Ciência, inclusão e soberania tecnológica deram o tom da cerimônia de abertura da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada nesse domingo (26), em Niterói (RJ). O evento reuniu autoridades, pesquisadores e representantes de instituições de ensino e reafirmou o papel estratégico da pesquisa científica para enfrentar os desafios nacionais, fortalecer a democracia e ampliar a capacidade do Brasil de construir soluções para o próprio futuro.
Discursando para uma plateia de mais de 700 pessoas, a presidente da SBPC, Francilene Garcia, destacou o fato de, pela primeira vez, Niterói receber esta Reunião que é a maior de ciência em toda a América Latina, e acontece sem interrupções desde 1949. “É uma cidade que fez da ciência um método de governo, que decide políticas públicas com base em evidências e monitora os resultados.” O tema, “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, segundo ela, não é um slogan: é um projeto de país.
Francilene Garcia notou também que a maior parte das atividades se darão no campus Gragoatá, cujo nome faz menção aos povos originários que primeiro habitaram a área, resumindo as belezas e os desafios do País, as desigualdades que precisamos reconhecer e enfrentar. Citando Milton Santos, grande homenageado desta 78ª edição, ela lembrou que ele avisou que os países mantidos na periferia se tornam meros fornecedores de matéria-prima. “O alerta nunca foi tão atual”, disse ela sobre riquezas minerais e moleculares. “Seremos exportadores de matéria bruta ou produtores de conhecimento? É o que vamos discutir nesta semana.” Para a presidente da SBPC, a desigualdade não é uma fatalidade, é uma construção política. E “o que foi feito com escolhas pode ser desfeito com escolhas”.
Nesse contexto, é especialmente oportuna a presença anunciada do presidente Lula na Reunião Anual nesta terça-feira, sinalizando o reconhecimento de que não há avanço nacional sem ciência. A equipe da SBPC e a comunidade científica, disse a presidente, trabalharam por meses no documento “Vozes da Ciência: O Brasil que queremos”, que será entregue ao chefe de Estado assim como a outros políticos e gestores da ciência.
Anfitriã do evento, a Universidade Federal Fluminense (UFF) teve seu papel destacado como referência na produção científica nacional. O reitor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega ressaltou que as universidades públicas brasileiras conciliam excelência acadêmica e inclusão social, enfatizando que a diversidade fortalece a produção do conhecimento e amplia a capacidade de enfrentar os problemas do país. “O processo de inclusão é um processo de enriquecimento da capacidade de produzir conhecimento e de produzir soluções. Com a população negra, o protagonismo das mulheres e dos povos originários, nós enriquecemos a capacidade de olhar para a realidade e, com isso, ampliamos nossa capacidade”, afirmou.
O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, destacou os investimentos do município em educação, ciência e preservação do patrimônio histórico. “Niterói é uma cidade que acredita muito na ciência, acredita muito na educação e na preservação do patrimônio histórico. Essa cidade construiu histórias extraordinárias junto com a ciência brasileira”, afirmou. O prefeito também lembrou a participação da cidade em pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de vacinas durante a pandemia de covid-19, defendendo que investimentos em conhecimento e inovação são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, reforçou a necessidade de consolidar a reconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia após anos de restrições orçamentárias. Segundo ela, a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação orientará as políticas públicas da próxima década, priorizando a valorização da pesquisa, a formação e fixação de talentos e o fortalecimento das universidades e centros de pesquisa.
Em seu discurso, a ministra afirmou que “um país que domina a ciência escreve o próprio destino” e defendeu a soberania tecnológica diante das disputas globais envolvendo inteligência artificial, semicondutores, plataformas digitais e outras tecnologias estratégicas. Ela também destacou que a ciência precisa chegar ao cotidiano da população, contribuindo para áreas como saúde, agricultura, mobilidade, prevenção de desastres e redução das desigualdades.
Luciana Santos ressaltou ainda o papel histórico da SBPC na defesa da democracia, das universidades públicas e do enfrentamento ao negacionismo científico. “A SBPC é muito mais que uma entidade científica. É uma instituição que ajudou a construir o Brasil democrático, que sempre defendeu a ciência e protege as universidades quando elas são atacadas. Enfrentou o negacionismo e sempre pautou o debate sobre o desenvolvimento soberano do Brasil”, enfatizou.
