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“O conhecimento nunca é neutro.”

Confira entrevista com a compositora e performer Isabel Porto Nogueira, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Poucas artistas e pesquisadoras transitam com tanta naturalidade entre criação musical, pesquisa acadêmica, performance experimental e militância feminista quanto Isabel Porto Nogueira. Professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), bolsista de produtividade do CNPq, compositora, performer e pesquisadora, Isabel Nogueira construiu uma trajetória marcada pela investigação sobre gênero, memória, escuta e experimentação sonora. Ao longo de mais de duas décadas, tornou-se uma das principais referências brasileiras nos estudos de gênero e música, articulando produção artística, docência, ativismo e pesquisa em uma atuação profundamente conectada às transformações sociais e culturais do país. “Criar, além do que nos foi dado ou permitido usufruir, me parece uma coisa importante”, diz a pesquisadora. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, Isabel reflete sobre a descoberta de que os silenciamentos vividos por mulheres na música não eram experiências individuais, mas parte de estruturas históricas e sistêmicas. A pesquisadora também discute a importância das redes femininas de apoio, da educação sonora, da criação de comunidades de escuta e da necessidade de romper com modelos tradicionais que ainda invisibilizam mulheres na composição, na música experimental e na academia “Quando tu percebe outra pessoa com quem tu pode te identificar fazendo aquilo, teu corpo inteiro reage como uma forma de dizer: ‘puxa, eu também posso’”, afirma.

 

Ciência & Cultura — Ao longo da sua trajetória, você transita entre criação artística, pesquisa acadêmica e ativismo feminista. Em que momento esses campos deixaram de ser caminhos paralelos e passaram a se alimentar mutuamente no seu trabalho?

Isabel Porto Nogueira — Acho que não houve exatamente um momento específico, mas vários momentos em que fui percebendo que essas áreas estavam profundamente ligadas. Minha relação com a música começou muito cedo: comecei a estudar piano clássico aos oito anos, ao mesmo tempo em que escrevia poesias e diários. Também desde muito nova me interessava pela experimentação sonora e pela música eletrônica, embora, naquele período, esses universos parecessem separados.

Quando fui para a Espanha fazer doutorado em musicologia, entrei em contato com os estudos de gênero e comecei a compreender algo que transformou profundamente minha visão: as dificuldades que eu havia vivido não eram apenas experiências pessoais, mas parte de uma estrutura maior. Eu já compunha desde os 13 anos, mas ouvia constantemente que o mais importante para mim seria tocar piano e interpretar compositores consagrados — quase sempre homens europeus.

Ao ler autoras feministas e pesquisadoras como Lucy Green, fui entendendo que as mulheres historicamente foram desencorajadas a ocupar espaços ligados à tecnologia, à composição e à experimentação musical. Percebi que existiam lugares considerados “adequados” para mulheres, como o de cantora, professora ou educadora, funções associadas ao cuidado.

A partir disso, comecei a pesquisar compositoras, intérpretes e os apagamentos históricos presentes nos arquivos musicais. Mais tarde, percebi que esses silenciamentos não pertenciam apenas ao passado: continuam acontecendo no presente. Isso me levou a entender que minha própria produção artística também precisava ocupar espaço e dialogar com outras mulheres.

Com o tempo, esses caminhos passaram a se retroalimentar. Minha criação artística fortalece minha atuação docente e minha pesquisa, enquanto a escuta — da música, do mundo e das outras pessoas — atravessa todos esses processos. Hoje percebo tudo isso como algo em permanente transformação.

 

 

“Eu fui percebendo que não era só pessoal, era sistêmico.”

 

C&C — Seu trabalho em musicologia dialoga com memória, acervos e instituições musicais, mas também com experimentação sonora. Como você equilibra a investigação histórica com a criação contemporânea?

IPN — Entender os mecanismos que construíram o chamado sistema da música é fundamental para compreender como nossas ideias sobre arte e legitimidade foram formadas. Quando observamos os repertórios das orquestras, os artistas mais tocados nas plataformas de streaming ou os compositores mais estudados, ainda vemos uma predominância muito grande de homens brancos europeus.

Isso revela um problema histórico: faltaram modelos femininos visíveis para que outras mulheres pudessem se reconhecer nesses espaços. Não é possível que apenas homens tenham produzido música relevante ao longo da história. O que aconteceu foi um processo de invisibilização.

A experimentação sonora aparece, então, como uma forma de imaginar outros mundos possíveis. Muitas mulheres cresceram sem espaço para desenvolver plenamente sua criatividade, porque lhes foi atribuído um papel ligado ao cuidado, à produtividade e à atenção aos outros. Imaginar, criar e experimentar muitas vezes eram vistos como algo secundário.

Por isso, para mim, a experimentação não é apenas estética: ela é política. Ela permite buscar novas vozes, novos modos de existir e novos espaços de atuação. Os estudos sobre memória, arquivos e instituições mostram justamente como certos modelos foram naturalizados ao longo do tempo, tornando-se quase invisíveis no nosso imaginário. Criar, experimentar e imaginar outras possibilidades se torna, assim, uma forma de resistência e transformação.

 

C&C — Você atua há mais de duas décadas na construção do campo de gênero e música no Brasil. Que mudanças mais chamam sua atenção nesse período?

