Enquanto muitos ainda associam a ciência a laboratórios sofisticados, equipamentos de última geração e universidades distantes da realidade cotidiana, uma revolução silenciosa acontece em vielas, centros comunitários, escolas públicas e espaços culturais das periferias brasileiras. Nesses territórios, moradores transformam problemas concretos em perguntas de pesquisa, desenvolvem soluções para desafios locais e constroem novas formas de produzir conhecimento. É a ciência que nasce das urgências da vida real — e que, justamente por isso, tem o potencial de transformar comunidades inteiras.
Ciência além dos muros
Durante muito tempo, a produção científica foi vista como uma atividade concentrada em instituições formais de ensino e pesquisa. Nos últimos anos, porém, iniciativas comunitárias têm demonstrado que o conhecimento também pode surgir em territórios historicamente marginalizados. Mais do que ampliar o acesso à ciência, esses movimentos questionam quem produz conhecimento, para quem ele serve e quais problemas merece investigar.
A chamada ciência periférica não representa apenas a presença da ciência nas periferias. Trata-se de um movimento político, cultural e pedagógico que descentraliza a produção do conhecimento, valoriza saberes locais e transforma moradores em protagonistas dos processos de investigação. Nesse contexto, a periferia deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ocupar o papel de sujeito ativo da pesquisa.
“A periferia deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ocupar o papel de sujeito ativo da pesquisa.”
Essa mudança de perspectiva tem inspirado iniciativas que unem educação, tecnologia, participação cidadã e inovação social. Coletivos comunitários, cursinhos populares, makerspaces e projetos de ciência cidadã vêm mostrando que o conhecimento científico pode ser uma ferramenta poderosa para enfrentar desigualdades e ampliar oportunidades.
Territórios de conhecimento e transformação
Na literatura internacional, especialmente a partir da década de 1980, ganhou força o conceito de educação científica urbana (urban science education). O campo busca compreender como ensinar e produzir ciência em regiões marcadas por desigualdades sociais, escassez de recursos e exclusão histórica.
Nessa abordagem, a periferia não é definida apenas por sua localização geográfica, mas por condições sociais que limitam o acesso a direitos, serviços e oportunidades. Ao mesmo tempo, esses territórios são reconhecidos como espaços de criatividade, resistência e produção cultural. A questão central passa a ser como integrar esses saberes e experiências aos processos educativos e científicos.
No Brasil, entretanto, esse debate ainda ocupa espaço reduzido na produção acadêmica. Pesquisadores apontam que são necessários mais estudos capazes de documentar experiências realizadas em escolas e espaços comunitários das periferias, além de desenvolver políticas públicas voltadas à democratização do acesso ao conhecimento científico.
Cursinhos populares: portas de entrada para a universidade
Entre as iniciativas mais consolidadas desse movimento estão os cursinhos populares. Criados para ampliar as oportunidades de estudantes de escolas públicas, esses espaços combinam preparação para vestibulares com formação cidadã e consciência coletiva.
Diferentemente dos cursinhos comerciais, as atividades costumam ocorrer em horários compatíveis com a rotina de jovens que estudam e trabalham. O ambiente privilegia a cooperação em vez da competição, fortalecendo a ideia de que o acesso à universidade é uma conquista coletiva e um direito social.

Figura 1. Cursinho Popular Professora Clarice. Divulgação.
Os resultados têm sido expressivos. Cursinhos populares vêm ampliando o número de estudantes aprovados em universidades públicas, como o CUJA (Unifesp), Cursinho da Poli, Cursinho da FEAUSP, Cursinho Popular Zilda Arns (Unicamp), Cursinho Popular Professora Clarice (Salvador – BA), Cursinho Popular Viva a Palavra (Fortaleza – CE) e o Articula Perifa (Unifesp – SP). Levantamento da Agência Mural com oito cursinhos populares de sete cidades da Grande São Paulo mostrou que centenas de alunos periféricos conseguem ingressar no ensino superior anualmente graças a esse suporte complementar (mais de 200 penas em 2024). Além deles, o Ministério da Educação (MEC) investe na Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), fornecendo suporte técnico e financeiro para mais de 1.200 iniciativas em todo o país.
Makerspaces: laboratórios para todos
Outro fenômeno em expansão é o surgimento de makerspaces comunitários e escolares. Inspirados pela cultura maker e pelo movimento hacker, esses espaços democratizam o acesso a ferramentas de programação, eletrônica, robótica e prototipagem.
