A pedra constitui parte essencial da materialidade do patrimônio cultural. Desde o Neolítico, foi escolhida para edificações, monumentos, objetos de arte e estruturas simbólicas por reunir resistência, durabilidade, disponibilidade e beleza. Seu uso registra não apenas técnicas construtivas e escolhas estéticas, mas também formas de organização social, crenças, rotas comerciais, domínio territorial e relação entre cultura e natureza. Ao longo da história, diferentes sociedades tanto aproveitaram rochas pertencentes aos seus territórios como transportaram materiais de grande valor simbólico por longas distâncias. Monumentos megalíticos, templos, pirâmides, esculturas, cidades antigas, palácios e catedrais mostram que a escolha da rocha nunca foi apenas técnica: envolveu também prestígio, espiritualidade e identidade. [1]
A pedra sustenta até hoje monumentos de mais de 10.000 anos, como Göbekli Teppe, na Turquia, com pilares esculpidos em calcário; Stonehenge, no Reino Unido, construído com silcrete, rochas vulcânicas e arenitos, incluindo blocos transportados por centenas de quilômetros; e as obras do Egito Antigo, nas quais calcários, arenitos, granitos e outras rochas do Vale do Nilo foram amplamente empregados em pirâmides, templos, tumbas e esculturas. Na Ásia, destacam-se cidades em pedra, como Shimao, na China; templos escavados em maciços de rocha, como Ellora e Ajanta, e na Índia, em monumentos como o Taj-Mahal, em Mármore Makrana. Os gregos criaram belíssimas obras arquitetônicas e artísticas, com seus mármores brancos e os romanos, por sua vez, aperfeiçoaram as técnicas e difundiram uma verdadeira “cultura da pedra”, explorando rochas locais e importando outras de atributos estéticos especiais ou simbólicos em todo seu império. Nas Américas, exemplos como as Cabeças Olmecas e Teotihuacán, no México, ou Chavín de Huántar e Machu Picchu, no Peru, evidenciam o uso de rochas vulcânicas, graníticas e sedimentares em diferentes contextos culturais (Figura 1). Na Europa medieval e moderna, a pedra continuou central nas arquiteturas bizantina, românica, gótica, renascentista, barroca e neoclássica.

Figura 1. Exemplos de monumentos em pedra: Pirâmide de Quéops – blocos de calcário local; Acropole e Partenon – construido com mármore branco do Monte Pentélico; Vista geral de Machu Picchu; e Taj Mahal, de Mármore Makrana
(Foto: Maria Heloisa Frascá. Reprodução.)
As rochas são recursos naturais formados ao longo de milhões de anos e, portanto, não renováveis na escala de tempo humana. O que as torna únicas e relevantes na arquitetura e patrimônio é que cada uma tem sua história geológica própria, expressa nos aspectos estéticos e nas propriedades tecnológicas, condicionadas por sua composição mineral, textura e estrutura. Denominam-se pedras naturais ou rochas ornamentais quando extraídas e trabalhadas para uso arquitetônico, decorativo, funerário ou artístico. Ao serem incorporadas a edificações, monumentos e obras de arte, tornam-se também recursos culturais, passando a integrar a história das sociedades como materiais de construção e de expressão estética e simbólica.
“Ao serem incorporadas a edificações, monumentos e obras de arte, tornam-se também recursos culturais, passando a integrar a história das sociedades.”
O Brasil possui um patrimônio em pedra amplo e diversificado, mas, infelizmente, insuficientemente documentado. Nele, se combinam rochas locais e importadas, empregadas em fortes, igrejas, monumentos e edifícios, históricos e contemporâneos. Dois raros exemplos bem documentados são o Gnaisse Facoidal, do Rio de Janeiro, e a Pedra Sabão, de Minas Gerais.
