No Jardim Ângela, bairro que fica na zona sudoeste de São Paulo, crianças do sétimo ano do ensino fundamental da EMEI Parque Bologne colocam coletes laranjas e se preparam para uma excursão. O destino é o próprio bairro. O comércio local, o ponto de ônibus, o parque ali do lado. Chamado “Conhecendo minha quebrada”, o projeto educacional que idealiza esses passeios, concebido pelas professoras Renata Moura e Naiany Costa, mal sabe, mas utiliza uma linha de estudos acadêmicos para explorar conceitos de memória e pertencimento. (Figura 1)

Figura 1. Crianças do ensino fundamental da EMEI Parque Bologne exploram o próprio bairro em projeto educacional.
(Foto. EMEI Parque Bologne. Reprodução)
A ideia em questão é tirar o ensino da sala de aula e explorar os chamados espaços não formais da educação. Esses espaços podem ser locais construídos para a aprendizagem, como museus, mas também instalações pensadas para outras funções. Será que o aprendizado tem a ver com o local onde ele é dado?
Para Ivanise Maria Rizzatti, sim. Professora da Universidade Estadual de Roraima (UERR) e da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a pesquisadora atua especificamente em pesquisas e em programas de pós-graduação que foquem no ensino de ciências e matemática. A formação de professores é uma das suas principais frentes, envolvendo também parcerias com instituições como a Universidade Federal do Acre (Ufac) e a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) e se dedicando a doutores que irão atuar especificamente na região da Amazônia Legal.
Como veio da área de conhecimento da Química, Ivanise Rizzatti já tinha uma familiaridade com os espaços não formais de educação, até porque realizou muitas atividades de campo. Mas ao mudar de Santa Catarina para Roraima, e ao atuar na nova região, foi que se debruçou em literaturas e estudos sobre espaços não formais, passando não só a refletir acerca das práticas educacionais na pós-graduação, como também na educação básica. “A gente tem desenvolvido pesquisas em praças públicas, já fizemos estudos em áreas de preservação permanente, como um rio e um igarapé, que são realidades muito locais aqui de Roraima. Também atuamos em um museu integrado, em zoológico, centros comunitários e em áreas dentro de comunidades indígenas e ribeirinhas. Além disso, olhamos para áreas verdes de escolas. Sempre pensando em espaços fora do sistema tradicional de educação”, revela.
O objetivo dos trabalhos de Ivanise Rizzatti e os demais pesquisadores é pensar o desenvolvimento de atividades planejadas, estruturadas e educativas, e que terão, ao mesmo tempo, um caráter prático e social. A pesquisadora detalha que o ensino em espaços não formais busca o desenvolvimento de cidadania e inclusão, principalmente de grupos marginalizados, além de trazer uma aprendizagem mais contextualizada com a realidade dos estudantes. “Quando a gente pensa nesses espaços educativos, a gente tem sempre que pensar como esse espaço vai contribuir com o processo de aprendizagem. Então, nessa direção, um papel muito importante é o do professor. O professor precisa compreender e conhecer aquele espaço e entender como ele pode utilizar o espaço para relacionar com o conhecimento ou com o componente curricular que ele está ministrando em sala de aula.”
“Quando a gente pensa nesses espaços educativos, a gente tem sempre que pensar como esse espaço vai contribuir com o processo de aprendizagem.”
Uma das pesquisas mais recentes defendida por uma orientanda de Ivanise Rizzatti foi exatamente sobre a exploração de espaços não formais para a educação. “Ela é uma professora que atua em uma escola indígena e próximo dessa escola há um sítio, que ainda não foi classificado como sítio arqueológico, mas que tem inscrições rupestres. A gente mapeou esse espaço, verificou o potencial dele e avaliou que conteúdos de química poderíamos abordar a partir das inscrições rupestres. Depois fizemos toda uma sequência de atividades, levamos os estudantes para conhecerem esse espaço, e a partir dali fomos abordando os conteúdos educacionais”, detalha.
A professora e pesquisadora explica que muitos espaços cotidianos das cidades conseguem se tornar cenários da Educação, como estações de tratamento de água e esgoto e também feiras de produtores rurais, o que pode gerar debates sobre desperdício de alimentos, conscientização ambiental, mudanças climáticas, uso de agrotóxicos, entre outros temas. (Figura 2)

Figura 2. Visita a parques, museus, bibliotecas e mesmo cenários cotidianos podem gerar ricos debates na sala de aula.
(Foto: Prefeitura Municipal de Sorocaba. Reprodução)
A utilização de cenários característicos de territórios nas salas de aulas também tem outra vertente positiva: gera pertencimento, porque o estudante passa a entender a realidade em que vive e também passa a defendê-la. “Aqui em Roraima nós temos um bioma chamado Lavrado. Ele é muito parecido com o Cerrado, só que ele tem algumas características fito-fisiologicamente diferentes. É uma região que, quando você olha no mapa, parece que ela está desmatada, mas não, é uma característica dela. E aí uma das minhas alunas desenvolveu uma dissertação focada em estruturar um material auxiliar aos professores dos anos iniciais do ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano, para poderem usar em sala de aula e que falasse sobre o Lavrado, porque os livros didáticos não trazem nada sobre”, conta Ivanise Rizzatti.
