No dia 2 de janeiro de 2002, o prefeito Boadyr Veloso, da cidade de Goiás, a 130 quilômetros de Goiânia, decretava estado de calamidade após 15 horas de chuva intensa devastarem o centro histórico da cidade. Menos de um mês antes, o município havia sido declarado patrimônio histórico da humanidade. Entre as edificações danificadas estava a Casa Velha da Ponte, onde viveu a poetisa Cora Coralina, que teve a estrutura comprometida e parte do acervo destruído. O evento, infelizmente, não é um caso isolado. O avanço da emergência climática torna eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e severos, colocando em risco o patrimônio natural, histórico e cultural brasileiro.
Os diferentes biomas brasileiros estão sendo afetados pelas mudanças do clima de forma distinta, mas todos eles estão passando por transformações causadas por ações humanas que põem em risco nosso patrimônio. O sul do país, dominado pelos Pampas, tem sido palco de tempestades, como ciclones extratropicais, vendavais e tornados cada vez mais intensos, como o tornado que atingiu o Museu das Missões, no município de São Miguel das Missões, em abril de 2016. Os campos dos Pampas também estão se tornando palco de enchentes mais frequentes, como a que atingiu o estado do Rio Grande do Sul em 2024 e causou uma perda de patrimônio histórico incalculável. Apenas no acervo arqueológico do Museu Joaquim Felizardo foram 300 mil peças afetadas. (Figura 1)

Figura 1. Danos no Sítio Histórico de São Miguel das Missões causados por temporal.
(Foto: Iphan. Divulgação)
O Pantanal passa por uma situação inversa: as regiões naturalmente alagadas do bioma estão diminuindo. “Resultados recentes do MAPBiomas mostram que a área alagada do Pantanal foi decrescida em 30% nos últimos 20 anos. A tendência do futuro é ela deixar basicamente de ser uma planície alagável, deixar de ser um pantanal”, afirma Paulo Eduardo Artaxo Netto, professor do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Além da perda do patrimônio natural representada por essa transformação, a diminuição dos alagamentos também leva à perda de patrimônio cultural ao inviabilizar o modo de vida de povos originários que habitam a região, como o Guató. “Toda a forma de ser e estar dos povos guatós está relacionada à dinâmica das águas. A forma com que ele pesca, a forma como ele se alimenta…”, explica Luana Cristina da Silva Campos, professora-adjunta na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e no mestrado profissional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Além da alteração no modo de vida, os danos ambientais também impactam o patrimônio cultural ao destruir a matéria-prima necessária para sua execução. Isso pode ser visto na produção de violas cocho. “A viola de cocho demanda uma matéria-prima específica para ser feita: uma árvore que precisa ter um tamanho específico, porque ela é escavada e não colada. As árvores no Pantanal não têm chegado ao tamanho mínimo para produzir o instrumento. Os ciclos de seca têm ficado cada vez mais curtos. Atrela isso aos incêndios criminosos dos fazendeiros que vão fazer a limpeza do seu território e as árvores não chegam ao tamanho necessário”, diz Luana Campos.
“Precisamos nos adaptar não só para o clima de agora, mas também pensar em como fazer as coisas de uma forma que seja apropriada para o clima daqui a 10, 15, 20 ou 30 anos.”
Uma situação similar ocorre na Mata Atlântica, em que as chuvas mais intensas tornaram mais comuns os deslizamentos. “Nós temos um trabalho com a comunidade quilombola do Camburi, no litoral de Ubatuba. Nesses quilombos, a quantidade de desmoronamentos tem aumentado e as suas agroflorestas estão sendo devastadas. Isso impacta diretamente a forma desse grupo se alimentar e criar o seu artesanato”, exemplifica Luana Campos. (Figura 2)

Figura 2. Deslizamento de terra na estrada que leva à comunidade quilombola e caiçara do Camburi, em Ubatuba (SP)
(Foto: Facebook. Reprodução)
Nos casos mais extremos, algumas regiões podem ser tornadas praticamente inabitáveis, como na Caatinga. “Existem regiões do semiárido do Nordeste em que há 30 ou 40 anos chovia pouco, mas a economia local era adaptada àquela pouca chuva que existia. Essa pouca chuva diminuiu em muitas regiões a ponto de tornar inviável qualquer atividade de agricultura, mesmo a agricultura de subsistência. Com isso, aquela população vai ter que abandonar a região”, explica Paulo Artaxo.
