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Entrevista capa Joice Ferreira

“Precisamos criar salvaguardas para que a bioeconomia seja socialmente justa”

Confira entrevista com Joice Ferreira, bióloga e pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental.

Entender a Amazônia exige muito mais do que estudar suas árvores, rios e espécies. É preciso compreender também as pessoas que vivem na floresta, os modos de vida que sustentam seus territórios e as relações entre biodiversidade, clima, economia e justiça social. Foi justamente esse caminho que marcou a trajetória da bióloga Joice Ferreira. Ao longo de mais de duas décadas de pesquisas na região, seu olhar evoluiu da ecologia dos ecossistemas para uma abordagem integrada dos sistemas socioecológicos amazônicos, na qual ciência, conservação e desenvolvimento caminham lado a lado. “Temos defendido usar o conceito ‘Sociobioeconomia’ para deixar claro que estamos falando da valorização da sociobiodiversidade”, afirma. Bióloga e pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA) e cofundadora da Rede Amazônia Sustentável (RAS), Joice Ferreira desenvolve pesquisas sobre usos da terra, resiliência das florestas, conservação e restauração de ecossistemas, biodiversidade e sistemas socioecológicos na Amazônia. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, a pesquisadora reflete sobre a capacidade de regeneração da Amazônia diante das mudanças climáticas, os desafios de transformar conhecimento científico em políticas públicas, o fortalecimento da sociobioeconomia e o papel das mulheres na construção de soluções para a crise ambiental. “As mulheres que lideram hoje certamente têm que pagar um preço alto para desviar dessa trajetória para a qual foram educadas.”

 

Ciência & Cultura – Você construiu sua trajetória científica a partir de duas décadas de pesquisa de campo na Amazônia Oriental. Como essa convivência prolongada com a floresta e com as comunidades locais transformou sua compreensão sobre sustentabilidade, ciência aplicada e os limites dos modelos tradicionais de desenvolvimento?

Joice Ferreira – Quando cheguei à Amazônia para meu primeiro trabalho de campo, em 2002, estava iniciando o doutorado em Ecologia, sob orientação da professora Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB). Naquela época, eu era muito movida pela magnitude biofísica da Amazônia, pelos seus processos ecológicos e pelo papel global dos ecossistemas amazônicos na regulação do clima. Vivíamos o auge do Programa LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), uma grande cooperação entre o governo brasileiro, os Estados Unidos e outros países. Meu trabalho consistia em realizar sondagens profundas do solo, com impulsos elétricos que alcançavam mais de 30 metros de profundidade, para compreender como a redução das chuvas afetava a vegetação. Era um grande experimento de exclusão de chuvas, conhecido como Seca Floresta, que cobriu um hectare de floresta com painéis plásticos e reuniu diversas instituições.

Naquele momento, meu olhar estava totalmente voltado para a vegetação, os solos e os organismos que compõem os ecossistemas. Até hoje me lembro da sensação de ver a floresta pela janela do avião e da primeira vez em que entrei na Floresta Nacional do Tapajós. Lembro do cheiro da mata, do encantamento diante do tamanho das árvores, dos macacos-aranha e de dormir embalada pelo som dos guaribas. Mas, desde essa primeira experiência, comecei a conviver com as pessoas da região. Os assistentes de campo eram moradores das comunidades locais, e passei a visitar outras comunidades próximas. Foi ali que comecei a ampliar minha perspectiva e olhar mais atentamente para quem vivia naquele território.

Quando entrei para a Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, em 2006, esse olhar se aprofundou ainda mais. Passei a compreender as pessoas como parte integrante daquele ambiente. A Embrapa tem uma atuação muito próxima do meio rural e tive a oportunidade de frequentar associações, sindicatos e cooperativas, convivendo com agricultores familiares, pecuaristas, produtores de soja e diversos outros atores. Essa experiência, tanto em Santarém quanto em outras regiões da Amazônia, revelou para mim a enorme complexidade da realidade amazônica. As desigualdades e assimetrias que vemos hoje não começaram nas décadas de 1960 ou 1970, mas remontam ao período da colonização europeia. Ao longo do tempo, diferentes problemas foram se acumulando até chegar ao cenário atual.

Meu entendimento hoje é que houve — e ainda há — uma tentativa de apagamento dos modos de vida tradicionais em favor de práticas consideradas “modernas” de uso intensivo da terra. Quando falo em práticas tradicionais, refiro-me especialmente aos modos indígenas de manejo do território. Esse modelo importado trouxe inúmeros problemas, enquanto os conhecimentos locais enfrentam enormes dificuldades para se manter. Ainda assim, eles resistem. E, se forem devidamente apoiados, podem apontar caminhos para uma trajetória mais sustentável na Amazônia.

 

“Meu entendimento atual é que houve e ainda há uma tentativa de apagamento dos meios de vida tradicionais em detrimento de práticas consideradas ‘modernas’ de uso intensivo da terra.”

