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Porque é tão difícil implementar práticas interdisciplinares no ensino de ciências

Apesar de ser uma prática efetiva na sala de aula, a dificuldade na coordenação dos docentes, falhas na formação e falta de políticas públicas efetivas impendem as práticas interdisciplinares nas escolas brasileiras.

O uso de práticas interdisciplinares no ensino de ciências pode trazer diversos benefícios, como aumento do engajamento, aprimoramento na capacidade de resolução de problemas e melhora na compreensão do conteúdo. Mas a sua implementação na sala de aula esbarra em diversos obstáculos, como a formação dos professores, a dificuldade na coordenação das equipes, a falta de tempo e de políticas públicas.

Muito mais do que uma moda, a aplicação da interdisciplinaridade na educação vem com o objetivo de preparar os estudantes para lidar com a complexidade do mundo contemporâneo. As soluções que encontramos para os problemas enfrentados no cotidiano fazem usos de conhecimentos que não costumam se limitar a apenas uma disciplina. Pelo contrário, na maioria das vezes é necessário conectar conhecimentos diferente para chegar a uma solução. Ensinar os estudantes a estabelecer essas conexões é essencial para prepará-los para aplicar os conhecimentos adquiridos de maneira realista.

Para além disso, atividades interdisciplinares auxiliam no engajamento dos estudantes, além de facilitar o seu aprendizado. “O estudante é desafiado a mobilizar diferentes habilidades e formas de raciocínio para interpretar e criar. Isso promove uma compreensão mais rica e multifacetada dos fenômenos estudados”, completa Clecia Simone Goncalves Rosa Pacheco, professora do Colegiado de Tecnologia de Alimentos do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE). Esse efeito facilitador do aprendizado pode ser atribuído a características em comum que existem entre as ciências e a arte, por exemplo. Os pensadores da educação Edgar Morin e John Dewey citam a busca por padrões, a exploração da realidade e a expressão da beleza do conhecimento como algumas dessas características.

 

“Para o desenvolvimento do trabalho interdisciplinar, a base é o diálogo entre os profissionais.”

 

Apesar das vantagens, a implementação da interdisciplinaridade enfrenta uma série de dificuldades. Integrar diferentes disciplinas significa ter que compreender terminologias diferentes, trabalhar com metodologias e didáticas distintas, além de conciliar os ritmos de trabalho de cada disciplina. Tudo isso exige um planejamento coletivo entre os professores, o que nem sempre é fácil de se fazer. “Para o desenvolvimento do trabalho interdisciplinar, a base é o diálogo entre os profissionais. Para conseguirmos solucionar um determinado problema, cada profissional vai ter que sugerir dentro da sua área alguma possibilidade que vai ajudar na solução desse problema”, exemplifica Gisele Soares Lemos Shaw, professora e líder do Núcleo de Pesquisa Educação em Ciências (NPEC) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF).

Quando essa integração acontece, resultados muito positivos podem ser obtidos em sala de aula. O professor de física na rede estadual de Santa Catarina, Samuel Sérgio La Banca, relatou sua experiência na abordagem interdisciplinar em que participou junto de outros cinco professores de diferentes áreas das ciências da natureza na Escola de Ensino Médio Professor Roberto Grant, em São Bento do Sul. “Toda quinta-feira todas as áreas tinham que trabalhar juntas. Nós, das ciências da natureza, ficávamos contando nos dedos as horas para poder estar juntos. A gente passava a semana inteira vendo o conteúdo, já buscávamos o que cada um tinha para contribuir com o outro”, conta ele. Segundo o professor, o bom relacionamento entre os colegas foi essencial para o sucesso da abordagem. A integração entre as disciplinas chegou a um ponto em que até as provas foram unificadas. “O aluno não fazia prova de química, física e biologia, ele fazia as três. Cada professor corrigia o seu pedacinho? Não, ele corrigia no todo e a nota do aluno em ciências da natureza era uma só nas três disciplinas”, relata.

