Ao olhar com atenção e contexto, o fundo das águas pode guardar histórias que a terra firme não é capaz de contar. Embarcações naufragadas, paisagens inundadas e até cidades inteiras podem permanecer conservadas por séculos sob rios, mares e oceanos, constituindo cenários inéditos para investigar diferentes épocas e formas de viver. Essa missão é abraçada pela arqueologia subaquática, área que busca pistas sobre a história de ambientes, pessoas e sociedades a partir de vestígios submersos.
As águas preservam memória
Quando um pesquisador acessa um material submerso, abre caminhos para conhecer também os detalhes da relação humana com as áreas aquáticas e costeiras. “Muitos desses vestígios preservam informações que não aparecem em nenhuma outra fonte histórica”, destaca Ialy Cintra Ferreira, pesquisadora na área de Arqueologia Histórica e Arqueologia Subaquática e doutoranda em Arqueologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“Um objeto isolado diz pouco, mas, quando permanece associado ao ambiente em que foi depositado e aos demais vestígios, permite compreender processos históricos, tecnológicos, econômicos e sociais de forma ampla”, complementa. De acordo com a pesquisadora, a água pode favorecer essa compreensão ao manter os materiais associados ao contexto em que foram deixados. “Em terra, essas associações podem ser destruídas pela ocupação contínua ou pela ação do tempo, por exemplo”, diz.
As condições debaixo d’água também podem ajudar a conservar os próprios materiais. Rodrigo de Oliveira Torres, doutor em Arqueologia Náutica e Subaquática pela Universidade A&M do Texas e pós-doutor pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que isso ocorre porque fatores como a menor penetração da luz, menores variações de temperatura e concentrações reduzidas de oxigênio tendem a diminuir a energia das reações químicas e a atividade biológica, favorecendo a preservação.
“Patrimônio é algo com que nos identificamos e queremos preservar.”
Um exemplo são os itens metálicos, que, nesses ambientes, podem formar concreções — massas duras criadas pelo acúmulo de minerais e produtos da corrosão. Essas estruturas podem desacelerar a degradação, preservando os artefatos ou até mesmo seus moldes. Já em materiais orgânicos, como madeira, couro e ossos, a água preenche os poros à medida que as estruturas celulares se degradam, contribuindo para a manutenção das características originais.
Os desafios de conhecer a história sob as águas
As mesmas condições que favorecem a preservação também criam desafios para os estudos. Equipamentos comuns na arqueologia terrestre, como GPS, não funcionam sob as águas e dão lugar a técnicas acústicas, como sonares e balizas de ecolocalização. O acesso aos sítios também depende de estratégias específicas de mergulho, especialmente em grandes profundidades. “Esse é o caso em sítios encontrados em profundidades inferiores a 30 ou 40 metros; mais que isso, só com técnicas avançadas de mergulho ou com veículos remotamente controlados”, pontua Rodrigo de Oliveira Torres.
Uma vez que se decide resgatar um artefato ou estrutura após sua localização, as técnicas utilizadas são semelhantes àquelas empregadas em terra firme. “Você vai ver as pessoas desenhando, fotografando, escaneando e tomando notas e, pelo menos, uma lupa binocular, um pincel, um paquímetro e uma balança ao lado, isso é certo”, diz o pesquisador.
As preocupações com a conservação já começam no cuidado durante a escavação e no transporte até a superfície. “Artefatos que estiveram submersos por muito tempo precisam continuar molhados até sua estabilização”, explica. O trabalho, porém, não termina quando o item chega à superfície. “Um canhão de ferro retirado da água salgada, por exemplo, pode precisar de dois ou três anos, ou mais, para ser estabilizado”, destaca. Tais medidas ajudam a proteger os artefatos contra alterações físico-químicas e mecânicas e previnem que itens preservados durante séculos sejam perdidos em poucas semanas.
