Resenha
Lewinsohn Agua-Forte 2026 Praia do Espelho capa

Entre marés e abstrações: o olhar sensível de Thomas Lewinsohn

Fotolivro “Água-Forte” revela paisagens sutis do litoral a partir do encontro entre ciência, arte e contemplação

O fotolivro de Thomas Lewinsohn, “Água-Forte – Imagens do mundo flutuante”, foi lançado no 15º Festival de Fotografia (de 11 a 15 de março), em Tiradentes, Minas Gerais. Fotógrafo, biólogo e músico, professor emérito do Instituto de Biologia da Unicamp, ainda em atividade como pesquisador colaborador e Pesquisador Sênior do CNPq, com vários projetos de pesquisa em andamento, Thomas voltou a fotografar nos últimos vinte anos, dedicando-se a explorar, sem pressa, a sutileza de formas, cores e texturas  no litoral brasileiro e em outros países da América Latina.

Lançado pela Editora Lovely House, de São Paulo, o livro de Thomas Lewinsohn foi coeditado com Eder Ribeiro e Luciana Molisani, que também assina o projeto gráfico. O livro inclui 85 fotos produzidas pela observação atenta de cenários aparentemente corriqueiros, seja em recortes de falésias que evocam pinturas rupestres, seja buscando formas e desenhos modelados por fragmentos de conchas, pedras, algas ou rastros minerais na areia, criados pelo movimento das marés, que a cada hora fazem e desfazem outras imagens. Um olhar de biólogo, que capta formas sutis em uma realidade densa de cores, texturas e formas.

Como escreve Lewinsohn no livro, “muitas das fotografias bordejam o abstrato, brincam com seus limites. A abstração está ao alcance da vista, mas pede tempo para se revelar. Para isso, a praia é perfeita: lugar para flanar sem itinerário, sem plano, sem horário”. E conclui: “a abstração fotográfica é um puro construto do meu imaginário? Penso que não. As imagens emergem do encontro entre o olhar e o mundo. O olho revela, reconfigura o mundo”.

Foto: Thomas Lewinsohn, “Água-Forte – Imagens do mundo flutuante”. Divulgação

 

Entre as artes e a ciência

As artes e a ciência sempre estiveram entremeadas na sua vida. Desde  muito jovem, ocupou-se com ciência, literatura, música, e outras artes. Foi fotógrafo profissional entre 1969 e 1975, em paralelo ao curso de Biologia na UFRJ, que chegou a interromper, com a intenção de estudar artes visuais nos Estados Unidos. Mas retornou à Biologia e, após se formar em 1975, integrou a primeira turma de Mestrado em Ecologia da Unicamp, onde também obteve o Doutorado em Ciências.

 

“Muitas das fotografias bordejam o abstrato, brincam com seus limites.”

 

Docente da Unicamp desde 1980, tornou-se Professor Titular em 2006 e recebeu o título de Professor Emérito em Ecologia em 2024. Em sua carreira, pesquisou a organização de interações entre insetos e plantas e tornou-se um dos primeiros especialistas brasileiros em biodiversidade, tanto na pesquisa básica como na criação de programas de pesquisa e coordenações na Fapesp e no CNPq.

Teve intensa atividade internacional como pesquisador e professor visitante em importantes centros na Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Alemanha e Argentina. Em 2018-2019, foi pesquisador do Wissenschaftskolleg (Instituto de Estudos Avançados) de Berlim, sendo o único brasileiro a receber bolsa da Federação Europeia  de Institutos Avançados. Ao mesmo tempo, foi consultor e membro de comissões no Ministério do Meio Ambiente, no Fundo Ambiental Global do Banco Mundial e na Fundação Europeia de Ciências, entre outros.

Foto: Thomas Lewinsohn, “Água-Forte – Imagens do mundo flutuante”. Divulgação

 

Uma paixão retomada

O olhar fotográfico de Thomas Lewinsohn foi marcado, desde jovem, pela convivência com duas artistas visuais destacadas, Fayga Ostrower e Anna Bella Geiger, às quais o livro é dedicado. Igualmente marcante foi um breve estágio nos arquivos de fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1971, que lhe deu oportunidade de estudar os originais de grandes mestres.

Embora nunca tenha deixado a fotografia, a partir de 2005 ela voltou gradualmente a tomar sua atenção. O projeto do fotolivro “Água-Forte” foi iniciado em workshops e leituras de portfólio nos Encontros de Fotografia de Arles, na França, em 2023. Também foi estimulado por pessoas que comentaram seu trabalho, incluindo o artista visual Nuno Ramos e o fotógrafo Walter Firmo, para quem Thomas Lewinsohn é “o sonhador das imagens”.

Em setembro de 2024,  fez sua primeira exposição, “Entre Marés”, no Instituto Pavão Cultural, em Campinas, SP, com um conjunto de fotografias praieiras de 2008 a 2028, ponto de partida para o novo livro.

Foto: Thomas Lewinsohn, “Água-Forte – Imagens do mundo flutuante”. Divulgação

 

Percepções

De acordo com Anna Bella, que assina um dos textos do fotolivro, “Thomas Lewinsohn é um cientista e um artista da fotografia. Em sua obra fotográfica atual, ele por vezes se aproxima da Geologia, como alguém que encontra na natureza da crosta terrestre, o seu leitmotiv, revelando aspectos da Terra, de suas camadas. São todas de uma beleza fina e naturalista”.

“O quase silêncio das imagens” é o título do texto de Fernando de Tacca, antropólogo e ex-professor de fotografia do Instituto de Artes da Unicamp. Segundo Tacca, quando as viu pela primeira vez foi tomado pelas imagens, em que “não havia a imediatez de uma materialidade visível da natureza. Havia um mergulho para algo do inconsciente incontroláveis; as imagens me habitaram em sensações súbitas de sentimentos, afetos, medos, estranheza, surpresas e incompreensão… Havia somente navegar em mar aberto, sem bússola”.

 

“As imagens emergem do encontro entre o olhar e o mundo. O olho revela, reconfigura o mundo”.

 

Para Eder Ribeiro, curador e coeditor do livro, em vez de uma abordagem cartográfica da paisagem, “é o olhar atento sobre os pequenos detalhes desta paisagem do tempo, que estruturam sua pesquisa visual. É no campo do sensível que as imagens repousam, e não do descritível. O olhar de Thomas, após perscrutar, pacientemente, esse território, promove a construção de novas paisagens visuais, nas quais a abstração e a fricção estão em permanente fricção”.

 

Novas exposições

Em breve, o livro será apresentado em lançamentos em Campinas e, ao longo de 2026, em outras cidades brasileiras, acompanhando exposições das fotografias originais. Será também submetido a mostras de fotolivros e eventos fotográficos em outros países, como Argentina e França.

Capa: Thomas Lewinsohn, “Água-Forte – Imagens do mundo flutuante”. Divulgação
Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Graça Caldas

Graça Caldas

Graça Caldas é Jornalista desde 1969. É professora-pesquisadora colaborada do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp. Atuou em vários veículos de comunicação, entre eles Diário de Notícias e TV Globo (Rio de Janeiro), revistas Pais e Filhos, Fatos e Fotos e Amiga (Ed. Bloch), também no RJ, e Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil (São Paulo).
Graça Caldas é Jornalista desde 1969. É professora-pesquisadora colaborada do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp. Atuou em vários veículos de comunicação, entre eles Diário de Notícias e TV Globo (Rio de Janeiro), revistas Pais e Filhos, Fatos e Fotos e Amiga (Ed. Bloch), também no RJ, e Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil (São Paulo).
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