Science Philanthropy: onde a filantropia e a ciência se encontram

Financiamento da pesquisa e desafios para a soberania nacional

Resumo

A redução do financiamento público à ciência no Brasil tem impulsionado o crescimento da filantropia científica como alternativa de apoio à pesquisa. Embora iniciativas privadas ampliem oportunidades de financiamento, sua atuação apresenta limitações estruturais relacionadas à concentração temática e regional, além da dependência de interesses externos. O artigo argumenta que a filantropia não substitui o papel estratégico do Estado na promoção da soberania científica e tecnológica.

Introdução

A construção da ciência moderna no Brasil, desde a segunda metade do século XX, consolidou um modelo em que o Estado assume o papel de “provedor quase-monopolista” do financiamento à pesquisa. Diferentemente de países como os Estados Unidos, onde a filantropia privada, por meio de fundações como Rockefeller, Ford e Carnegie, foi crucial para a institucionalização de disciplinas e universidades, o Brasil estruturou um sistema em que cientistas são majoritariamente servidores públicos, as universidades e centros de pesquisa são predominantemente autarquias federais ou estaduais e o fomento depende de repasses orçamentários dos governos federal e estaduais. [1] Esse arranjo alimentou por décadas o mito de que o Estado brasileiro poderia sustentar soberanamente a pesquisa de ponta.

Contudo, desde a década de 2010, especialmente entre 2020 e 2026, esse mito entrou em colapso diante da realidade fiscal. O que a literatura recente denomina “crise silenciosa da ciência brasileira” revela uma consequência ainda mais grave: o subfinanciamento público não é apenas um problema orçamentário, mas uma questão de segurança nacional. Em um mundo em que a competitividade geopolítica é definida pela capacidade de produzir semicondutores, algoritmos de Inteligência Artificial, novos fármacos e controlar cadeias de terras raras, um país que não financia sua própria produção de conhecimento torna-se refém de tecnologias estrangeiras. [2, 3]

A análise da Lei Orçamentária Anual de 2026 revela um quadro de severo comprometimento. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sofreu redução real significativa, com mais de 85% de seu orçamento comprometido com bolsas, restando pouca margem para projetos e infraestrutura.[4] Em comparação com 2025, o CNPq teve corte de 7,1%, com perda de R$ 132,6 milhões.[5] A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) apresentou redução de 7,2% em seu orçamento. [6] As unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Museu Goeldi e o Museu Nacional — operam com orçamentos que mal cobrem despesas básicas; em 2026, 15 das 17 unidades sofreram cortes em suas ações finalísticas. [7]

Esse cenário revela o que denominamos contradição central da política científica brasileira: enquanto o discurso oficial reconhece a ciência como pilar da soberania nacional, conforme o Plano Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, a alocação de recursos pelo Congresso Nacional prioriza emendas parlamentares, que atingiram R$ 61,4 bilhões em 2025, em detrimento do financiamento estrutural da pesquisa. [5]. Na prática, a ciência tornou-se uma “despesa discricionária” de baixa prioridade, sujeita a reduções anuais que inviabilizam o planejamento das instituições científico-tecnológicas.

Há, contudo, exceções importantes em nível subnacional. No Estado de São Paulo, observa-se crescimento sistemático dos investimentos: entre 2021 e 2026, os valores passaram de R$ 10,1 bilhões para R$ 19,1 bilhões. Suas universidades estaduais operam em regime de autonomia financeira, assumindo inclusive os gastos com pessoal, o que exige elevada disciplina de gestores e da comunidade acadêmica. Os recursos destinados à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) evoluíram de R$ 1,5 bilhão para R$ 2,4 bilhões no mesmo período.

Mantidas as promessas feitas publicamente, a reforma tributária preservará o modelo vigente, permitindo vislumbrar a continuidade dessa evolução dos aportes do Tesouro Estadual. Há, evidentemente, dependência do desempenho da economia, uma vez que os valores destinados às universidades estaduais e à FAPESP são calculados como fração da receita fiscal do Estado.

