Entrevistas
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“No meio ambiente, tudo está interligado.”

Confira entrevista com Luciana Varanda Rizzo, professora do Instituto de Física da USP e integrante do Laboratório de Física Atmosférica (LFA)

A física da atmosfera pode parecer abstrata, mas seus efeitos são profundamente concretos — e, muitas vezes, devastadores. É nesse campo, onde fenômenos invisíveis determinam a qualidade do ar e o equilíbrio climático, que atua a física Luciana Varanda Rizzo. Docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Laboratório de Física Atmosférica (LFA), ela construiu uma trajetória marcada pela investigação da poluição do ar em grandes centros urbanos e das complexas interações entre biosfera e atmosfera na Amazônia. Com graduação, mestrado e doutorado pela USP, além de experiência como pesquisadora no National Center for Atmospheric Research (NCAR), nos Estados Unidos, Rizzo reúne uma formação sólida e internacional. Ao longo da carreira, participou de importantes experimentos científicos na Amazônia e consolidou uma linha de pesquisa voltada à compreensão dos impactos das emissões urbanas e das queimadas sobre o clima e a saúde humana. Ao abordar a dificuldade de tornar visível aquilo que não se vê, Luciana Rizzo chama atenção para a relação cotidiana e inevitável com o ar. “O ar é impalpável e ninguém vê, mas todos inspiram ar o tempo todo, em uma relação visceral.” Para ela, a invisibilidade dos poluentes contribui para a naturalização de um problema grave, já que a atmosfera tem sido tratada como um repositório infinito de resíduos. Essa percepção, no entanto, não corresponde à realidade física. “Os gases e as partículas contidas na fumaça podem permanecer na atmosfera por horas, dias, meses, anos, séculos.” A permanência desses compostos no ar explica por que seus efeitos se acumulam e se manifestam tanto em problemas imediatos de saúde quanto em mudanças climáticas de longo prazo. A entrevista também aborda os desafios enfrentados por mulheres na ciência, especialmente em ambientes altamente competitivos e ainda marcados por desigualdades de gênero. “Para alcançar o mesmo reconhecimento, cientistas mulheres precisam provar muito mais o seu valor do que cientistas homens.” Na entrevista a seguir, a pesquisadora discute os desafios de comunicar a urgência de processos atmosféricos invisíveis, as conexões entre floresta e cidade, as desigualdades associadas à poluição e as barreiras de gênero ainda presentes na ciência. Confira!

 

Ciência & Cultura – Seu trabalho revela como processos físicos invisíveis — como a formação de ozônio ou o transporte de aerossóis — afetam diretamente a saúde e o clima. Como comunicar a urgência desses fenômenos a uma sociedade que só percebe a poluição quando ela se torna visível?
Luciana Varanda Rizzo – Pois é, meu objeto de pesquisa é etéreo. O ar é impalpável e ninguém vê, mas todos inspiram ar o tempo todo, em uma relação visceral. Nem todos se dão conta de que a humanidade tem usado a atmosfera como se fosse uma lata de lixo infinita. A fumaça que sai dos carros, das indústrias, dos incêndios, se dispersa no ar, como se desaparecesse. Mas não desaparece. Os gases e as partículas contidas na fumaça podem permanecer na atmosfera por horas, dias, meses, anos, séculos. A presença desses poluentes na atmosfera resulta em sérios problemas socioambientais. Poluentes de vida curta, como o ozônio e as pequenas partículas suspensas no ar (conhecidas como aerossóis), impactam diretamente a saúde das pessoas, agravando doenças cardiorespiratórias e, abrindo mão de eufemismos, causando mortes. Poluentes de vida longa, como o dióxido de carbono, permanecem séculos na atmosfera, perturbando o equilíbrio térmico do planeta e causando as mudanças climáticas que enfrentamos hoje. Como comunicar a urgência desses fenômenos? Infelizmente, chegamos a um ponto em que os impactos da poluição atmosférica falam por si só.

 

“A poluição do ar e o aquecimento global afetam a todos, mas de maneira profundamente desigual.”

C&C – Ao pesquisar tanto a Amazônia quanto a Região Metropolitana de São Paulo, você transita entre dois territórios simbólicos centrais do debate climático. Que conexões científicas entre floresta e cidade ainda são pouco compreendidas — ou pouco consideradas nas políticas públicas?
LVR –
No meio ambiente, tudo está interligado. Os ventos que passam sobre a Amazônia transportam vapor d’água, transpirado pelas árvores da floresta, para o centro-oeste e sudeste do Brasil, contribuindo para as chuvas nessas regiões. Este é um serviço ambiental importante, proporcionado pela evapotranspiração de áreas vegetadas na Amazônia e no Cerrado. Os mesmos ventos também transportam fumaça de queimadas da Amazônia, Pantanal e Cerrado. Em algumas situações, a fumaça que vem de longe contribui para piorar a poluição do ar na metrópole de São Paulo. Nos últimos anos, presenciamos cidades da região norte, como Porto Velho e Manaus, tomadas pela fumaça, expondo a população a graves riscos de saúde. A combinação de emissões urbanas (veículos e indústrias) com emissões de queimadas potencializa a formação de poluentes secundários e os impactos à saúde. Assim, existem fortes conexões entre a devastação de áreas naturais e a poluição do ar em áreas urbanas.

