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O Jogo da Imitação

Sobre diferenças e máquinas que podem pensar

Seria possível, por meio de uma conversa escrita, distinguir se estamos falando com uma máquina ou um ser humano? Uma forma de responder a essa questão, que ganhou novas dimensões com a popularização da Inteligência Artificial (IA), foi proposta, já nos anos 1950, pelo matemático e cientista da computação Alan Turing, cuja história é retratada no filme biográfico O Jogo da Imitação.

Baseada no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges, a obra, lançada em 2014, percorre a vida e a carreira de uma das principais mentes por trás do desenvolvimento da computação moderna. O roteiro é assinado por Graham Moore e se desenvolve em três linhas do tempo — a infância de Turing, seu trabalho na base militar de Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial e sua vida no pós-guerra. As consequências dos fatos narrados, no entanto, quebram as paredes da ficção e se relacionam a uma quarta linha do tempo: a atualidade.

Figura 1. Diamond Films. Divulgação.

 

Retratado como alguém extremamente racional, obstinado e pouco disposto a seguir convenções, o filme ilustra como o cientista britânico empregou sua personalidade persistente durante a criação de uma máquina, batizada por ele — ao menos, na ficção — de Christopher. O equipamento tinha a arriscada missão de decifrar códigos nazistas usados na comunicação durante a guerra. O jovem cientista, interpretado por Benedict Cumberbatch, precisa enfrentar as limitações impostas pelos superiores antes de triunfar na criação do que, inicialmente, parecia uma aposta improvável, mas acaba se tornando bem mais do que um instrumento usado para superar o sistema indecifrável alemão.

Ao automatizar um processo de raciocínio que vinha desafiando, há meses, a inteligência humana, Turing dissolve uma barreira que antes separava a tecnologia da humanidade. Se uma máquina é capaz de resolver problemas, reconhecer padrões e produzir resultados que, antes, dependiam exclusivamente do raciocínio humano, quais são os limites que diferenciam seu funcionamento mecânico do pensamento?

 

“Ao automatizar um processo de raciocínio que vinha desafiando, há meses, a inteligência humana, Turing dissolve uma barreira que antes separava a tecnologia da humanidade.”

 

Para isso refletir sobre, propõe um teste — cujo título dá nome ao filme. No Jogo da Imitação, três participantes devem estar em salas isoladas e se comunicar apenas por meio de textos. Um deles deve atuar como juiz, enquanto os outros dois, um humano e um computador, devem manter uma conversa. Cabe ao juiz analisar as respostas e determinar qual dos participantes é uma máquina e qual é um ser humano. Algumas versões propõem que, se, após 5 minutos de interação, o juiz for enganado ao menos 30% das vezes, a máquina passa no teste.

 

Limites e desafios

Os limites do teste de Turing têm sido desafiados pelas novas tecnologias de IA. Um artigo publicado pela Universidade da Califórnia em San Diego no início de 2025 submete diversos modelos de linguagem ao Jogo da Imitação. Entre eles, o Chat GPT-4.5, da OpenAI, foi julgado como humano em 73% das vezes — uma frequência maior que sua dupla humana. Se a hipótese de Turing estiver correta, pode-se dizer que essa tecnologia, envolta por seus algoritmos e treinada por milhões de dados, é capaz de “pensar”?

Figura 2. Diamond Films. Divulgação.

 

Durante o filme, ao explicar o jogo a um investigador, o personagem de Turing ressalta que o intuito de seu teste não é igualar o pensamento digital ao humano. Ele também não debate o que é, em essência, o pensamento. Mas, para ele, se não é possível distinguir entre a máquina e o humano, também não há base para dizer que humanos podem pensar e máquinas, não: “uma máquina é diferente de uma pessoa; logo, elas pensam diferente. A pergunta interessante é: “Só porque algo pensa diferente de você, quer dizer que não está pensando?”.

 

Máquinas e humanos

Enquanto o pesquisador britânico questionava as fronteiras entre máquinas e humanos, o filme mostra que também precisou pôr em xeque cercas fincadas entre os próprios humanos. Para ter a colaboração de Joan Clarke, matemática e criptoanalista interpretada por Keira Knightley, que se tornou uma de suas principais aliadas na concepção de Christopher, foi de encontro a uma sociedade machista que sequer pretendia permitir que ela se candidatasse à vaga. Recorreu a artimanhas para possibilitar que a colega ficasse na cidade a trabalho sem o julgamento de seus pais, que temiam sua estadia em um local dominado por homens, e, posteriormente, pediu sua mão em casamento como forma de protegê-la das expectativas impostas às mulheres solteiras da época.

 

“Só por que algo pensa diferente de você, quer dizer que não está pensando?”

 

Sua própria existência também trouxe à tona outras barreiras. A obra mostra como sua personalidade excêntrica e rígida, somada à homofobia de uma sociedade em que relações entre homens eram criminalizadas, dificultou sua aceitação na base militar, na escola e na vida cotidiana pós-guerra. Investigado por sua orientação sexual anos após contribuir para a vitória britânica na Segunda Guerra Mundial, Turing foi condenado e submetido à castração química forçada como alternativa à prisão. O tratamento hormonal deixou fortes marcas físicas e mentais, retratadas no filme durante uma visita de Joan, levando-o a desenvolver uma forte depressão e, anos depois, ao suicídio.

Mais do que narrar a vida e a carreira de um dos nomes mais importantes para a computação e para os esforços britânicos durante a Segunda Guerra, a história de O Jogo da Imitação propõe uma reflexão sobre as diferenças. Talvez a grande pergunta atual não seja mais se as máquinas são capazes de pensar, mas por que continuamos tentando fazer com que pensem de forma cada vez mais parecida com os humanos, simulando trejeitos, maneirismos e, por meio de algoritmos, até mesmo sentimentos. Nas palavras do personagem principal: “nós somos diferentes; se podemos dizer isso de nós mesmos, por que não podemos dizer o mesmo para cérebros feitos de metal e cobre?”.

 

Capa. Diamond Films. Divulgação.

 

The Imitation Game, 2014

Direção: Morten Tyldum, com roteiro de Graham Moore

Baseado no livro biográfico “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges

Trilha sonora: Alexandre Desplat

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Bianca Bosso

Bianca Bosso

Bianca Bosso é especialista em Jornalismo Científico e bacharela em Ciências Biológicas (Unicamp). Atualmente, cursa especialização em Divulgação Científica em Saúde (ESIB). Iniciou sua trajetória na área em 2018 e é autora de textos publicados em diversos veículos, como as revistas Ciência & Cultura, ComCiência e Ciência Hoje, além de sites como Agência FAPESP, Bori, Jornal da Unicamp, Jornal da USP e Portal Campinas Inovadora.
Bianca Bosso é especialista em Jornalismo Científico e bacharela em Ciências Biológicas (Unicamp). Atualmente, cursa especialização em Divulgação Científica em Saúde (ESIB). Iniciou sua trajetória na área em 2018 e é autora de textos publicados em diversos veículos, como as revistas Ciência & Cultura, ComCiência e Ciência Hoje, além de sites como Agência FAPESP, Bori, Jornal da…
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