 

Science Philanthropy: solução ou paliativo?

Diante do esvaziamento dos cofres públicos, observa-se a emergência de uma nova geração de iniciativas filantrópicas voltadas à ciência no Brasil. O Instituto Serrapilheira é a primeira instituição privada de filantropia dedicada exclusivamente a essa causa. Criado em 2017 por Branca e João Moreira Salles, o Instituto atua como um vetor de fomento à pesquisa básica e de alto risco, financiando projetos científicos ousados, promovendo a divulgação científica e investindo na formação de novos talentos.


Figura 1. Instituições filantrópicas, como o Instituto Serrapilheira, têm contribuído para financiar pesquisas inovadoras e ampliar oportunidades para cientistas brasileiros, complementando o investimento público.
(Foto: Instituto Serrapilheira. Divulgação)

 

O “Ciência Pioneira”, instituído pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), com aporte de R$ 500 milhões ao longo de dez anos pela família Moll, assim como os Lemann Centers da Fundação Lemann, em parceria com universidades como Harvard, Stanford e Oxford, demonstram que o capital privado está ocupando espaços antes reservados ao Estado. [8, 9] O Instituto Embraer, por sua vez, financia o programa “Ciência Diversa”, direcionando recursos a organizações da sociedade civil para fomentar a vocação científica entre grupos subrepresentados. [10]

Historicamente, a filantropia internacional já desempenhou papel relevante no Brasil, como evidencia a atuação da Fundação Rockefeller nas décadas de 1910 e 1920, que contribuiu para o combate a epidemias e para a formação da primeira geração de médicos sanitaristas. [1]

No entanto, a filantropia não resolve — e pode até aprofundar — questões estruturais do processo de desenvolvimento da sociedade brasileira. Há três razões principais:

  • Primeiro, o foco em áreas de baixo risco geopolítico. A filantropia privada tende a financiar áreas com visibilidade social imediata, como saúde, educação básica, diversidade e ciência de dados aplicada, evitando projetos de alto custo e longo prazo em setores como semicondutores, metalurgia de terras raras, defesa ou energia nuclear. Essas áreas, essenciais para a soberania nacional, são justamente as que mais sofrem com a crise do Estado provedor.
  • Segundo, a concentração regional e temática. Os recursos filantrópicos costumam ser direcionados a instituições já consolidadas, localizadas majoritariamente nas regiões Sul e Sudeste. Na região Norte, tem aumentado o fluxo de recursos filantrópicos em razão das questões ambientais e da presença de recursos minerais estratégicos. Movimento semelhante ocorre na região Centro-Oeste. O mesmo, porém, ainda não se verifica no Nordeste, onde a aplicação de recursos filantrópicos permanece menos frequente.
  • Terceiro, o vínculo com interesses externos. Parcerias com fundações e universidades estrangeiras, embora relevantes e muitas vezes necessárias, podem perpetuar a dependência intelectual e tecnológica, pois a propriedade intelectual resultante frequentemente permanece com os parceiros internacionais ou é compartilhada de forma assimétrica. [11] O Brasil continua exportando cérebros e importando conhecimento.

Portanto, a Science Philanthropy, no contexto brasileiro, constitui um paliativo insuficiente para enfrentar a crise estrutural da dependência externa. Sem um Estado provedor forte, orientado por uma política de soberania tecnológica, o país continuará importando conhecimento, patentes e produtos em áreas críticas para a segurança nacional. Confiar na filantropia como solução significaria apenas substituir um mito por outro: o mito do salvador privado.

 

Os riscos geopolíticos da “ciência por omissão”

Em um cenário geopolítico marcado por guerras tecnológicas, como a que se configura entre os Estados Unidos e a China, podem ser severas as consequências para o Brasil de bloqueios comerciais, como sanções a semicondutores avançados, restrições à exportação de equipamentos de litografia e restrições a patentes de fármacos essenciais.

