Brincar é uma das formas mais importantes de aprender. Muito além do entretenimento, jogos, desafios, narrativas e atividades criativas ajudam crianças a desenvolver imaginação, autonomia, linguagem, raciocínio e formas de convivência. Nas escolas, a ludicidade vem sendo reconhecida como ferramenta capaz de tornar o ensino mais acessível, participativo e inclusivo, especialmente para estudantes historicamente excluídos por metodologias rígidas e centradas apenas na transmissão de conteúdos.
“A ludicidade, quando compreendida em sua dimensão pedagógica e não apenas recreativa, assume um papel profundamente inclusivo. Ela amplia as formas de acesso ao conhecimento, permitindo que estudantes com diferentes ritmos, estilos de aprendizagem e condições participem ativamente do processo educativo”, afirma Andreia de Bem Machado, professora do Curso de Pedagogia da Faculdade Municipal de Palhoça, Faculdade ANASPS e da Uníntese, Pesquisadora no Núcleo de Estudos em Inteligência, Gestão e Tecnologias para Inovação da Universidade Federal de Santa Catarina, Consultora da DTIM – Associação Regional para o Desenvolvimento das Tecnologias de Informação na Madeira e Diretora de Ensino da Secretaria Municipal de Educação de Palhoça (SC). Segundo a pesquisadora, ao incorporar jogos, imaginação, narrativas e experimentação, a prática pedagógica torna-se mais sensível à diversidade e favorece o pertencimento dos estudantes. “Mais do que engajar, a ludicidade cria possibilidades reais de pertencimento. Ela rompe barreiras linguísticas, cognitivas e sociais, oferecendo múltiplos caminhos para aprender e se expressar”, conclui.
Para Tânia Marta Costa Nhary, professora da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o conceito de ludicidade é mais amplo do que normalmente se imagina. “No campo da Educação, muitas vezes, está associado a jogos e brincadeiras, mas lúdico é tudo aquilo que dá prazer. Outras práticas são muito lúdicas para as crianças e os adolescentes, como a literatura, o esporte e as artes, por exemplo”, explica. Segundo a pesquisadora, o lúdico mobiliza aspectos biológicos, psicológicos, sociais, culturais e afetivos, promovendo socialização, colaboração e reconhecimento das diferenças. “O que importa para quem entra no campo lúdico é o prazer que ele gera e, assim, muitas atitudes e sentimentos são ressignificados”, afirma.
As atividades lúdicas também ocupam papel importante na Educação Inclusiva, pois favorecem o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e social. Ao brincar, a criança experimenta, descobre e constrói formas de compreender o mundo, fortalecendo criatividade, imaginação e espontaneidade. Segundo Walber Christiano Lima da Costa, professor e vice-coordenador no Mestrado em Educação Inclusiva da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), a ludicidade amplia as possibilidades de participação dos estudantes. “Muitas pessoas levam com certo preconceito o lúdico, por acharem que ao usar o lúdico se realiza apenas uma aula mais leve, mas a dimensão que defendo é a de favorecer o pertencimento e a escuta das particularidades de todos os estudantes”, pontua. Para o pesquisador, jogos e dinâmicas interativas criam ambientes mais acessíveis e acolhedores, permitindo que estudantes com diferentes perfis de aprendizagem participem efetivamente das atividades escolares. Nesse processo, estudantes que frequentemente se sentem excluídos passam a se perceber como parte do coletivo. (Figura 1)

Figura 1. Atividades lúdicas favorecem o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, estimulando criatividade, imaginação e descoberta.
(Foto: Jornal da USP. Reprodução)
A ludicidade também vem sendo apontada como estratégia importante para enfrentar desigualdades educacionais, inclusive na matemática, frequentemente vista pelos estudantes como inacessível. “Estamos em um contexto educacional marcado por desigualdades e precisamos nos adaptar, especialmente na matemática, muitas vezes vista como inacessível e inalcançável pelos estudantes”, destaca Verônica Pereira Moreira, docente da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Segundo a pesquisadora, jogos, desafios e materiais manipuláveis tornam o conhecimento mais concreto e acessível, permitindo maior participação dos estudantes. “Os jogos, por exemplo, reduzem o medo do erro, valorizam o processo e não apenas o resultado, além de promoverem a colaboração, criando um ambiente mais acolhedor”, afirma. Ela destaca ainda que o lúdico oferece diferentes caminhos para a aprendizagem, respeitando distintas formas de construir conhecimento. “Quando o estudante percebe que consegue aprender, participar e se expressar, ele passa a se reconhecer como sujeito ativo no processo educativo”, conclui.