Mas obter esse nível de entrosamento nem sempre é fácil. Ivani Fazenda escreveu em “Dicionário em Construção: Interdisciplinaridade” que para trabalhar de forma interdisciplinar, é necessário que o professor tenha uma atitude interdisciplinar, e que isto exige humildade. Gisele Shaw aponta que esta atitude muitas vezes é o que falta para que a abordagem seja aplicada. “A meu ver, o grande problema da interdisciplinaridade está nas pessoas. As pessoas não querem ser flexíveis”, admite ela.

 

Desafios

Outro desafio enfrentado é a própria formação dos docentes. Os professores são formados dentro de uma disciplina acadêmica e cada disciplina carrega consigo um conjunto de pressupostos, conteúdos e métodos. Isso forma uma identidade intelectual no docente que pode ser ameaçada pela implementação da interdisciplinaridade. As práticas interdisciplinares obrigam o professor a ser flexível e trabalhar com métodos diferentes dos quais foi treinado, isso gera conflito com sua identidade intelectual e, portanto, resistência.


Figura 1. Ao integrar diferentes áreas do conhecimento por meio do brincar, a ludicidade contribui para uma aprendizagem mais significativa, crítica e conectada à realidade.
(Foto: IF/USP. Divulgação)

 

A falta de formação também acaba gerando insegurança nos professores, inibindo o desenvolvimento dessas práticas. “Muitos professores não se sentem capacitados para planejar e executar atividades que vão além das fronteiras de suas áreas, e isso não é culpa deles, mas sim, do fato de eles terem tido uma formação profissional disciplinar”, adverte Clecia Pacheco.

O tempo necessário para o planejamento coletivo das atividades também é um dos grandes obstáculos. A maioria das escolas trabalha com horários rígidos e oferece pouco tempo para que os professores possam dedicar para a preparação das atividades. O problema é agravado quando os professores trabalham em mais de uma escola ao mesmo tempo, algo bastante comum. Samuel La Banca relatou já ter vivido esse tipo de situação: “Como é que eu vou juntar professores, sendo que alguns deles dão aula em quatro escolas para poder sobreviver? Como é que eu vou juntar quando eu já passei 60 horas por semana na sala de aula?” questiona.

Para enfrentar essas dificuldades são necessárias políticas públicas de promoção da interdisciplinaridade, mas, segundo as especialistas consultadas, as que existem não são aplicadas de forma efetiva. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), principal guia da educação no país, cita a interdisciplinaridade como um dos objetivos, mas não garante sua implementação. “Embora a BNCC sugira a articulação entre as áreas do conhecimento, a implementação na prática encontra muitas resistências e dificuldades logísticas. O resultado é uma interdisciplinaridade apenas formal, que não funciona na prática”, comenta Clecia Pacheco.

Além dela, as Diretrizes Curriculares Nacionais e os Temas Contemporâneos Transversais também orientam a união de diferentes disciplinas, mas com pouco impacto na realidade da sala de aula. Shaw afirma não ver nenhuma política educacional sólida que apoie a implementação da interdisciplinaridade nas escolas brasileiras. “Quando eu digo uma sólida política educacional, eu falo em cursos específicos para o Brasil inteiro, focados nos professores, preparando para aprender sobre a interdisciplinaridade, desenvolvendo práticas pedagógicas interdisciplinares no processo de reflexão e com ação sobre elas. Mas essa eu não vejo isso no momento”.

 

“A implementação na prática encontra muitas resistências e dificuldades logísticas.”

 

Além da abordagem interdisciplinar, também já se fala na transdisciplinaridade. Nessa abordagem, mais do que associar os conhecimentos e métodos de diferentes disciplinas, os docentes eliminam completamente os limites entre as disciplinas. Apesar de já existirem práticas transdisciplinares, Gisele Shaw afirma que ela ainda não é possível como parte de um sistema de ensino. “É muito complicado falar de transdisciplinaridade no currículo escolar, já que ele é organizado com base em disciplinas. Se a transdisciplinaridade vai para o além das disciplinas, então ela não tem como acontecer na escola”.

