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ABC: um século moldando a ciência brasileira

Da fundação em 1916 à atuação global, a Academia Brasileira de Ciências consolidou-se como voz estratégica da ciência no país

A história da ciência organizada no Brasil passa, inevitavelmente, pela trajetória da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Fundada em 3 de maio de 1916, no Rio de Janeiro, então capital da República, a instituição nasceu de encontros informais entre professores da Escola Politécnica e rapidamente se expandiu com a participação de pesquisadores de centros como o Observatório Nacional, o Museu Nacional e o Instituto Oswaldo Cruz.

Inicialmente batizada de Sociedade Brasileira de Sciencias, a entidade surgiu inspirada em modelos internacionais, como as academias europeias, com o objetivo de consolidar a pesquisa científica no país. Desde o início, a proposta era clara: estruturar um espaço de intercâmbio intelectual capaz de impulsionar o desenvolvimento científico nacional.

À frente desse movimento estava o astrônomo Henrique Morize, primeiro presidente da instituição, que ajudou a estabelecer uma organização autônoma, independente do governo, ainda que com expectativa de apoio público. Essa característica marcaria profundamente a atuação da ABC ao longo de sua história.

 

Ciência como projeto de país

Desde seus primeiros anos, a ABC assumiu um papel estratégico ao defender a ciência como base do desenvolvimento nacional. Entre suas prioridades estava a produção e difusão do conhecimento, materializada na criação de seu periódico científico, que daria origem aos Anais da Academia Brasileira de Ciências — hoje a revista científica mais antiga do país em circulação contínua.

A publicação enfrentou dificuldades iniciais, com periodicidade irregular, mas se consolidou a partir de 1929. Um episódio emblemático desse período foi a publicação, em 1926, de um artigo de Albert Einstein, evidenciando o alcance internacional que a instituição já começava a construir. (Figura 1)


Figura 1. Albert Einstein em visita à sede da ABC em 1925
(Foto: Arquivo ABC. Reprodução)

 

Ao longo das décadas, a ABC também se envolveu diretamente em debates estruturantes sobre o Brasil, defendendo a importância da ciência na educação, na industrialização e na inovação tecnológica. Mais do que produzir conhecimento, a instituição buscava moldar um projeto de país baseado em uma base científica sólida.

 

Estrutura, expansão e diversidade do conhecimento

Inspirada na Academia Francesa de Ciências, a ABC começou com três grandes áreas — matemática, ciências físico-químicas e ciências biológicas —, refletindo a organização do conhecimento científico no início do século XX. Com o tempo, essa estrutura se expandiu e se diversificou, acompanhando a complexidade crescente da ciência.

Hoje, a instituição reúne dez áreas especializadas, incluindo engenharias, ciências da saúde, agrárias e humanas, evidenciando uma ampliação significativa de escopo. Essa evolução também reflete mudanças na própria concepção de ciência, cada vez mais interdisciplinar.

Outro aspecto importante é a composição de seus membros. A ABC reúne cientistas de excelência, tanto brasileiros quanto estrangeiros, além de colaboradores e jovens afiliados, criando um ambiente que combina tradição, renovação e intercâmbio internacional.

 

Entre crises e consolidação institucional

A trajetória da ABC também é marcada por desafios. Ao longo do século XX, a instituição enfrentou dificuldades financeiras e estruturais, incluindo a perda de sua sede na década de 1920, o que obrigou seus membros a se reunirem em diferentes locais por décadas.

 

“A criação da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 3 de maio de 1916 representou um marco na história científica do Brasil.”

 

Foi apenas em 1960 que a ABC conseguiu se estabelecer definitivamente em sua atual sede, no centro do Rio de Janeiro, após um longo processo de busca por estabilidade institucional. Esse período foi crucial para a sobrevivência da entidade, que precisou equilibrar crescimento, renovação e sustentabilidade financeira. Figuras como Artur Moses desempenharam papel fundamental nesse processo, garantindo a continuidade das atividades científicas e da publicação dos Anais, mesmo em contextos adversos.

 

Influência decisiva na ciência brasileira

Ao longo de sua história, a ABC teve atuação decisiva na criação e consolidação de instituições-chave da ciência brasileira. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por exemplo, teve origem em um projeto concebido no interior da Academia.

Outras instituições estratégicas, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), também surgiram a partir de iniciativas ou articulações envolvendo seus membros. Além disso, a Academia contribuiu para a modernização de universidades e para a criação de entidades científicas como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Esse protagonismo evidencia o papel da ABC não apenas como espaço de reflexão, mas como agente ativo na construção da infraestrutura científica do país.

 

Intercâmbio internacional e circulação do conhecimento

Desde cedo, a ABC buscou estabelecer conexões internacionais, promovendo intercâmbios científicos e cooperações com instituições estrangeiras. Convênios com organizações como a Japan Society for the Promotion of Science e centros de pesquisa internacionais fortaleceram essa dimensão global.

Eventos, conferências e visitas de cientistas estrangeiros também marcaram a trajetória da ABC, ampliando o diálogo com a comunidade científica mundial. Em celebrações recentes, a presença de laureados com o Prêmio Nobel e lideranças científicas internacionais reafirma esse papel de articulação global.

 

“A ABC foi muito importante para a institucionalização e profissionalização da ciência no Brasil.”

 

Essa circulação de ideias e pesquisadores contribui não apenas para o avanço científico, mas também para a inserção do Brasil em debates estratégicos sobre temas como energia, meio ambiente e desigualdade.

 

Ciência, política e desafios contemporâneos

Reconhecida oficialmente como parte do sistema nacional de ciência e tecnologia a partir de 1967, a ABC consolidou-se como uma voz qualificada na formulação de políticas públicas. Seus estudos e relatórios têm orientado decisões em áreas como educação, sustentabilidade, energia e saúde.

Mais de um século após sua fundação, a Academia Brasileira de Ciências permanece como uma das principais instituições científicas do país, combinando tradição e renovação. Sua trajetória revela não apenas a história da ciência no Brasil, mas também as tensões e desafios de construir conhecimento em um país marcado por desigualdades. (Figura 2)


Figura 2. Exposição interativa comemora 100 anos da ABC
(Foto: ABC. Reprodução)

 

Ao longo desse percurso, a ABC reafirmou continuamente a ciência como um bem público e um instrumento essencial para o desenvolvimento social e econômico. Em um cenário global de rápidas transformações, sua atuação segue sendo fundamental para articular a comunidade científica e contribuir para o futuro do país.

 

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