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A nova geografia da ciência

Como a filantropia está mudando o mapa mundial da pesquisa

Durante décadas, o avanço da ciência dependeu principalmente dos investimentos de governos e empresas, responsáveis por viabilizar conquistas como a exploração espacial, o sequenciamento do genoma humano e inúmeras inovações tecnológicas. Ainda assim, projetos de longo prazo, pesquisas de alto risco e ideias sem aplicação imediata frequentemente encontravam dificuldades para obter financiamento.

Mas esse cenário começou a mudar nos últimos anos. Fundações, fundos patrimoniais (endowments), organizações filantrópicas e grandes doadores passaram a investir bilhões de dólares em pesquisa, fortalecendo áreas como inteligência artificial, mudanças climáticas, biodiversidade, saúde global e ciência básica. Conhecida como filantropia científica, essa modalidade direciona recursos privados para pesquisa, infraestrutura, formação de pesquisadores e inovação. Seu principal diferencial é a flexibilidade para apoiar projetos exploratórios e de longo prazo, muitas vezes fora do alcance dos modelos tradicionais de financiamento.

Para Marie-Anne Van Sluys, professora do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Grupo de Trabalho de Filantropia da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), o Brasil começa a estruturar esse ecossistema, embora ainda enfrente desafios culturais e institucionais. “Temos iniciativas importantes, como o Instituto Serrapilheira, Ciência Pioneira, IDIS e GIFE, mas o investimento filantrópico estratégico ainda é pouco comum entre as instituições de pesquisa”, afirma.

Segundo a pesquisadora, compreender a própria dinâmica da ciência é fundamental para consolidar essa cultura. “Os estudos científicos não são lineares. Quanto maior o desafio, mais difícil prever exatamente o caminho da pesquisa. Descobertas feitas em qualquer parte do mundo ou o surgimento de novas tecnologias podem alterar completamente um projeto em andamento.”

Embora ainda represente uma parcela relativamente pequena do financiamento científico, a filantropia vem ampliando seu impacto ao incentivar pesquisas interdisciplinares, apoiar jovens cientistas e fortalecer universidades, centros de pesquisa e infraestrutura científica. A consolidação desse movimento também depende das novas gerações. Em entrevista à GloboNews, Paula Fabiani, CEO do IDIS e única brasileira incluída na lista das 100 pessoas mais influentes da filantropia pela revista TIME, destaca que jovens lideranças e herdeiros demonstram maior compromisso com responsabilidade social e impacto coletivo. “A grande notícia positiva é que as novas gerações já têm mais consciência, já vêm com essa questão mais endereçada”, afirma. Para ela, a grande transferência de riqueza prevista para as próximas décadas representa uma oportunidade para fortalecer a cultura filantrópica também no Brasil.

 

Muito além do financiamento: um novo modelo para impulsionar a ciência

O impacto da filantropia científica vai além do volume de recursos investidos. Seu diferencial está na liberdade para apoiar projetos que dificilmente encontrariam espaço nos modelos tradicionais de financiamento, permitindo explorar ideias ainda incertas e pesquisas potencialmente transformadoras.

Para Regina Pekelmann Markus, professora emérita do Instituto de Biociências da USP e vice-presidente da Associação Amigos do Instituto Weizmann, esse é um dos maiores méritos da filantropia científica. “Enquanto alguns chamam essa modalidade de ‘tolerância ao fracasso’, prefiro enxergá-la como abertura para novas possibilidades. Cada resultado inesperado pode revelar um caminho completamente novo para a pesquisa”, afirma. Segundo a pesquisadora, a ausência da pressão por retorno financeiro imediato favorece descobertas capazes de gerar impactos científicos, econômicos e sociais no futuro.

 

“Quando olhamos para regiões que investem em ciência disruptiva e para países onde a filantropia já faz parte da cultura científica, percebemos que estamos diante de uma mudança global.”

 

Esse modelo também fortalece áreas historicamente pouco contempladas por outras fontes de financiamento, como pesquisa básica, doenças raras, biodiversidade, mudanças climáticas e saúde de populações vulneráveis, além de investir em infraestrutura, ciência aberta e formação de pesquisadores.

No A.C.Camargo Cancer Center, essa lógica já faz parte da estratégia institucional. Segundo o diretor-geral, Victor Andrade, a pesquisa passou a ser organizada de forma mais integrada e alinhada às necessidades da sociedade. “Hoje nossas linhas de pesquisa dialogam muito mais com aquilo que a sociedade espera de uma instituição filantrópica”, afirma. Os projetos são avaliados por comitês especializados, reduzindo sobreposições e estimulando a colaboração entre pesquisadores brasileiros e internacionais. “Os doadores conseguem acompanhar esse percurso e compreender que nem toda pesquisa resulta imediatamente em um produto. Ainda assim, cada estudo representa um passo importante na construção de soluções que poderão chegar aos pacientes no futuro.”