O Gnaisse Facoidal (Figura 2) é uma rocha resultante do metamorfismo de um granito, formada há cerca de 560 milhões de anos, período em que o Brasil e parte da África se uniram pela movimentação das placas tectônicas. É a rocha mais abundante ao redor da Baía da Guanabara e, por isso, a mais utilizada nas construções do Rio de Janeiro e de Niterói até o século XX, e a principal responsável pela sua bela paisagem, exemplificada pelo Pão de Açúcar, inspiradora de muitas criações artísticas e marca consagrada da cidade do Rio de Janeiro. [2,3]

Figura 2. Interior da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, construída com Gnaisse Facoidal.
(Foto: Nuria Castro. Reprodução)
A Pedra Sabão de Minas Gerais (Figura 3) é símbolo da identidade mineira: uma rocha metamórfica formada a partir de rochas ultramáficas, ricas em ferro e magnésio, há mais de 2 bilhões de anos. É a pedra do Barroco Mineiro que ornamenta inúmeros monumentos da arquitetura colonial, com a qual o Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, imortalizou os profetas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Também é a pedra que reveste o Cristo Redentor no Rio de Janeiro e utilizada secularmente para utensílios de cozinha e artesanato. [4]

Figura 3. Frontispício da Igreja do Carmo, em Ouro Preto (MG) ornamentado com Pedra Sabão
(Foto: Núria Castro. Reprodução)
Outros exemplos são as rochas azuis da Bahia, como o Azul Macaúbas e o Granito Azul Bahia, valorizadas globalmente; [5] os mármores utilizados na construção de Brasília; [6] e o “Travertino Nacional”, também conhecido como Mármore Bege Bahia, que não é geologicamente nem travertino nem mármore, mas sim um calcário. [7]
A importância de conhecer a pedra
Historicamente, a pedra e sua procedência raramente foram documentadas. “Construído com pedra”, “pedra de cantaria” ou “fachada de pedra” são expressões frequentes nas descrições de monumentos e edificações. Mas, afinal, que pedra é essa?
Conservar o patrimônio em pedra exige conhecer a pedra. Nem todas são iguais e, embora duráveis, não são eternas: sofrem alterações, geralmente lentas, ao longo da história geológica e se tornam muito mais rápidas após serem trabalhadas e aplicadas. A apropriada conservação da rocha se inicia com sua correta identificação, tanto quanto à sua origem, como sua composição mineralógica, textura, estrutura e propriedades tecnológicas. Complementarmente, é indispensável o conhecimento do seu comportamento frente aos agentes antrópicos e ambientais para orientar a manutenção, limpeza e, eventualmente, sua restauração ou a substituição de peças por materiais compatíveis. Quando não se dispõe desses dados, aumentam os riscos de intervenções inadequadas e de perdas irrecuperáveis de valor patrimonial [8,9]
“O Brasil possui um patrimônio em pedra amplo e diversificado, mas, infelizmente, insuficientemente documentado.”
A dificuldade de acesso à documentação científica sobre pedras naturais não é exclusiva do Brasil. Nesse contexto, a União Internacional das Ciências Geológicas (IUGS) estabelece a designação Pedra do Patrimônio (IUGS Heritage Stone), para que rochas usadas em monumentos e construções significativas sejam reconhecidas e valorizadas por seu papel na história e cultura das civilizações, e para que seus atributos geológicos sejam divulgados em favor da conservação. A designação também aproxima a geologia da população, estimula o geoturismo e adiciona valor científico aos monumentos, cujas pedras funcionam como pequenas janelas da história da Terra. O reconhecimento como Pedra do Patrimônio somente é obtido mediante documentação científica contendo as características geológicas e tecnológicas, áreas-fonte, histórico de uso e justificativa de valor patrimonial. Até hoje, 69 rochas de 30 países receberam a designação, entre elas o Mármore Carrara da Itália, o Calcário Lioz de Portugal (Figura 4), muito presentes no patrimônio brasileiro, e duas pedras da nossa terra, já citadas: o Gnaisse Facoidal e a Pedra Sabão de Minas Gerais. [10]

Figura 4. Revestimento no piso da Igreja do Convento Santo Antonio, no Rio de Janeiro, com Calcário Lioz (bege e rosado)