Durante a pesquisa, as autoras pediram para que as crianças e jovens marcassem o que eles achavam que era nativo do Lavrado, como árvores e animais. O resultado gerou uma surpresa porque até espécies que nunca pisaram na região, como elefantes e zebras, apareceram. “Por que esse resultado? Porque isso é o que tem nos livros didáticos. O livro didático não vai trazer o tamanduá, não vai trazer o buriti, não vai trazer alguns elementos que estão dentro do local onde a escola está e onde esses estudantes moram. A gente os levou para um igarapé, um espaço de Lavrado, e discutimos com eles a fauna e a flora para eles entenderem o que está dentro daquele espaço. E aí foi muito interessante que, ao final da pesquisa, esses estudantes mudaram o olhar para o espaço onde eles estavam inseridos, eles não viam mais como lugar que tinha sido desmatado, mas sim como a característica desse local. E começaram a discutir questões como: ‘ah, a gente já não pode mais jogar resíduos plásticos lá no igarapé, porque isso vai impactar o ambiente’, e assim por diante.”
Pertencer e profissionalizar
Para além do pertencimento, é a profissionalização que mobiliza os trabalhos fora da sala de aula de Keila Lima Sanches, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB – Brasília). Na instituição, ela é responsável por desde jovens do ensino médio profissionalizante até estudantes da graduação e da pós-graduação. “Temos muitas atividades práticas, como visitas técnicas. A gente fala sobre coisas do cotidiano em que determinada ciência básica é aplicada, e os espaços não formais acabam sendo um complemento muito importante na vida dos estudantes porque trazem aplicações de conhecimentos de base”, explica a professora.
“A gente fala sobre coisas do cotidiano em que determinada ciência básica é aplicada, e os espaços não formais acabam sendo um complemento muito importante na vida dos estudantes porque trazem aplicações de conhecimentos de base.”
Engenheira florestal e atuante na cadeia de tecnologia de materiais, Keila Sanches costuma levar seus alunos para visitas em empresas metalúrgicas, madeireiras e também a CasaCor, uma feira de arquitetura e design de interiores e paisagismo. “O curso que a gente tem que integrar com o ensino médio é de design de móveis. Então, quando tem um evento CasaCor, ele é voltado para os designs e muito relacionado ao mobiliário. O aluno vê aquilo que a gente fala em sala de aula, o resultado na ponta para o consumidor, além de entrar em contato com o empresariado.”
Keila Sanches, inclusive, elogia o método de ensino dos Institutos Federais e da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, que integra essas instituições. Criada em 2008, a também conhecida como Rede Federal nasceu com o propósito de integrar ensino profissionalizante com vocações locais. “Eu acho que os Institutos trazem para o aluno uma abertura holística. Por quê? Porque eles saem daquele conhecimento tradicional, convencional, com métodos muitas vezes antigos”, explica.
Na prática, a Rede Federal inicia seu sistema educacional com estudantes do ensino médio, que estão próximos a decidir qual caminho profissional desejam seguir. A pesquisadora detalha que, mesmo atuando nesse contexto de mercado, os alunos não são formados para atender demandas mercadológicas, ao contrário, eles são questionados a entender seus papéis na sociedade – nesse sentido, os espaços não formais ajudam na formação de pensamentos e conhecimentos. “Se você traz para o aluno uma leitura de mundo, aquilo que ele vivencia no cotidiano, ou seja, exemplos que estão próximos dele e o contato com coisas que estão ao redor dele, ele vai entender muito mais facilmente um conhecimento de base. Ele vai saber para que que ele precisa daquilo. Por mais que ele não vá usar especificamente aquele conhecimento, mas ele vai saber para quê está aprendendo.”
Por mais que seja uma política que estimula o ensino em espaços não formais, a Rede Federal sofreu, nos últimos governos, com descontinuidade de recursos e infraestrutura, o que afetou diretamente a sua qualidade de ensino. “Quando a gente tem interrupção desse programa e, depois, sua retomada, você tem que retomar tudo do zero, porque houve sucateamento. Então, você tem que reinvestir para que possa atingir aquilo que já teve em um determinado momento, antes de expandir para novas coisas, com investimentos novos. E aí qual é a dificuldade? Existe muito fomento federal, mas as parcerias estaduais e municipais dificultam muito”, pondera Keila Sanches.