 

Interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, ludicidade

A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade e a ludicidade têm se consolidado como abordagens fundamentais para transformar a educação contemporânea, especialmente diante dos desafios de um ensino ainda marcado pela fragmentação dos saberes. A interdisciplinaridade promove o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, permitindo que conteúdos sejam compreendidos de maneira articulada e contextualizada. Já a transdisciplinaridade ultrapassa as fronteiras das disciplinas, integrando ciência, arte, cultura, emoção e experiência humana em uma visão mais ampla e sistêmica da realidade. Nesse contexto, o conhecimento deixa de ser dividido em compartimentos isolados e passa a ser entendido como um processo integrado, conectado à vida cotidiana e às múltiplas dimensões da existência humana.


Figura 2. Jogos, experiências e interações coletivas ajudam a romper a fragmentação do ensino e aproximam ciência, imaginação e desenvolvimento humano no ambiente escolar.
(Foto: Divulgação)

 

Entre essas abordagens, a ludicidade ocupa um papel central por tornar o aprendizado mais significativo, participativo e envolvente. Muito além da simples brincadeira, o lúdico representa uma forma de experimentar o mundo por meio da curiosidade, da imaginação, da criatividade e da emoção. Jogos, dramatizações, desafios, simulações, gamificação e atividades práticas despertam o interesse dos estudantes e favorecem a construção ativa do conhecimento. No ensino de ciências, a ludicidade é especialmente importante porque aproxima conceitos abstratos da experiência concreta dos alunos, reduzindo a resistência a conteúdos considerados difíceis e estimulando habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas, raciocínio lógico e autonomia intelectual.

Quando articuladas, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e ludicidade contribuem para uma educação mais humana, integrada e transformadora. Na Educação Infantil, por exemplo, o brincar e as interações constituem os eixos estruturantes do desenvolvimento, permitindo que as crianças explorem o corpo, a imaginação, a socialização e a construção de identidade de maneira integral. Ao unir diferentes saberes em experiências lúdicas, essas abordagens favorecem uma aprendizagem mais fluida e conectada com a complexidade do mundo contemporâneo. No ensino de ciências, isso significa formar estudantes capazes não apenas de memorizar conteúdos, mas de compreender fenômenos, estabelecer relações entre diferentes áreas do conhecimento e desenvolver uma visão crítica, criativa e sensível sobre a sociedade e a natureza. Ainda assim, existem esforços para incluir essas práticas em sala de aula. Samuel La Banca relatou a experiência que teve em uma formação que aplicava uma abordagem transdisciplinar entre professores de física, química e artes. Nela, utilizaram um projeto baseado na preparação do barreado, um prato tradicional do sul do Brasil, para abordar assuntos de todas essas disciplinas, incluindo desde a termodinâmica até a pintura em argila. A experiência foi um sucesso. “Hoje eu não tenho mais a mesma visão sobre o barreado, porque agora eu penso na arte, eu penso na cultura antiga, eu penso na tradição. Também penso na questão química. Então quer dizer que é essa panela vai resistir mais se for produzida dessa forma? Se tiver tal elemento? Ali, a gente fez transdisciplinaridade”, conta ele.

 

“Se a transdisciplinaridade vai para o além das disciplinas, então ela não tem como acontecer na escola.”

 

Experiências como essa deixam claro o potencial desse tipo de abordagem não apenas para os alunos, mas também para os professores. Junto de políticas públicas mais efetivas e a valorização docente, experiências como essa podem apresentar um caminho para a implementação real das abordagens inter e transdisciplinares nas salas de aula.

 

Capa: Atividades lúdicas e interdisciplinares tornam o ensino de ciências mais dinâmico, estimulando a criatividade, a curiosidade e a participação ativa dos estudantes.
(Foto: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Reprodução)
Sophia La Banca

Sophia La Banca

Sophia La Banca é jornalista que cobre principalmente a política e as ciências, em suas mais diferentes formas, e acredita que essas duas coisas nunca podem ser separadas.
Sophia La Banca é jornalista que cobre principalmente a política e as ciências, em suas mais diferentes formas, e acredita que essas duas coisas nunca podem ser separadas.
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