(Foto: Felipe A. Monteiro. Reprodução)
Diversas rochas importadas também compõem o patrimônio brasileiro em pedra, mas, infelizmente, desconhece-se a origem de grande parte delas. A designação da IUGS, que tem levado à publicação de informações científicas sobre pedras do patrimônio em diferentes países de todos os continentes, tem sido uma relevante contribuição para o conhecimento e identificação dessas rochas. No Brasil, também vêm se consolidando ações de pesquisa e divulgação que aproximam geociências, patrimônio cultural e sociedade, como roteiros geoturísticos, [11, 12, 13] livros, [14, 15] documentários, [16] e passeios guiados por profissionais. [17]
Desafios
Um dos principais entraves, como comentado, é a falta de documentação. Raramente está informado o tipo de rocha, sua proveniência, propriedades tecnológicas ou as intervenções eventualmente já realizadas, no caso de materiais deteriorados. Essa lacuna dificulta a identificação de materiais compatíveis e compromete decisões técnicas de conservação. A substituição por rochas visualmente semelhantes, mas mineralógica e fisicamente diferentes, assim como o uso de métodos e produtos incompatíveis para limpeza e tratamento, pode agravar processos de deterioração ou iniciar outros. Em bens culturais, tais alterações não representam apenas problemas materiais: implicam perda de autenticidade, valor histórico e legibilidade patrimonial.
“Tudo isso também se aplica ao uso contemporâneo da pedra natural, que será patrimônio no futuro.”
Os desafios são múltiplos: mapear e documentar as pedras utilizadas no patrimônio brasileiro; identificar e proteger antigas pedreiras; ampliar a participação de geocientistas em projetos de conservação; integrar informações históricas, arquitetônicas, geológicas e tecnológicas; divulgar esse conhecimento de forma acessível; formar profissionais capazes de dialogar entre patrimônio e geologia; e garantir que ações de conservação respeitem tanto a materialidade da pedra quanto os valores culturais associados a ela.
Tudo isso também se aplica ao uso contemporâneo da pedra natural, que será patrimônio no futuro. A participação de geocientistas especializados é essencial para orientar produtores, especificadores e consumidores. No Brasil, esses profissionais ainda são pouco consultados antes da escolha e aplicação dos materiais e, com frequência, chamados apenas quando surgem problemas. Embora produtores e arquitetos venham destacando a história geológica das rochas ornamentais como atributo de singularidade e valor, características geológicas e tecnológicas, bem como a localização das pedreiras, são raramente divulgadas de modo amplo, acessível e corretamente interpretado. Assim, persistem riscos de uso e manutenção inadequados.
Capa. As pedras que compõem o patrimônio construído não são apenas o suporte e ornamento de edifícios e monumentos; são arquivos geológicos, históricos e culturais. Conhecê-las e divulgá-las não só permite conservar melhor o patrimônio, como também aproximar a sociedade da história da Terra.
(Foto: Nuria Castro. Reprodução)
REFERÊNCIAS
[1] CASTRO, N. F. et al. Pedras do patrimônio da IUGS: histórico e requisitos. Revista do Instituto de Geociências – USP, v. 23, n. 2, p. 41-52, 2023. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9095.v23-204680
[2] MANSUR, K. L. et al. O Gnaisse Facoidal: a mais carioca das rochas. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, v. 31, n. 2, p. 9-22, 2008. DOI: https://doi.org/10.11137/2008_2_9-22
[3] CASTRO, N. F. et al. A heritage stone of Rio de Janeiro (Brazil): the Facoidal gneiss. Episodes, v. 44, n. 1, p. 59-74, 2021. DOI: https://doi.org/10.18814/epiiugs/2020/0200s13.
[4] COSTA, A. G. Natural stone in the built heritage of the interior of Brazil: the use of stone in Minas Gerais. In: PEREIRA, D. et al. (ed.). Global Heritage Stone: towards international recognition of building and ornamental stones. London: Geological Society, 2015. p. 253–261. (Geological Society Special Publication, 407). DOI: https://doi.org/10.1144/SP407.13.