 

 

C&C – Seu trabalho tem mostrado como mudanças no uso da terra afetam a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos e a resiliência das florestas. O que a ciência já sabe — e o que ainda subestima — sobre a capacidade de regeneração da Amazônia diante do desmatamento, das queimadas e das mudanças climáticas?

JF – Nos últimos anos avançamos muito na compreensão da resiliência e da capacidade de regeneração dos ecossistemas amazônicos, graças ao trabalho consistente de diversas redes de pesquisa e de pesquisadores que atuam na região. Hoje sabemos que, de forma geral, a capacidade de regeneração natural das florestas amazônicas ainda é elevada. Isso ocorre porque os principais usos da terra são relativamente recentes, em geral pouco intensivos, o clima ainda tem favorecido esse processo e, sobretudo, porque existem extensas áreas de floresta remanescente que funcionam como fonte de sementes e abrigo para a fauna responsável por sua dispersão. Também sabemos, porém, que essa capacidade varia muito entre as diferentes regiões da Amazônia. No nordeste do Pará, por exemplo, praticamente não restam florestas primárias. Já no sul do estado, as secas se tornaram mais severas em consequência do desmatamento. Temos ainda diversos estudos mostrando que, uma vez queimadas, as florestas perdem parte de sua resiliência e tornam-se cada vez mais suscetíveis a novos incêndios.

Ao mesmo tempo, existem importantes lacunas de conhecimento. A ciência conhece muito mais algumas regiões do que outras. Sabemos pouco sobre a capacidade de regeneração do oeste amazônico, onde as florestas permanecem mais conservadas. Também conhecemos pouco sobre os efeitos combinados de diferentes pressões, como secas, incêndios e exploração madeireira. E sabemos quase nada sobre como a regeneração responderá às condições climáticas futuras.

 

C&C – A Rede Amazônia Sustentável (RAS), o Centro CAPOEIRA e o Painel de Ciência pela Amazônia apostam na integração entre ciência, sociedade e políticas públicas. Quais são os principais desafios para transformar evidências científicas sobre a Amazônia em decisões concretas, especialmente em um contexto de pressões econômicas e interesses conflitantes?

JF – Nessas redes, nossa preocupação vai muito além da produção de artigos científicos voltados ao público acadêmico. Nosso objetivo é contribuir para transformar realidades rumo a uma Amazônia mais sustentável. Isso exige um trabalho muito mais longo e desafiador do que a pesquisa acadêmica tradicional. Na Rede Amazônia Sustentável, por exemplo, buscamos manter um diálogo contínuo com tomadores de decisão, o que demanda participação em fóruns, comitês técnicos e grupos de trabalho ligados ao Ministério do Meio Ambiente e às secretarias estaduais. No Centro CAPOEIRA, estamos implantando Laboratórios Vivos junto às comunidades locais. São espaços de cocriação e experimentação liderados pelas próprias comunidades. Nosso papel é apoiar sua construção, mas nossa expectativa é que esses espaços sejam futuramente geridos pelos próprios moradores. Neste momento, estamos elaborando regimentos, processos de formação e mecanismos de governança. No Painel de Ciência pela Amazônia, há um esforço permanente para levar as evidências científicas aos espaços de tomada de decisão, como as Conferências das Partes (COPs) e as Semanas do Clima.

Esse caminho exige tempo para construir relações de confiança, produzir materiais em diferentes linguagens e manter um diálogo contínuo com diferentes públicos. É um trabalho adicional que, na maioria das vezes, não é reconhecido pelos órgãos de fomento. Além disso, os financiamentos costumam ser de curta duração e incompatíveis com relações de longo prazo. Em geral, apoiam apenas a pesquisa ou apenas a implementação, raramente permitindo integrar as duas dimensões em um mesmo projeto. Esse é apenas um dos muitos desafios que enfrentamos para aproximar ciência, sociedade e políticas públicas.

 

 

“Nosso objetivo é contribuir para transformar realidades rumo a maior sustentabilidade na Amazônia.”

 

 

C&C – No relatório do SPA, você atua diretamente na discussão sobre bioeconomia e restauração de ecossistemas. Que tipo de bioeconomia faz sentido para a Amazônia em um cenário de crise climática? E como evitar que esse conceito seja esvaziado ou apropriado de forma pouco sustentável?

JF – Essa é uma discussão incontornável na atualidade. A agenda da bioeconomia surgiu no Norte Global, principalmente como uma estratégia para reduzir o uso de combustíveis fósseis. Quando esse debate chegou ao Sul Global, especialmente à América Latina, tornou-se evidente a necessidade de ressignificar esse conceito. Temos promovido uma série de discussões sobre qual bioeconomia faz sentido para a Amazônia. Diversos pesquisadores já publicaram trabalhos refletindo justamente sobre essa questão.

