Crianças não esperam explicações para investigar o mundo: observam, levantam hipóteses, testam ideias e transformam o dia a dia em perguntas. Para elas, a vida é um campo aberto para descobertas, no qual fenômenos cotidianos podem se tornar questões científicas. Transformar essa disposição em uma estratégia de aprendizagem é uma das maiores potências, mas também um dos principais desafios, da divulgação científica voltada ao público infantil. Mais do que simplificar conteúdos, esse campo busca comunicar conceitos complexos de forma acessível e sem esvaziar seu significado. Em um cenário marcado pela disputa por atenção e pelo excesso de estímulos, o equilíbrio se torna delicado: como manter o encantamento e adaptar a ciência ao universo das crianças sem reduzi-la a um mero espetáculo?
Não há fórmulas mágicas. “É preciso pensar caso a caso: entender qual é o assunto, quanto dinheiro eu tenho, quais ferramentas estão disponíveis e quem é o meu público”, frisa Luisa Massarani, jornalista de ciências e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida Fiocruz. Mesmo quando o público é definido como infantil, as diferenças de faixa etária, contexto sociocultural e repertório podem exigir estratégias distintas. Para o sociólogo Yurij Castelfranchi, que atuou na concepção e coordenação do Curso de Especialização em Divulgação Científica Amerek, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa reflexão é fundamental. “É preciso se atentar não só à adequação da linguagem, mas também à narrativa, ao estilo e ao próprio conteúdo”, avalia.
A criança como protagonista
Ainda que não exista uma receita única, a prática acumulada na área oferece pistas importantes. Yurij Castelfranchi defende que estratégias que colocam a criança no centro do processo tendem a favorecer o engajamento. “A criança não é um público passivo, que está ali apenas para receber informações, mas se envolve com facilidade com aquilo que faz, escuta e vê”, observa. Ele ressalta que iniciativas que estimulam o público infantil a formular perguntas e construir respostas, participando ativamente da produção e circulação do conhecimento, costumam ser mais eficazes na comunicação científica voltada a esse público. (Figura 1)

Figura 1. Crianças visitam museu da Fiocruz.
(Foto: Guilherme Moraes/ Fiocruz. Reprodução)
Tatiana Simões, coordenadora do projeto “Ciência & Criança” e professora do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reforça essa perspectiva e aponta que o protagonismo infantil tem sido peça-chave para o sucesso do projeto. “Priorizamos um processo investigativo que começa com uma roda de conversa em que, além de questionar, ouvimos as perguntas das crianças. É fascinante notar como elas conectam naturalmente a ciência ao cotidiano”, afirma.
A pesquisadora explica que, para estimular interesse, autonomia e imaginação, a equipe busca envolver o público em todas as etapas do processo científico. “Nas atividades experimentais, partimos de uma situação-problema, construímos hipóteses junto com as crianças e testamos sempre que possível”, diz. O mesmo ocorre na produção de conteúdos: “em materiais como livros impressos e e-books, usamos storytelling e criamos narrativas baseadas nas dúvidas reais que elas trazem”, complementa.
Cientistas renomados também já foram crianças
Quando a criança se vê no centro do processo de descoberta, a divulgação científica passa a se apoiar justamente em sua natureza exploratória. “Crianças são cientistas natas: elas não têm medo do erro e possuem um interesse genuíno em entender o porquê das coisas”, descreve Tatiana Simões. Ela argumenta que a ideia de que a ciência é algo “difícil” ou restrito a poucos, ainda bastante presente no imaginário social, não é algo inerente ao conhecimento científico, mas socialmente construído – e a divulgação científica pode atuar no sentido oposto, criando experiências que contribuam para desmontar essas barreiras desde cedo.
“A criança não é um público passivo, que está ali apenas para receber informações, mas se envolve com facilidade com aquilo que faz, escuta e vê.”
No mesmo sentido, o sociólogo Yurij Castelfranchi afirma que infância é uma fase crucial de socialização e formação. “É nesse período que se constroem as primeiras representações sobre a ciência e sobre quem pode fazê-la”, completa. Sendo assim, o contato precoce com a ciência pode ter impactos duradouros. “Se você olhar a autobiografia de muitos cientistas, verá que eles frequentemente lembram de experiências marcantes ainda na infância”, diz. Ele cita exemplos como o paleontólogo Stephen Jay Gould, que relata a primeira vez que viu um fóssil em um museu, e Albert Einstein, que menciona o fascínio por uma bússola que ganhou de presente e por seus primeiros livros de divulgação científica. “Para algumas pessoas, esse pode ser o ponto de partida para o surgimento de uma vocação e, sobretudo, para perceber que a ciência é uma atividade possível”, argumenta.
