente quando comparado às práticas agrícolas já usadas nas colônias inglesas, francesas e holandesas como o uso do bagaço da cana como combustível, ou máquinas como o descaroçador de algodão já usadas nos Estados Unidos.

 

“De cada uma dessas narrativas, levantam-se questões que continuam a inquietar os intelectuais comprometidos em estudar e entender o Brasil.”

 

De cada uma dessas narrativas, levantam-se questões que continuam a inquietar os intelectuais comprometidos em estudar e entender o Brasil. Sobre o modelo de governante calcado na figura do pai; a centralidade da família e dos valores cordiais que se espalham a para vida pública; os modelos de autoritarismo e o Estado patrimonial que explicam a fragilidade das instituições democráticas. Nas análises de Prado Junior aprendemos que sentido da colonização continua a ter vigência e guarda sua atualidade. Elas explicam os equívocos do modelo econômico baseado no extrativismo de espécies e minerais preciosos e na produção agrícola e pecuária para suprir as demandas e interesses do mercado externo; a devastação das florestas e as pressões sofridas pelos pequenos agricultores, posseiros e grupos indígenas em luta pela terra.

O ensaísmo modernista foi capaz de produzir essas narrativas formadoras sobre o Brasil, “Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil” e “Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia”, narrativas que não cessam de inspirar e atrair discursos críticos. A cada leitura, é possível encontrar surpresas e sugestões para estudos e pesquisas. São narrativas que não terminaram nunca de dizer aquilo que tinham para dizer (Calvino, 1991). Cansadas de ser modernas ou mesmo pós-modernas, tornaram-se clássicas, isto é, eternas.

 

Capa. O repertório cultural dos modernistas passa a incluir a herança africana e indígena, além do legado europeu, evidenciando o tão buscado caráter mestiço da cultura brasileira
(“Mestiço”, de Candido Portinari. Reprodução)
NOTAS

[i] Foram inúmeros os institutos e secretarias criados pelos modernistas, liderados pelo então ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema. Dentre eles, a Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico; o Instituto Nacional de Cinema, a Rádio educativa, o Instituto Nacional do Livro. Ver Bomeny, Schwartzmann et all, Tempos de Capanema (1984).
[ii] Referência aos manifestos de 1924 (Pau-Brasil) e de 1928 (Antropófago) de Oswald de Andrade.
[iii] O prefácio escrito, em 1963, por Antonio Candido, para a quarta edição de Raízes do Brasil é considerado um marco na consagração dos três clássicos de que estamos falando (Ricúpero, 2007).
[iv] Mario de Andrade, em viagens a Minas Gerais, descobre a arte colonial que passa a ser objeto de estudos do pesquisador. Seu ensaio “O Aleijadinho” – (1928) é considerado um texto fundador, criador um mito de origem para a cultura brasileira, identificando na obra do escultor mineiro um conjunto de traços originais que o diferenciariam da matriz europeia.
[v] Os ensaios sócio-históricos são anteriores à institucionalização das Ciências Sociais e suas divisões em especialidades; são contemporâneos à criação dos cursos de Humanidades das universidades de São Paulo (USP- 1934) e do Distrito Federal (UDF -1935).
[vi] Referência a Retrato do Brasil, de Paulo Prado, publicado em 1928. Essa obra, em que o historiador encontra na herança colonial a razão do atraso e dos vícios do Brasil, tem o mérito de inaugurar um gênero de interpretação histórica que pretende retratar o país de corpo inteiro.
[vii] Embora predominante e de maior visibilidade, o romance social não é a única tendência do romance da década de 1930. Surge o novo romance urbano apresentando aspectos problemáticos da vida nas cidade, personagens complexos e deslocados, como o imigrante, o desajustado que vive à margem, o pequeno funcionário, trabalhadores informais, seres angustiados que transitam anonimamente, como Luís da Silva de Angústia (Graciliano Ramos, 1936) ou Belmiro, o amanuense de Ciro dos Anjos (1937), além dos romances memorialistas ou de corte psicológico e intimista como os de Lúcio Cardoso e Cornélio Pena, por exemplo (Bueno, 2022).
[viii] A fortuna crítica dos “Intérpretes do Brasil” é muito extensa. Entre esclarecedoras leituras contemporâneas, destacaria o estudo de Ricardo Benzaquém de Araújo, Guerra e Paz, sobre Casa Grande e Senzala. Pedro Meira, Robert Wegner e Luís Feldman têm trazido esclarecimentos preciosos sobre a obra de Sérgio Buarque. Maria Odila Silva Dias e Bernardo Ricúpero deixaram reflexões alentadas sobre Caio Prado Júnior.


REFERÊNCIAS

1. BOMENY, H., SCHWARTZMAN, S. et all. Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra/Edusp, 1985.
2. HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: José Olympio, 1976.
3. BUENO, L. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp, 2006.
4. CALVINO, I. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
5. CANDIDO, A. O significado de Raízes do Brasil. Em: HOLAND, S. B. (org.). Raízes do Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 1976.
6. CRUZ, E. A. Água de Barrela. Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2016.
7. FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Petrópolis: Vozes, 1972.
8. FREYRE, G. (1933) Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Aguilar, 1977.
9. PÉCAULT, D. Os intelectuais e a política: entre o povo e a nação. São Paulo: Ática, 1990.
10. PRADO JR., C. (1933) Evolução política do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1983.
11. PRADO JR., C. (1942) Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense, 1994.
12. PRADO, P. (1928) Retrato do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
13. RIBEIRO, D. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
14. RIBEIRO, J. U. (1984) Viva o povo brasileiro. São Paulo: Alfaguara, 2014.
15. RICÚPERO, B. Sete lições sobre interpretações do Brasil. São Paulo: Alameda, 2007.
16. SANTIAGO, S. Introdução. Em: SANTIAGO, S. (org.). Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. p. 121-605.
Angélica Madeira é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Rio Branco. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Cultura, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura e cultura brasileira, arte contemporânea, cidade e cultura urbana.
Mariza Velozo é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e do Curso de Preparação à Carreira Diplomática no Instituto Rio Branco. Pesquisa as áreas Sociologia da Cultura; Sociologia Urbana; Sociologia da Memória e do Patrimônio Cultural; Sociologia dos Intelectuais e do Pensamento Social do Brasil. É autora de “O tecido do Tempo: O Patrimônio Cultural no Brasil e a Relação entre Modernismo e Barroco” (Brasília: Editora UnB, 2018).

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