 

O novo mapa da ciência

Nas últimas décadas, a filantropia passou a influenciar não apenas o financiamento, mas também as prioridades da pesquisa científica. Com maior liberdade para investir no longo prazo, fundações e grandes doadores conseguem apoiar estudos ainda embrionários, muitas vezes antes de despertarem o interesse de governos ou empresas. Em vez de distribuir recursos de forma homogênea, concentram investimentos em áreas estratégicas para enfrentar alguns dos principais desafios do século XXI.

A inteligência artificial é um dos exemplos mais evidentes dessa mudança. Muito antes da atual corrida tecnológica, organizações filantrópicas já financiavam pesquisas em aprendizado de máquina, ética, governança e impactos sociais da IA. Hoje, esses investimentos abrangem aplicações em saúde, meio ambiente e desenvolvimento de novos materiais.

Na saúde, a filantropia continua impulsionando pesquisas sobre câncer, doenças infecciosas, doenças raras e preparação para futuras pandemias, além do desenvolvimento de novas terapias e métodos diagnósticos.

Essa estratégia pode ser observada no A.C.Camargo Cancer Center. Segundo Victor Andrade, pesquisa, assistência e inovação passaram a atuar de forma integrada, com linhas de investigação definidas pelas necessidades de cada tipo de tumor. “Nossa pesquisa busca mover a fronteira da oncologia, seja aumentando a eficácia dos tratamentos, reduzindo custos ou melhorando a qualidade de vida dos pacientes”, afirma. Para isso, o centro reúne especialistas de diferentes áreas e incorpora inteligência artificial, ciência de dados, engenharia e biologia molecular. “Hoje conseguimos enxergar a pesquisa percorrendo todo o pipeline de inovação até chegar aos pacientes.”

As mudanças climáticas também remodelaram as prioridades da filantropia científica. Conservação da biodiversidade, restauração de ecossistemas, agricultura sustentável, energias renováveis e proteção dos oceanos passaram a receber investimentos crescentes. Segundo Evan Michelson, da Sloan Foundation, a filantropia ocupa uma posição singular por conseguir apoiar pesquisas interdisciplinares e de fronteira. “As organizações filantrópicas têm a oportunidade de dedicar mais recursos a áreas de ponta da ciência. Muitas vezes, podem assumir mais riscos com o financiamento que fornecem e têm a flexibilidade para apoiar esforços interdisciplinares que geralmente são difíceis de financiar em outros lugares.”

 

“Pesquisadores não desistem e buscam formas alternativas de financiamento, ao mesmo tempo em que cresce o interesse de filantropos em investir em ciência.”

 

Outra prioridade crescente é a pesquisa básica. Tecnologias hoje presentes no cotidiano — como o GPS, as vacinas de RNA mensageiro (mRNA), a edição genética por CRISPR e parte dos avanços em inteligência artificial — nasceram de investigações motivadas pela curiosidade científica, sem aplicações imediatas. Ao financiar esse tipo de pesquisa, a filantropia oferece aos cientistas um recurso cada vez mais escasso: tempo para explorar perguntas cujas respostas ainda são desconhecidas.

Os investimentos também passaram a contemplar programas voltados a jovens pesquisadores, mulheres, grupos historicamente sub-representados e equipes interdisciplinares, fortalecendo um sistema científico mais diverso e colaborativo. Para Regina Pekelmann Markus, essa transformação reflete uma reorganização mais ampla da ciência mundial. “As mudanças recentes mostram uma ruptura importante com o modelo tradicional de desenvolvimento científico. Quando olhamos para regiões que investem em ciência disruptiva e para países onde a filantropia já faz parte da cultura científica, percebemos que estamos diante de uma mudança global.”

 

O Brasil entra no mapa

Embora ainda distante dos níveis de investimento observados em países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, o Brasil começa a consolidar seu ecossistema de filantropia científica. Organizações privadas, fundos patrimoniais (endowments) e iniciativas da sociedade civil vêm ampliando as possibilidades de financiamento para universidades, institutos de pesquisa e pesquisadores.

Esse movimento não substitui o investimento público, historicamente sustentado por instituições como CNPq, Capes, Finep e pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa. Ao contrário, amplia e diversifica as fontes de recursos, oferecendo maior flexibilidade para apoiar projetos inovadores e de longo prazo.