Rodrigo de Oliveira Torres frisa ainda o papel das tecnologias digitais modernas na exploração e documentação de ambientes aquáticos. “Um pesquisador-mergulhador com equipamento e condições típicas pode passar entre 40 minutos e 1 hora e 20 minutos debaixo d’água, em, no máximo, duas ou três imersões por dia; é pouco tempo e muito trabalho para fazer”, diz. Ele explica que as ferramentas de mapeamento digital e de reconstrução tridimensional têm ajudado a aumentar a precisão dos registros, além de favorecer a orientação dos processos de escavação e na interpretação, otimizando o tempo e permitindo que até mesmo especialistas não mergulhadores possam participar. “Conseguimos até reconstruir digitalmente os sítios estudados, facilitando que sejam visualizados e analisados de distintos ângulos em terra, onde temos mais tempo”, exemplifica.
De naufrágios e paisagens subaquáticas a rituais religiosos
O processo de recuperação e estudo dos materiais encontrados sob as águas também depende de sua natureza. Eles podem ser divididos em, ao menos, quatro categorias, dentre as quais os sítios de naufrágios são os mais conhecidos. “Quando encontrados preservados em contexto, nos permitem conhecer e interpretar aspectos tanto da vida a bordo como também das sociedades às quais estavam relacionados”, relata Rodrigo de Oliveira Torres. O estudo das cargas, dos itens associados e até mesmo dos próprios cascos das embarcações pode revelar informações sobre arquitetura, economia, cotidiano, cultura e tecnologias. (Figura 1)

Figura 1. Sítio do naufrágio do vapor francês “Bretagne” situado a cerca de 350 metros do Farol da Barra em Salvador (BA).
(Foto. UFBA. Divulgação)
Outra categoria relevante são os sítios terrestres submersos, formados por estruturas originalmente construídas em terra ou na beira d’água, como píeres, cais e antigas instalações portuárias, posteriormente inundadas por processos naturais ou pela ação humana.
Já os sítios depositários reúnem materiais descartados, abandonados ou perdidos em ambientes aquáticos, como âncoras, cargas e utensílios. “Pode parecer engraçado, mas encontrar uma lixeira bem preservada é um dos maiores tesouros da arqueologia”, exemplifica o pesquisador. “Elas podem nos conectar com aqueles hábitos cotidianos, ordinários e mundanos das pessoas, que, muitas vezes, não chegam aos livros de História”, ressalta.
“Por meio da reconstrução digital de sítios e artefatos, estamos montando verdadeiros museus virtuais.”
Há ainda os sítios-santuários, onde objetos foram depositados intencionalmente como parte de práticas religiosas ou simbólicas. “Esses contextos podem revelar aspectos importantes das cosmologias, das práticas de deposição ritual e das diferentes formas de atribuir significado aos ambientes aquáticos, ampliando o horizonte da disciplina”, destaca Ialy Cintra Ferreira. A pesquisadora menciona ainda os sambaquis submersos, montes de conchas deixados por populações litorâneas pré-históricas cobertos pela água por conta da variação do nível do mar ao longo dos milênios.
Patrimônios culturais subaquáticos
A variedade de vestígios alimenta o debate sobre como esses materiais devem ser classificados. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define que todos os traços de existência humana com caráter cultural, histórico ou arqueológico, que tenham estado parcial ou totalmente debaixo de água durante, pelo menos, 100 anos, são considerados patrimônios culturais subaquáticos, posicionando quaisquer vestígios que se enquadrem nessas condições sob o véu da proteção legal.
Para Gilson Rambelli, arqueólogo subaquático e professor do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Sergipe (UFSE), porém, essa descrição pode ser limitante. “Essa definição se tornou um clássico dentro da convenção da UNESCO, de 2001, sobre a proteção do patrimônio cultural subaquático, mas, hoje, já se faz arqueologia relacionada à Ditadura Militar, à Segunda Guerra… Se pensarmos em 100 anos, isso não se enquadraria”, argumenta.
Ialy Cintra Ferreira concorda e acrescenta que a arqueologia subaquática não estuda apenas o passado. “Ela também documenta o presente em construção e amplia continuamente nossa compreensão sobre as múltiplas formas de interação humana com a água, sejam elas econômicas, tecnológicas, sociais ou simbólicas”, pontua. De acordo com a pesquisadora, há, por exemplo, reservatórios artificiais que inundaram cidades, estradas e antigas edificações em períodos recentes, que criaram novos contextos arqueológicos e que já despertam interesse científico.