Permitir que o público se identifique com as referências que constrói também é fundamental para a efetividade da divulgação científica. “Muitas vezes, nos museus, nos materiais didáticos e em outros espaços de divulgação, há um foco excessivo nos resultados finais, como se eles surgissem prontos, ou na figura de grandes gênios isolados”, observa. “Isso pode afastar o público, que não se vê nesse lugar.” Para o pesquisador, é preciso mostrar não apenas os resultados, mas também os processos, as trajetórias e a diversidade de pessoas envolvidas na produção do conhecimento. “Ampliar o leque de vozes, histórias e representações é fundamental para que mais crianças se reconheçam nesse universo”, enfatiza.
Tatiana Simões acrescenta que, além de despertar vocações, o papel da divulgação científica para crianças também é social. “Não queremos apenas incentivar carreiras científicas e tecnológicas, mas formar cidadãos que compreendam que a ciência está em todo lugar: da cozinha de casa às grandes decisões políticas e econômicas que moldam a sociedade”, pontua.
Crianças também querem aprender conceitos complexos
O desafio de comunicar ciência para crianças também atravessa a forma como o conhecimento é tradicionalmente produzido e disseminado em ambientes institucionais, entre especialistas e em materiais como artigos científicos. Em uma tentativa de “traduzir” a linguagem acadêmica, a simplificação de termos e conceitos pode ser escolhida como estratégia para tornar o conteúdo mais acessível. No entanto, simplificar, por si só, nem sempre garante compreensão. “As crianças adoram aprender uma nova palavra difícil, voltar para casa e contar para a família o nome científico de um réptil ou de um cogumelo”, observa Yurij Castelfranchi. “A questão não é, necessariamente, o léxico, mas a estrutura da narrativa e os ganchos que utilizamos”, completa.
“Crianças são cientistas natas: elas não têm medo do erro e possuem um interesse genuíno em entender o porquê das coisas.”
Rita de Cássia Café Ferreira, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), sediado na Universidade de São Paulo (USP) e vinculado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e coordenadora do “Projeto #Adote”, concorda que, mais do que apenas dar a definição de dicionário para palavras “difíceis”, é necessário explicar o que está por trás desses jargões e o motivo pelo qual é importante que essas palavras existam. “Ancorar essas informações nas experiências e conhecimentos prévios do público-alvo, além de facilitar o entendimento do conteúdo, também transforma informações teóricas em algo palpável”, diz.
Quando o tema é facilitar a compreensão de assuntos desafiadores, a aproximação com o cotidiano ajuda a romper barreiras. “Por exemplo, falar sobre seres impossíveis de serem vistos a olho nu é algo abstrato, mas pensar sobre como as características desses seres influenciam os medicamentos que os médicos receitam torna isso mais concreto”, exemplifica a pesquisadora. O uso de analogias e outras comparações também é citado por Luisa Massarani e Tatiana Simões como uma ferramenta estratégica para alcançar o público infantil. “As crianças compreendem mais assuntos complexos do que imaginamos”, ressalta Luisa Massarani. (Figura 2)

Figura 2. Todos os temas podem ser trabalhados com as crianças, de mudanças climáticas à física quântica.
(Foto: Jardel Rodrigues/ SBPC. Reprodução)
Iniciativas brasileiras de divulgação científica engajam crianças
Diante desses desafios, algumas iniciativas brasileiras têm buscado levar à prática os princípios da divulgação científica voltada ao público infantil. No Paraná, Tatiana Simões coordena o projeto de extensão “Ciência & Criança”, criado em 2020 com o objetivo de estimular a curiosidade e o espírito investigativo de crianças, além de aproximar pais e educadores desse universo. “A ideia é despertar o interesse pela ciência como um todo, fomentar sua valorização e mostrar que a universidade também é um espaço que pertence a elas”, afirma.