Para Melissa A. Berman, fundadora e ex-presidente executiva da Rockefeller Philanthropy Advisors (RPA), enfrentar desafios globais exigirá a combinação de diferentes fontes de financiamento. Em entrevista à Leaders Online, ela lembra que o déficit anual para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU é estimado entre US$ 2 trilhões e US$ 3 trilhões. “Esse dinheiro não pode vir apenas da filantropia privada. Não pode vir apenas do setor público. Provavelmente também não pode vir apenas do setor empresarial. Ele precisa vir de uma combinação de todos os setores, bem como de investimentos de impacto que aproveitem o poder e os recursos dos mercados de capitais.”

Na avaliação de Marie-Anne Van Sluys, o Brasil reúne condições favoráveis para ampliar esse modelo. Ela cita instituições como o Missouri Botanical Garden e o Royal Botanic Gardens, Kew — sustentadas em grande parte por recursos filantrópicos e atualmente dirigidas por pesquisadores brasileiros — como exemplos do potencial desse tipo de investimento. “São exemplos de como a filantropia estratégica pode fortalecer instituições científicas de excelência”, afirma. (Figura 1)


Figura 1. Os Reais Jardins Botânicos de Kew (Royal Botanic Gardens, Kew) no Reino Unido, são sustentados em grande parte por recursos filantrópicos.
(Foto: Royal Botanic Gardens. Divulgação)

 

No país, organizações como o Instituto Serrapilheira, Ciência Pioneira, Fundação Grupo Boticário, Instituto Alana e fundos patrimoniais ligados às universidades vêm ampliando o apoio à ciência básica, à pesquisa ambiental, biomédica e tecnológica.

Para Victor Andrade, a busca por novas fontes de financiamento tornou-se uma resposta às dificuldades enfrentadas pela pesquisa brasileira. “Pesquisadores não desistem e buscam formas alternativas de financiamento, ao mesmo tempo em que cresce o interesse de filantropos em investir em ciência.” Segundo ele, a pandemia de covid-19 também aproximou a sociedade da pesquisa científica, reforçando a necessidade de comunicar melhor seus resultados. “Também aprendemos que é preciso comunicar melhor a ciência, traduzindo os resultados para uma linguagem acessível e utilizando as redes sociais para aproximar pesquisadores e sociedade.” (Figura 2)


Figura 2. Laboratório da Fiocruz no Rio de Janeiro durante desenvolvimento da vacina contra a Covid-19
(Foto: Fiocruz. Reprodução)

 

Outro avanço importante é o fortalecimento dos fundos patrimoniais, que criam fontes permanentes de recursos para universidades e centros de pesquisa, reduzindo a dependência exclusiva do orçamento público.

Apesar desses avanços, a cultura de doação para a ciência ainda é limitada no país. Para Regina Pekelmann Markus, o Brasil possui grande capacidade de inovação, mas precisa reconhecer e valorizar quem investe em pesquisa. “O país sempre produziu conhecimento altamente inovador. Precisamos valorizar essa capacidade criativa e dar maior visibilidade aos grupos e instituições que investem em ciência.”

Ainda em consolidação, a filantropia científica brasileira demonstra que a combinação entre investimento público, doações privadas e cooperação institucional pode ampliar as oportunidades para a pesquisa e fortalecer um sistema científico mais resiliente.

 

Uma nova aliança para a ciência

A expansão da filantropia científica reflete uma mudança na forma como o conhecimento é produzido. Em um cenário marcado por desafios globais, governos, empresas e organizações filantrópicas passam a atuar de forma cada vez mais complementar, reunindo recursos, competências e diferentes perspectivas para acelerar a produção científica.

 

“O país sempre produziu conhecimento altamente inovador. Precisamos valorizar essa capacidade criativa e dar maior visibilidade aos grupos e instituições que investem em ciência.”

 

Mais do que financiar pesquisas, a filantropia fortalece o ecossistema da ciência ao investir na formação de pesquisadores, infraestrutura, divulgação científica e redes de colaboração entre instituições e países.

Para Victor Andrade, esse movimento acompanha uma ciência cada vez mais conectada. “A informação circula de forma mais simples, os dados são mais acessíveis e os métodos científicos estão amplamente difundidos. As distâncias entre os grandes centros de pesquisa e os centros emergentes diminuíram, tornando as colaborações internacionais muito mais viáveis.”

No Brasil, esse ecossistema ainda está em consolidação, mas já revela seu potencial. Para Marie-Anne Van Sluys, a diversidade brasileira pode ser uma das maiores forças para ampliar esse modelo. “A diversidade brasileira abre espaço para a criatividade e para novas soluções. É preciso ampliar o diálogo entre diferentes atores e valorizar essa diversidade para fortalecer o investimento participativo em ciência também por meio da filantropia.”

 

Capa. Fundações e grandes doadores ampliam investimentos em ciência, impulsionando pesquisas em áreas estratégicas como saúde, inteligência artificial, clima e biodiversidade.
(Foto: Instituto Serrapilheira. Reprodução)
Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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