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Marilda de Souza Gonçalves, a cientista que transformou genética em cuidado

Pesquisadora da Fiocruz Bahia ajudou a ampliar o diagnóstico precoce da doença falciforme e tornou-se referência em ciência, formação e liderança no Brasil

Um pequeno furo no calcanhar de um recém-nascido pode mudar uma vida inteira. O teste do pezinho, realizado nos primeiros dias após o nascimento, tornou-se uma das ferramentas mais importantes da saúde pública brasileira ao permitir o diagnóstico precoce de diversas doenças. Entre as cientistas que contribuíram para transformar esse exame em instrumento decisivo no combate à doença falciforme está Marilda de Souza Gonçalves, biomédica, geneticista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Bahia.

Sua trajetória reúne ciência de excelência, compromisso social e pioneirismo institucional. Primeira mulher negra a dirigir a Fiocruz Bahia, Marilda Gonçalves construiu uma carreira marcada por pesquisas sobre genética humana, hemoglobinopatias e saúde materno-fetal, além de décadas dedicadas à formação de novos pesquisadores.

Mais do que ocupar espaços, ela ajudou a redefini-los. Em um ambiente acadêmico historicamente desigual, sua presença tornou-se símbolo de competência, resistência e transformação. Ao longo de sua vida profissional, mostrou que laboratórios também são territórios de justiça social.

 

A genética a serviço da população

Ao longo da carreira, Marilda Gonçalves concentrou seus estudos em hematologia e genética, com ênfase em biologia molecular. Investigou a interação entre fatores genéticos e marcadores hematológicos, bioquímicos e imunológicos relacionados a anemias, leucemias e outras condições sistêmicas.

 

“Laboratórios também são territórios de justiça social.”

 

Mas foi no campo da doença falciforme que sua atuação ganhou especial relevância. Trata-se de uma condição hereditária que altera o formato das hemácias, dificultando a circulação sanguínea e podendo causar dores intensas, infecções, anemia crônica e complicações graves em diferentes órgãos. No Brasil, a enfermidade tem grande impacto social e epidemiológico, especialmente na população negra.

Nesse contexto, a identificação precoce é decisiva. Marilda Gonçalves participou de iniciativas científicas voltadas ao desenvolvimento e consolidação do teste do pezinho para reconhecer a doença falciforme ainda nos primeiros dias de vida. O diagnóstico antecipado permite acompanhamento médico imediato, vacinação adequada, prevenção de infecções e melhora significativa na qualidade de vida das crianças.

 


Figura 1. Divulgação

 

Seu trabalho ajudou a demonstrar que genética não é apenas um campo laboratorial sofisticado: é também ferramenta concreta de cuidado, prevenção e equidade em saúde pública.

 

Liderança feminina e negra na ciência

Em 2017, Marilda Gonçalves foi nomeada diretora da Fiocruz Bahia, tornando-se a primeira mulher a comandar a instituição. Mais tarde, teve o mandato renovado. O feito possui peso simbólico e histórico em um país onde mulheres negras seguem sub-representadas em cargos de liderança científica.

Sua chegada à direção também refletiu uma visão ampla de ciência: pesquisa articulada com ensino, inovação e compromisso com o Sistema Único de Saúde (SUS). Sob sua liderança, a Fiocruz Bahia fortaleceu programas de investigação biomédica e formação de recursos humanos.

Ao mesmo tempo, sua trajetória inspira jovens pesquisadoras e estudantes que por décadas pouco se viram representadas em universidades e centros de pesquisa. Quando uma cientista negra ocupa espaços estratégicos, amplia-se o horizonte de possibilidades para toda uma geração.

 

A professora que forma cientistas

Além da pesquisa, Marilda Gonçalves construiu longa carreira docente. Tornou-se professora titular da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atuou em programas de pós-graduação em patologia, imunologia, biotecnologia e medicina investigativa.

 

Figura 2. Fiocruz Bahia. Reprodução

 

Orientou dezenas de estudantes, participou da formação de mestres e doutores e ajudou a consolidar redes científicas no Brasil. Em entrevistas, costuma destacar a importância do educador como aquele que ajuda pessoas a descobrir suas potencialidades.

Seu legado, portanto, não se mede apenas em artigos científicos ou cargos ocupados, mas também nas carreiras que ajudou a lançar e nas vocações que estimulou dentro e fora do laboratório.

 

A ciência como projeto de futuro

Em tempos de desinformação e ataques ao conhecimento científico, Marilda tornou-se também voz pública em defesa da pesquisa. Para ela, a ciência é elemento indispensável ao desenvolvimento humano, à saúde coletiva e à construção de sociedades mais justas.

 

“Investigar genes pode significar salvar vidas, reduzir desigualdades e abrir caminhos para o futuro.”

 

Sua própria trajetória confirma essa convicção. Da sala de aula ao laboratório, da bancada molecular à gestão institucional, ela mostrou que investigar genes pode significar salvar vidas, reduzir desigualdades e abrir caminhos para o futuro.

Marilda de Souza Gonçalves representa uma geração de cientistas brasileiras que transformaram excelência acadêmica em compromisso social. E lembra, todos os dias, que a ciência começa com curiosidade — mas alcança seu sentido pleno quando chega às pessoas.

 

Capa. Fiocruz. Reprodução

 

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