O pior dos mundos é a percepção de autonomia sem sua realidade. O Brasil assina tratados internacionais, participa de fóruns científicos importantes (como o G20 de pesquisa e inovação) e forma milhares de doutores anualmente em universidades públicas, mas o seu parque industrial e a sua capacidade de inovação continuam reféns de decisões tomadas em Washington, Beijing, Genebra ou Seul. Como alerta Castro (2025), [12] a dependência algorítmica na era da Inteligência Artificial pode se tornar uma nova forma de colonialismo digital, onde o Brasil não apenas importa tecnologia, mas também os vieses, valores e limitações embutidos nos sistemas desenvolvidos alhures.

É nesse contexto que devemos entender a importância da Science Philanthropy como um instrumento que tem o potencial de indicar novos rumos para o financiamento da ciência.

 

A ambiguidade fundadora

A expressão Science Philanthropy ainda não possui tradução consagrada no português brasileiro. As tentativas de verter o termo — como “filantropia científica”, “filantropia para a ciência” e “filantropia da ciência” — carregam nuances distintas e, em alguns casos, equívocos conceituais significativos. Mais do que um problema terminológico, essa dificuldade de tradução reflete uma ambiguidade constitutiva da própria expressão inglesa: Science pode ser lido como um adjetivo que qualifica a filantropia (indicando seu objeto ou beneficiário) ou como um substantivo que transforma a filantropia em objeto de estudo científico (indicando seu método ou fundamentação epistemológica).

Primeira leitura: Science como adjetivo. Science Philanthropy designa a filantropia cujo objeto, finalidade ou beneficiário final é a atividade científica, entendida como a produção de novos conhecimentos por meio de métodos sistemáticos e verificáveis. Esse entendimento pode ser ilustrado por três casos amplamente reconhecidos na literatura: o Howard Hughes Medical Institute, o Wellcome Trust e a Chan Zuckerberg Initiative. [13, 14, 15]

Segunda leitura: Science como substantivo. Se a primeira leitura é relativamente recente, cristalizada apenas no final do século XX, a segunda possui raízes históricas mais profundas. No final do século XIX, emergiu nos Estados Unidos e na Inglaterra um movimento conhecido como Scientific Charity (caridade científica), que propunha substituir a esmola assistemática, emocional e frequentemente contraproducente por uma abordagem sistemática, investigativa e baseada em evidências. [17] A lógica subjacente é que a filantropia não constitui apenas um ato de generosidade, mas uma prática que pode — e deve — ser estudada, avaliada e aperfeiçoada à luz de evidências científicas.

 

“Devemos entender a importância da Science Philanthropy como um instrumento que tem o potencial de indicar novos rumos para o financiamento da ciência.”

 

A filantropia como ciência reemergiu no início do século XXI sob diferentes denominações, mas com um núcleo comum: a aplicação de métodos científicos à prática filantrópica, como ensaios randomizados, análise de dados e testes de causalidade. O termo Evidence-Based Philanthropy foi popularizado por Paul Brest e Hal Harvey no livro “The Power of Persuasion” (2008). [16] A tese central sustenta que os filantropos deveriam adotar os mesmos padrões de evidência exigidos em outras áreas científicas: formular hipóteses claras sobre como a intervenção produzirá o efeito desejado (teoria da mudança), coletar dados de linha de base e de acompanhamento, utilizar grupos de controle sempre que possível e submeter os resultados à revisão por pares.