Segundo a professora e pesquisadora, as políticas educacionais acabam sendo alvo de disputa de governantes, que muitas vezes não atuam em conjunto. Essa desunião afeta, essencialmente, a própria política. “Existe uma competição muito grande por conta de aspectos partidários. Por exemplo, o fato do governo federal estar com um partido político e o estado estar com outro partido gera sabotagem. E aí a política pública não chega a quem deveria chegar, que é o aluno.”
Práticas de educação e ludicidade
Saindo da realidade dos Institutos Federais, as práticas de educação em espaços não formais encontram outros obstáculos. A utilização da realidade externa e a aproximação dela com as bases curriculares é algo enraizado nas diretrizes educacionais do Brasil. Publicada e homologada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) coloca a valorização e o uso dos conhecimentos construídos sobre a visão do mundo físico, social, cultural e digital para o entendimento e a explicação da realidade como a primeira das 10 competências gerais da educação básica, entretanto, o mesmo documento não cita nominalmente nada que gerencie, estimule ou reconheça o uso dos espaços não formais.
O mesmo acontece no atual Plano Nacional da Educação (PNE), institucionalizado na lei nº 15.388/2026 e que direciona as políticas educacionais em três âmbitos – federal, estadual e municipal – do período de 2026 a 2036.
“Se você traz para o aluno uma leitura de mundo, aquilo que ele vivencia no cotidiano, ele vai entender muito mais facilmente um conhecimento de base.”
Dividido em metas e estratégias, o PNE tem, em diversos momentos, orientações que se enquadram à educação em espaços não formais, como “garantir o acesso a uma variedade de recursos que possibilitem a ampla participação das crianças, como brinquedos, livros, materiais pedagógicos, áreas de contato com a natureza e áreas externas e internas devidamente organizadas” (Estratégia 2.5), “adaptar, no âmbito dos sistemas de ensino, o currículo e o calendário escolar, de acordo com a realidade, a identidade cultural, as condições climáticas da região e as necessidades dos estudantes” (Estratégia 4.7) ou “otimizar e promover o efetivo aproveitamento do tempo de permanência na escola durante jornada expandida, com o objetivo de alcançar o desenvolvimento integral dos estudantes, por meio da mobilização e integração entre diferentes espaços, instituições sociais e tempos educativos e da diversificação das experiências e interações sociais” (Estratégia 6.3). Mas, além de não haver metas específicas para o ensino fora das salas de aula, a própria expressão ‘espaços não formais’ sequer aparece no documento.
Os espaços não formais também costumam oferecer uma dimensão lúdica que nem sempre encontra lugar nas práticas tradicionais de ensino. Em museus, parques, centros de ciências e outros ambientes educativos, o conhecimento frequentemente é construído por meio da exploração, da interação e da experimentação. Ao participar de jogos, desafios ou atividades práticas, os estudantes são convidados a investigar fenômenos, formular perguntas e buscar respostas de maneira ativa, transformando a aprendizagem em uma experiência mais envolvente e significativa.
Para a professora Ivanise Rizzatti, o estímulo à educação fora das salas de aula ainda não existe. “É muito difícil. Primeiramente porque você precisa de recurso financeiro, né? Quando a gente olha a BNCC, mesmo com críticas que há a ela, ela fala da necessidade de diferentes espaços educativos. Mas quando você vai para a realidade das escolas, muitas vezes isso não se concretiza. Se o professor quer levar o estudante para uma praça, para um parque ou para um museu, e esse local fica longe da escola, ele precisa articular com o gestor da instituição um transporte público que muitas vezes não vem, fora que tem todo um processo de responsabilidade ao tirar os estudantes da escola. Mas eu também não sou uma pessoa negativa, a gente já tem visto várias escolas que, por iniciativas próprias, tornaram os espaços não formais como parte de suas atividades.”
Ivanise Rizzatti também cita como positivo o programa Mais Ciência na Escola, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Criado em 2024, o programa constrói laboratórios maker, que estimulam a cultura do ‘faça você mesmo’, dentro de escolas públicas. Além disso, ele fornece bolsas para estudantes e professores operarem esses espaços. “A gente observa que o Mais Ciência na Escola e outros projetos do Governo Federal são super importantes, e estão discutindo e trazendo uma autonomia para as escolas, mas quando pensamos ainda nos espaços não formais, ainda há uma dificuldade, principalmente financeira”, complementa.
Hoje, estima-se que os investimentos em Educação no Brasil equivalem a cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Para o PNE, esse investimento é insuficiente. O Plano estimula metas gradativas de aumento orçamentário no setor: em sete anos, os investimentos em Educação precisam chegar a 7,5% do PIB e, após uma década, eles devem ser de 10%.
Nessa crescente dos debates das políticas educacionais, Ivanise Rizzatti espera que surjam políticas específicas que reconheçam os espaços não formais. “É super importante a gente ter essas políticas, porque é uma forma da gente integrar a educação não formal ao currículo escolar de um jeito mais estruturado.”