[5] FRASCÁ, M. H. B. O.; CASTRO, N. F. The Blue Quartzites and Syenites from Bahia, Brazil: geology and technological characteristics. Geoheritage, v. 14, art. 67, 2022. DOI: https://doi.org/10.1007/s12371-022-00689-6.
[6] FRASCÁ, M. H. B. O.; NEVES, R.; CASTRO, N. F. The white marbles of Brasília, a World Heritage site and capital of Brazil. In: HANNIBAL, J. T.; KRAMAR, S.; COOPER, B. J. (ed.). Global Heritage Stone: worldwide examples of heritage stones. London: Geological Society, 2020. p. 217–227. (Geological Society Special Publication, 486). DOI: https://doi.org/10.1144/SP486-2018-31.
[7] FRASCÁ, M. H. B. O. et al. Bege Bahia: the calcrete known as Brazilian travertine. Geoheritage, v. 17, art. 16, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s12371-024-01060-7.
[8] FRASCÁ, M. H. B. O. Tipos de rochas ornamentais e características tecnológicas. In: VIDAL, F. W. H.; AZEVEDO, H. C. A.; CASTRO, N. F. (Eds.). Tecnologia de rochas ornamentais: pesquisa, lavra e beneficiamento. Rio de Janeiro: CETEM/MCTI, 2014. Cap. 2, p. 44-98
[9] DOEHNE, E. F.; PRICE, C. A. Stone conservation: an overview of current research. 2. ed. Los Angeles: The Getty Conservation Institute, 2010. (Research in Conservation). ISBN 978-1-60606-046-9.
[10] INTERNATIONAL UNION OF GEOLOGICAL SCIENCES. Subcommission on Heritage Stones. [S. l.]: IUGS International Commission on Geoheritage, 2026. Disponível em: https://iugs-geoheritage.org/subcomission-on-stones/. Acesso em: 19 ago. 2026.
[11] LICCARDO, A.; MANTESSO-NETO, V.; PIEKARZ, G. F. Geoturismo urbano: educação e cultura. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, v. 35, n. 1, p. 133-141, 2012.
[12] QUEIROZ, D. S. ; DEL LAMA, E. A. ; GARCIA, M.G.M. . Proposta de roteiro geoturístico pelos prédios históricos do centro de Santos – SP. REVISTA TERRAE DIDATICA , v. 15, p. 5-11, 2019
[13] SILVA, R. E. C.; POLCK, M. A. R.; ARAÚJO-JÚNIOR, H. I. Geodiversity in ecclesiastical construction: a geotourism itinerary in the City of Rio de Janeiro. Geoheritage, v. 16, art. 9, 2024. DOI: https://doi.org/10.1007/s12371-023-00912-y.
[14] COSTA, A. G. Rochas e Histórias do Patrimônio Cultural do Brasil e de Minas. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2009. v. 1, 292 p.
[15] DEL LAMA, E. A. (org.). Patrimônio em Pedra. São Paulo: Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo, 2021. Disponível em: http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/631. Acesso em: 2 ago. 2026.
[16] MANSUR, K. L.; CASTRO, N. F.; CORDEIRO, J.; GALLOIS, C. J. S.; GIAROLI, R. As rochas nos contam: monumentos pétreos do Rio de Janeiro do Brasil Colônia ao Modernismo. Rio de Janeiro: Museu da Geodiversidade/UFRJ: CETEM/MCTI, 14 dez. 2022. 1 vídeo (56 min). Disponível em: https://youtu.be/wlD3CbFwIgs. Acesso em: 19 ago. 2026.
[17] COPPEDÊ, R. Geotourism Everywhere: discover Rio through geotourism. [S. l.]: Geotourism Everywhere, 2026. Disponível em: https://geotourismeverywhere.com. Acesso em: 19 ago. 2026.