Homenagens
Um dos momentos mais marcantes da solenidade foi a homenagem ao patrono desta edição, o geógrafo Milton Santos (1926–2001), um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre urbanização e globalização, o pesquisador recebeu diversas distinções ao longo da carreira, entre elas o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”. Sua trajetória foi lembrada como exemplo de pensamento crítico e do compromisso da ciência com a transformação social.
A cerimônia também homenageou outros três pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.
Na área de Ciências Biológicas, a engenheira agrônoma e microbiologista Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa e primeira brasileira a receber o World Food Prize, destacou que os insumos biológicos colocaram o Brasil na liderança mundial da agricultura sustentável. “Graças a isso, hoje nós temos a liderança mundial no uso de biológicos na agricultura e podemos crescer muito mais”, disse. A pesquisadora afirmou que dedicou sua carreira ao combate à fome e ressaltou a importância do investimento contínuo no ensino e na pesquisa públicos, e que é preciso dar mais visibilidade ao papel das mulheres na segurança alimentar nutricional da população. “Elas cuidam de hortas, passam saberes de mãe para filha, são merendeiras”, exemplificou.
Na área de Ciências Exatas e Tecnológicas, o químico e professor emérito da UFF Vitor Francisco Ferreira chamou atenção para a necessidade de investir nas novas gerações. Segundo ele, garantir educação e saúde de qualidade às crianças brasileiras é condição essencial para formar os cientistas do futuro. “Nós estamos falando hoje em soberania, mas esse é o futuro do Brasil: são as crianças — todas as crianças deste Brasil, das aldeias indígenas aos povos mais vulneráveis — porque serão elas que estarão sentadas neste auditório daqui a alguns anos”, afirmou ele, que teve destaque em sua carreira na descoberta de moléculas capazes de combater males como câncer e doença de Chagas.
Já na área de Humanidades, o antropólogo Otávio Velho foi homenageado por sua contribuição à antropologia brasileira e à formação de pesquisadores. Sem poder comparecer por motivos de saúde, foi representado pelo físico e ex-presidente da SBPC Ildeu de Castro Moreira, que destacou sua longa trajetória dedicada à ciência brasileira e à própria Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
Ciência, questão de Estado
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, não pôde comparecer e enviou uma declaração em vídeo, felicitando a organização pela escolha do tema da reunião — “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão” —, destacando a consonância com a visão do governo. “Fazemos políticas públicas com base em evidência para fazer frente ao processo regressivo que ameaça a ciência e os recursos naturais”, afirmou. Em sua área, ressaltou a importância do conhecimento científico como suporte para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Vinicius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), ecoou a noção de que defender a ciência hoje equivale a defender a soberania e a democracia. Ele celebrou a recente conquista de direitos previdenciários como apoio essencial para a formação de novos pesquisadores e pediu dois compromissos à comunidade científica: a construção de um grande plano nacional de ciência, defesa e cultura que proteja contra tentativas de fragmentação da sociedade, e a resistência a interferências por agentes externos. “Precisamos decidir qual é o Brasil que queremos: um que produz conhecimento, ou que depende do que é produzido pelos outros”, encerrou.
O Secretário-Executivo do Ministério da Educação (MEC), Rodolfo de Carvalho Cabral, esteve presente representando o ministro Leonardo Barchini. Ele ressaltou o papel da SBPC na produção de conhecimento e na educação, promovendo políticas públicas que ajudam a combater a desigualdade. Afirmou também o foco do governo em recompor o orçamento das universidades federais e valorizar as bolsas e agências de fomento, buscando reduzir as desigualdades regionais e de gênero. “Queremos construir um Brasil em que a ciência esteja mais perto das pessoas e seja prioridade”, disse.
A Reunião Anual quer atingir a todos, incluindo os jovens e as crianças, e por isso transborda para a cidade com uma série de atividades científicas e culturais. O próximo sábado será o Dia da Família na Ciência.
Chris Bueno e Maria Guimarães – Jornal da Ciência