C&C – A física é frequentemente percebida como uma área neutra e objetiva, mas suas pesquisas lidam com problemas profundamente sociais, como poluição e desigualdade urbana. Em que momentos essa tensão entre ciência “dura” e impacto social se torna mais evidente no seu trabalho?
LVR –
Problemas ambientais são intrinsecamente associados com problemas sociais. A poluição do ar e o aquecimento global afetam a todos, mas de maneira profundamente desigual. Por exemplo, uma pessoa que vive em um bairro periférico, que passa 4 horas por dia no trajeto entre casa e trabalho, está extremamente exposta à poluição do ar. Quem anda de carro polui mais do que quem anda de transporte coletivo. Esse tipo de injustiça ocorre não só na escala municipal; na escala global vemos questões semelhantes. Os maiores poluidores não são os mais afetados pelos problemas ambientais. Tenho convicção de que a solução para os problemas ambientais passa pelo combate às desigualdades e ao racismo. Nesse ponto, as chamadas ciências “duras” precisam trabalhar junto com a sociologia e a economia. Na área ambiental, não existe prevalência de uma ciência sobre outra. Soluções puramente técnicas não são neutras, é preciso avaliar as implicações sociais e políticas antes de implementá-las.

 

“Tenho convicção de que a solução para os problemas ambientais passa pelo combate às desigualdades e ao racismo.”



C&C – Experimentos de grande escala, como os realizados na Amazônia, envolvem logística complexa, colaboração internacional e ambientes adversos. Como é ocupar esses espaços como mulher cientista — e que desafios específicos ainda persistem nesses contextos?
LVR –
Acho que avançamos bastante nas últimas décadas na conscientização sobre as desigualdades de gênero. Homens e mulheres estão mais conscientes, e as ações afirmativas contribuíram para diminuir a desigualdade de gênero na ciência, aumentando a representatividade das mulheres. Antes, eu nem percebia quando era a única mulher presente em uma reunião. Hoje, eu percebo, me incomodo, questiono, e pratico sororidade.

Apesar dos avanços, muitos desafios estruturais e culturais persistem. Eu percebo que, para serem ouvidas, cientistas mulheres precisam ser mais incisivas do que cientistas homens. Mulheres são interrompidas com mais frequência em reuniões de trabalho. Isso exige das mulheres um esforço a mais. Não basta fazer bem o seu trabalho, é preciso se impor para não ser engolida, para fazer suas ideias prosperarem.

Para alcançar o mesmo reconhecimento, cientistas mulheres precisam provar muito mais o seu valor do que cientistas homens. Em geral, a cobrança é maior para as cientistas mulheres, que precisam trabalhar mais e produzir mais em comparação com homens no mesmo estágio da carreira, para serem reconhecidas e valorizadas na comunidade científica. Por exemplo, eu me preparo muito antes de me posicionar sobre um determinado assunto em uma reunião de trabalho. Pode ser apenas um traço de personalidade, mas acho que certamente há uma camada de gênero atuando nessa questão. Um cientista homem pode falar uma bobagem com convicção e passar despercebido. Uma cientista mulher será julgada com mais rigor.

Eu acho que os homens estão mais conscientes sobre a desigualdade de gênero na ciência, mas a cultura do patriarcado ainda é muito forte. O apoio de cientistas homens muitas vezes se transforma em uma espécie de tutela, que tenta direcionar o trabalho de cientistas mulheres. É comum que o protagonismo de cientistas homens avance sobre as pesquisas de cientistas mulheres colaboradoras, tomando a frente e a liderança. Isso pode acontecer de modo inconsciente, é a cultura do patriarcado que se impõe e que molda o comportamento de homens e de mulheres.

 

“Para alcançar o mesmo reconhecimento, cientistas mulheres precisam provar muito mais o seu valor do que cientistas homens.”

C&C – Ao longo da sua trajetória acadêmica, do pós-doutorado no exterior à atuação em diferentes universidades brasileiras, que barreiras de gênero você identificou na física atmosférica — e de que forma elas se manifestam hoje, talvez de forma mais sutil?
LVR –
Devo dizer que falo de um lugar privilegiado. Sou uma mulher branca, de classe média, tive acesso a uma boa educação, nada me faltou. Mesmo tendo sido mãe cedo, aos 20 anos, tive todo o suporte familiar para seguir a carreira acadêmica. Pude fazer mestrado e doutorado vivendo apenas da bolsa de estudos. Nem todas têm a mesma sorte que eu.  Olho em volta, e vejo poucas mulheres atuando na área de Física. Mulheres negras são raríssimas. A ciência perde com isso, pois a diversidade enriquece a produção de conhecimento.

Na área de Física, assim como em outras carreiras da área de exatas, as mulheres são minoria. Durante a minha graduação, a razão entre homens e mulheres era de 10 para 1. As meninas são tão capazes quanto os meninos, em todas as áreas do conhecimento. Então por que poucas meninas escolhem a Física como profissão? Temos aí uma primeira barreira de gênero, uma construção cultural, que acaba empurrando as mulheres para carreiras mais identificadas com “papeis sociais” femininos.
Acho que houve progressos após a crescente adoção de ações afirmativas, que visam equilibrar as desigualdades de gênero na ciência. Hoje somos mais conscientes. Outra conquista importante é a concessão de licença maternidade para mulheres bolsistas. E a possibilidade de sinalizar no currículo o ano de nascimento dos filhos, justificando eventuais mudanças na produtividade.

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
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