Nesse sentido, Gilson Rambelli explica que outros parâmetros podem ser usados para definir o que deve ou não ser classificado como um patrimônio cultural subaquático. “Além dos critérios técnicos e legais, patrimônio é algo com que nos identificamos e queremos preservar”, destaca. “O fato de que esses bens se encontrem debaixo d’água não é, isoladamente, um critério para definir seu caráter de patrimônio; é preciso terem importância histórica e científica, representatividade cultural e que sejam reconhecidos como tal”, reforça.
A quem pertencem os patrimônios subaquáticos?
O reconhecimento de um bem como patrimônio não encerra as questões que envolvem sua preservação. Cercados por uma atmosfera romantizada e aventureira, os patrimônios culturais subaquáticos enfrentam a cultura da caça ao tesouro, que traz desafios para o estudo desses sítios. “Infelizmente, acontecem saques nos sítios; existe mercado para compra de antiguidades e muitos mergulhadores fazem isso para ganhar dinheiro ou pela simples satisfação de ter uma peça em casa”, diz Gilson Rambelli.
“O Brasil ainda não conhece o Brasil debaixo d’água.”
Para o pesquisador, o patrimônio cultural não deve pertencer a um indivíduo, ao museu ou ao mergulhador que o encontra. “Patrimônio cultural não tem dono”, explica, ressaltando que esses são achados públicos e que devem permanecer sob tutela da União. Nesse contexto, ele defende que é dever da arqueologia devolver à sociedade o conhecimento produzido a partir desses bens. “Se a gente lembrar que são patrimônios públicos, cada vez que alguém saqueia, está cometendo um crime contra a sociedade”, argumenta.
Desde 2001, organismos internacionais, como o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) e a UNESCO, têm trabalhado em conjunto para lidar com a caça ao tesouro e a comercialização de bens culturais de contexto submersos mundialmente. O tratado, estabelecido há mais de 20 anos, porém, ainda não foi ratificado no Brasil.
Mesmo que existam defesas teóricas legais, inclusive na Constituição Brasileira, Ialy Cintra Ferreira alerta que a proteção nem sempre é eficaz. “Existe uma distância entre a proteção prevista nas normas e a preservação efetiva no fundo do mar”, relata.
O futuro da arqueologia subaquática
Enquanto marcas deixadas sob as águas no passado e no presente aguardam novas pesquisas, a arqueologia subaquática segue em expansão. “Acredito que o futuro da arqueologia subaquática não estará apenas na incorporação de novos vestígios, mas também na ampliação das perguntas que fazemos sobre eles”, afirma Ialy Cintra Ferreira. Ela destaca que os ambientes aquáticos registram até mesmo as transformações que estão sendo provocadas pelas mudanças climáticas, pela expansão urbana no litoral e pelas atividades industriais. Esses vestígios podem ajudar a compreender as tecnologias empregadas no século 21 e como a sociedade ocupa, transforma e se relaciona com mares, rios e outros ambientes aquáticos. (Figura 2)

Figura 2. Ilhabela é considerada um dos maiores cemitérios de navios do Brasil, com mais de 100 embarcações estimadas no fundo do mar entre os séculos XVI e XX.
(Foto: Prefeitura de Ilhabela. Divulgação)
Rodrigo de Oliveira Torres frisa ainda a importância de fazer com que os conhecimentos produzidos pela área ultrapassem os muros dos institutos de pesquisa. “Por exemplo, por meio da reconstrução digital de sítios e artefatos, estamos montando verdadeiros museus virtuais e aproveitando a linguagem dos videogames para alcançar públicos cada vez mais ecléticos”, exemplifica.
Para Gilson Rambelli, ainda há muito a descobrir. “O Brasil ainda não conhece o Brasil debaixo d’água”, diz. Ialy Cintra Ferreira concorda e ressalta que esse conhecimento depende de investimentos contínuos em pesquisa, formação de especialistas e preservação do patrimônio, além de maior articulação entre universidades, órgãos de gestão e sociedade. “Quanto mais conhecimento for produzido e compartilhado, maiores serão as condições de preservar esse patrimônio e compreender a história que ele ainda guarda”, conclui.
Capa. Estátua de macaco encontrada a 25 m de profundidade no mar no Ceará
(Fofo: Labomar/ Instituto de Ciências do Mar. Reprodução)