Brincar também é aprender
O lúdico tem se consolidado como importante recurso pedagógico no processo de ensino-aprendizagem, especialmente em contextos de inclusão escolar. Por meio de jogos, brinquedos e brincadeiras, estudantes encontram formas mais acessíveis e significativas de participar das atividades, favorecendo socialização, integração e desenvolvimento cognitivo e emocional. Nesse contexto, a atuação do professor de apoio e das salas de recursos torna-se fundamental para a construção de práticas inclusivas efetivas. Além de prazeroso, o brincar contribui para o controle da ansiedade, para a expressão das emoções e para o fortalecimento dos vínculos entre os estudantes.
“Ao longo da minha trajetória na educação básica e superior, tenho observado que práticas lúdicas bem planejadas produzem efeitos significativos no engajamento dos estudantes”, afirma Andreia Machado. Segundo a pesquisadora, em contextos de maior vulnerabilidade social essas estratégias ajudam a resgatar o interesse dos estudantes e criar ambientes emocionalmente mais seguros. Experiências com jogos pedagógicos, narrativas interativas e atividades baseadas em desafios têm demonstrado aumento da participação, melhora da autoestima e maior permanência nas atividades escolares. “Além disso, abordagens lúdicas favorecem o desenvolvimento de competências como colaboração, resolução de problemas e pensamento crítico”, pontua.
“Mais do que engajar, a ludicidade cria possibilidades reais de pertencimento.”
Embora a importância do lúdico seja amplamente reconhecida, especialistas apontam que ainda há necessidade de aprofundar a compreensão sobre como essas práticas operam no cotidiano escolar. Muitas escolas enfrentam dificuldades estruturais para garantir condições adequadas de inclusão. Para Tânia Nhary, o debate sobre ludicidade ainda é frequentemente reduzido à ideia de entretenimento. “É preciso alargar as lentes de compreensão para fazer do lúdico uma potência em termos de socialização, espaço tempo de criação de laços, troca de afetos e ideias”, defende.
“O que eu observo em minhas aulas quando aplico um jogo, um desafio matemático ou outro tipo de atividade lúdica é que consigo reduzir um pouco do bloqueio com a matemática entre os estudantes”, relata Verônica Pereira Moreira. Segundo ela, os jogos não devem ser vistos apenas como complemento do conteúdo, mas como parte integrante do processo de aprendizagem. “O jogo tem um papel importante, pois é nele que os estudantes se sentem à vontade para sanar dúvidas e interagir com os colegas”, explica. Para a pesquisadora, atividades lúdicas ajudam a diminuir medos e inseguranças frequentemente associados ao ensino tradicional da matemática e das ciências em geral.
Além de favorecer a aprendizagem, o lúdico também fortalece autoestima e autonomia. Ao compartilhar experiências com outras crianças, os estudantes aprendem a respeitar regras, desenvolver cooperação e conviver em grupo. Para Walber Costa, os recursos didáticos lúdicos favorecem a persistência diante das dificuldades de aprendizagem. “No uso de jogos e recursos didáticos lúdicos, estudantes com dificuldades de aprendizagem ou defasagem escolar demonstram maior persistência diante dos desafios quando estes são apresentados de maneira lúdica”, afirma.
Entre resistências e desafios
Apesar do potencial formativo da ludicidade, especialistas apontam que a escola ainda tende a associar o lúdico apenas ao entretenimento. Modelos tradicionais de ensino, centrados na transmissão de conteúdos e no uso predominante do livro didático, dificultam a incorporação de metodologias mais participativas. “Há, nesse cenário, uma compreensão equivocada de que o brincar estaria dissociado da aprendizagem, como se não houvesse intencionalidade pedagógica nessas propostas”, afirma Walber Costa.
Para Verônica Moreira, a percepção de que a ludicidade ocupa lugar “secundário” está relacionada às condições concretas de ensino e às pressões curriculares enfrentadas pelos professores. “Isso cria uma sensação constante de falta de tempo, o que leva muitos professores a priorizarem a aula expositiva e exercícios mais diretos”, explica. Em salas marcadas por defasagens de aprendizagem e grande heterogeneidade, atividades lúdicas acabam sendo percebidas como práticas que exigem mais tempo de preparação. Além disso, muitos estudantes chegam às aulas de ciências carregando inseguranças e resistência em relação à disciplina. “A ludicidade pode ser vista, equivocadamente, como algo complementar ou ‘apenas motivacional’, e não como parte do processo de aprendizagem”, afirma Verônica Moreira. No entanto, ela ressalta que atividades bem planejadas podem contribuir para superar dificuldades e tornar o avanço dos conteúdos mais significativo.
“Quando o estudante percebe que consegue aprender, participar e se expressar, ele passa a se reconhecer como sujeito ativo no processo educativo.”