Diante dessa dupla possibilidade interpretativa, adotamos neste artigo a primeira leitura, segundo a qual Science Philanthropy corresponde à filantropia para a ciência, acompanhando o entendimento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

A organização que talvez tenha realizado o maior esforço de definição nesse campo é a Science Philanthropy Alliance (SPA), sediada nos Estados Unidos e fundada em 2012, que reúne atualmente mais de 50 fundações financiadoras da ciência. Em seu documento de posicionamento público, a SPA define:

“Science Philanthropy is philanthropic funding directed specifically to basic and applied scientific research, typically through endowed foundations that provide long-term, flexible support to researchers and institutions. Unlike government funding, which is subject to annual appropriations and political cycles, science philanthropy is characterized by patient capital, tolerance for risk, and the ability to sustain research programs over decades.” [18]

 

Science Philanthropy no Brasil

No Brasil, diferentemente dos Estados Unidos e do Reino Unido, ainda não existe uma tradição consolidada de filantropia voltada à pesquisa científica. O que existe são algumas iniciativas isoladas: programas da Fundação Estudar direcionados a jovens pesquisadores em determinadas áreas e doações eventuais de empresários a universidades públicas, geralmente destinadas à construção de prédios ou à aquisição de equipamentos, e menos ao financiamento direto da pesquisa. A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que atua na primeira infância, financia pesquisas nessa área, mas sua missão é mais ampla, voltada às políticas públicas para a infância, não se enquadrando exclusivamente na Science Philanthropy, no sentido adotado neste artigo. O mesmo pode ser dito da Fundação Lemann, que financia pesquisas em educação, mas cujo objetivo final é a melhoria do ensino, e não a produção de conhecimento científico como fim em si mesma.

O Instituto Serrapilheira, citado anteriormente, oferece hoje o laboratório mais avançado de Science Philanthropy no país. Em seus primeiros anos, o Instituto constatou que a simples disponibilidade de recursos não gera demanda automaticamente: foi necessário um trabalho sistemático de sensibilização da comunidade científica brasileira para o conceito de filantropia para a ciência, que inicialmente causou estranhamento entre universidades e pesquisadores acostumados ao financiamento público. Essa experiência reforça que a construção de uma cultura de filantropia para a ciência é tão importante quanto a própria alocação de recursos.

O que o Brasil precisa, neste momento, é de clareza quanto ao primeiro passo: estimular que recursos privados sejam direcionados à pesquisa científica por meio de instrumentos financeiros adequados, especialmente os fundos patrimoniais (endowments).

 

O problema da educação científica dos doadores

Reconhecer a ausência de uma tradição consolidada de Science Philanthropy no Brasil é apenas o primeiro passo. Um segundo obstáculo, menos visível, mas igualmente estruturante, diz respeito ao perfil educacional dos filantropos brasileiros.

Diferentemente dos Estados Unidos e do Reino Unido, onde grandes doadores para a ciência — como Howard Hughes, Sir Henry Wellcome, Gordon Moore, James Simons ou, mais recentemente, Mark Zuckerberg e Priscilla Chan — frequentemente possuíam formação científica ou atuação profissional ligada à pesquisa, no Brasil a riqueza privada concentra-se majoritariamente em setores como agronegócio, construção civil, finanças, varejo e indústria extrativa. Trata-se, em sua maioria, de empresários bem-sucedidos, mas com pouca experiência direta com o método científico, a dinâmica dos laboratórios ou a lógica da produção de conhecimento de longo prazo.

Essa assimetria não constitui uma crítica, mas uma constatação sociológica. Ninguém pode ser responsabilizado por não ter tido acesso à educação científica em um país que historicamente subfinancia a ciência básica. Ainda assim, produz consequências para o desenvolvimento da Science Philanthropy no Brasil.

 

“A construção de uma cultura de filantropia para a ciência é tão importante quanto a própria alocação de recursos.”

 

Em primeiro lugar, a dificuldade de compreender o retorno intangível da ciência. Empresários acostumados a avaliar investimentos pelo retorno sobre investimento (ROI) em prazos de 12 a 36 meses estranham o fato de que a pesquisa científica básica pode levar décadas para gerar resultados aplicados — quando os gera. A pergunta “o que ganho com isso?” é legítima no mundo dos negócios, mas não encontra resposta imediata no universo da ciência fundamental.