Em ecossistemas tão sensíveis do ponto de vista da biodiversidade e da presença de povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas, precisamos ir muito além da agenda climática relacionada apenas à substituição dos combustíveis fósseis. É fundamental criar salvaguardas para que a bioeconomia seja socialmente justa, baseada na conservação e na restauração dos ecossistemas e comprometida com a proteção da biodiversidade. Por isso, temos defendido o uso do conceito de “sociobioeconomia”, para deixar claro que estamos falando de algo ainda mais específico: a valorização da sociobiodiversidade. Essa distinção é importante porque uma mesma cadeia produtiva pode gerar resultados completamente diferentes. O açaí é um bom exemplo. Os impactos são muito distintos quando a produção é realizada por comunidades locais, utilizando práticas tradicionais de manejo, mantendo a diversidade da floresta e fortalecendo sua organização social e o processamento local da produção. Em contrapartida, há modelos intensivos baseados em áreas desmatadas, que pouco contribuem para a conservação da floresta e não fortalecem o protagonismo das comunidades.

 

C&C – Ao longo da sua carreira, você tem ocupado espaços de liderança científica em um campo historicamente masculinizado e marcado por disputas territoriais e políticas. Como é ser mulher fazendo ciência na Amazônia, tanto no laboratório quanto no campo? Que obstáculos e potências essa posição traz?

JF – Ainda sentimos a falta de uma estrutura institucional capaz de amparar as mulheres. Existe uma sobrecarga constante decorrente da combinação entre trabalho doméstico, cuidado com os filhos e carreira acadêmica. Essa carga é significativa e, ao mesmo tempo, as exigências para que uma mulher seja reconhecida como igualmente competente em relação a um homem costumam ser ainda maiores. Na nossa área, essas barreiras aparecem desde o início da carreira e se tornam especialmente evidentes durante os trabalhos de campo, sobretudo nas áreas rurais. Mas talvez o maior desafio seja a cobrança interna, resultado das estruturas sociais nas quais fomos educadas desde a infância. Muitas mulheres da minha geração não foram ensinadas para ocupar espaços de liderança, mas para obedecer. Isso continua refletindo na forma como nos posicionamos profissionalmente.

As mulheres que hoje ocupam posições de liderança, muitas vezes, precisam pagar um preço alto para romper com essa trajetória. Aprender a dizer “não”, quando se passou a vida inteira sendo incentivada a dizer “sim” e a ser considerada uma “boa menina”, parece algo simples, mas envolve um processo muito profundo. Felizmente, sinto que hoje posso criar minha filha de uma maneira completamente diferente. Ao mesmo tempo, acredito que as mulheres desenvolveram, ao longo de suas trajetórias, capacidades muito importantes para enfrentar os desafios atuais. Frequentemente fomos estimuladas a lidar com múltiplas tarefas, desenvolver pensamentos complexos e agir com sensibilidade em relação às pessoas. Naturalmente, isso não pode significar mais sobrecarga. Mas acredito que essas capacidades representam uma contribuição muito relevante para os espaços de diálogo e negociação que caracterizam os conflitos socioambientais contemporâneos. A percepção ampliada, a capacidade de realizar análises complexas, a intuição e a construção de consensos podem ser fundamentais diante de problemas tão desafiadores.

 

 

“As crises climáticas e de biodiversidade têm em sua essência mais profunda a disputa por poder, desigualdade social, a falta de empatia e de visão de longo prazo.”

 

 

C&C – Pensando no futuro da floresta e da ciência brasileira, que papel você acredita que as mulheres cientistas podem desempenhar na construção de soluções para a crise climática? E que mensagem deixaria para jovens pesquisadoras que desejam trabalhar com Amazônia, conservação e justiça socioambiental?

JF – As crises climática e da biodiversidade têm, em sua essência mais profunda, questões relacionadas à disputa por poder, às desigualdades sociais, à falta de empatia e à ausência de uma visão de longo prazo. Acredito que as mulheres cientistas podem ter uma capacidade particularmente aguçada para reconhecer essas dimensões mais profundas dos problemas e contribuir, com sensibilidade, para os espaços de diálogo e de tomada de decisão que buscam transformar essa realidade. Às jovens pesquisadoras que desejam trabalhar com os desafios socioambientais da Amazônia, eu recomendaria que buscassem viver o máximo possível de experiências para além da academia. Nas oportunidades de estágio e orientação, procurem pessoas alinhadas às visões de mundo que vocês desejam construir. Também é importante não deixar passar oportunidades de convivência com as comunidades locais. É nessas experiências que conhecemos de perto tanto suas potencialidades quanto os desafios que enfrentam. Da mesma forma, participar de grupos de jovens, de coletivos de mulheres e de fóruns nacionais e internacionais pode ser extremamente enriquecedor. Esses espaços reúnem diferentes atores envolvidos tanto nos problemas quanto nas soluções e permitem compreender melhor as realidades locais, construir um olhar próprio e desenvolver formas de atuação mais sensíveis e efetivas diante da complexidade da Amazônia.

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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