Tânia Nhary também chama atenção para concepções educacionais que associam aprendizagem à disciplina rígida e à passividade. “Quem entra na atmosfera lúdica se entrega por inteiro, e lá aprende muitas coisas, lida com diferentes sentimentos”, explica.
Na avaliação de Walber Costa, a falta de tempo para planejamento e a escassez de recursos didáticos também limitam a presença do lúdico nas escolas. “Esse conjunto de fatores evidencia que a dificuldade não está apenas na prática lúdica em si existir ou não, mas em uma estrutura institucional que muitas vezes não valoriza e reconhece o lúdico com respeito”, afirma.
Caminhos para uma escola mais inclusiva
Mais do que uma estratégia metodológica, a ludicidade vem sendo compreendida como parte de uma transformação mais ampla das práticas educacionais. Ao reconhecer o brincar como espaço legítimo de aprendizagem, convivência e construção de conhecimento, a escola amplia possibilidades de inclusão e se torna mais acolhedora e democrática.
Incorporar o lúdico aos processos de inclusão escolar significa transformar a aprendizagem em uma experiência mais participativa e colaborativa. Isso envolve adaptar materiais, reorganizar espaços e criar dinâmicas que valorizem as potencialidades de cada estudante. Entre as práticas possíveis estão jogos adaptados, materiais com texturas, pistas visuais e atividades multissensoriais. Brincadeiras cooperativas e atividades em grupo também contribuem para desenvolver comunicação, empatia e cooperação entre os estudantes. “Entendo que o primeiro passo é a conscientização da importância da ludicidade na vida do ser humano”, afirma Tânia Nhary. Segundo a pesquisadora, é necessário ampliar o debate sobre ludicidade na formação docente e fortalecer a produção acadêmica sobre o tema. (Figura 2)

Figura 2. O lúdico ajuda a reduzir medos e inseguranças frequentemente associados ao ensino tradicional de ciências.
(Foto: Prefeitura de São Paulo. Divulgação)
Além das resistências culturais, a incorporação de práticas lúdicas enfrenta obstáculos estruturais importantes. Falta de formação docente específica, escassez de materiais adaptados, ausência de espaços adequados e pouco apoio institucional dificultam a implementação de propostas inclusivas. “Os obstáculos são múltiplos e revelam questões estruturais importantes. Um dos principais desafios está na formação docente, que nem sempre prepara os professores para planejar e desenvolver práticas lúdicas com intencionalidade pedagógica”, afirma Andreia Machado. “É fundamental que a ludicidade seja incorporada de forma estruturante nas políticas educacionais, reconhecida como parte integrante do processo de ensino e aprendizagem”, conclui.
“O primeiro passo é a conscientização da importância da ludicidade na vida do ser humano.”
Para Walber Costa, a valorização da ludicidade depende diretamente de políticas públicas voltadas à formação docente e às condições de trabalho nas escolas. “É fundamental que as políticas públicas reconheçam o valor do lúdico e garantam investimentos contínuos em formação docente”, afirma.
Para Verônica Moreira, os desafios também refletem as condições de trabalho enfrentadas pelos professores. Currículos extensos, salas superlotadas, baixos salários e desgaste emocional impactam diretamente a adoção de práticas inovadoras. “A ludicidade, por ser mais demandante em termos de planejamento e gestão de sala, acaba ficando em segundo plano”, observa. Na avaliação de Verônica Moreira, também é necessário rever currículos excessivamente extensos e centrados na quantidade de conteúdos. “Uma reorganização que priorize competências essenciais abriria espaço real para metodologias mais ativas”, explica. Outro aspecto considerado fundamental diz respeito às condições de trabalho dos professores. “Embora práticas lúdicas não dependam necessariamente de tecnologia sofisticada, elas exigem materiais didáticos, espaços adequados e, principalmente, tempo e condições para preparação”, afirma Verônica Moreira.
Mais do que uma estratégia pedagógica, a ludicidade vem sendo compreendida como uma ferramenta essencial para a construção de uma educação mais inclusiva, democrática e acolhedora. Ao incorporar jogos, brincadeiras e atividades artísticas ao cotidiano escolar, a aprendizagem torna-se mais significativa, respeitando diferentes ritmos de desenvolvimento e ampliando as possibilidades de participação de todos os estudantes. O lúdico rompe barreiras de comunicação, fortalece vínculos afetivos e cria ambientes em que crianças com diferentes experiências, culturas ou deficiências podem interagir em condições mais igualitárias. Nesse processo, brincar deixa de ser apenas um momento recreativo e passa a ocupar um lugar central na construção do conhecimento, da socialização e do sentimento de pertencimento.