Em segundo lugar, a preferência por resultados visíveis e de curto prazo. Um empresário que financia a construção de um prédio universitário pode ver sua doação materializada em tijolos, concreto e uma placa com seu nome. Já aquele que financia bolsas para doutorandos em matemática pura ou paleontologia dificilmente terá a mesma satisfação imediata. A filantropia para a ciência exige abstração e paciência pouco comuns a quem construiu fortuna em setores de retorno rápido.

Em terceiro lugar, o risco de direcionamento utilitarista da pesquisa. Diante da dificuldade de avaliar o mérito científico intrínseco, o filantropo sem formação científica tende a financiar apenas aquilo que parece “útil” em sentido imediato, produzindo uma distorção semelhante à observada por vezes nas agências públicas de fomento, mas agora orientada por critérios privados e idiossincráticos. Em casos extremos, o doador pode tentar influenciar os resultados da pesquisa ou exigir aplicações práticas que comprometam a liberdade de investigação — um dos pilares da Science Philanthropy bem concebida.

Diante desse diagnóstico, emergem duas necessidades.

A primeira é a educação científica de filantropos e de suas equipes. Iniciativas como visitas guiadas a laboratórios, programas de imersão em universidades, seminários sobre método científico e painéis com pesquisadores podem reduzir a assimetria cognitiva entre doadores e cientistas. Nos Estados Unidos, a Science Philanthropy Alliance oferece esse tipo de “educação científica” a potenciais doadores. No Brasil, esse papel ainda é incipiente, mas poderia ser exercido por associações científicas, como a própria SBPC, academias de ciência e instituições de pesquisa.

 

“Cientistas e filantropos atuando em parceria não apenas para financiar descobertas, mas para construir o amanhã.”

 

A segunda é a criação de estruturas de intermediação qualificada. Doadores sem formação científica não precisam — nem devem — decidir sozinhos o que financiar. Conselhos científicos independentes, comitês de assessoramento ad hoc e processos de avaliação por pares são mecanismos que protegem a ciência da ignorância bem-intencionada do doador. O Instituto Serrapilheira adota esse modelo: a curadoria científica é realizada por pesquisadores experientes, sem interferência dos doadores nas decisões de alocação de recursos.

Em síntese, ampliar a base de filantropos para a ciência no Brasil não é apenas uma questão de convencimento moral ou de incentivos fiscais. É, antes de tudo, uma questão de educação científica e de desenho institucional. Sem esses elementos, o risco é que a filantropia reproduza, no setor privado, vícios que por vezes afetam o financiamento público: curto-prazismo, utilitarismo superficial e interferência externa no mérito científico. Em paralelo, é necessário educar também os cientistas para compreenderem o ecossistema da filantropia, seus objetivos, práticas e impactos sobre a ciência.


Figura 2. O financiamento contínuo da pesquisa fortalece a inovação, a soberania científica e a capacidade de enfrentar desafios sociais, econômicos e ambientais.
(Foto: Cecília Bastos/USP Imagens)

 

No apoio ao desenvolvimento científico, os filantropos devem atuar em complementaridade ao Estado, e não como substitutos dele, garantindo aos cientistas liberdade de investigação, acompanhada de mecanismos de prestação de contas (accountability) sobre o uso dos recursos, mas não sobre os resultados científicos, que são inerentemente incertos.

Acreditamos que estamos vivendo um momento de avanços estruturais para a Science Philanthropy no Brasil. Não se trata mais de iniciativas isoladas, mas de um ecossistema em franca consolidação. A presença de organizações como o Instituto Serrapilheira e o IDOR, que já atuam na fronteira entre financiamento e prática científica, demonstra a maturidade do setor. Paralelamente, o surgimento de fundações de segunda ordem, como a Fundação José Luiz Setúbal (FJLS), ao fomentar pesquisas sobre a filantropia por meio da iniciativa GEMA Filantropia do IEA-USP, revela um olhar estratégico e autorreflexivo, essencial para a perenidade do campo.