Até mesmo os turistas são colocados em risco pela crise climática. Um exemplo assustador disso ocorreu em 2021, quando mais de 100 turistas ficaram isolados e precisaram ser resgatados por bombeiros durante um incêndio no Vale da Lua, no Cerrado goiano.
Modelagem climática para a proteção
Os modelos climáticos utilizados pelos climatologistas para estimar as mudanças climáticas futuras podem ser utilizados para planejar ações de preservação do patrimônio histórico e cultural. Com eles, é possível mapear os riscos aos quais cada região do país está exposta e criar estratégias de adaptação. “Precisamos nos adaptar não só ao clima atual, que já é um clima diferente de 30 anos atrás, mas também pensar em como fazer as coisas de uma forma que seja apropriada para o clima daqui a 10, 15, 20 ou 30 anos”, explica Karina Bruno Lima, pesquisadora visitante na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha.
“Para proteger um parque específico é necessário cruzar os modelos globais com modelos com o downscaling, modelos topográficos, hidrológicos e de microclima local.”
Além das modelagens climáticas clássicas, hoje é possível fazer modelagens de ecossistemas, que avaliam não apenas alterações no regime de chuvas e temperaturas, mas também a resposta que diferentes ecossistemas darão a essas alterações, permitindo respostas mais adequadas às especificidades de cada bioma.
Apesar disso, esses modelos ainda possuem limitações. Uma delas é o fato de que eles geralmente se referem a áreas muito amplas, tendo menor precisão ao nível de pequenas regiões, como estados ou municípios. Para se obter modelos regionais, é necessário realizar um processo chamado de downscaling, algo que ainda não foi realizado na maior parte de nosso país. “Os modelos regionais acertam bem mais a quantidade de chuva do que os modelos globais, mas esse downscaling é muito desafiador. Então, para proteger, vamos supor, um parque específico, é necessário cruzar os modelos globais com modelos com o downscaling, modelos topográficos, hidrológicos e de microclima local”, diz Karina Lima.
Outro desafio é garantir que as informações obtidas pelos modelos climáticos e previsões meteorológicas cheguem aos povos isolados que estão vulneráveis. “Nós estamos falando sobre grupos culturais que às vezes não sabem ligar o telefone. Então, eles não têm acesso a essa tecnologia”, diz Luana Campos.
Estamos preparados?
Apesar de todo o dano já causado pelas mudanças climáticas ao patrimônio histórico e cultural brasileiro, a resposta a elas ainda é incipiente. Um passo recente dado em direção à organização de uma resposta foi a publicação da Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas em 2025, que se propõe a ser um documento de referência para a formulação de políticas públicas de proteção ao patrimônio brasileiro diante da crise climática. O documento destaca que, além do planejamento baseado no diagnóstico climático regional, a preservação também exige educação e o diálogo com a população e os povos dos locais afetados. Também cobra do Estado brasileiro a criação de um arcabouço legal e de um fundo de proteção ao patrimônio cultural sob risco climático.
“Enquanto sociedade, perder a nossa memória, a nossa história, ainda não consideramos uma patologia.”
Existem também iniciativas de articulação internacional. Na 30.ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP 30), realizada em 2025 na cidade de Belém, no Pará, houve a tentativa de se aprovar um fundo para garantir a execução das ações de proteção ao patrimônio cultural. “A ideia era que se conseguisse dentro da COP parte desse fundo, mas não foi aceito. O único avanço que conseguimos foi incluir o conceito de adaptação atrelado aos povos tradicionais e aos conhecimentos tradicionais”, conta Luana Campos.
Um dos maiores desafios enfrentados na luta pela preservação do nosso patrimônio está na falta da conscientização da importância dessa empreitada. Luana Campos destaca essa importância comparando o patrimônio cultural de uma sociedade à memória humana. “Qual a importância de você manter a sua memória? Se você perder a sua memória, vai ter algum problema? A gente chama isso de Alzheimer, a gente chama isso de demência. Mas, enquanto sociedade, perder a nossa memória, a nossa história, ainda não consideramos uma patologia”, conclui.
Capa. Chuvas atingem acervo do Museu Casa do Pontal (RJ)
(Foto: Reprodução)