IPN — Uma das transformações mais importantes foi o aumento da circulação de informações e da capacidade das pessoas jovens de identificar e nomear violências de gênero e desigualdades dentro da música e da academia. No início dos anos 2000, ainda estávamos tentando formar redes e descobrir quem pesquisava gênero e música no Brasil. Hoje, essas redes se fortaleceram muito e isso é fundamental. Buscar apoio em outras mulheres, construir projetos coletivos e desenvolver pesquisas de forma colaborativa se tornou uma estratégia importante de resistência.

Outro ponto central trazido pelas epistemologias feministas é a compreensão de que o conhecimento não é neutro. Durante muito tempo, a música foi tratada como se existisse separada das experiências humanas, como se apenas a estrutura musical importasse. Mas fazemos arte a partir de quem somos, das nossas memórias, dos nossos corpos e das nossas histórias.

Apesar dos avanços, ainda existe uma forte resistência dentro da academia. Os currículos continuam profundamente marcados por uma lógica eurocêntrica e colonial. Conhecer a tradição europeia é importante, mas também precisamos estudar a música produzida no Brasil e reconhecer as múltiplas vozes que nos constituem culturalmente. Essa transformação ainda está em curso e enfrenta muitas disputas.

 

“As mulheres em geral não são incentivadas a lidar com a tecnologia, nem com a experimentação, nem com a composição.”

 

C&C — Projetos como o Sônicas e o Girls Rock Camp mostram uma dimensão formativa e política da música. Que papel a educação sonora pode ter na ampliação da presença de meninas e mulheres na ciência e na criação musical?

IPN — A educação sonora tem um papel transformador porque começa pelos modelos de identificação. Quando meninas e mulheres veem outras pessoas parecidas com elas criando, compondo, pesquisando e ocupando espaços, algo muda profundamente. Surge a sensação de que “eu também posso”.

Esses espaços funcionam também como redes de incentivo. Muitas mulheres convivem com a sensação de nunca saberem o suficiente ou de não estarem preparadas o bastante para criar. Em ambientes colaborativos, elas podem experimentar, compartilhar ideias e desenvolver confiança.

Outro aspecto importante é a construção de comunidades de prática e de escuta. Não se trata apenas de aprender técnicas musicais, mas de compartilhar conhecimentos sobre produção, circulação, composição e inserção no mercado musical. É criar espaços em que mulheres possam apoiar umas às outras.

Também buscamos desenvolver a escrita cotidiana e a escuta atenta como formas de fortalecer a própria voz. A curiosidade, a confiança e o acolhimento das diferenças são fundamentais para que mais mulheres participem da ciência e da criação artística.

Além disso, tentamos construir ambientes que não reproduzam lógicas patriarcais rígidas de produtividade. Cada pessoa possui ritmos, necessidades e formas diferentes de criar. Escutar essas diferenças também faz parte da construção coletiva.

 

Ciência & Cultura — Mesmo com avanços recentes, a presença feminina na música ainda é marcada por desigualdades. Quais mecanismos mais sutis continuam invisibilizando mulheres nesses espaços?

IPN — Existe ainda uma disputa muito forte por autoridade e reconhecimento. Quem pode falar? Quem é legitimado como alguém importante? Quem é citado, estudado e lembrado?

Na música, embora muitas mulheres produzam pesquisa e criação artística, os nomes mais referenciados continuam sendo majoritariamente masculinos. Isso aparece nos currículos, nas programações, nos concursos e nas referências bibliográficas.

Há também mecanismos institucionais que se perpetuam. Muitas vezes, homens ocupam os espaços de decisão dentro da academia e acabam reproduzindo modelos semelhantes aos seus próprios trajetos. Isso cria um ciclo contínuo de validação masculina.

Além disso, as mulheres ainda enfrentam sobrecarga de trabalho, jornadas múltiplas e impactos da maternidade sobre a produção acadêmica e artística. Algumas políticas recentes tentam corrigir essas desigualdades, mas os obstáculos permanecem bastante fortes. São mecanismos sutis porque muitas vezes não aparecem de forma explícita, mas seus efeitos se tornam visíveis quando observamos quem ocupa os espaços de maior prestígio e poder.

 

C&C — Como você enxerga a construção de uma estética feminista na música? Ela necessariamente implica ruptura com tradições estabelecidas?

IPN — Se as tradições musicais invisibilizaram sistematicamente mulheres durante séculos, me parece inevitável que seja necessária alguma forma de ruptura. Isso não significa abandonar completamente tudo o que foi produzido antes, mas compreender que linguagem, estética e critérios de valor nunca são neutros.

A musicóloga Susan McClary, por exemplo, mostra como certos elementos da teoria musical ocidental carregam associações de gênero profundamente enraizadas. Isso nos faz perceber que até mesmo a estrutura da linguagem musical foi construída dentro de relações históricas de poder. Uma criação feminista busca questionar esses modelos e construir outros espaços possíveis. Ela olha para as produções próximas, para as redes locais, para as vozes que foram silenciadas e para os mundos que desejamos criar.

Na música experimental, muitas mulheres trabalham com escuta profunda, paisagens sonoras, gravações de campo e recuperação de vozes historicamente apagadas. Existe uma preocupação em desenvolver outras formas de escutar e existir. Para mim, uma estética feminista também envolve diversidade, sustentabilidade e redução das desigualdades. A criação artística transforma o mundo, mesmo quando parece pequena. Toda música produz efeitos sobre a maneira como percebemos as pessoas, os corpos e as possibilidades de existência.

 

“Importa principalmente que mundo a gente quer criar.”

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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