Com foco na disseminação de conteúdos de química, o projeto combina ações no ambiente digital e presencial, incluindo a produção de livros, vídeos com experimentos e oficinas. Entre as abordagens adotadas, a contação de histórias ocupa um lugar central. “Uma das nossas estratégias mais bem-sucedidas é a contação de histórias focada em trajetórias de cientistas brasileiras durante nossas oficinas”, destaca a pesquisadora. “Ao utilizar o livro ‘As Cientistas Superpoderosas’, humanizamos a ciência e mostramos que o cientista não é um gênio isolado, mas alguém que já foi criança, teve dúvidas e enfrentou desafios”, avalia.
Em São Paulo, uma das vertentes do “Projeto #Adote” navega entre escolas, museus e laboratórios para divulgar conteúdos sobre microbiologia para crianças. A iniciativa atua desde 2013 sob coordenação de Rita Café de Cássia Ferreira e engaja estudantes de graduação e pós-graduação como agentes multiplicadores do conhecimento em atividades de extensão. “Miniexperimentos, contato com equipamentos de laboratório, jogos educativos e peças teatrais são exemplos de estratégias eficazes”, aponta a pesquisadora. Ela acrescenta que a abertura para que os participantes façam perguntas, explorem o conteúdo e compartilhem conhecimentos prévios em rodas de conversa é essencial, uma vez que transforma a exposição de conteúdo em diálogo, fortalecendo o engajamento, a atenção e a motivação das crianças.
Seriedade e ludicidade caminham juntas na divulgação de ciências para crianças
Se, na prática, iniciativas como o “Ciência & Criança” e o “Projeto #Adote” mostram caminhos possíveis para engajar o público infantil, elas também evidenciam um dos pontos mais sensíveis da divulgação científica: o equilíbrio entre seriedade e ludicidade. Em atividades que envolvem experimentos, jogos, histórias e interação, o desafio não está apenas em atrair a atenção das crianças, mas em garantir que o conteúdo científico permaneça no centro da experiência. “A seriedade não é contrária ao lúdico, nem ao riso, nem à diversão, mas nenhum desses pode se sobrepor ao principal objetivo, que é transmitir e falar de ciência”, defende Rita de Cássia Café Ferreira.
O sociólogo Yurij Castelfranchi também acredita que o uso do entretenimento não entra em conflito com a seriedade, desde que o público infantil não seja subestimado. “É possível falar de temas como mudanças climáticas, medicina ou astronomia de forma leve e interessante, sem abrir mão da profundidade. O objetivo não é apenas entreter, mas construir, junto com o público, uma compreensão sobre o que é a ciência e como ela funciona”, pontua.
“Ampliar o leque de vozes, histórias e representações é fundamental para que mais crianças se reconheçam nesse universo.”
Para Tatiana Simões, equilíbrio está na intencionalidade. “Um experimento visualmente bonito, se apresentado sem contexto, vira apenas um truque de mágica”, observa. Segundo ela, o mesmo ocorre quando descobertas científicas são tratadas de forma sensacionalista. “A ciência que realmente engaja é aquela que mostra o processo, não apenas o resultado. Quando destacamos como o conhecimento é construído, evitamos o espetáculo vazio e promovemos um encantamento mais duradouro”, explica. Para ela, o caminho é mostrar que a ciência é coletiva, sistemática e, acima de tudo, humana, a fim de promover o encantamento real pelo saber e a valorização da ciência.
Entre diferentes estratégias, linguagens e contextos, encontrar pontes para uma divulgação científica eficaz para crianças faz parte de uma construção que dialoga com a própria ciência. “Na ciência, não há uma magia que te permite puxar da cartola imediatamente a solução para cada problema, não há uma lei eterna”, diz Yurij Castelfranchi. Esse também parece ser o caso da divulgação científica para crianças – e, de forma mais ampla, da divulgação científica em si.
Diante de diferentes públicos e abordagens, Luisa Massarani alerta que não há espaço para automatismos: é preciso avaliar continuamente as estratégias utilizadas e seus efeitos. Para ela, a prática se mostra como uma das principais aliadas. “Eu fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado em divulgação científica e isso me ajudou muito a aprofundar a reflexão e a compreensão na área, mas, como divulgadora científica para crianças, minha principal escola foram os cinco anos em que fui editora da ‘Ciência Hoje das Crianças’”, recorda. A experiência reforça a importância de conhecer em profundidade e levar em conta quem se quer alcançar – um princípio que não se restringe à divulgação voltada às crianças, mas atravessa qualquer iniciativa de divulgação científica.