“Quando a ciência conversa com o cotidiano, ela deixa de parecer distante e passa a funcionar como instrumento de leitura crítica e transformação da realidade.”
Em muitas escolas públicas e instituições técnicas, estudantes têm a oportunidade de construir projetos próprios, desenvolver soluções tecnológicas e experimentar processos de inovação que antes pareciam restritos a ambientes especializados. A proposta não é apenas ensinar tecnologia, mas estimular criatividade, autonomia e resolução de problemas. Projetos como o Maker Space IoT, desenvolvido em escolas públicas paulistas, mostram como essas iniciativas podem aproximar jovens das competências exigidas pela transformação digital. Ao permitir que estudantes criem, testem e compartilhem ideias, os makerspaces ajudam a formar uma geração mais preparada para participar ativamente da produção tecnológica.
Ciência cidadã e inovação comunitária
Se os makerspaces ampliam o acesso às tecnologias, os projetos de ciência cidadã ampliam a participação social na própria produção do conhecimento. Nessas iniciativas, moradores colaboram diretamente na coleta de dados, monitoramento ambiental e desenvolvimento de soluções para desafios locais.
Em diferentes regiões do país, comunidades participam de ações voltadas ao acompanhamento das condições climáticas, à observação da biodiversidade, ao monitoramento da qualidade da água e à identificação de riscos ambientais. Os dados gerados contribuem tanto para pesquisas acadêmicas quanto para decisões práticas dentro dos próprios territórios.

Figura 2. Instituto Decodifica. Divulgação.
Entre os exemplos brasileiros de ciência cidadã estão o Cemaden Educação (Ciência Cidadã na Escola), desenvolvido em escolas públicas de diferentes regiões do país, onde estudantes e professores utilizam pluviômetros artesanais para monitorar chuvas e riscos de desastres socioambientais. O CoastSnap NE, coordenado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), instala suportes para smartphones em praias do Nordeste, permitindo que moradores e turistas registrem imagens que auxiliam no monitoramento da erosão costeira e do acúmulo de resíduos. Já o projeto Pesquisa em Escolas Ribeirinhas (Rio Madeira), desenvolvido em Rondônia por instituições como a Ecoporé, transforma estudantes em pesquisadores da pesca artesanal, que coletam dados sobre peixes e acompanham os impactos ambientais na bacia do rio Madeira. O Instituto Decodifica, desdobramento do coletivo LabJaca, utiliza ciência de dados cidadã para mapear, nas favelas do Rio de Janeiro, os efeitos da falta de saneamento, da violência e das desigualdades climáticas sobre a saúde da população. Outro destaque é o Dados à Prova d’Água (Waterproofing Data), realizado em comunidades vulneráveis a alagamentos em São Paulo, onde moradores registram, por meio de um aplicativo e de pluviômetros artesanais, o volume de chuvas e os pontos de inundação, gerando alertas locais e fortalecendo a cobrança por ações do poder público.
Ciência, identidade e justiça social
Mais do que transmitir conteúdos, a educação científica nas periferias busca fortalecer identidades científicas. Isso significa criar condições para que estudantes e moradores se reconheçam como pessoas capazes de produzir conhecimento, formular perguntas e participar dos debates sobre o futuro de suas comunidades.
Essa perspectiva também exige considerar questões de gênero, raça, linguagem e multiculturalismo. Diversos estudos mostram que o interesse pela ciência está menos relacionado às características individuais dos estudantes e mais às oportunidades que encontram ao longo de suas trajetórias educacionais.
Por isso, pesquisadores defendem currículos mais conectados à realidade dos territórios, capazes de dialogar com as experiências dos alunos e valorizar suas formas de expressão. Quando a ciência conversa com o cotidiano, ela deixa de parecer distante e passa a funcionar como instrumento de leitura crítica e transformação da realidade.
A expansão da ciência produzida nas periferias revela que inovação não depende apenas de grandes investimentos ou infraestrutura sofisticada. Muitas vezes, ela nasce da capacidade de observar problemas concretos, mobilizar conhecimentos diversos e construir soluções coletivas.
Ao transformar escolas, centros comunitários e espaços culturais em ambientes de investigação, esses movimentos ampliam o acesso ao conhecimento e fortalecem a cidadania científica. Mais do que formar futuros pesquisadores, ajudam a construir comunidades capazes de compreender seus desafios e atuar sobre eles.