Por fim, o engajamento de instituições como a SBPC e a FAPESP sinaliza que a Science Philanthropy poderá deixar de ser um nicho para se tornar um componente permanente do sistema de fomento à pesquisa. O futuro que vislumbramos é colaborativo: cientistas e filantropos atuando em parceria não apenas para financiar descobertas, mas para construir o amanhã.

 

Capa. A filantropia científica tem ampliado o apoio à pesquisa no Brasil, mas o fortalecimento da ciência continua dependendo de investimentos públicos consistentes e de longo prazo.
(Foto: Magnific. Reprodução)
Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
[1] HOCHMAN, G. A era do saneamento: as bases da política de saúde pública no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2004.
[2] CIMINO-ISAACS, C.; SCHOTT, J. J. U.S.-China technology decoupling: implications for global innovation. Washington, D.C.: Peterson Institute for International Economics, 2021. (Policy Brief n. 21-12)
[3] MANCHERI, N. A. et al. Rare earths and the geopolitics of the energy transition. Resources Policy, v. 62, p. 463-474, 2019.
[4] SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência); ABC (Academia Brasileira de Ciências). Orçamento do CNPq 2026: análise e recomendações. Brasília: SBPC/ABC, 2025a.
[5] CONFAP (Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa). Análise do orçamento do CNPq e CAPES para 2025-2026. Brasília: CONFAP, 2025.
[6] SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência); ABC (Academia Brasileira de Ciências). Orçamento da CAPES 2026: riscos para a pós-graduação brasileira. Brasília: SBPC/ABC, 2025b.
[7] BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos). Orçamento da ciência 2026: análise das unidades de pesquisa do MCTI. São Paulo: BPBES, 2026.
[8] CIÊNCIA PIONEIRA. Relatório de atividades 2025. Rio de Janeiro: IDOR/Ciência Pioneira, 2025.
[9] FUNDAÇÃO LEMANN. Lemann Centers: relatório anual 2025. São Paulo: Fundação Lemann, 2025.
[10] INSTITUTO EMBRAER. Programa Ciência Diversa: relatório de impacto 2024. São José dos Campos: Instituto Embraer, 2024.
[11] LOURO, F. Propriedade intelectual e dependência tecnológica: os desafios da filantropia científica no Brasil. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, v. 41, n. 2, p. 87-105, 2024.
[12] CASTRO, L. Dependência algorítmica: o colonialismo digital na era da IA. Revista Brasileira de Inovação, Campinas, v. 24, n. 1, p. 1-25, 2025.
[13] ZUNZ, O. Philanthropy in America: a history. Princeton: Princeton University Press, 2012.
[14] FLEISHMAN, J. L. The foundation: a great American secret. New York: PublicAffairs, 2009.
[15] REICH, R.; WIMER, C. Philanthropy and the social sciences: an uneasy relationship. In: JUILLERAT, T.; DARVARDI, P. (Ed.). Philanthropy and the social sciences. Stanford: Stanford University Press, 2012. p. 17-38.
[16] BREST, P.; HARVEY, H. The power of persuasion: how we’re bought and sold. Hoboken: Wiley, 2008.
[17] BREMNER, R. H. American philanthropy. 2nd ed. Chicago: University of Chicago Press, 1988.
[18] SCIENCE PHILANTHROPY ALLIANCE. What is science philanthropy? 2023. Disponível em: https://www.sciencephilanthropyalliance.org/what-is-science-philanthropy. Acesso em: 17 abr. 2026.
Marcos Kisil é professor titular sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, além de fundador e membro do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e ex- diretor da Fundação W.K. Kellogg para América Latina e Caribe.
Guilherme Ary Plonski é professor titular sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (Departamento de Administração) e do Instituto de Estudos Avançados da USP, além de ex-diretor superintendente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT).

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